O Filme É | Carros 3

CARROS 3 (Cars 3. 2017. Direção: Brian Fee. Roteiro: Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich. Elenco original: Owen Wilson, Larry The Cable Guy, Bonnie Hunt, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Armie Hammer.)

Franquias cinematográficas, quando começam a tornar-se extensas, se deparam com a difícil tarefa de se manterem inovadoras e dinâmicas.

Carros 3Após muito tempo de existência, conseguir manter a irreverência e prender a atenção do público, pode ser um bicho de sete cabeças.

Se isso parecer um déjà vu, não estranhem: eu já falei isso outra vez, sobre o filme Meu Malvado Favorito 3, num outro texto bem recente – que vocês podem conferir AQUI.

Mas por que repetir isso?

Coincidentemente, no mesmo período, outra franquia – também de animação – chegou longe, com seu terceiro filme: Carros 3, o mais novo filho da bem-sucedida e multimilionária associação entre Disney e Pixar no ramo das animações. Mas, diferentemente da franquia do Meu Malvado Favorito, o buraco de Carros é um pouco mais fundo.

O primeiro filme da franquia, Carros, lançado em 2006, foi recebido com críticas excelentes, e garantiu duas indicações ao Oscar no ano seguinte – incluindo Melhor Animação.

Por sua vez, a sua sequência de 2011, Carros 2, foi detonada por todos, sendo considerado o pior filme da Pixar – além disso, é o primeiro filme da empresa a não receber nenhuma indicação ao Oscar, e é o primeiro filme da companhia a não ser indicado a Melhor Animação desde a criação da categoria.

O desafio em Carros 3 parecia intenso: esquecer o fracasso do antecessor e recuperar a glória do filme original eram os objetivos da Pixar a todo momento. Brian Fee, em seu primeiro filme como diretor, junto aos roteiristas Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich, foram os responsáveis por concretizar isso.

E a fórmula do sucesso parecia óbvia a todo momento: assim como Toy Story 3, também da Pixar, trabalha metáforas de esquecimento, abandono e até morte, o novíssimo Carros 3 foca o tempo todo sobre o envelhecimento e a hora de parar, no jeito Pixar mais emocionante possível.

Em Carros 3, o lendário Relâmpago McQueen e os corredores de sua geração são surpreendidos por Jackson Storm, um novo carro de corrida que faz parte da nova geração de carros corredores, construídos e preparados sob um novo padrão tecnológico de treinamento e simulação de corrida – o que, obviamente, os torna mais rápidos que os carros da geração anterior.

Agora, vendo todos os carros da sua geração serem forçados à aposentadoria e substituídos por esses novos carros, e após um acidente terrível que o coloca para fora das pistas por meses, McQueen deve lutar contra a maré, reencontrar suas forças e motivações, e com a ajuda da treinadora Cruz Ramires, voltar a ser o lendário carro de corrida que era, e ganhar o direito de decidir quando parar.

Desde os trailers, Carros 3 já vem sendo emocionante. A cena do acidente de Relâmpago McQueen é brutal e chocante como o trailer mostrou. Mas, felizmente, o filme não se atém ao acidente, nem mostra um McQueen debilitado: na verdade, é uma ponte para iniciar a verdadeira jornada de Relâmpago, mostrando sua caminhada de volta ao topo, se recuperando do baque.

Carros 3Uma das tarefas de Carros 3 é cumprida primordialmente no filme, desde a primeira cena: o antecessor sequer é mencionado neste terceiro capítulo. Brian Fee e os roteiristas esquecem que Carros 2 existiu – e garantem que seus personagens também esqueçam, pois nenhum deles fala sobre o Grand Prix, Miles Axelrod, Allinol e a aventura de espionagem de Mate com Finn McMíssil, todos temas do segundo capítulo da franquia.

Falando em Mate: nesse filme, o melhor amigo do Relâmpago serve mais como um nobre conselheiro e motivador do protagonista sempre que necessário, fazendo uma participação bem mais discreta em Carros 3 do que nos antecessores – no Carros original, ele foi a sensação e a surpresa do filme, enquanto em Carros 2, ele foi o protagonista da história. Mas não se enganem: o personagem não perdeu a via cômica dele, e continua sendo um dos personagens mais cativantes que a Pixar já criou.

A verdadeira surpresa é a nova personagem Cruz Ramirez, a treinadora de McQueen na sua missão em busca de voltar ao jogo. Cruz assume a posição de protagonismo junto com McQueen, tentando ajudar o carro de corrida a se tornar mais rápido do que Storm e a nova geração de corredores. Cruz acaba roubando a cena várias vezes, se tornando o verdadeiro destaque de Carros 3, sendo uma peça fundamental no resgate da franquia às raízes.

Mas o que funciona de verdade em Carros 3 – e que torna o filme mais próximo ao Carros original – é ver o Relâmpago, mais uma vez, lutar contra si mesmo. Talvez, até mais do que no filme original. Carros 3 mostra em McQueen a dor que vários esportistas, na vida, real,

eventualmente enfrentam: o envelhecimento, que chega para todos, e a pressão do meio esportivo de que, “já que está velho, chegou a hora de parar”. McQueen representa, em Carros 3, todos os esportistas velhos que foram forçados a parar pela idade, e todos aqueles que lutam para não parar e abandonar sua paixão.

Se olharmos bem, podemos até ver um pouco de Rocky III: O Desafio Supremo nesse filme: o campeão abatido por um lutador mais jovem, pensa que já chegou a sua hora, mas volta a treinar para recuperar a glória e mostrar que seu tempo ainda não acabou. Não me surpreenderia se Rocky III fosse a principal inspiração de Carros 3.

Jackson Storm, vendido como o antagonista do filme, nem é a maior ameaça de Carros 3 – na verdade, ele serve como impulso para o Relâmpago, e até Cruz, se superarem mais do que eles mesmos cada vez mais – servindo de “vilão” mesmo em cenas bem espaçadas, como Chick Hicks no primeiro filme da franquia – mais uma vez, semelhante ao Carros original.

A maior referência que Carros 3 faz, nessa incessante aula, é ao mentor e ídolo de McQueen: o maior corredor de todos os tempos, Doc Hudson – ou o fabuloso Hudson Hornet. Seu dublador, Paul Newman, morreu antes de Carros 2 sequer ser lançado. Por isso, desde o segundo filme da franquia, Hudson Hornet é dado como morto. Mas só em Carros 3, é explorada ainda mais a relação entre o Relâmpago e Hudson Hornet, entre os eventos de Carros e Carros 2, além da luta de McQueen para superar a partida do seu mentor, e tentar reencontrar o caminho da vitória sem seu guia.

Novos personagens, como Smokey, mentor e amigo de Hudson Hornet, são introduzidos no filme para que Relâmpago reencontre a si mesmo e se recupere como a lenda que de fato é. Mas, mais uma vez, Hudson Hornet guia McQueen, mesmo morto, e leva ele, Cruz e os espectadores a uma conclusão surpreendente e épica – que nem no Carros original.

Ao final, Relâmpago se torna a própria imagem da luta de todos contra a ideia de que a velhice é sinônimo do fim. Ser velho não significa estar morto. A mente ainda vive, a vontade ainda existe, e enquanto isso estiver de pé, não devemos desistir jamais. E isso é lindo demais de assistir.

Parece que Brian Fee e o time de roteiristas eram as pessoas certas para salvar a franquia de Carros e recuperar a grande glória da série animada. O segredo estava aí o tempo todo: apostar na nostalgia e nos fazer sentirmos que estamos vendo o primeiro Carros mais uma vez. E pra nós, que vimos o original em 2006, ainda crianças, e estamos vendo o terceiro agora, 10 anos depois, já adolescentes ou adultos, é um

golpe baixo. Mais uma vez, saí cheio de emoção da sala de cinema, feito uma criança.

Relâmpago McQueen é lendário. Ele decide a hora de parar. E, por favor, assim como os que se inspiram nessa luta, não pare nunca. #EleEhOCara.

P.S.: A trilha sonora da franquia continua genial. Em Carros 3, somos embalados por vozes como Dan Auerbach – vocalista do The Black Keys –, James Bay, Brad Paisley, Andra Day, ZZ Ward, Gary Clark, Jr., Jorge Blanco, e Lea DeLaria – da série Orange Is The New Black –, os quais tornam a jornada de Relâmpago McQueen ainda mais emocionante.

Carros 3 | Trailers

Carros 3 – Teaser Trailer

Carros 3 – Trailer Dublado – 13 de Julho nos cinemas

Carros 3 – Trailer Oficial Dublado – 13 de Julho nos Cinemas

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