O Livro É | Morte Lenta, de Matthew FitzSimmons

Anote dois nomes aí na sua agenda: Matthew FitzSimmons e Gibson Vaughn, o primeiro é o autor que criou o segundo para ser protagonista de seu livro de estreia intitulado Morte Lenta, um thriller de ação e investigação envolvente, dinâmico que flerta com diversos outros gêneros da literatura de ação.

Durante a leitura de Morte Lenta (The Short Drop no original) não foram poucas as ocasiões que me remeteram a nomes como Tom Clancy, Michael Chrichton, John Le Carré e Robin Cook no que tange aos métodos de construção de uma narrativa ágil, dinâmica, com muitos focos, tramas e conspirações ocultas sendo desveladas ao leitor ao mesmo tempo que revelações de impacto vão ocorrendo junto com ação, tiroteios e traições.

Diferentemente de seus precursores e outros autores de thrillers investigativos-conspirativos, o que não significa que sua narrativa seja menos lenta, é que FitzSimmons dá bastante espaço para o drama pessoal de seus personagens.

Aqui há sentimento e emoção, bem como personagens falhos no amplo sentido: seu protagonista, o harcker e ex-mariner Gibson Vaughn não é, por exemplo, um infalível agente secreto capaz de derrotar um exército utilizando apenas uma pistola com pente de 12 balas.

Muito pelo contrário, Gibson Vaughn não é nem um pouco romantizado, nem suas ações o são, inclusive é bem divertido você notar que o próprio personagem coloca na baila para o leitor essa questão quando, em pensamentos, faz um paralelo entre hackear um computador em dada situação em sua aventura com hackear um computador de segurança máxima em fração de segundos em algum filme blockbuster.

Horas de programação e linhas e linhas de códigos depois é que algum resultado é obtido, ainda assim com inúmeras variáveis no caminho dos personagens que ao longo de Morte Lenta se ferram de várias maneiras possíveis antes de um resultado realmente conclusivo.

Acredito inclusive que esse aspecto humano de Morte Lenta seja um de seus melhores pontos, a relação do que temos no mundo real com o que a obra nos propõe é muito bem construída. Você vê e sente a construção dos personagens ocorrer em conjunto com a evolução da narrativa, seja no processo da memória dos personagens ou em suas atitudes e julgamentos que a história contada no livro lhes impõe.

Morte Lenta | Um mistério de uma década

Suzanne Lombard desapareceu quando tinha 14 anos. Fugiu de casa sem deixar rastros e todos ao longa desses torturantes 10 anos achavam que a garota havia sido sequestrada por um pedófilo e o pior havia acontecido. Alguns poucos sempre nutriram a perspectiva de que Suzanne estaria bem em algum lugar, vivendo feliz e oculta do mundo por motivos que só ela mesma poderia esclarecer.

Suzanne era filha do então senador Benjamim “Ben” Lombard, proeminente político de carreira impecável, atualmente concorrendo nas preliminares de seu partido para ter a chance de se lançar candidato à presidência dos EUA. Poderoso desde seus tempos de senado, Lombard tinha em seu braço direito, Duck Vaughn, pai de Gibson, seu melhor, mais astuto e perspicaz articulador.

Por estar sempre mergulhado no trabalho ao lado de Lombard, Duck Vaughn criou seu filho viajando de lugar para lugar ao lado da comitiva e da família do então senador. Gibson e Suzanne cresceram como irmãos com uma diferença de 4 anos entre eles, com direito a tudo que há de diferente entre um irmão mais velho e sua irmãzinha que o idolatrava.

As memórias de Gibson de sua pequena Ursa, apelido carinho dado a Suazanne por seus abraços apertados e carinhosos, são inúmeras, mas uma delas se cristaliza na memória do hacker: a leitura do emblemático A Sociedade do Anel no Natal de um ano já distante, quando ele tinha onze anos e ela sete.

Mas o destino tratou de levar Suazanne e de destruir a família Vaughn de várias maneiras, todas elas extremamente cruéis.

Por diversos motivos Gibson Vaughn, que atende pelo nickname de BrnChr0me no submundo hacker, decidiu por bem desmascarar Ben Lombard, envolvido até o último fio de cabelo com falcatruas, corrupção, desvios de verbas etc… e Gibson conseguiu, aos 16 anos de idade quase, apenas quase, derrubar o poderoso senador que tinha pela frente um futuro maravilhoso.

Os documentos expostos por Gibson foram mais tarde vasculhados, rastreados e o caminho que eles deixaram levava até seu próprio pai: Duck Vaughn, braço direito e amigo fiel de Ben Lombard.

Nessa ocasião Suazanne ainda estava em casa, seria só mais tarde, quando Gibson já estaria longe que a garota desapareceria, mas antes disso seu pai Duck cometeu suicídio por enforcamento no porão de casa. Gibson foi a julgamento, Lombard não o pouparia de nada. Mas uma opção foi dada ao jovem rebelde: um presídio federal ou se alistar e servir nas forças armadas. Um gole de coca-cola depois a resposta não pôde ser outra: corpo de fuzileiros.

E 10 anos depois Gibson observa o último registro de Suzanne na ocasião de seu desaparecimento. Um vídeo de segurança de um mercadinho de beira de estrada onde a garoto de quatorze anos olha para a câmera utilizando um boné de beisebol, uma mochila da Hello Kitty e desaparece novamente para jamais ser vista outra vez por parentes e amigos.

O chamado vem por uma foto

10 anos depois do mistério que parou o país, uma foto de Suzanne é enviada para George Abe que, no passado, fora por anos chefe de segurança da família Lombard  e atualmente no comando da Abe Consulting, uma empresa privada da área de segurança, a foto  caiu como uma bomba sobre George e toda sua equipe. Não tardou para que Gibson fosse procurado e sua ajuda solicitada, afinal de contas, se havia alguém que conhecia e se importava com Suzanne esse alguém seria Gibson…

Oras, por que não consultar a família de Suzanne então? George Abe e Ben Lombard encerraram sua parceria em termos nada amigáveis e, apesar de Abe ser um dos responsáveis pela prisão de Gibson e da desgraça de seu pai na investigação sobre fraude contra Lombard, ninguém em parte alguma seria mais interessado e empenhado do que Gibson para solucionar o mistério que rondava aquela nova pista de tantos anos atrás. Nascia uma aliança improvável para trazer à tona o destino final de Suzanne Lombard.

BrnChr0me VS WR8TH

Nas instalações da Abe Consulting tem início a caçada frenética para descobrir a origem da foto e sua veracidade. Ao lado dos profissionais da empresa de George Abe, Gibson Vaughan inicia uma busca por pistas, soluções e ferramentas para sua caçada. A primeira coisa que descobre é que há um vírus embutido na fotografia que, a pesar dos pesares, se mostra perfeitamente autêntica.

O remetente da fotografia se autodenomina WR8TH, um contato com quem Suzanne havia trocado mensagens virtuais pelo programa IRC pouco antes de desaparecer. Até onde se sabia WR8TH conseguiu sair de tudo invisível, até mesmo do FBI, mas por um motivo extremamente obscuro o igualmente obscuro personagem entra em cena 10 anos depois para atormentar os que eram ligados à Suzanne. Sobretudo o lendário hacker BrnChrome*.

Monitorando o fluxo de dados que escapava dos computadores da Abe Consulting, Gibson ao lado de Jenn Charles e Dan Hendricks, dois dos agentes de maior confiança de George em sua empresa, partem para rastrear a possível localização de WR8TH na pequena cidade de Somerset, onde uma verdadeira caçada estilo gato-e-rato tem início.

Invasões de computador, câmeras de vigilância, monitoramentos remotos e a invasão da biblioteca pública da cidade levam o trio de caçadores até um suspeito, a princípio, tem tudo para ser o real culpado, mas as aparências enganam, elas e o modus operandi do suspeito deixam tudo mais obscuro.

*BrnChrome, nickname utilizado por Gibson Vaughan é uma referência à história curta chamada Burning Chrome do escritor William Gibson, um dos criadores do subgênero de Ficção Científica oitentista Cyberpunk. Publicado na revista de Sci-Fi Omni em 1982, é em Burning Chrome que o termo cyberpunk é cunhado pela primeira vez. Seria também o nome do personagem Gibson Vaugham uma referência ao próprio William Gibson?

Faro Editorial

Porém Gibson Vaughan e seus dois parceiros da Abe Consulting não estão caçando sozinhos… Ben Lombard monitorou de perto as ações de seu ex-empregado e não tardou para que o candidato tomasse providências para que essa estranha e improvável aliança em George Abe e o filho de Duck Vaughan não dê frutos. Seus motivos? Os mais ocultos possível.

Nessa hora o autor sabe bem como prender nossa atenção em sua narrativa. O termo caçada não poderia ser mais adequado e é deste ponto em diante que o ritmo da obra engrena em marcha aceleradíssima. Se o grande número de informações da introdução da trama ainda não havia parecido grande o suficiente para você, quando a busca por WR8TH começa muito mais dados são informados e adicionados no já complexo quadro em torno do desaparecimento de Suzanne; como, por exemplo, o papel de Calista Duplaise, a fada madrinha que alinhavou por anos a carreira política de Ben Lombard que, em forma de agradecimento, convidou a socialite para ser madrinha de Suazanne. Estranhamente a Sra. Duplaise é a grande financiadora da Abe Consulting…

Se por algum motivo o leitor ainda não havia sido fisgado pela agilidade da obra e por seus personagens interessantes, a dinâmica dos acontecimentos nos guiam rápido para uma atmosfera tensa e complexa num ótimo jogo mostra-esconde em que ao mesmo tempo em que algo nos é revelado, outra peça se soma ao quebra-cabeças e seguimos ao lado dos personagens num ritmo que alterna bem entre o frenético e o descritivo com excelente desenvolvimento de personagens e motivações.

Com uma escrita limpa e objetiva, FitzSimmons dispensa firulas na construção de seus tempos, o que precisa ser lembrado do passado é rememorado pelos personagens, o que precisa ser dito é dito e o que precisa ser mostrado é mostrado, claro, o autor é muito bom em deixar ganchos ao final de cada capítulo para nos fisgar e manter dentro da narrativa.

Matthew FitzSimmons

Morte Lenta é uma narrativa bastante imersiva e divertida, dessas que não pretende ser a reinvenção da roda literária, mas sim ser isso que é: um livro instigante, com ação, bons personagens e claro, divertido por tudo isso. Mas não posso deixar de frisar que mesmo sendo, digamos assim, uma obra pop – hackers, sequestros, políticos, conspirações, internet – Morte Lenta é uma obra que tem sensibilidade, que te pega também pela emoção e não só pela ação.

Não são poucas as passagens nas quais é comum criarmos grande empatia por Gibson e sua relação com Suzanne. E como é fácil pensarmos em Suzanne e em seu drama oculto e seu destino desconhecido. É dela que mais a obra extrai forças; por ser uma presença-ausente, Suzanne Lombard e seus anseios, suas dúvidas, seu amor por Gibson, seus segredos que a conhecemos a cada capítulo.

O recurso de ter na obra uma personagem que não vivencia a narrativa é um ponto extremamente positivo de Morte Lenta, pois conhecemos Suzanne pelo que os outros personagens falam e pensam dela, nunca por seus atos diretamente. Você sabe como ela é, você sabe do que ela gosta, você sabe do que ela tem medo, quem ama e odeia, mas você jamais sabe isso por ela e sim pelas impressões daqueles que tiveram sua vida tocada pela personagem…

E isso tem seu Quê de beleza e de crueldade em várias medidas. É pouco provável que ao iniciar sua leitura de Morte Lenta você não mergulhe de cabeça nessa história que dosa com facilidade uma boa narrativa e bons personagens.

Mesclando bem elementos de drama, ação e doses de um humor negro meio perturbador em alguns casos, Matthew FitzSimmons provavelmente escreveu essa obra também com seus olhinhos voltados para o mercado cinematográfico, já que Morte Lenta tem tudo que um bom thriller investigativo de ação tem na forma de filme. Não me surpreenderia com um anúncio vindouro. Até torço…

Com saldo positivíssimo, Morte Lenta engrossa a fileira dos livros ágeis, divertidos, com um mistério a ser desvendado, uma corrida contra o tempo, boa ação e minúcias narrativas que o leitor só vai conhecer ali mesmo diretamente na leitura, até porque corro sério risco de estragar algumas dessas ótimas surpresas da obra se ficar falando demais sobre certos detalhes e personagens.

Vale a pena com margem de sobra para quem quer mergulhar numa trama contemporânea e que dialoga com o nosso tempo facilmente.

Morte Lenta | Informações

Dez anos atrás, Suzanne, uma garota de 14 anos, simplesmente desapareceu sem deixar qualquer vestígio. Filha do então senador Benjamin Lombard, agora poderoso vice-presidente dos EUA, o caso continua sem solução e se transformou numa obsessão nacional.

Para Gibson Vaughn, renomado hacker e mariner, trata-se de uma perda pessoal. Suzanne era como uma irmã para ele. No décimo aniversário do desaparecimento da garota, o ex-chefe de segurança de Benjamin Lombard pede a ajuda de Gibson para realizar uma investigação secreta e entrega a ele novas pistas.

Assombrado por memórias trágicas daqueles dias, Gibson acredita ter agora a chance de descobrir o que realmente aconteceu. Utilizando as suas habilidades, já em suas primeiras pesquisas descobre uma rede de múltiplas conspirações em torno da família Lombard e se depara com adversários poderosos – e perigosos – que farão qualquer coisa para silenciá-lo. Ao mexer no vespeiro, novas informações e personagens vêm à tona, a identidade de Gibson é revelada, tornando-o igualmente vulnerável.

E enquanto navega por essa teia perigosa de fatos, ele precisa estar sempre um passo à frente se quiser descobrir a verdade… e se manter vivo.

“FitzSimmons criou um sociopata excepcional.”

— THE WASHINGTON POST

“Esta explosiva obra de estreia começa com uma promissora pista relacionada ao desaparecimento da filha do vice-presidente, e se intensifica com conspirações sinistras, políticos corruptos e um hacker que caiu em desgraça e anseia por se redimir… Apertem os cintos e aproveitem a viagem!”

— PEOPLE

“Com uma narrativa extremamente ágil, FitzSimmons trabalha com apostas altas, heróis imperfeitos e nos seduz, porque derrotar bandidos é um prazer…”

— KIRKUS REVIEWS

“Morte Lenta é um thriller movido a adrenalina, e tem todos os ingredientes – intriga política, assassinato e suspense. Uma trama brilhante que conduz o leitor a uma viagem vertiginosa rumo a um final explosivo.”

— ROBERT DUGONI, AUTOR.

“Simplesmente fantástico. Matthew FitzSimmons supera todas as expectativas.”

— A NDREW PETERSON, AUTOR DA SÉRIE NATHAN MCBRIDE

“Morte Lenta é uma maravilhosa surpresa: uma trama complexa, que se assenta sobre uma profundidade emocional impactante. Muito mais do que uma estreia acertada, essa é a prova de que o autor é um mestre do suspense…”

— AMAZON.COM

Morte Lenta |  O Autor

MATTHEW FITZSIMMONS nasceu em Illinois, mas cresceu na Londres punk na década de 1970, próximo à Kings Road. Sua infância, até então idílica, foi quebrada pela experiência traumática ao assistir Star Wars em 27 de dezembro de 1977, na Leicester Square. Ao lado, ouvia o ronco de seu pai durante a sessão daquela que era, claramente, a maior conquista cinematográfica de todos os tempos.

Foi quando começou a ter certeza de que mentiram pra ele, pois deve ter sido adotado. Graduou-se em Psicologia, estudou teatro, morou em Nova York e depois na China, onde rascunhou sua primeira ficção política. Atualmente mora em Washington, onde leciona literatura inglesa e teatro. Este livro de estreia alcançou tamanho sucesso que o autor decidiu contar novas histórias sobre o hacker investigador.

Morte Lenta | Links

Morte Lenta | Ficha Técnica

  • Autor: Matthew Fitzsimmons
  • Título: Morte lenta
  • Capa comum: 320 páginas
  • Editora: Faro; Edição: 1ª (24 de fevereiro de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 856240991X
  • ISBN-13: 978-8562409912
  • Dimensões do produto: 22,8 x 16 x 2,4 cm
  • Peso do produto: 558 g
  • Preço de capa: R$: 44,90
  • Acabamento: Brochura
  • Idioma: Português

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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