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CAVALEIRO DAS TREVAS: A ÚLTIMA CRUZADA | NÃO EMPOLGA

Cavaleiro das Trevas – A Última Cruzada: Ecos do passado

cavaleiro das trevas a última cruzada30 anos após Frank Miller abalar o mundo da cultura pop com seu Batman: O Cavaleiro das Trevas, a minissérie que sem dúvidas trouxera um novo vigor ao personagem, e se tornaria uma das histórias mais emblemáticas do Cruzado de Capas, passando a influenciar não só a trajetória do personagem nas HQs como nas mais diversas mídias, ecoando fortemente até os dias atuais.

Batman: O Cavaleiro das Trevas também ultrapassou o universo do morcego, e juntando-se a Wachtmen de Alan Moore seriam decisivas para corroer os pilares do que se tinha como aspiração e modelo no que tange os super-heróis.

Chegando em 2016, vemos Miller juntando-se a outro monstro dos roteiros Brian Azarello, repetindo a parceria do já antológico Cavaleiro das Trevas III, mesmo que esta aura em torno da minissérie possa ser apenas pelo fato de revisitar este universo, eles nos trazem agora nesta nova parceria o Cavaleiro das Trevas: A última Cruzada, interpretada pelos traços do magistral John Romita Jr.

Uma quase jornada ao coração das trevas

[dropcap size=small]A[/dropcap] Hq, parte da premissa de mostrar os acontecimentos que antecedem e conspiram para um trágico destino para Jason Todd nas mãos do Coringa neste universo. A atmosfera proposta por Miller e Azarello nos conduz de forma simples e eficaz, revelando um relutante Batman/Bruce, que agoniza ao sentir os anos de combate ao crime serem cobrados de forma sintomática em seu corpo, onde dores, dormências e falta de vigor são pontuados em momentos cruciais da incansável luta do Cavaleiro das Trevas e que revelam que se o mesmo insistir nesta cruzada os resultados deste desgaste podem levar o Homem-Morcego a pendurar seu traje de forma não tão agradável.

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Frank Miller & Brian Azzarello

O controle e planejamento de suas ações parecem fugir as perspectivas do que sempre foi característico em sua atuação no combate ao crime em Gotham já que todos seus passos sempre seguiam um código de conduta rígido e de estratégias sempre meticulosamente planejadas que visavam uma orquestração maior em busca de resultados para minimizar a criminalidade e que se traduziam justamente neste controle obsessivo de ações.

Porém o desgaste a relutância em se aposentar e o tempo cobrando o preço de sua vitalidade, parecem assombrar um atormentado solitário e triste Homem-Morcego. Sua maior angústia repousa no que se refere a quem assumirá o manto de Batman e continuará seu legado.

Jason Tood, o Robin atual, é eficaz em combate corpo a corpo e no que se refere a outras nuances da ação, porém mostra uma personalidade cada vez mais desestruturada, com rompantes que beiram o sadismo quando esta enfrentando seus oponentes, sem contar que é afoito e não tão perspicaz no que diz respeito aos métodos investigativos que tornaram o Batman o mais hábil detetive do mundo…

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Soma-se a isso a angustia de um Bruce Wayne que viveu mais como Batman do que como o bilionário de Gotham, não conseguindo vislumbrar atrativos na vida civil, trazendo um aspecto interessante, mostrando que o disfarce nunca foi o morcego e sim o milionário, algo recorrente na mitologia do Cruzado de Capas, mas que sempre trás um frescor quando revisitado, ainda mais se isto for feito por Miller, que mesmo contando com a ajuda de Azarello, ainda consegue imprimir muito do seu estilo na condução da trama.

Jonh Romita Jr.

Uma das coisas mais pitorescas desta edição de Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada, sem dúvida alguma é contar com o traço de John Romita Jr. Romita Jr. se consagrou na indústria dos comics por ter emprestado seu eficiente traço durante décadas aos mais variados super-heróis Marvel como Homem Aranha, Hulk, Vingadores, Thor, X-Men, Homem de Ferro, Capitão América e praticamente todo o panteão que forma a mitologia da Casa das Ideias, e pra refinar tudo isso ele carrega a responsabilidade de ser filho de ninguém menos que o lendário John Romita Senior, um dos artistas que ajudou a construir os pilares da Marvel que conhecemos hoje.

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John Romita Jr.

Porém em 2014 o consagrado artista saiu da Marvel e foi abrilhantar justamente as paginas da mitologia da Distinta Concorrente. Pegando logo títulos de ponta como Superman, e mais recentemente assumindo um título regular do Homem-Morcego, também fazendo parte da equipe de peso de Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada.

O traço de J.R.Jr. mudou muito durante estes vários anos na indústria de comics, algo natural na evolução de todo artista que procura refinar seu trabalho. Há quem não goste do mesmo, mas uma coisa é inegável, para quem conhece desenho tecnicamente o traço de Romita Jr. é irrepreensível, uma verdadeira aula de narrativa e de uma poderosa construção anatômica, sem contar da explosão de movimentos que seu traço sempre tendendo a um estilo limpo e ágil proporciona as suas belas composições e páginas que transpiram uma energia cinética que poucos artistas conseguem com tanta regularidade.

Em Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada John Romita Jr. imprime mais uma vez sua força narrativa, deixando tudo muito claro e pungente. Seus quadros sempre detalhados e ao mesmo tempo limpos, dão um vigor a edição que impulsiona a leitura e convida o leitor a um passeio por este universo, que em muitas horas lembra a inspiração máxima que é o Cavaleiro das Trevas de Miller, principalmente no que diz respeito à disposição dos quadros nas páginas.

Podemos ver toda a maestria e força do traço de Romita Jr, em uma pagina onde temos vários recortes com a variação das expressões do Coringa ao fumar um cigarro e narrar uma inusitada metáfora de um garoto com o pescoço quebrado e sua visão singular do mundo…

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Completando a arte desta edição temos Peter Steigerwald, artista que ficou responsável pela arte-final e cores. Steigerwald faz um trabalho agradável no que se refere à colorização. Suas cores se estabelecem de forma suave a obra, trazendo um tom mais sútil que emula aquarela e propositalmente nos remete a paleta e suavidade que Linn Varley nos proporcionou lá no longínquo Cavaleiro das Trevas reforçando mais ainda esta atmosfera saudosista e familiar.

Tudo parecia estar no lugar

Na somatória dos elementos de Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada tudo parecia apontar para um grande êxito, porém após passearmos por este vislumbre do universo da obra máxima de Miller, o lendário Cavaleiro das Trevas, vemos que pouca coisa sobrou para realmente nos alavancar a uma jornada mais contundente…

Você passa os olhos vigorosamente pelas páginas, a história avança os elementos parecem te convidar para algo a mais, porém, quanto mais adentramos na trama e percebemos que as paginas estão acabando isso vai trazendo uma angustia de ver que tudo não passou de outra orquestração de uma indústria que parece viver de alguns trunfos do passado e não esta conseguindo se renovar, principalmente no que se refere a Marvel e DC Comics, no caso da Distinta Concorrente vimos, não faz muito tempo, isso em Antes de Whachtmen obra que ganhou mais repercussão pela polêmica em torno do seu lançamento e por ter sido execrada por Alan Moore do que da posterior leitura e discussão da relevância da obra.

Pelos nomes envolvidos em Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada, pelos personagens em foco, esta obra tinha tudo para ser algo mais impactante, porém acaba funcionando apenas como um simples entretenimento, que se compararmos com outras obras que podemos encontrar em outras editoras ou até mesmo na própria DC Comics, reforça a sensação do não cumprimento da expectativa que ela promove num momento inicial justamente pelo naipe da equipe envolvida e pela carga que a mitologia evoca, acabando por ficar com ares bem medianos.

Talvez se ela fosse um pouco mais elaborada no intuito de se estender por um arco de mais edições, e não num apressado one shot, tivesse tido êxito em se aprofundar nesta jornada de degradação moral do jovem Robin/Janson Tood. No entanto não consigo acreditar realmente nisso como solução, acabando mais numa esperança vã de encontrar ecos numa história desgastada que reflete muito bem alguns aspectos atuais da indústria dos comics.

Enfim, a sensação que fica e que certas coisas já chegaram ao seu ponto de combustão máxima, querer extrair mais energia destes lugares é mostrar que a imaginação esta sendo deixada de lado e o caça-níquel esta cada vez mais sendo exaltado…¯\_()_/¯

Falando em Panini

Já não é de hoje que o mercado de quadrinhos ganhou novos focos e métricas, principalmente no que se refere ao acabamento das edições que passaram a ser publicadas em papeis de boa qualidade e ganharam quase que constantemente as versões encadernadas em capa dura, algo que já era feito nos EUA fazia tempo.

Porém lá sempre houve opções mais baratas para os colecionadores, os chamados “trade paperbacks” , que se popularizaram bastante no Barsil nos últimos anos, que  comumente encadernam sagas (termo utilizado para designar livros com o mesmo formato de livros capa dura ou hard cover, porém com uma capa mole ou soft cover, similar a dos livros de bolso resultando em edições mais acessíveis).

Assim você pode optar em ter uma versão da obra o chamado TPB podendo ser um “hard cover” que sempre trazem vários extras como atrativo ou o“soft cover” mais simples, contudo essa diferença vai refletir sem dúvidas no preço final do material. Lá fora, Marvel e DC ainda oferecem a linha Essential Marvel e Showcase Presents, publicadas em brochuras em preto e branco, papel jornal,  verdadeiros tijolões de muitas páginas para um leitor menos exigente que quer apenas  ter acesso ao material.

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No Brasil, infelizmente, a publicação dessa linha tornou-se inviável, os gastos de produção com tradução, letreiramento e demais processos, acabavam tornando a edição pouco atrativa já que  os custos de um encadernado preto e branco não costuma ficar muito abaixo de uma edição colorida…

Neste quesito me surpreendi com Cavaleiro das Trevas: A Última Cruzada que acabou saindo numa edição bem mais em conta que o de costume, e mesmo assim mantém uma qualidade excelente e um preço mais acessível, fato que ajuda muito na hora de adquirir uma obra que desperta curiosidade, mas não sabemos onde nos levará.

A Panini poderia muito bem ter feito este lançamento em capa dura, aproveitando a métrica do mercado e o nome do consagrado autor, ainda mais que Cavaleiro das Trevas III esta nas bancas mesmo, era só colocar alguns extras e estender o número de páginas facilmente e já se teria uma edição de colecionador.

Vez por outra trabalhar este tipo de visão é muito bem-vindo, não tenho nada contra edições capa dura, porém nem todas valem este tipo de formato e o custo benefício da obra nem sempre vale o investimento…

Antes de retornar em toda sua sombria glória, o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller viveu uma de suas aventuras mais violentas e traumáticas. Uma cadeia de eventos que acabou transformando-o para sempre e resultou nos acontecimentos que todo fã de quadrinhos acompanhou no clássico absoluto Batman: O Cavaleiro das Trevas. Miller e o talentoso Brian Azzarello juntam-se ao grande John Romita Jr. para apresentar mais um grande momento das HQs!

Detalhes da Publicação

  • Especial
  • Periodicidade eventual
  • Formato 17 x 26 cm
  • Capa Cartão
  • Lombada Canoa (Grampeada)
  • Papel Couché, 68 Páginas
  • Distribuição Nacional
  • Preço: R$ 11,90
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É Bacharel em Psicologia, porém optou por sua grande paixão trabalhando como ilustrador e quadrinhista. É sócio do Pencil Blue Studio e Ponto Zero, podendo assim viver e falar do que gosta: quadrinhos, cinema, séries de TV e literatura.

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  • Ao contrário da torcida do Flamengo, não acho JR Jr. um bom ilustrador, talvez um layoutista/esbocador de algum talento, cujos editores sempre indicam a um arte-finalista que sabe desenhar de fato e salva seus esboços. A primeira ilustração desta matéria entrega o que estou dizendo, por sinal.
    Mas o resultado final ficou muito bom.
    No mais, concordo que fazer dessa história um one-shot é um caça-niquel imperdoável da indústria. Ainda mais com Miller (se fosse com outros autores era mais compreensível).

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