O Livro É | Máquina de Armas, de Warren Ellis

John Tallow e seu parceiro Jim Rosato atenderam um chamado para uma ameaça de tiroteio em um velho prédio de apartamentos na Pearl Street em Manhattan. Um prédio qualquer em uma quadra qualquer com a confusão típica entre  senhorio e inquilino devedor… coisa comum, pelo visto, em qualquer grande cidade americana.

A voz de prisão desencadeou tiros, um acertou Rosato, o outro o inquilino exaltado. Tallow ficou em choque ao ver o sangue do parceiro espalhado pelos degraus da escada e pela pintura da parede. Rosato era o policial destaque da dupla, era o que dirigia a viatura, o que andava adiante, o que estava sempre a um passo de uma boa promoção.

Tallow, comprador compulsivo de livros, fumante e entusiasta autodidata do estudo de História e Cultura, sempre se contentou em estar no segundo plano, de deixar seu parceiro de anos conduzir as ações, estava esperando apenas a hora de sua aposentadoria bater em sua porta.

maquina de armas capa
Capa da edição nacional pela Novo Século

O velho prédio onde Rosato e Tallow foram recebidos a bala estava em processo de venda para uma grande empresa de tecnologia e comunicações que fazia pesadas negociações na bolsa de valores chamada Vivacity, sob direção de um homem chamado de Sr. Machen, a quem Tallow, em breve teria de visitar.

Mas o detalhe mais importante é que no prédio há um quarto trancado e protegido como um cofre, dentro dele há dezenas, talvez centenas de armas, cada uma delas utilizada em um crime ocorrido em diferentes épocas.

Dispostas pelo chão, pelo teto e paredes, as armas pareciam formar um intricado jogo de desenhos, espirais, grafismos e runas desconhecidas.

Mesmo de luto com a morte do parceiro, Tallow foi incumbindo da investigação do bizarro apartamento que ficava a poucos metros de distância do local da morte de seu parceiro.

A perícia interditou o local, Tallow mobilizou vários departamentos policiais diferentes em uma verdadeira força-tarefa para remover as armas e periciá-las o mais breve possível.

No processo, conquistou a inimizade e antipatia de vários policiais e peritos em toda Manhattan com algum resquício de bom-senso, em paralelo conquistou a estranha amizade dos peritos Bat e Scarly, Bat é o típico perito nerd-geek maluco que, nas horas vagas, cria artefatos e aparelhos estranhos, Scarly é durona, sarcástica e ácida, o exato oposto do franzino Bat.

O trio compra para si a proposta de desvendar o caso mais estranho, complexo e já surgido em todos os departamentos policiais da cidade-ilha. A tarefa não é nada fácil, pois as investigações apontam uma infiltração dentro da própria policia, já que algumas das armas encontradas no apartamento-cofre estavam apreendidas há anos nos depósitos de provas policiais e, sem ajuda interna, jamais poderiam ter saído dali.

Em outro ponto da cidade, um velho homem que chama a si mesmo de “O Caçador” observa a policia esvaziar seu templo, desmantelar seu trabalho de uma vida toda. Suas armas, as ferramentas de um trabalho minucioso e detalhado eram encaixotadas uma a uma e retiradas de seu domínio.

O Caçador estava de mãos atadas, eram muitos policiais e ele não tinha a arma adequada para aquela ocasião específica. Sua rede de contatos dentro dos escalões de administração precisariam se mover para lhe ajudar a recuperar seu templo e seus instrumentos.

Mas o Caçador refletiu, não era necessário matar todos os policiais envolvidos no caso para evitar que chegassem até ele; só um precisava ser tirado do caminho: John Tallow já estava marcado pelo Caçador, só era necessário encontrar uma arma adequada para o detetive.

Dotado de um meticuloso processo de escolha de armas e da utilização das mesmas para cada assassinato, o Caçador partiu em busca de seus fornecedores, vivendo entre a Manhattan real de prédios, telefones e câmeras de segurança e outra Manhattan antiga, indígenas, florestal.

Dentro dessa ilusão dupla, o Caçador caminha pelas vielas da cidade evitando o máximo possível as pessoas, os veículos e o trânsito. As sombras são o lugar do velho que se oculta na floresta de pedra.

Manhattan, o cenário-personagem

A cidade de Manhattan, importante centro de convergência de pontos importantes é de suma importância para a trama de “Máquina de Armas”. O Caçador, personagem que move boa parte das engrenagens da máquina, se move pela cidade de maneira furtiva, visualizando dois mundos isolados entre si por séculos de transformação ambiental e cultural; o personagem se imagina um dos antigos caçadores indígenas que pisaram por Manahat, o nome original da cidade em tempos já quase esquecidos.

Tallow, um ser urbano, carrega no banco de trás de seu carro um computador, um tablet e uma enorme pilha de livros e revistas sobre diversos assuntos, transita pela cidade em sua viatura, agora, sem seu parceiro morto em serviço.

Os peritos Bat e Scarly são festivos, engraçados e ao mesmo tempo que tem facilidade de “se enturmar”, na essência são outsiders, são descolados e inteligentes demais para serem “do convívio social”.

Mas no fim de toda a narrativa, é a cidade de Manhattan que está no centro do maquinário que o autor britânico Warren Ellis construiu. Aspectos geográficos, políticos, econômicos, sociais e históricos enriquecem de forma fantástica o livro que é um thriller policial bem escrito, bem narrado, mas que, no entanto, possui umas três ou quatro muletas de roteiro para conectar fatos e consequências da trama.

Se Manhattan não estivesse tão evidente na trama de Ellis, se fosse outra cidade bem menor e não uma mega-cidade cheia de locais e pontos super-movimentados, seria possível aceitar que Tallow encontrasse, numa ida à lanchonete uma personagem determinante para que se desvendasse uma parte da complexa trama estabelecida no livro.

WarrenEllisComo disse, não é uma coincidência fortuita apenas, são pelo menos umas quatro que de forma extremamente fácil montam o quebra-cabeça na mente do leitor e na do detetive Tallow.

Parece que você está caminhando numa vila e “Boom”, está ali aquele seu vizinho fazendo compras na mesma feira que você apenas duas ou três quadras da casa de ambos.

Não funcionou, ficou ali uma engrenagem que trinca o movimento até então fluído e natural que a obra vinha tendo.

Veja, não é uma leitura ruim, longe disso, Ellis tem pleno domínio da narrativa, a trama geral é imersiva e consistente, mas peca nas suas soluções.

A tensão de um thriler policial de qualidade está ali com todos os seus elementos: policiais durões e cheios de atitude, peritos esquisitões, chefias de atitudes dúbias, uma cidade violenta, jogos de poder, empresários corruptos, subornos, um perigoso serial killer responsável por crimes que se estendem por uns 20 anos de história da cidade de Manhattan, todos, até então sem solução.

Para que se tenha uma ideia de como ficaram artificiais as coincidências fortuitas da narrativa, em Manhattan estão alguns dos principais pontos de interesse da cidade, incluindo a Times Square, o Central Park, o Empire State Building, a Wall Street, a Broadway e a Brooklyn Bridge, a ponte que une Manhattan a Brooklyn, e também abrigava antes dos ataques de 11 de Setembro o famoso complexo World Trade Center. 

Em uma narrativa realista, bem direcionada e bem narrada, isso acabou destoando e assinalando um ponto bem fraco no roteiro de Ellis para o livro.

Com personagens bem construídos, uma ótima pesquisa histórica sobre Manhattan, sequências de ação muito bem escritas e tensas, grandes cargas de violência típicas das narrativas policiais, Ellis entrega um bom livro na soma geral, seu contexto contemporâneo tem consistência e aspectos de nosso cotidiano estão ali como a pesquisa na internet, os mapas virtuais, os aparelhos eletroeletrônicos, a vida agitada, o consumismo e a correria do dia em uma grande metrópole.

Gostaria de poder passar por cima das coincidências que amarram alguns pontos da obra, mas não dá para ignorar a movimentação e a efervescência que o próprio autor adensa sobre Manhattan e achar que é completamente natural no meio de uma trama tão complexa e elaborada você simplesmente cruzar com quem tem muitas das respostas que você procurar.

Mas fico no aguardo de outros livros do autor que tem extensa e diversificada carreira nas HQs.

Máquina de Armas | O Autor

O autor britânico Warren Ellis é conhecido dos fãs de HQs já de longa data, em suas grandes obras estão as elogiadíssimas passagens pelo supergrupo Stormwatch, antecessor do supergrupo The Authority também em ótimo arco escrito pelo autor, também é de sua responsabilidade o espetacular Planetary; os três grupos podem ser apreciados em edições nacionais pela Editora Panini (Stormwatch e Planetary completos, Authority em fase de publicação).

Nas grandonas o autor também coleciona várias fases nos personagens conhecidos como Wolverine, Homem de Ferro e Thor na Marvel e Constantine na DC/Vertigo onde também tem a cultuada Transmetropolitan.

Máquina de Armas | Sinopse

Após um tiroteio custar a vida de seu parceiro, o detetive John Tallow acaba descobrindo um apartamento repleto de armas. Cada uma delas conduz a um diferente caso de assassinato não resolvido pela polícia. Por vinte anos ou mais, alguém esteve matando pessoas e juntando as armas por um propósito inexplicável.

Confrontado com a inesperada emergência de centenas de homicídios não resolvidos, Tallow logo descobre que está sendo irremediavelmente conduzido a um verdadeiro acordo com o diabo. Agora, o detetive deve procurar por um caçador que considera seus atos assassinos como um sacrifício para os velhos deuses de Manhattan e que pode, simplesmente, ser o mais prolífico serial killer da história da cidade de Nova York.

Warren Ellis tem acumulado legiões de fãs pelo mundo todo, sendo elogiado pela revista Wired por sua “impiedosa ação” e “inquestionável bravura”. Seu mais novo romance lança-o como um dos mais ousados escritores de thrillers da atualidade. Este é o primeiro suspense do século XXI de grande relevância. Este é ‘Máquina de Armas’.

  • EDITORA | Novo Século
  • NÚMERO DE PÁGINAS | 312
  • IDIOMA | Português
  • ACABAMENTO | Brochura
  • NÚMERO DA EDIÇÃO | 1
  • ANO DA EDIÇÃO | 2014
  • AUTOR | Warren Ellis

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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