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RAYON DAMES | ANNIE GOETZINGER

No percurso que tive como leitor de quadrinhos, não foram raros os momentos em que tive o desejo de escrever algo sobre os quadrinhos europeus e quando o Ponto Zero me convidou a redigir um artigo, esse foi o primeiro tema que me veio a mente.

Imagem 003Nessa empreitada que pretendo fazer a seguir, creio que um primeiro esclarecimento seja necessário: ainda que o termo “quadrinho europeu” tenha sido muito usado para designar um certo fazer que remete a Hergé, Moebius, Enki Bilal, Milo Manara e tantos outros mestres, o mesmo , constitui mais um conjunto variado de gêneros e estilos, que nitidamente contrastavam com a produção norte-americana e japonesa de quadrinhos  (outros dois grandes conjuntos de estilos variados), do que um estilo único, uniformizado.

Dentro desse mosaico de estilos e gêneros, alguns artistas ganharam um certo reconhecimento no Brasil, graças a traduções, efetuadas por editoras locais de grande e médio porte, ainda que, a imensa maioria tenha sido pouco publicada por aqui e muitas obras permaneçam ainda hoje inéditas no país.

É justamente sobre algumas destas obras e autores que pretendo comentar aqui e para iniciar a tarefa, que pretendo dividir em mais dois ou três artigos, decidi começar por “Rayon Dames” da quadrinista francesa Annie Goetzinger, publicada em 1991, na Coleção Portraits e Souvenirs, da editora Les Humanoïdes Associés (sim, a mesma editora da mítica Métal Hurlant). Uma obra que mesmo publicada há mais de 20 anos, ainda apresenta um forte apelo atual e inovador.

Rayon Dames, algo em português como “Damas Radiantes”, trata-se de uma compilação de nove histórias curtas que retratam o universo feminino, que tem como pano de fundo as cidades de Paris e Barcelona, das décadas de 30 e 40. Algumas destas roteirizadas pela própria autora e outras, em parceria com o roteirista espanhol Victor Mora. Nessa obra, Goetzinger e Mora, retratam com muita sensibilidade um pungente quadro de personagens femininas que não se furta a revelar as suas misérias.

Imagem 002Histórias de encantos e desencantos que abrangem tanto a jovem Dolores, estudante promissora, que com a morte da mãe prostituta, para cuidar dos irmãos mais novos, abandona a escola e também começa a se prostituir, como o vazio existencial de Jaqueline T., mulher de subúrbio, cujo apequenamento da vida e dos sonhos fez com que tivesse como maior aspiração construir uma banheira com aquecimento a gás.

Contudo, neste rol de personagens, é Ana da história Petite Ville, militante de esquerda, que ao recusar entregar os companheiros é torturada pela ditadura franquista, a personagem mais emblemática do álbum.

Curiosamente, a personagem surgiu por insistência de Goetzinger, quando a autora ao discutir o roteiro convenceu Mora de que a tortura masculina é diferente da feminina e a personagem torturada da história tinha que ser uma mulher. Argumentava Goetzinger que ao se torturar uma mulher o machismo podia exercer toda a liberdade, pois todos os instrumentos de tortura foram criados especificamente para atentar contra sua feminilidade e essa história precisava ser contada.

O que muitos hoje recomendam esconder, Goetzinger na época optava por mostrar.

Bom, a essa altura do texto vocês devem estar me perguntando, mas se as mulheres que a Goetzinger retrata sofrem tanto, por que são chamadas de damas radiantes?

Perspicazmente, as damas radiantes de Goetzinger possuem seu brilho e humanidade não por serem vencedoras ou donas de si, mas por serem comuns. Mulheres que com coragem e honradez são obrigadas a enfrentar as dificuldades do mundo e as violências cotidianas. Goetzinger não poderia ter escolhido um brilho mais próprio.

Formada em desenho de moda, Annie Goetzinger, já publicou vários álbuns na Europa, foi a primeira autora a abordar como tema central a AIDS em uma história em quadrinhos, na obra de 1992, “Avenir Perdu” (Futuro Perdido), foi chargista do jornal Le Monde e mais recentemente, em 2015, lançou “Girl in Dior”, álbum que conta a história do estilista Christian Dior.

No Brasil, Goetzinger tem histórias curtas de cunho erótico, publicadas pela Editora Nemo, na coleção “Safadas”, tradução um tanto quanto infame da sofisticada série “fripons”, nome original da coleção publicada pela Humanoïde Associés.

 

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É aspirante a roteirista e desenhista de quadrinhos, estudou algumas coisas, leu tantas outras e é formado em duas faculdades, que não serão listadas aqui, afinal essa não é uma entrevista de emprego. Nas horas vagas curte seus cds de jazz e tem a audácia de querer executar alguma coisa no sax.

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