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Especial Dia do Quadrinho Nacional: Gil Mendes, editor da Editora Universo

Concluindo nosso especial do dia do quadrinho nacional, batemos um papo com Gil Mendes o criador do personagem Lorde Kramus e o fundador da Editora Universo, que vem publicando inúmeros quadrinhos tanto em parcerias com autores independentes como de sua autoria mesmo.

Procurando fazer isso através de publicações de baixo custo, porém que primam pela qualidade e diversidade, buscando formação de preços mas acessíveis e principalmente atuando na formação de novos leitores…

GIL MENDES, EDITOR DA EDITORA UNIVERSO

FOTO GIL MENDES 1Ponto Zero: Salve Gil! Que tal começarmos por um breve resumo de sua trajetória até chegar à criação da Editora Universo?

Gil Mendes: Comecei como todo bom quadrinhista independente, como fanzineiro. Desde os anos noventa venho publicando fanzines. Em 1991 criei o personagem Lorde Kramus. Depois de lançar alguns zines com ele, foi em 2008 que decidi lançar uma revista. Daí saíram do papel sete edições, seis delas em tamanho magazine. A Universo veio exclusivamente da necessidade de uma representação editorial para essa revista. E como eu não havia apresentado, devido as dificuldades do mercado independente, a revista para nenhuma editora, eu decidi criar a minha própria para conseguir colocar minha revista nas bancas..

Ponto Zero: Como é a relação de trabalho da Editora Universo com os autores que procuram a mesma para lançarem seus produtos?

Gil Mendes: Atuamos de acordo com a necessidade do autor e de sua obra. Se ele precisa de um desenhista, roteirista, letrista, nós fornecemos e entregamos a revista já pronta. Ou se ele apenas precisa imprimir seu material, nós imprimimos. Por conta de nossos preços serem abaixo do de mercado, sem nos trazer ganhos financeiros reais, nós solicitamos autorização para vender a revista em nosso site/loja, pelas redes sociais ou nos eventos que participamos. Desses exemplares que vendemos, (que nós mesmos imprimimos sem retirar da tiragem dos autores) repassamos o valor de dez por cento das vendas ao autor pelos direitos autorais.

Ponto Zero: Super-Heróis são um tabu na linha editorial da Editora Universo?

Gil Mendes: Muito pelo contrário, os Super estão em alta na editora, são nossas melhores vendas. Tanto que ainda este ano vamos lançar nosso próprio universo de personagens na linha comics. Outro segmento sempre forte, são os Mangás, vendem bem e são cada vez mais valorizados pela alta qualidade nos roteiros e desenhos.

Ponto Zero: Atualmente questões que se tornaram de suma importância são a diversidade e representatividade no meio dos quadrinhos, como a linha editorial de vocês lida com estas tendências?

Gil Mendes: Nosso projeto visa alcançar o máximo de autores independentes, principalmente os iniciantes e, ou aqueles que tenham dificuldade de tirar seus projetos da gaveta. Em virtude disso, temos um grande leque de gêneros em nossas revistas, com alguma restrição somente à pornografia explícita.

Lorde Kramus - CAPA COLORS-ROM

Ponto Zero: Fazendo uma análise do crescimento da produção e lançamentos de HQs nacionais nos últimos anos estamos rumando para o almejado mercado?

Gil Mendes: Sim, mas a passos ainda muito lentos. Poderia ser mais rápido se almejássemos desde agora estabelecer um mercado de título contínuo. Mas pelo que vemos não é esse o foco, pois há autores fortes no meio editorial que preferem lançar suas revistas ainda com forte apelo autoral ao invés de planejar suas obras para atender o público de massa. Podem não achar que esse é um caminho digno, mas atender o apelo comercial trará meios de prosseguir com o projeto e conquistar os leitores para o estabelecimento de um título periódico, comercialmente forte.

KRAMUS - HÉLCIO-RAELPonto Zero:  E como esta o setor para os profissionais, é possível tirar uma renda digna, ou no caso o mercado internacional ainda é o melhor caminho para se consolidar uma carreira obter reconhecimento e uma boa remuneração?

Gil Mendes: Acredito que o mercado estrangeiro ainda é muito atraente para os profissionais de quadrinhos no Brasil, ainda é o mais rentável. Muitos dos que publicam somente no Brasil atuam em outras áreas, fora dos quadrinhos, para conseguir melhor renda. Reconhecimento e remuneração andam lado a lado, virão com o estabelecimento do mercado. O que vai acontecer quando investirmos em formar leitores fiéis.

Ponto Zero: O Catarse de uns anos pra cá se tornou a nova casa do produtor nacional, Como analisas esta plataforma, e suas similares, o que o crowdfunding esta trazendo de benefícios reais, vocês tem projetos nesta área?

Gil Mendes: Para a realização pessoal do artista, é uma plataforma estupenda. Porém para o estabelecimento de um mercado forte no Brasil, quase nada. Realizar o sonho de ter uma HQ publicada é uma coisa, querer que sua personagem continue a ser lançado e lido por muito tempo é outra. Os autores lançam no Catarse as mesmas histórias aleatórias, com poucas exceções, que lançariam em fanzines sem os refinamentos gráficos que a renda do coletivo proporciona.

Ponto Zero: Uma tendência no lançamento de quadrinhos que tomou o meio editorial foi a aposta nos encadernados e edições de luxo, mesmo no Catarse, a grande maioria dos projetos vem seguindo este padrão de edições luxuosas e caras. Será que os produtores estão investindo muito em qualidade gráfica e abandonando a publicação de produtos mais acessíveis ao grande publico?

Gil Mendes: Essa é a questão. Como dar o devido valor à obra de um artista exigente, que não seja publicá-lo em uma edição de luxo? Temos de trabalhar primeiro o nosso ego, pensar que quanto mais público planejar para minha obra durante a produção, mais revistas eu vou vender quando ela for publicada. Não tenho nada contra os encadernados, compro vários, mas quando vou publicar uma revista, planejo para que ela atinja o maior nicho de leitores possíveis. Desde os mais velhos com renda financeira já estabelecida quanto os estudantes ou que ainda estão correndo para conseguir o primeiro emprego. E isso não se faz só escolhendo gêneros, mas também com formatos e materiais gráfico empregados na revista visando o barateamento do produto final.

Ponto Zero:  Social Comics e COSMIC são a promessa de uma nova forma de comercializar quadrinhos e trazer monetização ao meio de produtores de HQs e o melhor, parecem solucionar um antigo “bicho papão” da produção nacional já que burlam a famigerada distribuição. A Editora Universo tem planos para esta área e como editor como encaras estas plataformas?

Gil Mendes: São bem recebidos, é uma ferramenta a mais na divulgação dos quadrinhos nacionais, por enquanto apenas isso. Funciona da mesma forma que nos fanzines, só que atingindo maior número de pessoas e é mais barato. Pois está aberto a tudo e a todos, não há um crivo editorial visando qualidade da obra publicada. Nosso mercado pede mais do que isso, o leitor quer mais do que isso, ele quer colecionar seus heróis, ele quer poder comprar uma revista de olhos fechados, acreditando que no final vai gostar de ter gasto seu dinheiro com aquilo. Por enquanto não estamos pensando nessas plataformas de exposição. Quem sabe, depois de estabelecer o universo próprio da editora poderemos criar uma linha para a internet, mas por hora nossos esforços estão voltados para a publicação física.

NOVO UNIVERSO INDEPENDENTE - Divulgação

Ponto Zero:  Muitas comic shops americanas tradicionais estão fechando as portas nos últimos anos, talvez apontando para uma defasagem deste modelo de vendas físicas. Como você analisa este embate entre revistas físicas e digitais?

Gil Mendes: Haverá uma mudança de comportamento, as comics já estão sentindo isso, no entanto acho que antes dessa forte mudança chegar ao Brasil, nós ainda vamos ter nosso ápice com as revistas nacionais em papel. A inclusão dos quadrinhos na internet não é algo ruim, e acredito ainda que a revista de papel jamais vai ser substituída pela digital, haverá espaço para ambas.

Ponto Zero:  Com a geração digital cada vez mais entretida com games, e os celulares cada vez mais sofisticados oferecendo inúmeros aplicativos na área de entretenimento, será que as HQs estão perdendo espaço de forma definitiva?

Gil Mendes: De maneira alguma, o hábito de ler ainda vai continuar forte construtor de melhor caráter pessoal, desta forma sendo ainda exigido pela sociedade como um todo. O que acontece é que estão se formando menos leitores que antes, mas no passado já havia aqueles garotos que preferiam as pipas do que uma revista em quadrinhos.

KRAMUS CAPA3Ponto Zero: Formação de público leitor é uma preocupação entre às ações da Editora Universo, vocês tem algum projeto nesta área?

Gil Mendes: Temos o projeto Criança Criativa que visa apresentar as histórias em quadrinhos para as crianças em idade escolar. Oferecemos oficinas gratuitas em escolas visando a publicação de revistas com as obras dos alunos, onde as mesmas são impressas e distribuídas para os estudantes das entidades participantes.

Ponto Zero:  CCXP, FIQ e outros eventos que estão surgindo no cenário nacional movimentam bastante público. Qual sua relação com este meio, a Editora Universo participa dos mesmos, e quais seriam os formatos mais rentáveis, bienais ou comic cons, para os autores e editoras independentes?

Gil Mendes: Ambos formatos agradam e impulsionam as vendas dos independentes, O que conta mesmo é a visibilidade que o próprio evento e sua organização proporciona a esse artista ao localizá-lo no evento. Tanto na hora de alocar no espaço físico, como na divulgação. A Universo Editora participa de vários desses eventos, porém como ainda estamos no início de nosso projeto, marcamos nossa presença em mesas e através dos autores que publicam conosco.

Ponto Zero: Gil sua mensagem aos aspirantes que querem se profissionalizar e ingressar como produtor de quadrinhos nacionais?

Gil Mendes: Estudo e disciplina vem em primeiro lugar, não adianta ter persistência sem antes se preparar para o desafio de produzir uma hq. Não adianta achar que tem talento sem aprender a usar as ferramentas corretas e necessárias para o desenvolvimento do trabalho.

Ponto Zero: A redação do PZ agradece seu tempo para responder nossas perguntas, sua colaboração ao nosso especial do Dia do Quadrinho Nacional foi ótima. Valeu.

Ficou interessado no material da Editora Universo? Então acesse o site da editora AQUI.

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É Bacharel em Psicologia, porém optou por sua grande paixão trabalhando como ilustrador e quadrinhista. É sócio do Pencil Blue Studio e Ponto Zero, podendo assim viver e falar do que gosta: quadrinhos, cinema, séries de TV e literatura.

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