Galveston | Primeiro romance de Nic Pizzolatto ecoa temas caros ao criador de True Detective

Cidades incomuns, pessoas solitárias e marginais, ambientes estranhos com sombras densas e um silêncio perturbador, fluxos de consciência e revisões constantes sobre o passado histórico, questionamentos existenciais, pessimismo latente, violência quase constante, solidão, melancolia, vazio existencial e constante busca por sentido e direção, a figura paterna e protetora em xeque…

Esses e alguns outros tantos temas caros a Nic Pizzolatto, criador da aclamada série True Detective (veja AQUI e AQUI), estão presentes em seu primeiro romance, uma mistura de Noir com faroeste moderno cheio daquela penumbra onipresente de pessimismo, desilusão e autodestruição tão comuns aos personagens do autor.

Próxima parada: Galveston

Galveston (Gálvez-town ou Gálveztown, em homenagem a Bernardo de Gálvez y Madrid, o conde de Gálvez), a cidade que empresta seu nome ao romance de Pizzolatto é uma cidade costeira do estado do Texas – EUA, situada na Ilha Galveston.

A cidade tem uma origem bem interessante: é o primeiro assentamento europeu construído por aquelas bandas por piratas para auxiliar a República do México no combate contra a Espanha nos meados do século XIX, claro, tomada de pequenas tribos indígenas que por lá viviam bem antes.

Entre outras importâncias, Galveston também foi um dos principais portos para a Marinha do Texas durante a Revolução e, mais tarde, serviu como a capital da República do Texas. Nos anos de 1900 Galveston perdeu muito de sua força devido a devastação sofrida em decorrência do Grande Furacão de Galveston que, além dos estragos estruturais e inundações, causou algo em torno de 6000 a 12.000 mortes, o que acabou resultando posteriormente em um grande plano de contingência que originou a barreira litorânea que cerca parte da ilha.

Não foi a última vez que a cidade se viu ameaçada pelas forças da natureza devido a sua localização, mas o avanço do tempo e das tecnologias meteorológicas evitaram outras tragédias piores ao longo dos anos.

Atualmente Galveston é uma cidade focada no turismo, indústria de finanças e comércio de suporte aos visitantes como hotéis, alimentação e diversão. Parece um bom lugar para se viver, visitar ou morrer por lá…

Galveston city

Galveston | Do que eu falo quando falo de narrativas

Quando True Detective fez sua magistral estreia, os holofotes e radares apontaram em direção a Pizzolatto. Com um texto denso, personagens pesados e carregando sobre os ombros fardos ainda mais densos e pesados, o roteirista, produtor e auxiliar de edição que habita a mente de Pizzolato pontuou uma virada no segmento de séries imprimindo um ritmo lento, sim, mas com conteúdo de sobra para tragar com a força de um buraco negro o telespectador para dentro de seu universo depressivo, onírico e misterioso.

O Rei Amarelo
Capa do livro “O Rei Amarelo” da editora Intrinseca.

Ao aliar seu primoroso texto com a direção intimista e detalhada de Cary Joji Fukunaga (Não à toa diretor do primeiro longa do Netflix, Beasts of no NationAQUI), Pizzolatto permitiu que sua série True Detective derramasse sobre o telespectador uma Louisiana silenciosa, oprimida e ao mesmo tempo opressora em sua atmosfera de cidade caipira sufocada por uma neblina quase ininterrupta, por seus moradores retraídos, por sua vegetação estranha e claro, por um universo de referências diversas, sobretudo as que diziam respeito ao cultuado livro O Rei de Amarelo e toda a mitologia ao seu redor como a cidade de Carcosa, por exemplo.

Além das locações inquietantes, True Detective trazia em cena um elenco estelar fazendo o seu melhor.

A dupla de protagonistas, claro, roubava a cena com facilidade extrema, mas o elenco de apoio não deixou em momento algum desnível em relação aos astros Matthew McConaughey e Woody Harrelson que, em seus respectivos dramas pessoais, contaram uma história dentro de outra história durante os oito episódios da primeira temporada da série.

Eis aí outro trunfo do texto de Pizzolatto: histórias sobre outras histórias… tudo contado por um ou mais pontos de vista de modo que o quebra-cabeça, mesmo montado num plano, na verdade seja a forma de um prisma multifacetado que, ao se virar as faces rapidamente se perceberia um pedaço completo e coeso do todo, mas ainda assim um único pedaço, então, girando-se esse prisma como se fosse um tipo de peão é que o todo poderia ser contemplado a partir da sobreposição das faces do prisma através do movimento acelerado da rotação.

Você começa em um ponto, dá a volta completa através do giro, contempla a totalidade se sobrepondo rapidamente e retorna ao ponto inicial para dar outros tantos giros até ter a completude da história formada em sua mente.

Falo isso porque é importante entender a estética de um autor, seus temas de interesse, seus textos e subtextos como uma totalidade. Pizzolatto trabalha sua narrativa em camadas diversas, o fluxo de percepção dos personagens acaba por influenciar a percepção do espectador (no caso da série) e do leitor (no caso do livro).

Com uma narrativa de tom intimista e confessional, Pizzolatto dá voz ao sentimento dos personagens através da fala direta e na força da ambientação que ganha vida ao refletir os múltiplos estados de espírito dos que nele transitam.

True-Detective-igreja

True Detective já deixava isso bem claro: o mundo é vivo e expõe seus sentimentos assim como as pessoas o fazem, esse mesmo mundo também é um espelho que reflete as energias que emanamos na cor do por sol, no movimento das nuvens, na poeira das estradas, no silêncio das florestas e ruínas.

O espaço é um personagem a mais na obra de Pizzolatto que fala e reflete a percepção dos personagens humanos e claro, dá o tom de melancolia e decadência onipresente.

Se os personagens estão cansados, desgastados, fracos ou deprimidos, cada lugar reflete tudo isso: o clima, a cor do solo, a neblina, a poeira do asfalto, o papel de parede de algum motel de beira de estrada… tudo reflete esse fluxo constante de coisas se esvaindo, de percepção latente de algum tipo de memória universal que faz todos nós entendermos quando algo não está bem apenas pela percepção sensorial do que nos cerca. Clima, tempo, espaço, sentimentos… tudo é uma coisa só.

Disto isto, Galveston é Pizzolatto percorrendo quase que passo a passo essas impressões estéticas para contar a história de Roy Cody, matador de aluguel, 1,90m de altura, cabelos compridos, chapéu e botas de cowboy, calça jeans. Qualidades que lhe valeram o apelido de Big Country.

Por vezes chamado de cobrador, ou seja, o cara que vai dar aquela prensa escrota e pesada em quem deve algum dinheiro ou favor a um gangster ou mafioso local, no caso o manda-chuva em questão é o polaco Stanislaw “Stan” Ptitiko.

Roy descobre que, além do chefe estar tendo um caso com sua namorada, Carmen, seus dias estão contados como “cobrador” por dois motivos: o primeiro é ser portador de um câncer de pulmão em estado avançado, o segundo é que Stan, o chefe, quer Roy fora do ramo e, para tanto, arma uma tocaia para o Big Country.

Galveston capa
Capa da edição nacional de Galveston

O que deveria ser uma tocaia para eliminar uma pequena pedra no caminho acaba por se tornar uma pequena chacina reversa. Os assassinos contratados para eliminar Roy são mortos e o matador de aluguel foge…

Só que o serviço de tocaia era uma jogada dupla: apagar Roy e ao mesmo tempo queimar um arquivo que continha informações importantes sobre as operações portuárias de Stan em Nova Orleans.

Na casa do sujeito estavam duas garotas de programa: Vonda e Rocky… Vonda não voltou a ver a luz do dia novamente, mas Rocky, por um motivo diverso, acabou saindo da enrascada toda com vida e ao lado de Roy, acabou entrando num problema maior ainda e numa fuga ao melhor estilo “road movie“.

Fuga essa que Roy empreende em direção a cidade de Galveston, local de seu passado que guardas boas lembranças, sobretudo as de um amor perdido e até hoje latente no coração do surrado “cobrador”.

Durante todo seu processo narrativo, Pizzolatto dá voz ao Big Country. Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Roy, Galveston vai na direção intimista que marca o texto e as obras de Pizzolatto.

Temporalmente dividido entre o futuro de Roy e seu passado na ocasião da fuga, o livro muda rapidamente entre esses dois momentos da vida do matador deixando para o processo narrativo apresentado ao leitor a tarefa de ligar os dois pontos: Roy em fuga, em dúvida constante sobre como “carregar” a jovem Rocky consigo de um lado; do outro um Roy envelhecido, cansado, cheio de cicatrizes e cego de um dos olhos se ocultando entre velhos alcoólatras em Galveston…

Entre esses dois pontos do espaço-tempo o matador busca se reconciliar consigo mesmo, ajudar Rocky e sua irmã Tiffany, reencontrar um amor do passado e sair disso tudo ainda um tanto vivo para aproveitar o tempo que o câncer lhe dará.

Brilhantemente construído passo a passo, o livro nos guia por uma amontoado de escolhas erradas, pressa, medo, urgência por soluções imediatistas, mas que possam garantir algum futuro nos quilômetros de estrada que estão sempre sendo percorridos para lá e para cá.

Mais do que uma história do matador de aluguel que busca a si mesmo e de algum tipo de redenção, Galveston é um obra sobre o tempo e o espaço, é uma obra sobre pessoas apegadas às próprias histórias e, de certa forma, eternamente ligas ao passado histórico de forma irreversível, situação essa que, ali pelas últimas páginas do livro, o leitor terá compreendido em sua totalidade.

A indivisibilidade do ser em relação a um determinado local no espaço que habitou e a um momento no tempo em que viveu…

True Detective Season 2
Mais alto e magro, com cabelos longos, Roy Cody lembra bastante Ray Velcoro da segunda temporada de True Detective

Com um estilo de prosa alternando entre o intimista e o extremamente subjetivo, o texto de Pizzolatto parece um mixe da prosa crua de Cormac McCarthy em Onde os Fracos não tem vez com a prosa intrincada e subjetiva de Antônio Lobo Antunes em Ontem não te vi em Babilônia.

Com a diferença que Pizzolatto se reporta muito a um estilo que ecoa suas predileções Noir misturadas com um tanto de Faroeste moderno que pega bem aquele lance “caipira beira de estrada“, com motéis de passagem e bares country servindo cervejas enquanto toca algum folk de fundo (quer algo mais americano que isso?)

O autor também não se furta de usar sua língua ferina para criticar a sociedade como um todo a partir dos vários tipos sociais que cruzam o caminho do Big Country: os pequenos mafiosos, os caipiras do interior dos EUA, as garotas de programa, as velhas senhoras conservadoras, os maridos machistas e covardes, pais ou padrastos que que estupram suas filhas ou enteadas na ausência de esposas promíscuas e relapsas afogadas por casamentos falidos, viciados em drogas em busca de “só mais uma picada”, os pequenos ladrões que alimentam uma cadeia de negócios enraizadas no American Way of Life.

Que fique claro ao leitor desavisado, Pizzolatto não critica esse ou aquele tipo social, o autor apenas usa o expediente de elencar seus atores de forma micro para disparar contra o macro.

Não é contra a prostituta que a crítica é feita, não é ao caipira brucutu que a crítica é feita; a crítica é feita contra o sistema social que permite que essas pessoas acabem sendo sufocadas por uma estrutura que não permite saídas viáveis, a crítica é contra a estrutura totalizante em volta de todos nós e que na maioria das vezes acaba jogando às margens todos aqueles sem força para superar a correnteza.

Nic Pizzolatto Galveston

Conheci caras assim a vida inteira, caipiras idiotas presos a um estado de permanente ressentimento. Torturam animais pequenos, crescem e dão surras de cinto nos filhos e destroem suas caminhonetes dirigindo bêbados, descobrem Jesus aos quarenta anos e começam a ir à igreja e a sair com prostitutas.
(Roy Cady)

Com uma história simples, porém não simplória, narrada em primeira pessoa alternando entre dois momentos cruciais da vida do protagonista Roy Cady, Pizzolatto não entrega uma obra irrepreensível ou perfeita, mas com absoluta certeza seu fluxo narrativo, além de característico, é inteiramente coeso em si mesmo.

Você percebe que há uma constante na qualidade textual e que ela está sempre guiada pelo fluxo de percepção dos personagens projetando no ambiente suas aflições e deste ambiente refletindo de volta aos personagens que, por sua vez, rebatem tudo isso de para o leitor.

Mais uma vez percebe-se que é grande a habilidade de Pizzolatto em trabalhar tipos comuns, simples e banais a partir de suas próprias angustias. Ainda assim, mesmo sendo pertencentes aos tipos comuns e banais, seus personagens estão cheios de camadas e nuances históricas assim como qualquer ser humano real.

Pizzolato trabalha muitíssimo bem a forma com que seus poucos personagens vão se desenvolvendo e acima de tudo, o modo como vamos nos entrelaçando com suas histórias e os caminhos e escolhas que fizeram.

Lá pelas tantas, próximo do final o autor redige uma sequência de ações que beira a angustia para o leitor: o incerto está diante dos protagonistas, a violência é crua, o fluxo de sensações se adensa com as descrições diretas do que está acontecendo e fica impossível não se afligir e se preocupar com o destino daquelas pessoas fictícias já tão sofridas e penalizadas.

True Detective
Personagens cuja história está acorrentada a um local e a um momento específico no tempo

No fim de tudo, Galveston é uma ode ao fracasso, aos derrotados, aos incapazes de superar suas histórias pregressas e realmente recomeçar suas vidas. Mesmo as poucas boas qualidades dos protagonistas não são motivos para celebração: a beleza da juventude de Rocky não vai durar para sempre, não há futuro na prostituição e nas drogas, Roy está fadado ao temor do câncer a qualquer instante, senão for isso serão os homens de Stan Ptitiko em sua cola, não há futuro.

Mesmo os momentos felizes nas brincadeiras das praias da cidade que dá nome ao romance é perceptível o fracasso inerente ao destino daquelas pessoas. Se há redenção, ela parece que não está nas escolhas feitas de imediato, nem nos planos para o futuro.

Galveston não é um livro perfeito, mas reflete facilmente aquele frescor de primeiro livro, aquele escrito sem tantas amarras e afetações e, por isso mesmo, é um livro fluído, ágil, cheio de uma crueldade pouco planejada e dotado de um ritmo narrativo que parece ser montado quase que de um só fôlego.

Rápido e imersivo, Galveston é uma daquelas obras que poderia ficar à sombra de True Detective, que seria sempre conhecido como “o livro do criador de True Detective“, eu mesmo padeci desse vício ao começar a ler a obra e quando comecei a escrever esta resenha ainda antes de concluir o livro (foi fundamental registrar algumas impressões da leitura sem conhecer o desfecho dela).

No entanto, mesmo percebendo ali no texto tantas recorrências de temas e do estilo narrativo de Pizzolatto, fui fisgado por um livro sensível, por personagens extremamente humanos e por isso mesmo cheio de falhas e escolhas tolas, essa humanização toda foi um ponto alto no material.

Lá pelos meados do livro já havia me desprendido da associação com a obra maior do artistas e percorrer o caminho até Galveston se tornou aquele prazer de conhecer algo novo, mas que mantém aquela certa atmosfera de conhecimento e reconhecimento.

Não vou dizer que vai ser fácil sobressair aos holofotes de True Detective quando se trata do público em geral, mas com certeza absoluta Galveston tem méritos de sobra como romance que mistura uma série de outros estilos literários para se compor ao lado dos temas que são caros ao seu autor.

Que Pizzolatto mantenha essa naturalidade e esse frescor narrativo de seu primeiro livro… aguardemos o que as estradas reservam para autor e personagens.

Galveston | Ficha Técnica e Sinopse

No mesmo dia em que é diagnosticado com câncer no pulmão, o matador de aluguel Roy Cady pressente que o chefe, um agiota e dono de bar que é o mandachuva em Nova Orleans, quer vê-lo morto. Conhecido entre os membros da gangue pelo nada afetuoso apelido de Big Country, por causa do cabelo comprido e das botas de caubói, Roy desconfia de que o serviço de rotina para o qual foi enviado possa ser uma emboscada. E de fato é. Mas consegue inverter os papéis e, após um banho de sangue, escapa ileso.

Além de Roy, só há mais uma pessoa viva no local, uma mulher, e num ato impensado ele aponta uma arma para a cabeça dela e a leva consigo na fuga em direção à cidade de Galveston – uma decisão imprudente e sem volta. A mulher, uma prostituta de 18 anos chamada Rocky, é jovem demais, durona demais, sexy demais – e certamente trará para Roy problemas demais.

Alternando passado e presente, Galveston é um thriller impregnado com o melhor da atmosfera noir. Uma narrativa ágil, permeada de diálogos marcantes e construída com o máximo de tensão, prova do inegável talento literário de Nic Pizzolatto.
(Editora Intrinseca)

  • Formato(s) de venda: livro, e-book
  • Tradução: Alexandre Raposo
  • Páginas: 240
  • Gênero: Ficção
  • Lançamento: 09/06/2015
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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