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A tribo, Perseu & Aline – Carrapato

Não sou muito afeito a frase “este é o melhor momento do mercado de quadrinhos no Brasil”. Disse isso em outro texto quando falei do coletivo Red Door HQs (AQUI), repito aqui mais uma vez com o intuito de reforçar não a frase em si, mas o que ela encerra e ao mesmo tempo nos revela… Pode não ser o melhor momento do mercado, mas sem sombra de dúvidas é um momento onde autores e artistas do traço se lançam, literalmente, com a cara, a coragem e o talento para por neste mesmo mercado seus produtos e criações. E, nisso voltamos a falar de A tribo, Perseu & Aline – Carrpato

Um carrapato, carraça ou chato é um artrópode da ordem dos ácaros, classificado nas famílias Ixodidae ou Argasidae. São ectoparasitas hematófagos, responsáveis pela transmissão de inúmeras doenças. Registros fósseis sugerem sua existência há pelo menos 90 milhões de anos, com mais de 800 tipos.

[dropcap size=small]J[/dropcap]á falamos de Carrapato em outras duas ocasiões (AQUI e AQUI) para apresentar o material e bater um papo com Tony Brandão e Junior Cortizo, respectivamente criador de Perseu & Aline e criador d’A Tribo. Carrapato foi lançado durante o evento Comi Con Experience – CCXP realizado no fim de 2014. Feita a quatro mãos, Carrapato une a dupla Perseu & Aline (Brandão) com o super-grupo A Tribo (Cortizo) numa aventura cheia de ação ao melhor estilo do gênero dos super-heróis, tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro, expondo todo seu contraste por paisagens como a praia de Copacabana e as favelas da cidade.

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 Segundo a dupla, o projeto de juntar seus materiais surgiu de conversas despretensiosas no próprio Facebook, com Brandão já tocando para frente seu P&A, quanto Cortizo estava trabalhando há aproximadamente quatro anos em seu A TriboCarrapato é aquele gibizão de ação valendo. Cheio de bom humor e um gingado tipicamente brasileiro, a HQ é diversão despretensiosa… calma, e se você acha isso algum tipo de ofensa ou diminuição, esfrie a cabeça. A dupla Brandão & Cortizo fizeram o dever de casa direitinho, pois Carrapato é autocontida: começo, meio e fim numa única edição que já nas primeiras páginas se vende, praticamente, como um roteiro/story board de um filmaço de ação nas terras tupiniquins (esse clichê foi meu mesmo).

O Carrapato

Em linhas gerais, Carrapato começa com uma ação planejada pra roubar um estranho carregamento pertencente à empresa Tadashi Tecnológica… fortemente guardado, o comboio acaba sendo surpreendido por um grupo de assalto com armamento extremamente poderoso, sinal de que valia a pena arriscar alto pela carga escoltada. No encalço da ação um helicóptero vem em auxílio ao grupo de assalto e leva consigo o estranho contêiner enquanto um misterioso homem de preto observa tudo de longe ao reportar o ocorrido a alguém pelo celular… depois disso as prais, as ruas e as favelas do Rio de Janeiro jamais serão as mesmas novamente.

Enquanto isso a dupla de irmãos Alex (Perseu) e Aline seguem suas vidas discretamente, ele é mecânico, ela apenas uma garota de 16 anos tentando sair das asas do irmão ciumento e super-protetor que tenta manter em segredo o fato de que ambos são super-seres com habilidades sobre-humanas. Claro, ambos são bonitões, esbeltos, sarados e chamam a atenção por onde passam, afinal de contas, super-seres que moram no Rio de Janeiro devem fazer jus ao título da “cidade maravilhosa”.

Enquanto trocam farpas como todo bom casal de irmãos, o pessoal da Tribo já está em movimentação para saber quem estava por trás do atendado que roubou o carregamento da Tadashi. Cura (Raphael de Oliveira, um dos integrantes da Tribo) monitora Milton, um desses típicos políticos brasileiros que utiliza recursos públicos em benefício próprio, dá festinhas regadas a muita bebida e jovens mulheres lindas enquanto fecha negociatas e “patrocínios” com o crime organizado do Rio de Janeiro. Nessa hora mais uma vez fica evidente a brincadeira dos autores em alfinetar coisas tão típicas de nosso país como a corrupção política e os desmandos de nossa classe de governantes… nada de texto panfletário, os autores jogam a coisa toda para gente num tom bem humorado e até caricato, deixando por conta do leitor fazer por si mesmo suas próprias inferências e reflexões.

A negociação entre Milton e os traficantes é justamente o fornecimento de armamento em troca de dinheiro do tráfico. No entanto, o armamento negociado se trata do carregamento roubado da Tadashi: um armamento extremamente desenvolvido e com altíssimo poder de fogo, o Carrapato do título. Com uma ação similar a do parasita do qual empresta o nome, a arma domina seu hospedeiro e quase simultaneamente dispara esporos de contaminação para os demais bandidos do grupo num processo de simbiose parasitária… o que era para ser uma transação entre político e traficante acaba se tornando, pouco depois, num banho de sangue, especificamente o de Milton e seus capangas…

A ação

Nesse ínterim, Aline conhece Portal (Renata) e Volt (Carolina), ambas integrantes da Tribo, num joguinho de vôlei regado com o melhor da beleza da mulher brasileira, bem como da rivalidade entre elas… No entanto, a brincadeira termina bem e o trio de meninas acaba fazendo amizade enquanto Perseu está em sua oficina, coincidentemente, ajudando Michell (Lynx, integrante da Tribo) com um pequeno problema em seu carrinho “modelo clássico“… daí em diante é que as coisas fogem do controle, pois os traficantes dominados pela simbiose com o Carrapato estão atacando a cidade com poder de fogo assustador devido aos efeitos da arma sobre seus organismos.

A polícia nada pode fazer contra as criaturas disformes e insanas que atacam indiscriminadamente a tudo e a todos em seu caminho. Então o trio de garotas entre a em ação para minimizar os danos e impedir o maior número possível de baixas civis do ataque e impedir o avanço dos contaminados pelo Carrapato.

Com a situação complicando, Cura, Lynx e Perseu chegam para auxiliar no combate trazendo força bruta e poder de fogo para a ação que não poupa estragos em um verdadeiro banho de sangue nas areias da praia de Copacabana. Claro, como todo bom encontro entre personagens com super-poderes, Carrapato não se furta ao bom e velho combate entre os personagens para medir poderes e depois chegarem ao acordo de colaboração em prol do bem comum.

A Revista

Cortizo e Brandão não reeinventam a roda em sua obra, nem há necessidade disso. Autores independetes, a dupla se propõe a fazer em seu Carrapato o bom dever de casa: quadrinhos de super-heróis com ação, ficção, bom humor e belos desenhos. Competentes no texto e na arte, os autores tem o mérito de arriscar um mercado extremamente saturado de super-seres coloridos e estilosos ao bom e velho padrão estético clássico, no entanto, ao simplesmente mudarem as locações americanas e ou os grandes centrões urabanos pelo espaço das praias e das favelas, Cortizo e Brandão levaram seus heróis para o extremo da vida social do Rio de Janeiro e das dicotomias existentes na cidade.

Como falei mais acima, o texto não é panfletário nesse sentido, pelo contrário, as coisas ficam ali na superfície da arte da dupla, cheia de cores vibrantes e quentes, o que só nos reforça o aspecto “solar” das praias do Rio de Janeiro que, por sua vez, dá contraste com as cores mais frias da ação que se dá nas estreitas passagens da favela onde ocerre o confronto final com o Carrapato.

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O roteiro da dupla é limpo, objetivo e direto. Se você está procurando o sentido da vida, do universo e tudo mais em um gibi de arte, lamento, Carrapato não é feito para você. Lá no começo do texto faço questão de deixar claríssimo como o Sol do Rio de Janeiro, que a HQ é uma obra de ação, lembrando muito os filmes do gênero lá na década de 1980 com personagens ao melhor estilo “máquinas de matar”. Tecnicamente percebemos três tomos distintos na sequência de fatos: 1) O encontro dos personagens enquanto algo estranho acontece eu que motivará a colabração deles; 2) Os personagens unem inicialmente as foraças no primeiro combate contra o estranho inimigo, tem problemas entre si, os resolvem e parte para o último ato; 3) O último ato é a caçada final contra o inimigo nos corredores e vielas da favela onde a ação frenética toma conta da narrativa.

Acho que, assim como a ausência de uma apresentação dos personagens, o roteiro foi econômico na abordagem mais psicológica dos mesmos, talvez o número relativamente grande de interações e personalidades tenha impedido um pouco mais de aprofundamento de cada um deles, suas habilidades e contextos mais gerais. Claro, isso não é algo ruim, é bastante comum em histórias de super-grupos que o foco se dê nas interações entre os membros e destes para com a história/narrativa/roteiro. Coisa bem comum em HQs como Liga da Justiça, X-men, Vingadores, Titãs etc; cujo foco é sempre na ação do todo e não mais especificamente nesse ou naquele integrante do grupo, a menos, claro, que seja esse o personagem central da trama em curso.

10486202_562927750482977_1725284311933916416_nCarrapato é leitura de um só fôlego, já que é guiada pela ação. Fluída em sua narrativa visual e com um texto simples, mas com uma cara de coisa bem cotidiana dita por quaisquer pessoas em qualquer cidade brasileira por aí, a HQ é direta em sua história e se não é a reinvenção da roda como disse anteriormente, mas garantiu aos autores e ao leitor um belo exercício de diversão e produção.

Com absoluta certeza o saldo do material é mais que positivo, o livro é bonito, a arte da dupla é limpa, bonita e muito dinâmica tanto nas figuras humanas quanto nos cenários sempre bem detalhados em seus aspectos dados pelo traçado ou pelas cores.

Minha única ressalva ao material é a ausência de um prefácio ou introdução que apresentasse melhor os personagens em seus Status Quo. Acho que isso ajudaria a criar empatia com o público em geral, sobretudo os que não conhecem os heróis brazucas da HQ. Ademais, Carrapato já está tendo seu segundo volume em produção por Cortizo e Brandão que, mais uma vez, vão unir seus personagens para lidar com os desdobramentos e consequências desse primeiro volume, haja vista que os criadores do Carrapato não deram as caras para recuperar seu precioso armamento (não, isso não é um spoiler).

Daqui da redação vamso acompanhar de pertinho a iniciativa de produção do segundo volume da HQ e torcer para que o material venha tão bom quanto este primeiro volume, cujo acabamento está excelente e nivelado com o que há de melhor no mercado de encadernados, por exemplo. Ótima impressão, papel de primeira qualidade no miolo e na capa que, talvez, a meu ver, poderia apenas ser uma papel com gramatura maior e uma orelha com texto complementar aos extras no final da edição. Claro, isso tudo tem consequências diretas sobre o preço final do produto e, quem sabe, futuramente a próxima edição talvez possa utilizar um papel mais forte na capa e um mais em conta no miolo, o que de certo modo seria uma boa compensação no preço e uma alteração pouco drástica ao acabamento.

Alguns poucos erros de digitação aparecem aqui e ali ao longo da revista, mas percebe-se bem que a questão é apenas essa mesmo: erro de digitação, nada que comprometa a qualidade do material ou sua compreensão. Talvez a sobrecarga da produção independete que caiu sobre os autores tenha pesado sobre Brandão e Cortizo nas etapas de revisão, haja vista que a dupla ficou encarregada de ponta a ponta na elaboração do material ainda a tempo de lançá-lo na CCXP 2014. Com absoluta certeza o Know How deste primeiro volume minimizará algo similar futuramente; a experiência de um lançamento como esse sem sombra de dúvidas potencializou a percepção dos autores sobre as etapas de produção além de desenho e texto.

No mais, fica registrado aqui nosso apoio, divulgação e incentivo ao trabalho desses dois autores/artistas brasileiros que, sem sombra de dúvida já enriqueceram nosso mercado com uma ótima obra, tanto em texto quanto em visual/acabamento, provando que na maioria das vezes, um pouco de dedicação e esforço cobre algumas das muitas falhas que nosso mercado impõe aos criadores de conteúdo.

[divider]A Tribo, Perseu & Aline: Carrapato[/divider]

“Separem suas bermudas e cangas,pegue um cantinho na areia e observe um belo dia de sol se transformar num pesadelo carregado de balas,explosões,gore,biquinis e agua de coco na ordem que preferir.”

  • Título: A Tribo, Perseu & Aline: Carrapato
  • Autores: Tony Brandão e Junior Cortizo
  • Páginas: 96 páginas
  • Colorida
  • Valor: R$: 35,00 + frete

Você pode aquirir A Tribo, Perseu & Aline: Carrapato através dos seguintes canais de comunicação:

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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