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PÁTRIA ARMADA

Mãe Gentil?

UM POQUINHO DE HISTORIA

O golpe militar de 1964 no Brasil implantou uma ditadura que duraria por 21 anos.  Foi um período caracterizado pela censura, prática de tortura, supressão de direitos constitucionais, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime ou apenas se mostrasse como uma suposta ameaça.

Os “Anos de Chumbo” foram o período mais repressivo da ditadura militar no Brasil, que se situa entre 1968, com o estabelecimento do AI-5 (Ato Institucional Nº 5) até o final do governo Médici, em março de 1974. A ditatura no Brasil teve sua dissolução em 1985, porém este período ficaria marcado para sempre por seus atos autoritários e extremos contra a liberdade de nossa nação…

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O QUE ACONTECERIA SE?

[dropcap size=small]E[/dropcap] se numa linha temporal diferente da nossa o governo de João Goulart tivesse resistido ao golpe e assim gerado um guerra civil que dividiu o Brasil, onde Legalistas e Federalistas passam a travar uma luta pelo poder e pelo destino de nossa nação? Com esta premissa Pátria Armada une guerra e realidade alternativa, numa visão instigante e cheia de possibilidades, onde seres superpoderosos vivem entre nós, e ao partir de fatos históricos como sustentação para a trama acaba ganhando um aditivo bem alinhado com a atual conjuntura de nosso país. Mesmo que por uma ótica fantástica é sempre bom relembrar momentos nebulosos de nossa história…

O grupo tático formado por indivíduos vindos de diversas partes do país, da o tom clássico, onde os deslocados, os párias, ao serem recrutados e treinados para formar a Tropa de Impacto terão pela frente uma missão maior, serão manipulados como peças em um jogo de xadrez, onde nada parece o que se apresenta inicialmente, o evento que deu origem aos super-seres é tratado de forma velada, quase como se fosse um tabu. Cristina, a protagonista da série, parece não engolir as regras deste jogo, e talvez com sua obstinação acabe descobrindo segredos terríveis nos bastidores desta guerra… Imagem 002 Um ponto que poderia contar negativamente contra Pátria Armada seria o fato de se apostar na temática dos super-heróis, já que temos uma “regra de ouro” antiga no Brasil, onde quadrinhos de super-seres não vingariam por não se adequarem a nossa realidade. Porém se a premissa básica dos quadrinhos é o escapismo, “vergar” a realidade torna-se a missão primordial de qualquer obra que pretenda no mínimo entreter o leitor, não escrever sobre super-heróis no Brasil é um desserviço à imaginação, sendo assim Pátria Armada vence este round!

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O traço de Klebs Jr. é claramente inspirado em Bryan Hitch principalmente The Ultimates /Os Supremos. A arte mantem sua regularidade durante a maior parte da edição, com algumas poucas paginas onde a mesma parece ter sido feita de forma mais corrida, caindo um pouco à qualidade da figura humana, cores e arte final mantém a média no que se propõem. A similaridade com Os Supremos acaba gerando comparações inevitáveis não só com o que se refere ao desenho, mas consequentemente com a trama escrita por Mark Millar. Quem leu Os Supremos vai entender do que estou falando, nada que chegue a comprometer nesta primeira edição, porém para a série como um todo isso vai depender muito de como o autor irá trabalhar o desenrolar da mesma e dosar tais influências…

A trama de Pátria Armada esta prevista para uma minissérie em 3 edições, com isso surge logo uma questão, minisséries tem um número de paginas menor para contar uma história, o autor tem que aproveitar ao extremo as mesmas… Esta primeira edição segue na contra mão disto, acaba mostrando-se superficial demais, com um roteiro entrecortado e por vezes desconexo o que acaba se refletindo na fluidez do mesmo.

A aposta centrada mais no visual gera uma trama muito corrida, chegando a utilizar uma pagina dupla que soa mais como “firula” do que efetivamente uma contribuição para a saga, páginas estas que poderiam explorar subtramas que figuram de forma mais alegórica do que funcional, já que o problema justamente é espaço para uma história que apresenta várias camadas. A apresentação do supergrupo Tropa de Impacto acaba ficando limitada, apenas o Tenente Guari tem sua origem contada.

O roteiro lida com a questão da diversidade apoiada em clichês de nossas características regionais, já que não tem espaço para aprofundar o contexto dos personagens que formam o grupo paramilitar superpoderoso comandado pelo Coronel Venâncio, resumindo-se a sotaques, citação de lugares de origem e coisas do tipo…

Os eventos das bombas químicas utilizadas em 1972, além de matar milhares originariam seres superpoderosos no futuro, esta séria a explicação para tais mutações. O mesmo está envolta em mistério, porém poderia ter sido trabalhado um pouco mais, outro mote legal que pode ficar prejudicado com a falta de espaço nas próximas edições.

Bom humor e tiradas ácidas também fazem parte de Pátria Armada. Políticos, religiosos e mesmo um “break” para o Carnaval e 15 feriados onde a guerra cessa são mostrados de forma que coadunam com nossa autoimagem como nação! A revista apresenta alguns erros de escrita, nada que uma boa revisão e um cuidado redobrado para as demais edições não resolva…

Quanto ao acabamento gráfico de Pátria Armada, a edição é bem cuidada, porém isto gera uma dúvida, ao apostar em uma capa cartonada e em papel couché de boa gramatura para o miolo isso acaba tornando o produto final mais caro. Como atingir novos leitores com um preço que acaba competindo com obras consagradas em banca e com um custo beneficio maior em número de páginas? Fica a questão…

No geral Pátria Armada mostra-se um produto com bastante potencial, tem tudo para agradar principalmente quem procura por um novo universo ou um quadrinho como ponto de partida para se tornar um leitor regular. Uma resposta viável para quem não acredita em quadrinhos de super-heróis no país! O Instituto dos Quadrinhos anunciou outros projetos, vamos torcer para que resistam as intemperes do inóspito protótipo de “mercado” que temos no Brasil

PÁTRIA ARMADA E O MERCADO DE QUADRINHOS NO BRASIL

Edições bem cuidadas não se resumem apenas ao acabamento gráfico, Miracleman da Panini é um exemplo de edição que apostou em papel do miolo e capa mais baratos, e continua sendo um material bem atraente. Com papeis mais acessíveis o custo diminuiu e se reflete em uma maior tiragem que gera custos mais baixos já que é uma mecânica básica de gráficas, sendo assim a redução destes custos refletem no menor preço pela edição o que a torna um material mais competitivo.

A “geração Catarse” de onde Pátria Armada se originou, parece ter ficado deslumbrada com a possibilidade de se gerar materiais graficamente luxuosos, contudo esqueceu que o leitor nem sempre tem como investir em obras caras. Precisa-se dosar este tipo de investimento, quadrinhos em sua origem deveria ser um produto barato de entretenimento, elevar tudo para matérias de luxo ou encadernados dificulta justamente para novos leitores que acredito em muitos casos não gastariam R$15,00 reais num material que ainda esta tentando encontrar seu público e olha que Pátria Armada não é um dos produtos mais caros do Catarse

Pátria Armada em bancas (foto Eloyr Pacheco)
Pátria Armada em bancas (foto Eloyr Pacheco)

Aqui chegamos num ponto de extrema relevância, Pátria Armada, até onde sei foi o único projeto do Catarse que teve em sua fase posterior ao financiamento a meta de ser distribuído em bancas de revista, pois geralmente a grande maioria visa contemplar os apoiadores e num segundo momento escoam sua tiragem em livrarias, comic shops e complementam sua trajetória com vendas de versões digitais de seus projetos.

O fato de se chegar às bancas é fundamental, parafraseando a própria revista o Brasil “é um país de dimensões continentais…”, sendo assim em muitas localidades a banca do “Seu Zé da esquina” ainda é a única “janela” para o leitor ter acesso as suas revistas em quadrinhos. Podemos limar com segurança comic shops e livrarias de muitos cenários Brasil a fora, e as edições digitais meu caro ainda soa como enigma para muitos, principalmente na questão de monetização para o autor e dos aparelhos e aplicativos para leitura.

Sem dúvida a questão da distribuição é o principal problema enfrentado pelo autor nacional há décadas, e o monopólio neste setor piora tudo, isto foi algo abordado com muita propriedade numa excelente e oportuna matéria do site Judão (AQUIe como vimos em nossa matéria aqui no PZ do Dia do Quadrinho Nacional. Mesmo que tudo isso conte negativamente as bancas de revista ainda parecem fazer sentido, afinal foi assim que tive contato com o meu exemplar de Pátria Armada. Talvez junto às comic shops, livrarias e edições digitais as bancas ainda possam ajudar na tão sonhada formação do Mercado Nacional de Quadrinhos. Agora que tal apoiar Pátria Armada, não é você que vive reclamando que não existem quadrinhos nacionais em bancas de revista que ofereçam uma alternativa aos produtos que vem de fora?

Então curta, divulgue, guarde um dinheirinho e compre o seu exemplar leia e discuta com seus amigos, e com isso junte-se ao processo de criação e fortalecimento de um mercado legitimamente brasileiro!   [divider]Ficha Técnica[/divider]

  • Editora: Instituto HQ
  • Pátria Armada # 1
  • Formato: 17 x 26 cm;
  • Número de Páginas: 48;
  • Preço: R$ 15,00;
  • Capa Cartonada, miolo couchê.
  • Site: www.patriaarmada.com.br
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É Bacharel em Psicologia, porém optou por sua grande paixão trabalhando como ilustrador e quadrinhista. É sócio do Pencil Blue Studio e Ponto Zero, podendo assim viver e falar do que gosta: quadrinhos, cinema, séries de TV e literatura.

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