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Entrevista | Justiça Sideral bateu um papo com o Ponto Zero

Dando sequência em nosso especial sobre a webcomics nacional Justiça Sideral (veja o primeiro texto AQUI), batemos um papo com a equipe de produção sobre questões de mercado, profissionalização, tempos digitais, eventos e outras coisas mais sobre o rumo das HQs em nosso país. Divirtam-se.

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PZ: Na ultima década vimos que a produção de quadrinhos esta crescendo cada vez mais, com qualidade profissional e principalmente com ótimos roteiros. Temos quadrinhos nas escolas e em programas do Governo e um aumento na procura de material nacional por parte de nosso mercado editorial.
Vocês acreditam que estamos rumando finalmente para consolidarmos este tão sonhado mercado de produção de quadrinhos brasileiros e que com isso já se possa almejar viver do oficio sem tem que recorrer ao mercado internacional para ser um profissional reconhecido e remunerado?

O panorama nacional é muito interessante no momento. São incontáveis asiniciativas com projetos de qualidade inquestionável. Estive pela primeira vez no FIQ ano passado e fiquei espantado com a quantidade de material independente. Muitos coletivos com stands mais movimentados do que stands de editoras grandes. Viver do ofício ainda é complicado, pois por muita vezes o leitor por desconhecer o material, acaba optando pelo Superman ou pelo Batman. Rsrs Mas já há quem consiga isso, e o público existe. Vemos o alvoroço que é formado cada vez que é anunciada uma nova Graphic MSP.

PZ: Já que optaram pelo formato das webcomics, elas seriam uma solução viável para a consolidação do mercado brasileiro?

Sim. A internet hoje ajuda em um ponto que pega muito pra quem está começando e não tem a assessoria de uma editora, que é a distribuição. Na internet é muito mais fácil chegar até as pessoas. Se o artista tiver um conhecimento razoável sobre as mídias sociais, ele pode atingir públicos que ele talvez nunca conseguiria atingir fisicamente falando.

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PZ: Mesmo sendo um webcomics o projeto de vocês conta com profissionais e etapas de produção. Não sei se podem revelar isso, se sim, como estão fazendo para equacionar a questão de pagamentos da equipe, pois isto sempre é um fato que desanima muitos a entrarem em projetos autorais, já que em sua maioria estes projetos visam uma remuneração futura, quando visam?

Sem revelar valores, eu pago um valor X pelas páginas. Lógico, que não é nada que chegue perto do que os gringos pagam. Inclusive agradeço muito a equipe pelo voto de confiança. Até por isso tivemos que colocar uma periodicidade quinzenal. Desse jeito teria como honrar os compromissos mensais com os profissionais da equipe, sem ir a falência no processo. rsrsrs

PZ: E a pergunta que não quer calar: é possível monetizar projetos de webcomics?

É possível. A idéia inicial seria fornecer a hq de graça para o público que, uma vez que estiver consolidado, trabalharmos toda uma linha de produtos derivados da obra. Isso atrairia investimentos, assim possibilitando a produção de mais hqs. Nós ainda estamos no meio deste processo. Estamos consolidando um público Buscando formas de atrair novos leitores. Ainda temos muito trabalho pela frente.

PZ: As webcomics são um avanço inegável em termos de produção, mas e o mercado impresso, como veem o mesmo e o que podemos esperar para Justiça Sideral neste meio? Um encadernado para livrarias no futuro?

Isso sempre é motivo de longas conversas entre a equipe do projeto. Temos estudado meios de acelerar a produção da revista. Pensando em formas de viabilizar isso. Um fator que atrapalha um bocado isso acontecer, é que praticamente todos os membro da equipe estão em editoras americanas, o que torna a produção um segundo plano. Sabemos que a situação é chata, mas não temos como competir com o que é pago na gringa, então as coisas ficam lentas as vezes. Ainda assim pensamos em talvez ir lançando edições assim que forem sendo concluídas no site, talvez um encadernado. As possibilidades existem mas tudo deve ser bem avaliado antes.

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PZ: Uma alternativa que surgiu a algum tempo para quem quer publicar, inclusive na forma impressa, tem sido as plataformas colaborativas, o Catarse talvez seja mais conhecida. Vocês consideram este meio como um foco do grupo e acreditam que é uma forma eficaz de garantir a viabilização de um projeto, já que excelentes projetos muitas vezes não atingem suas metas?

Ouvi uma pessoa dizendo no Facebook que o Catarse era a maior editora de quadrinhos do Brasil. E partilho desse pensamento. O número de projetos bacanas que têm sido viabilizados na plataforma é impressionante. O site tem possibilitado vários autores a mostrarem seu material, coisa que seria improvável por outros meios. Mas também ficou provado que tem toda uma forma de se trabalhar isso.
É preciso prospectar bastante, ser até meio chato na divulgação, pois os colaboradores não virão facilmente. Até mesmo grandes projetos de artistas conhecidos no mercado sucumbiram pelo caminho. Me lembro de um caso recente, onde o Rod Reis não conseguiu atingir a meta com um baita projeto chamado C.O.W.L (Que acabou saindo fora do país pela Editora Image). Sendo assim, acho que a plataforma é válida, mas o autor deve se preparar bem antes de lançar um projeto nela.

PZ: Como todo autor que se lançou na árdua tarefa de criar um produto em terras tupiniquins, vocês já devem ter se deparado com a fatídica polêmica que seria  validade de se fazer quadrinhos de Super-Heróis em nossa realidade, já que temos a concorrência do material de fora, e a premissa de este ser um gênero tipicamente americano. Vocês discordam desta premissa e acreditam que é possível fazer, sendo assim o que precisa para isto dar certo de uma forma mais comercialmente falando?

É possível, desde que feitas as devidas adaptações. O brasileiro tem um perfil muito diferente dos americanos e por isso creio que o herói nacional deve refletir o Brasil com suas características bem definidas. Nada daquele patriotismo exagerado dos americanos. Estamos em um país mergulhado em escândalos de corrupção. Um país onde a educação e a saúde são precários, sem falar da violência. Mas este também é um lugar de um povo com sorriso fácil e que batalha pra conquistar o pão diário. Então é difícil imaginar um herói nacional sem esse “Jeitinho Brasileiro”.
Não sei se o Justiça Sideral se enquadra aqui neste ponto, pois a HQ tem uma temática mais policial e também não se passa no Brasil. Aliás nem na Terra. rsrs – Mas temos algumas histórias bem bacanas que se enquadram nesse perfil. Uma que posso destacar saiu pela Draco, “Quem Matou João Ninguém?” do Zé Wellington (Que por acaso é o revisor do Justiça Sideral XD), que tem conseguido ótima aceitação do Público.

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PZ: Uma onda crescente no Brasil são a de eventos voltados para o meio de entretenimento nerd / geek e na sua maioria os quadrinhos capitaneiam estes eventos, sendo assim temos só para este ano duas Comic Cons (aqui cabe uma explicação existem outros eventos que usam a terminologia mas estes dois disputam a atenção do púbico, pois prometem trazer uma experiência equivalente aos eventos norte americanos). Como vocês analisam este fenômeno e se os formatos que estão sendo apresentados vão acrescentar algo para o mercado profissional de quadrinhos, pois em sua origem estes eram à base destes eventos?

Os eventos tem atraído bastante atenção, e o clima tem até sido de competição pelo que temos visto na internet. Pessoas debatendo sobre qual a melhor escolha, e os organizadores tentando trazer atrações que sejam de fato impactantes afim de aumentar a importância destes eventos. E acho que serão grandes eventos. Agora se isso vai ajudar em alguma coisa o mercado nacional de quadrinhos, isso ainda é uma incógnita. É fato que muitas pessoas estarão ali pra ver o ator internacional, os grandes stands de estúdios de cinema, o que nos torna coadjuvantes ali. Recentemente vimos um fenômeno interessante nesse sentido na San Diego Comic Con. Alguns artistas e até mesmo editoras anunciando que não voltam mais ao evento pois na opinião deles, os quadrinhos não eram mais o foco principal do evento, e por isso não valia mais o investimento uma vez que não os retornos não são satisfatórios.

PZ: Comic Cons ou FIQ? Qual o formato que realmente se adapta melhor a realidade brasileira? Um pago e com valores bem altos, arrisco dizer que para a maioria dos fãs brasileiros, e principalmente em fase de implementação, buscando condensar 40 anos de historia em suas primeiras edições e outro com entrada gratuita e já comprovado como um sucesso e fazendo parte do calendário de ventos esperado por fãs e profissionais de quadrinhos?

No momento ainda é o FIQ. E me arrisco a dizer que será durante muitos anos ainda. Não tenho dúvidas de que as Comic Cons serão sucesso de público. Mas para o autor nacional o FIQ é especial. É aquele evento que o pessoal conta os dias pra chegar. É o melhor espaço para apresentar seu trabalho, pegar feedbacks com outros autores, além de que o custo benefício é muito maior.

PZ: Qual o recado de vocês para quem esta buscando seu lugar ao sol com um projeto autoral?

Você deve ser o primeiro a acreditar no seu projeto. Faça algo que você queira ler. É claro que devemos levar em conta o público para o qual estamos criando, mas se eu não acreditar no que estou criando, como vou querer vender essa ideia para as outras pessoas? É isso e trabalhar duro. A jornada não é fácil. Épreciso muito esforço e dedicação. No início pode parecer complicado, e de fato é, mas o que vem com dificuldade tem um sabor especial. Cada página que sai é uma pequena vitória. E são essas pequenas vitórias que fazem tudo valer a pena. A revista no final é mera consequência. Rsrs No mais é isso. Um muito obrigado ao Ponto Zero pelo espaço.

Nossa equipe agradece a atenção com que o pessoal do Justiça Sideral respondeu nossas perguntas e continuamos acompanhando o projeto bem de perto, seja na Fanpage do Facebook ou pelo Site Oficial.

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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