O Congresso Futurista: Confuso, mas bonito como devem ser os sonhos…

Nunca gostei muito de resenhar ou analisar filmes, é algo muito complicado, difícil e delicado, em muitos casos é chato mesmo… ainda assim um grande exercício criativo-reflexivo cheio de pequenos prazeres e catarses.

É impossível duas pessoas terem a mesma opinião sobre o mesmo filme e tudo que ele representa: se foi bom, se foi ruim, se fez sorrir, chorar, amar, odiar e ou simplesmente ser um filme qualquer em sua vida e os motivos pelo qual isso é de tal ou qual jeito…

Pois é, O Congresso Futurista é tudo isso, mas acima de tudo é o tipo de filme que faz você lembrar o que ainda tem de mágico nessa indústria, nessas pessoas por trás das câmeras e de como toda essa parafernália tecnológica nos entrega sonhos tão bonitos. Confusos, mas bonito como devem ser os sonhos…

Há duas coisas que é preciso saber sobre o filme antes de algo próximo de uma análise e que me são caros:

1 – O congresso Futurista é livremente inspirado na obra literária The Futurological Congress escrito pelo polonês Stanislaw Lem, o mesmo gênio que escreveu o cultuado Solaris, romance de sci-fi que também virou filme duas vezes. Basta conhecer um pouco da obra de Lem para estar avisado de que o filme a seguir contém fortes doses de alucinógenos imagéticos, distorções da percepção sensorial e alterações drásticas no que convencionamos chamar de realidade… pautas caras ao autor de Solaris.

2 – O filme é dirigido e tem seu roteiro adaptado por Ari Folman, o mesmo diretor e roteirista do excelente Valsa com Bashir de 2008, indicado ao Oscar de melhor animação estrangeira desse ano. O filme fala dos massacres ocorridos na Guerra do Líbano em campos de concentração e usa a estética da animação para, de um lado amenizar a crueldade das imagens originais e por outro lado, dar a tudo isso um aspecto mais onírico e com um dos pés no fluxo da memória recorrente do protagonista do longada animado. Dito isto, adiante…

O diretor Ari Folman
O diretor Ari Folman

O Congresso Futurista é pura metalinguagem, uma das estruturas mais fantásticas que as teorias humanas já criaram: você usa uma coisa para falar da própria coisa. Usa palavras para explicar a palavra, usa livros para dizer as pessoas o que é um livro, usa uma HQ para dizer as pessoas o que é uma HQ, usa um game para dizer aos jogadores o que é um game, a linguagem falando e explicando a si mesma.

O Congresso Futurista é isso, um filme que fala para as pessoas o que é um filme ou como eles podem ser daqui com algum tempo, ou melhor dizendo, como já são.

Exercício sobre o ofício de toda a indústria cinematográfica, O Congresso Futurista nos leva de encontro a Robin Wright (interpretada por Robin Writght) e suas escolhas ruins. De grande estrela direto para a possível decadência, esquecimento e anonimato, tudo isso dito logo de cara, literalmente, na cara de Robin por Al (Harvey Keitel), seu agente em uma das cenas mais bonitas que já vi nos últimos anos.

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Cartaz de divulgação do longa

Nada de cortes bruscos, nada de explosões, nada de câmeras com tremeliques, nada de planos absurdos filmados com a lente rente ao chão, nada, nenhuma firula, nenhum excesso; só há um plano se abrindo a partir do rosto de Robin enquanto ouve da boca de Al verdade seguida de verdade, num belíssimo monólogo sobre como um ator pode estragar tudo que poderia ter sido para a indústria cinematográfica e para o mundo…

E já aí o filme anuncia sua pauta metaliguística, sua crítica e reflexão sobre o mundo mágico do cinema, as ilusões que cria e destrói e de como sonhos e realidade se misturam o tempo todo ali naquela tela mágica e no que existe por trás dela.

Em uma época em que falar e falar bem em filmes está cada vez mais difícil, ver um monologo como o acima citado é um alento. Al verbaliza sem pressa, cadenciando sua fala, ritmando suas frases e nos levando já nessa primeira cena para um mundo de fantasia, constructos e simulacros.

É cinema pensando o fazer cinema. E isso tudo com a câmera se distanciando dos belos olhos de Robin que contempla um horizonte distante, baixo e opressivo como um telhado prestas a ruir sobre sua cabeça… tudo embalado pela voz séria, levemente rouca de Al, a típica voz da razão, o mentor, o cara que quer por as coisas no eixo e ver um final feliz em algum lugar.

Diante de sua última oferta de trabalho, Robin tem de tomar uma difícil decisão: ser eternizada digitalmente e só colher os frutos do uso de sua imagem em todo e qualquer tipo de filme e nunca mais atuar novamente, ou simplesmente se retirar da indústria por ser uma atriz que complicou todos os papéis que aceitou nos último 20/25 anos para que pudesse cuidar de seu filho Aaron (Kodi Smit-McPhee), portador de uma doença degenerativa ao lado da filha Sarah (Sami Gayle).

Na sala de Jeff (Danny Huston), executivo do estúdio Miramount claríssima referência aos estúdios Paramount e Miramax o espectador é inundado por uma torrente de críticas ferinas ao circulo de vícios e virtudes da indústria cinematográfica, da imagem dos atores, agentes, trailers, estúdios e tudo mais em outro conjunto de falas memoráveis em mais um show de atuação, desta vez guiado por Danny Huston, o típico cara escroto e antipático do qual não conseguimos ter um mínimo de empatia claramente assumida, mas de quem sabemos, em nosso mais profundo íntimo, admirar por ser aquele cara que fala o que é preciso falar e vai fazer o que é preciso fazer, afinal de contas é isso o que se espera de alguém ocupando um cargo de EXECUTIVO. Jeff não economiza no sermão e joga a última moeda de esmola para Robin e é pegar ou largar: ou vira um constructo virtual de si mesma para ser usado em infinitos filmes ou vira pó.

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Robin aceita, até porque não há mais outro caminho, não há mais para onde retroceder, o progresso chegou e os grandes estúdios não tem mais que conviver com os problemas de seus atores e suas escolhas ruins. Basta um milhão de pixels multiplicados por mais um milhão de pixels e pronto, todo o brilho, beleza, magia e jovialidade dos grandes astros estará ali, num HD de alguns terabytes para ser usado sempre que necessário. Robin Wright e tudo nela são fósseis.

Como filme-crítica, O Congresso Futurista se apoia num elenco pequeno, porém de muita qualidade. Como obra metalinguistica, o filme precisa disso para ser coerente consigo mesmo, já que é uma película oposta ao esquemão dos blockbusters tipicamente “roliudiano”. Justamente por criticar o excesso de virtualização das obras cinematográficas muito comuns nas últimas décadas, rumar nessa linha oposta não é só uma questão estética, é a alma da própria obra, seu cerne verdadeiro.

Robin, seus dois filhos, Al, Jeff, Dr. Barker (Paul Giamatti) e um elenco de apoio para dublagens sustentam muito bem as falas, as situações e motivações de cada um de seus próprios personagens de acordo com seu tempo de tela (que não é muito longo, diga-se)… ao menos até o ponto em que ainda são gente interpretando gente para o espectador.

Antes da grande mudança na estrutura da obra, o espectador acompanha o passo-a-passo para transformar Robin e suas atuações em um constructo virtual: com seus olhos, seu sorriso, suas lágrimas, suas emoções e tudo que ela pode levar aos seus filmes através de imagens digitalizadas… tudo mostrado em mais uma belíssima cena entre Robin e Al que discursa mais vez para a triz, só que dessa vez no outro espectro do lado paternal que é justamente aquele que afaga e guia os passos de um filho cheio de medos e incertezas diante de uma nova escolha de vida.

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A cena é simples: é o humano dando lugar ao digital, é o real dando lugar ao virtual, é o progresso que remove da tela as pessoas e entrega a essas mesmas pessoas criaturas desprovidas de carne, ossos, sentimentos e todas as limitações que os mesmos trazem consigo.

E aí entra novamente a grande questão sobre o filme: o cinema não é então um mundo virtual cheio de fantasia, ilusões e mentiras? Não é um pergunta difícil de se responder, não quando você simplesmente pode responder a tudo isso através da estética da própria obra, simplesmente saímos do mundo “real” e embarcamos, ao lado de Robin, com uma passagem praticamente só de ida para o Congresso. Saímos do “real” do mesmo jeito que Folman havia nos tira do real de Valsa com Bashir, mas ainda nos deixando ali, entre o que é real, o que é cinema e o que é apenas apuro estético ou escolha poética.

É nesse meio de caminho, após a escolha definitiva de Robin que nos vemos em um futuro não muito distante e ao lado da atriz que se dirige para a sede do dito congresso que dá nome ao filme. Desse ponto em diante a abordagem da obra se mantém no texto de forma sutil, deixando a crítica velada atrás dos holofotes para exercer sobre nós outro tipo de fascínio, dessa vez inteiramente visual.

Enquanto isso,o subtexto se complica numa busca por respostas dentro de um mundo completamente fora de controle. Deixamos os atroes reais para trás e viajamos, literalmente, para o mundo mágico de uma belíssima animação cheia de referências e influências dos mais variados estilos, mas sobretudo lembrando algo psicodélico situado ali em algum ponto dos anos 60/70,lembrando especificamente o excelente trabalho do animador Ralph Bakshi do saudoso O Mundo Proibido.

As duas versões de Robin Wright
As duas versões de Robin Wright

Nesse mundo virtual Robin Wright é uma celebridade, uma grande estrela, uma lenda muito além da sombra que era antes do processo de digitalização de sua “atuação”, só que é um mundo de desenhos animados, as coisas não estão muito ligadas aos aspectos lógicos e tudo é lisérgico, alucinado, e fora de controle.

Folman, como já dito acima, deixa seu texto intocável atrás de alguma cortina ali no primeiro ato de sua obra e a crítica ao grande ato de fazer cinema permanece ali na superfície da coisa, só que nessa segunda etapa esse tema parece estar com menos força e enfoque do que antes, a imagem vem à tona com todo seu poder de encantamento e arrebatamento, com toda a força e na maior parte do processo animado a gente esquece um monte de coisas no processo de contar uma história qualquer e embarca no delírio visual, na fluidez dos traços, na loucura geral que toma conta do mundo do Congresso.

E não é uma nem duas vezes que você se descobrirá, feito uma criança, procurando por celebridades, personagens e outras coisas por todo o cenário coloridíssimo e em constante mutação.

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A busca de Robin se confunde no mundo animado do Congresso se confunde com outras coisas e a obra parece se preocupar mais em continuar nos guiando por um mundo cada vez mais caótico, alucinógeno e sem lógica do que propriamente contar uma história com algum teor reflexivo como a etapa live-action bem pontuou.

Não que não haja uma história em curso nesse mundo de excesso de estímulos, há sim, mas bem, bem complicada, praticamente tornando o filme duas obras completamente independentes entre si.

Isso torna o Congresso um filme ruim? Não, longe disso, mas acho que  nos entregam dois filmes de média-metragem ligados por uma corrente contínua de pequenas situações que ligam a Robin real com a Robin animada. Mas claro, se você procura um filme todo certinho, todo amarradinho e com uma lógica narrativa bem padronizada, aí a coisa muda de figura.

A segunda parte do Congresso é predominantemente exercício de técnica, pura poesia visual, deleita para os olhos, deixando sua trama em segunda ou até mesmo terceiro plano.

Acredito que a grande onda do Congresso seja justamente essa, levar para dentro de si o espectador para uma viagem imersiva em um mundo que só estruturas como o cinema podem criar, mundos que só existem assim, em ambientes de virtualidade e suas vantagens para quem neles embarca.

Claro, ao “abandonar” ali pelas tantas a quase totalidade lógica de sua obra, Folman aposta altíssimo e confia muito nos dados que põe rolando sobre a mesa através de sua estética elaboradíssima.

Confesso sem medo: a primeira coisa que me prendeu ao Congresso foi ser adaptado de uma obra de Lem, de quem li e reli Solaris em toda sua beleza, segundo fui fisgado pelo excelente trabalho visual do filme e toda sua viagem de cores e movimentos… o resto acabou ficando em algum lugar pelo caminho que resolvi voltar para pescar nas muitas outras ocasiões nas quais ainda visitarei o mundo do Congresso.

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Personagens icônicos da cultura pop em geral estão sempre fazendo pequenas aparições no Congresso, como Moby Dick, por exemplo.

É possível expandir essa conversa por longos parágrafos e citar trechos essenciais de ligação entre os dois mundos do filme, mas isso prejudica a experiência direta de vivenciar passo a passo a construção tênue desses elos tão sutis que nos são deixados ao longo das duas versões do mesmo tema.

Até me arrisco dizer que O Congresso quer ser um filme para poucos, mas ainda assim não impede uma grande prazer estético para qualquer um, esteja interessado ou não na crítica contida ali dentro daquela obra, até porque a intenção, pelo que se nota, não é ser só a crítica pela crítica, mas sim o ato de fazer cinema em suas múltiplas facetas futuristas, a metalinguagem que comentamos desde o começo do texto é o “real” sentido de um filme que brinca com esse mesmo “real”.

Por ter me aproximado demais da obra pelo gosto pessoal, não consegui fazer resenha nenhuma, nem posso ir muito adiante no texto e no subtexto da narrativa sob a forte pena de entregar coisas que funcionam apenas a partir da experiência direta.

Quis aqui apenas falar da construção estética de um filme que quer ser filme apenas, sem se furtar do que essa linguagem tem a oferecer em algumas medidas bem sutis. Há atores virtuais? sim há, mas eles ainda não substituíram os atores reais… há efeitos especiais? sim, mas ainda é possível causar emoção com o simples ato de abrir um plano enquanto um monólogo é calmamente recitado… é possível viajar dentro de uma animação sem precisar ter tudo numa sequência lógica de narrativa clássica? sim, sem sombra de dúvidas. E claro, tudo guiado por uma belíssima trilha sonora.

É nesse cenário cheio de poesia visual que o Congresso Futurista é assim, obra que fala de si mesmo e nano tem medo em momento algum de jogar pesado na sua própria desconstrução. Recomendado? Sim, com toda calma, cores, formas e sons que uma viagem pelo mundo virtual pode nos proporcionar diante da tela escura.

Premiações

O Congresso Futurista tem seis premiações em festivais dos quais participou (dados coletados diretamente do IMDB)

Austin Fantastic Fest 2013

Won
Best Actress
Fantastic Features
Robin Wright (actress)
Won
Best Picture
Fantastic Features
Ari Folman (director)
Won
Best Screenplay
Fantastic Features
Ari Folman (writer)

European Film Awards 2013

Won
European Film Award
Best Animated Feature Film
Ari Folman

International Cinephile Society Awards 2014

Won
ICS Award
Best Picture Not Released in 2013

Sitges – Catalonian International Film Festival 2013

Won
José Luis Guarner Critic’s Award
Ari Folman
Nominated
Maria
Best Motion Picture
Ari Folman
The Congress (2013)
The Congress poster Rating: 6.5/10 (10,859 votes)
Director: Ari Folman
Writer: Stanislaw Lem (novel), Ari Folman (adaptation)
Stars: Robin Wright, Harvey Keitel, Jon Hamm, Kodi Smit-McPhee
Runtime: 122 min
Rated: N/A
Genre: Animation, Drama, Sci-Fi
Released: 24 Jul 2014
Plot: An aging, out-of-work actress accepts one last job, though the consequences of her decision affect her in ways she didn't consider.
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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