Especial Cyberpunk: O gênero que mudou os rumos do “futuro” na Sci-fi

Entre o fim do século XIX e o começo dos anos de 1980, a dita Scince Fiction Hard tomou conta do cenário cultural praticamente sozinha: filmes, livros, séries de tv, hqs, tudo tinha umas gotas do DNA da Sci-fi Hard

Gente como Julio Verne (20 mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra), H.G Wells (A ilha do Dr. Moreu; A guerra dos Mundos; A máquina do tempo), Edgar Rice-Burroughs (saga de John Carter de Marte e Tarzan) e suas visões de ciência e futuro extremamente ligados ao seu próprio tempo de um lado e extremamente extrapolativas de outro.

Tais nomes apresentaram ao leitor invenções e invencionices absurdas aliadas a uma visão bem fantasiosa desse futuro tão longínquo que aguardava a humanidade… ou nem tão longe assim… ali por volta de 1910 o ano de 2010 tinha cidades nos céus, no fundo dos oceanos, carros voadores e outras coisas desse nível há apenas cem anos no futuro.

O que se seguiu a esses primeiros desbravadores foi outro boom de Sci-fi Hard ali nos meados do mesmo século XX com uma leva de escritores que marcaram toda a cultura pop com suas histórias fantásticas de futuros gloriosos para humanidade que ganhava as estrelas em suas naves interplanetárias, tecnologias ligadas ao potencial nuclear e ao contato com grandes e complexas civilizações alienígenas.

sci-fi hard obras

Os nomes de ponta dessa nova e promissora safra eram encabeçados por gente como Isaac Asimov (Eu, robô; Saga da Fundação; Os próprios deuses; o Fim da Eternidade), Arthur C. Clarke (Tetralogia Rama; O fim da Infância; A cidade e as estrelas; 2001: uma odisseia no espaço), Philip K. Dick (O caçador de androides; Valis; O home do Castelo alto), Stanislaw Lem (Solaris), Ursula K. Leguin (A mão esquerda da escuridão), Frank Herbert (saga Duna), Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), Ray Bradburry (Fahrenheit 451, Crônicas Marcianas), George Orwell (1984; Revolução dos Bichos), Marion Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon e a série Darkover) entre outros nomes de peso que foram surgindo depois como, por exemplo, o promissor Orson Scott-Card (O jogo do exterminador, Orador dos Mortos, Xenocídio, Filhos da Mente).

O terreno coberto por esses nomes ia do ensaio científico passando pelo conto, novela, artigos acadêmicos e claro, as grandes trilogias/tetralogias/sagas no estilo Space Opera  como Duna e Fundação, por exemplo, que obviamente inspiraram e influenciaram obras como Star Trek e Star Wars.

Coisas como viagens interplanetárias, grandes impérios galácticos, robôs, formas de vida alienígenas incompreensíveis, super-computadores, guerras de dimensões descomunais, profecias e messias vislumbrados para salvar o destino da humanidade, sociedades e estruturas urbanas utópicas que beiravam a perfeição.

Esses eram alguns dos motes mais comuns e frequentes na obra de praticamente todos os escritores que começaram ali pelos anos de 1930 e foram até os primeiros anos da década de 1980.

Cyberpunk | Do it yourself

Mas o mundo mudou muito, as pessoas mudaram e o movimento punk inglês ganhava força e voz como manifestação cultura e estética na Inglaterra da década de 1970. A música punk atravessou o oceano e despontou no continente americano como um todo e influenciou artística e visualmente toda uma geração de jovens ao redor do mundo com seu lema “Do it yourself”.

Não tardou para que essa influência de atitude e revolta sociocultural atingisse as esferas da Literatura que, senhora esperta, tratou de sintonizar com o Zeitgeist punk em voga.

Cyberpunk
Concept Art sobre a temática Cyberpunk (clique e veja o original no Deviant Art)

Com todo o background da revolta social, do visual e das atitudes agressivas dos punks “detonando” com tudo o tempo todo, coube a uma nova geração de jovens escritores sintonizar a nova Sci-fi que dava seus primeiros passos às beiras do século que se aproximava.

Então foi a trupe William Gibson, Bruce Sterling, Rudy Rucker, Lewis Shiner e John Shirley que transformou o futuro glorioso da humanidade em um futuro sujo, detonado, dominado por mega-corporações multinacionais, cyborgs, realidades virtuais e punks cyberneticos que estavam em constante luta contra o sistema.

Nascia o Cyberpunk como movimento estético-literário, um sub-gênero da Sci-fi que teve tanta força que depois de seu surgimento a Sci-fi “aterrizou” das estrelas e firmou, definitivamente, seus pés entre nós, bem ali com os primeiros passos da cybercultura.

Cyberpunk | E veio o Neuromancer

Cyberpunk Neuromancer
A emblemática capa da edição de 25 anos de Neuromancer pela editora Aleph (clique para comprar no site da editora)

Em 1984 o mundo recebia de braços abertos o lançamento de Neuromancer, primeiro romance da estética literária Cyberpunk. Escrito pelo americano William Gibson, Neuromancer integra a chamada trilogia do Sprawl junto com Count Zero e Monalisa Overdrive, respectivamente segundo e terceiro volume da saga (ambos publicados no Brasil pela Editora Aleph).

A chegada de Neuromancer é considerada o marco inicial do Cyberpunk, pois é a obra que traz praticamente todos os preceitos e conceitos necessários para que uma obra seja pertencente à estética do subgênero.

Em 1986, para completar definitivamente a existência do Cyberpunk, é lançamento a coletânea Mirrorshades reunindo obras dos diversos autores integrantes do movimento, dando assim um caráter geral do que é algo cyberpunk e do que cada autor tinha em mente sobre seus próprios universos fechados, mas no geral as premissa se assimilavam muito com o universo de Neuromancer ou de outras obras dominantes entre Gibson e Sterling, talvez os dois autores mais conhecidos do período.

Era comum das obras cyberpunk a presença dos hackers, um mundo extremamente globalizado e “miscigenado” culturalmente, a presença de algum tipo de realidade virtual ou cyberespaço acessível por meio de algum tipo de computador ou dispositivo eletrônico, cyborgs e mercenários eram também extremamente comuns ao lado ou contra mega-corporações que exerciam seu poder e influência tanto no mundo real quanto no virtual, as cidades ou espaços urbanos eram extremamente segregacionistas, com áreas urbanas modernas contrapondo com outros espaços sucateiros e periféricos.

Cyberpunk | Uma ideia, muitas visões

A tônica dos universos do Cyberpunk (na verdade cada autor tinha sua própria visão geral da coisa toda) era marcada profundamente pelo mantra “High-Low”, um tipo de simplificação para a realidade do “High Technology vs Low Way of Life”, onde havia grande desenvolvimento tecnológico em muitas camadas sociais, enquanto que na maioria da sociedade o mundo era sucateado e as condições de vida extremamente difíceis.

Cyberpunk William Gibson
William Gibson

Era comum também a presença das Inteligências Artificiais ou programas de computador extremamente avançados para atuar na gestão do cyberespaço. Por serem todos americanos, os autores cyberpunks situavam boa parte de suas narrativas em território também americano, mostrando um EUA muito agressivo socialmente, cheio de tribos urbanas em constante mudança e por vezes em conflito.

O espaço urbano comumente era retratado alternando entre grandes construções modernas funcionando como subdivisões da cidade ou como bairros inteiros sendo autônomos em diversos sentidos.

Idoru, também de Gibson, apresenta, por exemplo, um imensa ponte que comportava toda uma estrutura urbana encrava em suas entranhas. O próprio Sprwal era composto por uma imensa conurbação entre todo o território entre Boston e Atlanta (BAMA – Boston Atlanta Metropolitan Axis, em português é o Eixo Metropolitano Boston Atlanta).

Tudo isso estava situado em um tempo pouco especificado no século XXI… quase uma salvaguarda para a longevidade das obras, sem nenhum critério ou pretensão de previsões futuristas.

Essa importância do espaço urbano é extremamente comum das obras cyberpunks, pois é nele que se dá a maior parte da ação, disputas territoriais por gangues de rua, tráfico de todo tipo, mas sobretudo de informação, pirataria de dados constantes, disputas corporativas por pesquisas e até mesmo pessoas influentes, grande presença e influência da cultura nipônica e claro, cyborgs de todo tipo são constantes, sobretudo na obra de Gibson que usa de forma recorrente todos esses elementos.

O termo Cyberpunk ou Ciberpunk foi cunhado por Bruce Bethke, amigo de Gibson cujo computador havia sido alvo de ataques de hackers a quem ele chamou de cyberpunks, numa analogia entre o ato cibernética e o ato punk de detonar com tudo. Não poderia ter sido melhor.

A premissa geral do subgênero ganhou força em outras mídias como as Hqs e o cinema, nos quais houve muitos desdobramentos além da Literatura, bem como a criação de novos conceitos até o surgimento de pós-Cyberpunk nos últimos anos do século XX com obras como a trilogia Matrix que copia na cara dura o termo utilizado por Gibson para se referir ao Cyberespaço, o mundo Virtual de Neuromancer.

Não é um consenso, mas apenas algum tipo de “acordo de cavalheiros” que Nevasca, de Neal Stephenson (leia nossa resenha AQUI), lançado em 1992 nos EUA, é um dos últimos romances realmente Cyberpunk e que, após isso, o subgênero já estava diluído na cultura de forma geral e era amplamente utilizado de forma mais fragmentária tanto em seus conceitos primordiais quanto em sua execução.

Obras como Akira de Katsuhiro Otomo e o Ghost in the Shell de Masamune Shirow são exemplos de influência direta do estilo, mas que flertam com temáticas mais abrangentes e gerais, flertando com a filosofia, por exemplo. O próprio cinema se encarregou de beber na fonte das obras de Gibson com filmes como Robocop e a já citada trilogia Matrix, dando a impressão geral que o Cyberpunk, como gênero, durou mais que a metade da década de 1990.

Mas independente de ter cumprido seu papel no tempo, a proposta da Literatura Sci-fi Cyberpunk ecoa na cybercultura do século XXI na forma de um pós-cyberpunk, este por sua vez já diferenciado e com um DNA mais híbrido e sintonizado com as realidades virtuais da web do que com o movimento punk setentista.

O advento da web acabou por diferenciar e muito o que se fazia no Cyberspaço de obras como Neuromancer do que se faz hoje em obras que utilizam essa premissa de realidade vitual, tornando assim o dito pós-Cyberpunk em algo quase que completamente distinto de seu pai nascido em 1984. Diferente sim, mas ainda com DNA em comum.

Cyberpunk Neuromancer

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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