Planetary e a história do século XX

De tempos em tempos algo realmente muito bom surge no mercado de quadrinhos para dar uma sacudida, ou ao menos, dar uma boa empolgada nos fãs e autores, algo que nos relembre de que há um universo fantástico, rico e empolgante por trás de desenhos de personagens igualmente fantásticos, balões de falas coloridos e em cenários fictícios e cheios de coisas impossíveis para o mundo real no qual vivemos e; acima de tudo, com um conteúdo quase enciclopédico para o nerd moderno.

Planetary-capaFoi assim com Watchmen, Cavaleiro das Trevas, Camelot 3000, O Reino do amanhã, A queda de Murdock, Crise nas infinitas Terras, Batman Ano Um, A piada Mortal, V de Vingança, a última caçada de Kraven e tantas outras obras que, além de dialogar com seu espaço-tempo, acabam por transcender essa situação aparentemente estanque que assola muitas obras.

Mas pegue essas mesmas obras e dê uma relida a qualquer época e está tu lá firme e forte, tão atual ou divertido, ou interessante quanto era na ocasião de lançamento. Assim chegamos até Planetary de Warren Ellis e John Cassaday. Espetacular a qualquer instante que você a pegue e releia.

Planetary é uma dessas obras que dividem o mercado padrão das Hqs, chega na surdina, começa quietinha e com uma história maluca que vai crescendo e crescendo até se revelar algo realmente estupendo para quem lê cada texto escrito por Ellis e para quem aprecia cada quadro lindamente ilustrado por Cassaday e magicamente colorido por Laura Depuy.

Com uma premissa básica de acompanhar os arqueólogos do impossível, a dupla Ellis e Cassaday vão na verdade nos guiando pela história fantástica da cultura pop do século XX, começando lá pelos meados da primeira década; os autores vão passando pelas obras célebres de escritores, desenhistas e personagens que, uns 99% dos nerds e fãs de cultura pop devem, obrigatoriamente, conhecer ou antes ou após a leitura de Planetary.

Diferente de tudo que estava em curso no mercado de Hqs nos fins da década de 1990 (a série fez sua estreia oficial em 1999 pelo Wildstorm, depois passou para a Dc Comics da ocasião de aquisição do estúdio), Planetary é cheio de vida, de maravilhas, de ficção pura, fantástica, com magia, com desprendimento, com abusurdos e acima de tudo, com honestidade de se assumir assim, sem medo de ser uma obra que flerta com o apreço dos autores pelo que fazem, além, é claro, de ser uma verdadeira ode ao que de melhor foi produzido no gênero de super-heróis durante 100 anos de cultura pop.

Planetary é uma lição de boa narrativa e de conhecimento cultural, um verdadeiro roteiro de leituras a se escavar e fuçar para compreender como o século passado é rico em imaginação.

Elijah, Jakita e o Bateirista
Elijah, Jakita e o Bateirista

Com uma narrativa envolta em mistérios que vão se revelando a cada edição e outros cada vez mais complexos, conhecemos o trio dos arqueólogos do impossível: Jakita Wagner, Elijah Snow e o Baterista, ambos pertencentes a mega-organização que dá título a série e que está espalhada pelo planeta para investigar os mais estranhos fenômenos e situações.

Uma ilha com monstros gigantes no molde dos tokusatsus japoneses ao melhor estilo Godzilla, uma área de experimentos militares com fantasmas e formigas gigantes, um fantasma justiceiro caçando criminosos nas ruas de Hong Kong, uma gigantesca espaço-nave cilíndrica numa clara alusão à Rama de Arthur C. Clarke, um grupo de super-vilões que adquire poderes após um acidente no espaço em homenagem ao Quarteto Fantástico de Lee e Kirby, filmes de artes marciais de todo tipo, o Tarzan de Edgar Rice-Burroughs, a ida à Lua de H. G Wells com astronautas sendo levados à órbita por uma imenso “canhão, o Drácula de Bram Stoker, o Sombra, Doc Savage, o Cavaleiro Solitário, James Bond, o selo Vertigo da Dc e tantos outros personagens e histórias que, obviamente, compõem a própria historia da cultura pop que nasce com o século XX.

normal_planetary-1-coverNão à toa, um dos fenômenos presentes nas muitas viagens de Planetary se refere aos bebês nascidos no primeiro dia do ano de 1900. Essas crianças são dotadas de poderes especiais, não envelhecem e são testemunhas de situações adversas na história humana.

Elijah Snow é uma dessas crianças ao lado de Janny Spark, do Authority, e tantas outras espalhadas pelo universo Wildstorm, estúdio que publicou Planetary na época (depois adquirido pela Dc como dito anteriormente). Exatamente por essas extraordinárias habilidades é que Elijah, o Sr. Snow, integra o Planetary ao lado de Jakita e do Baterista para, além de desvendar a história oculta dos super-heróis, combater a organização dos Quatro, uma homenagem dos autores ao Quarteto Fantástico de Lee e Kirby, como citado acima.

Tanto o Planetary quanto os Quatro correm para compreender e exercer controle dos muitos mistérios de nosso mundo, com a diferença que o propósito dos Quatro é domínio planetário e tirar de circulação o misterioso Quarto Homem, a mente por trás do Planetary.

Além da bela história, a série possui uma coletânea de capas invejável, cada uma delas dialogando com o tema da história explorada pelos arqueólogos do impossível: se na história a narrativa flerta com a estética noir, a capa da edição parece-se com um cartaz de filme do estilo, se a narrativa tem um personagem como o Cavaleiro Solitário, então a capa é como uma das histórias de bang-bang, se a narrativa é sobre uma gigantesca espaço-nave de formato cilídrico na órbita da Terra, então a capa é uma homenagem aos livros de sci-fi hard das décadas de 50, 60 e 70, e assim sucessivamente; tudo ilustrado e colorido com maestria pela dupla Cassaday e Depuy. Acredito que o trabalho conceitual das capas de Planetary só não supera os da série Sandman criadas por Dave McKean.

Como processo narrativo Planetary fecha-se em cada edição, mas deixando pontas soltas o tempo todo de modo que, mesmo concluindo uma linha de ação em uma única edição, algo fica aberto para adiante, mostrando o grupo indo de ponto a ponto do planeta para descobrir ou interagir com os muitos eventos originários de fontes desconhecidas, mas que no geral, se vinculam a um estranho “floco de neve multidimensional ” presente em múltiplos planos e realidades, “floco” esse que é, na verdade, uma representação do próprio multiverso. Cada edição aborda um tema da cultura pop que se liga com o desenvolvimento do próprio universo criado por Ellis e no meio disso tudo vamos também conhecendo a história particular de Elijah, Jakita e do Baterista de forma bem sutil e conectada com tudo ao redor do trio.

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Capa que homenageia o clássico “Encontro com Rama” de Arthur C. Clarke

A única coisa que rivaliza com o conteúdo de Planetary e sua inegável qualidade foram as complicações para finalizar a obra, inicialmente pensada como bimestral e em 24 edições, o que no final resultou em 27 edições, sendo a última publicada no ano de 2009 como epílogo. Aqui no Brasil a publicação da série também foi bem conturbada.

A primeira incursão de Planetary foi dividindo espaço com Authority  em quatro edições publicadas pela Pandora Books. Algum tempo depois Planetary volta em duas edições encadernadas pela editora Devir com melhor qualidade e mais conteúdo do que a Pandora havia publicado anteriormente, no entanto sem dar continuidade ao restante do conteúdo, muito provavelmente por conta dos atrasos na publicação americana, então Planetary volta a ficar para escanteio no mercado nacional até a incursão da saudosa Pixel Media e sua Pixel Magazine que tinha em seu mix a continuidade do material não publicado pelas editoras anteriores.

Ainda assim a Pixel Media se retira do mercado poucos após publicar seu primeiro encadernado de Planetary (Deixando o século 20) que veio após a série regular ser concluída no mix da Pixel Magazine, mas sem a edição do epílogo, até então em fase de conclusão nos EUA e que finalmente será publicada aqui pela primeira vez.

Bom, falei de tudo isso, me derreti em elogios à obra e deve ter ficado claro, sou fã do trabalho dos verdadeiros arqueólogos do impossível que foram Ellis, Cassaday e Depuy na execução de Planetary, por isso mesmo é que recebi com satisfação a notícia de que a editora Panini iria relançar a série na forma de encadernados de banca com capa cartonada e em quatro volumes (formato que a editora publicou Ex-machina, Y – O último homem e recentemente Sweet Tooth e Inescrito); dessa vez o epílogo referido acima da edição 27 vem no pacote dos encadernados tornando essa a coleção mais completa de Planetary lançado em território nacional. Ou seja, item obrigatório em uma coleção minimamente decente.

Não quis me ater muito e dar detalhes de trama por dois motivos: muitos já leram a série em suas muitas encarnações por aqui, segundo, outros não leram ainda, então para não ser repetitivo por um lado e estraga-prazeres do outro, achei de bom tom não abordar certos detalhes da trama mais geral e menos ainda detalhada, já que a oportunidade de presenciar tudo novamente ou pela primeira vez está aí batendo à nossa parta, corramos em sucumbir à tentação que é ter mais uma edição de Planetary na estante com toda pompa e circunstância que essa obra merece (ok, ainda não é uma edição definitiva, mas já é bem melhor que a bagunça que é ter tudo picotado em edições sem uniformidade e de editoras diferentes).

Planetary vale mais esse investimento em prol de ter o material completo e organizado, afinal de contas, não é sempre que alguém consegue homenagear com tanta competência a história da cultura por de forma tão elegante e apaixonada. Além de todos os méritos presentes em Planetary como obra de gênero, vale como enciclopédia nerd para aqueles que, assim como trio de arqueólogos do impossível, quer desbravar a história de um século cheio de maravilhas, aventuras e conceitos fantásticos.

  • P.S.: Planetary teve também 3 edições especiais de Crossover, uma entre o grupo e Batman, entre o grupo e uma versão alternativa da Liga da Justiça e entre o grupo e o Authority. Se esse material vem em algum tipo de especial ou edição extra depois, só o tempo dirá.

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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