A grande Ideia de matar um grande personagem…

Um dia, em algum cantinho da DC Comics, a segunda maior empresa de HQs dos EUA, um grupo de escritores, desenhistas e editores estava numa daquelas reuniões para decidir o futuro da vida, do universo e tudo mais.

Então alguém teve a brilhante idéia de matar o maior ícone das HQs, o herói supremo, o pai de todos eles: O invencível Super-Homem iria bater as botas, iria para a terra dos pés juntos e todas essas coisas… (sim, eu sou do tempo que ele ainda era chamado de Super-Homem, e daí?)

Tá, não foi bem assim, mas foi quase isso que aconteceu. A brilhante idéia foi com certeza uma decisão editorial envolvendo um grupo criativo e que não surgiu do dia para noite, apesar de muita coisa no decorrer da saga ter essa aparência de “feito as três porradas”.

Não que tenha sido ruim na época, eu, com meus 13 anos me diverti muito com a aventura e até achei uma das melhores histórias de todos os tempos daquele tempo. Mas isso é outra história.

A saga basicamente reuniu os títulos que o herói tinha na época, somados com os da Liga da Justiça, formando assim uma saga relativamente extensa e envolvendo vários personagens importantes da DC e outros nem tanto. Entre mortos e feridos (adoro essas possibilidades de trocadilhos), a saga se saiu bem no que se propunha a entregar ao leitor: o Super-Homem morreu após um combate feroz com a criatura chamada Apocalipse (Doomsday no original), uma criatura extremamente poderosa e completamente insana e desprovida de sentimentos e raciocínio lógico, ou seja, uma verdadeira máquina de destruição.

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Série O Retorno em três edições.

O mundo se comoveu, a história rendeu matérias em jornais de renome pelo mundo todo, jornais impressos e televisos, que fique claro, nessa época a internet não era o que você conhece (sim, houve uma época em que as pessoas viviam bem sem a internet).

Isso em meados de 1993-1994 era algo fantástico, pois até então, o único herói do circuito comercial a morrer tinha sido o Capitão Marvel, um alienígena da raça Kree e que era integrante do grupo Vingadores da Marvel Comics, entretanto seu apelo com o público não era o mesmo do azulão da DC.

Depois da morte se sucederam os desdobramentos e consequências da saga, com funeral, homenagens e tudo mais… e em seguida, mais desdobramentos. O corpo do herói desaparece de seu mausoléu.

Quatro novos heróis alegando ser o Super aparecem em Metrópolis e toma mais saga, ninguém sabe quem é o verdadeiro e toma mais saga. Lembre-se, isso é na década de 90… Entre mortos e feridos o herói ressuscita, assume novamente seu lugar ao Sol e toma-lhe mais desdobramentos.

Resumo da ópera, estava fundada a nova modinha salvadora da industria das HQs. Personagem vai mal em vendas? Solução? Mata o cara, faz uma saga em torno disso envolvendo um substituto, uma conspiração e no final ele volta triunfal ao seu posto. Genial…

Desde então tem sido um tal de mata e ressuscita sem fim nas HQs que sucederam a morte do grande Super-Homem… oras, se ele que é quase um deus tombou em combate, venceu a morte e voltou, que prova maior de heroísmo para os demais do que passar por tormento semelhante? Daí em diante todo mundo dá uma morridinha de leve, é substituído em turno integral com direito a vale alimentação até que o original volte e assuma seu lugar aposentando os substitutos do fardo de ser um grande herói.

Atualmente a lista é grande, mas não vale a pena aqui mencionar quem já morreu entre heróis e vilões, basta você pensar que é grande, muuuuuuito graaaaaaaaande a lista em questão. Mas entre os figurões tem Reed Richards do Quarteto Fantástico, Magneto arquinimigo dos X-Men, Professor Xavier dos X-men, Colossus, Psyloke, Ciclope (ambos dos X-Men também), o deus trovão Thor, Nuclear da Liga da Justiça, Batman(é, ele mesmo), Jason Todd (o segundo Robin), Metamorfo (Liga da Justiça), Capitão América(é, ele mesmo também…), Norman Osborn (Duende Verde), Tia May (a tia do Peter Parker, seus desmemoriados), Dr. Destino (inimigo jurado do Quarteto Fatástico), o Anjo (ou Arcanjo, dos X-Men… eita povo pra morrer), a ninja Elektra, Hal Jordan (um dos mais famosos e poderosos Lanternas Verdes)… e mais um catatau de gente que eu nem me lembro se realmente morreu mesmo, já que estão por aí e eu não sei como se deu o processo de ressurreição.

O precursor Capitão Marvel, Steve Rogers e Colossus já foram dessa para melhor também
O precursor Capitão Marvel, Steve Rogers e Colossus já foram dessa para melhor também

Matar e trazer de volta nem é o problema geral disso tudo, o ruim mesmo é que essas mortes são sempre alardeadas como sendo de grande impacto para o Universo do qual o personagem faz parte, que vai trazer uma grande mudança e tudo mais e no final de tudo o cara volta, não tem mudança impactante nenhuma e todo mundo, todo mundo mesmo, já sabe que quem morre em quadrinhos vai inevitavelmente voltar.

Ou seja, a grande idéia, o grande recurso impactante salvador de vidas é algo manjado, chato, sem graça, batido, repetitivo e previsível há pelo menos uns 10 anos… Mas a Marvel e a DC parecem que não sabem disso. Ou não querem dar o braço a torcer para o fato de que esse recurso já perdeu qualquer possibilidade de impacto ou novidade entre os leitores que já enjoaram o fato de que alguém morre e meses depois volta e a vida segue numa boa…

O assunto é manjado, eu sei, todo mundo já reclamou disso, eu sei também, mas não custa nada engrossar a fila dos chatos de plantão. Afinal de contas eu estava lá quando o Super morreu e vi isso se tornar uma epidemia dessas que chegam para ficar, igual as mega-sagas que redefinem tudo através de sua incrível capacidade de juntar em algumas páginas o máximo possível de personagens e explosões.

Força Tio Ben, estamos na torcida para que o senhor continue morto…

Diante disso eu me indago por que tanta gente ainda está morrendo por aí em tantas edições ruins? Por que isso ainda é usado como algo de impacto? E por que a reação dos leitores parece ser completamente ignorada pela grande indústria?

Só sei que até o momento em que estas linhas eram redigidas o único ser capaz de morrer e assim permanecer até os dias de hoje é o nobre e abnegado tio Ben (tio do Peter Parker, vulgo Homem-Aranha).

Se isso vai mudar eu não faço idéia, mas de uma coisa eu sei bem, o tio do Aranha é persistente e muito, muito persistente. Merece respeito o homem.

De minha parte continuo na torcida para que permaneça morto… caso contrário esqueçam aquele papo de grandes poderes e grandes responsabilidades…

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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