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Entrevistamos o Gonzo, Bêbado Gonzo

Com o sucesso da campanha para viabilizar a primeira tiragem de seu livro “Bêbado Gonzo e outras histórias”, o jornalista Anderson Araújo tem marcado presença em entrevistas para os grandes veículos de comunicação da cidade. Sem tempo para agendar um papo com a equipe Ponto Zero, Anderson autorizou o Bêbado Gonzo a falar conosco sobre o livro.

390014_394253813986362_931564311_nPZ: E então, Gonzo, você se transformou de alter-ego de um blog em protagonista de um livro, é isso? Como foi essa transposição para outra linguagem?

Essa passagem não foi muito fácil. Tem todo aquele ritual que o livro exige. E o livro não é só escrever. Tem a formatação, tem a seleção de textos, tem o projeto gráfico e, sobretudo, a vontade de que ele seja um livro de verdade e vencer a autocrítica de que os textos são nobres para que sejam impressos. Sair da Internet para o papel não é tarefa fácil. Tanto não é que estamos aqui nessa mendicância virtual do crowdfunding, com uma cara de pau incrível para pedir o apoios (e conseguimos com certa insistência e sem perder a ternura). Quando a mim, não posso me chamar de protagonista. Ganhei um nome estranho, emprestei ao blog e ao livro e agora estou no livro como um conto ao lado de outros 24 textos. Vocês poderão conferir.

PZ: Como voce surgiu na vida do Anderson?

O cara que escreve a orelha do livro, o jornalista Paulo Silber, diz que o Bêbado Gonzo se apoderou do Anderson jornalista. O ano era 2009 e o Anderson andava meio na geladeira do jornal em que trabalhava, sem muito estímulo e preso numa rotina maluca de dois empregos, como repórter e assessor. Ele já escrevia no blog do Paulo Nazareno (quandoabaratavoa.blogspot.com) com um pseudônimo estranhíssimo, Sepúlveda Gerardo. Naquele ano, ele resolveu criar o seu próprio blog. O nome vem de duas influências fortes na época: Paulinho da Viola, com seu Beba do Samba, e o Novo Jornalismo, com grandes caras como o Hunter Thompson, Capote e, principalmente, Gay Talese. Do acanhado Anderson na redação, surgiu uma personalidade meio abusada, com sinceridade mais do que aflorada e ironia na ponta da língua para cada observação posta nos textos. A timidez de se esconder atrás de um pseudônimo esquisito deu lugar a vontade de fazer as pessoas rirem e se comoverem as postagens no blog. O Anderson foi perdendo terreno e sendo contaminado pelo Bêbado Gonzo, um simbionte textual, e hoje somos a mesma pessoa até que o nome Bêbado Gonzo se esvazie e venham novos projetos, como é da vontade do dono do blog (que diz por ai que está escrevendo outro livro, um romance).

PZ: Os textos publicados no blog carregam, muitas das vezes, as cores e os sotaques da cidade de Belém. Até que ponto podemos inferir a presença de elementos autobiográficos aí?

Os textos do blog tem muito da vida do Anderson. A Pedreira, as andanças por Belém, as bebedeiras, as mulheres que ele conheceu, as situações de perrengue por qual passou e de tudo que ouviu. Mas não se pode concluir que é tudo autobiográfico. As histórias são também mentiras bem contadas, como as que se conta numa mesa de bar. E para que sejam bem contadas precisam de referências externas, sejam memórias de outros, sejam misturas com outras realidades, pitadas do que foi lido aqui e acolá e muito do que todo mundo vive e sente.

PZ: Já é sabido que o Anderson resolveu incluir texto inéditos no livro, além da seleção de alguns do blog. Esses textos tem relação contigo ou devemos esperar um estilo diferente?

Os textos novos também misturam realidade e ficção como os selecionados do blog. São pitadas de memórias minhas e de
outras pessoas, como o texto Locomotiva (trecho já revelado na página do livro). Há também situações improváveis como a prisão de um serial killer de corruptos, com algumas referências conhecidas nossas. Mas também tem pequenos episódios comuns da vida de qualquer um como o reencontro de uma paixão antiga, um fim de caso e um acidente em um rio.

gabi diasPZ: Não é preciso trabalhar no mercado editorial para reconhecer as dificuldades que um escritor iniciante enfrenta ao tentar uma publicação via editora, e por isso mesmo o Anderson resolveu buscar apoio de forma independente. Dado o sucesso da empreitada, Gonzo, você considera o caminho do financiamento coletivo de projetos como este uma mudança consistente no cenário da produção cultural, em contraponto às leis de incentivo fiscal e às vias tradicionais; ou o livro contou com seu charme e a popularidade do Anderson em um lance de sorte?

Não sei se o crowdfunding é uma moda ou algo que veio pra ficar. O que posso dizer que é deu certo comigo e é possível que se repita com outros projetos. Belém tem essa má sorte de não ter grandes empresas que incentivem o surgimento de novos artistas através de iniciativas sinceras que não primem somente pelo lucro imediato. A regra aqui é colocar dinheiro em projetos que darão visibilidade à marca de maneira instantânea, o que favorece a quem já tem um nome no mercado. Isso quando se coloca dinheiro ou apoio, porque sabemos que são raras essas atitudes. Sem contar que a política cultural na cidade ainda está engatinhando para uma realidade fomento e formação profissional em todas as áreas da arte (literatura talvez esteja em pior situação do que outras áreas como cinema, artes plásticas, música e teatro). O financiamento coletivo é uma novidade que pode abrir um novo caminho, feito a partir de quem tem boas ideias e capacidade de compartilhá-las coletivamente. Agora é preciso que se use essa nova forma de captação de recursos com cautela para não exaurir essas chances. É preciso criatividade para criar os projetos, uma divulgação competente e credibilidade de quem está à frente da empreitada.

PZ: E falando em sucesso, já soubemos também do projeto de um romance. Tens alguma relação com isso, ou o Anderson tem outra fonte de inspiração?

O Bêbado Gonzo é um projeto e o romance outro. É um desafio escrever histórias mais complexas e com mais nuances do que contos ou crônicas. O romance ainda não tem nome, mas já começou a ser escrito e tem o esboço de como a história deve se desenvolver. Nele, vamos ter um panorama da Belém da década de 1970, como a cidade se desenvolveu nessa época, como a cidade foi se formando e transformando tanto geográfica como socialmente. Além de misturar ficção com histórias reais que tem ligação com o autor e com pessoas próximas do autor. É um livro também de memória coletiva da cidade, da família, do que era Belém do Pará há quarenta anos e sob essa perspectiva do que nos tornamos hoje como referência urbana. O personagem central é um sujeito inspirado em grandes caras com suas maldades de bondades que conheci e conheço, como meu pai.

PZ: Para encerrar, queres deixar algum recado para o público, um convite para colaborar se ainda houver tempo, ou alguma notícia sobre o lançamento do livro?

Bom, o projeto do livro está no ar até 25 de dezembro próximo. Já conseguimos o valor mínimo para impressão, mas nada impede novos apoios. Quem gosta da ideia e boa leitura pode garantir o livro de papel em primeira mão a partir de R$ 30. É só colaborar no catarse.me/bebadogonzo. É isso. 🙂

Para conhecer o blog: http://bebadogonzo.blogspot.com.br/
Para acompanhar no twitter: http://twitter.com/bebadogonzo
Para acompanhar o autor: http://twitter.com/andersonjor

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Formada e especializada em design (produtos e gráfico), resolveu fotografar cultura e arte nos intervalos da carreira acadêmica. Optou por não ser rica e trabalhar sem férias no que a faz feliz, unindo ganha-pão e diversão.

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