Foi dada a largada para Belém 16:16 - Maratona Fotográfica Cidade de Belém
As primeiras palestras da "Belém 16:16 - Maratona Fotográfica Cidade de Belém", ministradas na abertura do projeto, contaram com a presença maciça do público, resultando na lotação do pequeno auditório do SESC Boulevard.
Os professores Michel Pinho e Elna Trindade fizeram a mágica de trazer fatos históricos e arquitetônicos da cidade em duas palestras de trinta minutos. Obviamente, não é possível conhecer quase 400 anos de história de uma cidade em uma hora, mas as informações apresentadas certamente serão de grande valia para a produção fotográfica da maratona, inclusive para quem quiser se aprofundar mais nesse estudo histórico e arquitetônico de Belém.
Michel Pinho falou de Belém e suas narrativas, mostrando um lado menos conhecido das imagens da cidade; desprendido da Belle Époque e do ciclo da borracha. Sua apresentação foi contextualizada no processo de criação e consolidação da cidade ao redor do Forte, explicitando a relação intensa entre Estado e Igreja nos primeiros séculos da história da cidade. Pinho nos trouxe registros textuais e imagéticos da viagem do casal Agassiz, pesquisadores americanos que vieram à Amazônia no séc. XIX em busca de provas do Criacionismo, a teoria que prega a criação do mundo e dos seres vivos por Deus. Um dos pontos altos de sua apresentação foi quando ele leu, de um trecho das anotações de Elizabeth Agassiz, o ditado que se tornou refrão de carimbó. Isso mesmo, a expressão "chegou ao Pará, parou; tomou açaí, ficou!" já era conhecida e repetida nos idos de mil oitocentos e estrada de ferro!
Já Elna Trindade apresentou o patrimônio arquitetônico de Belém, e seu intenso valor histórico. Falou das primeiras ruas da cidade, dos primeiros bairros, de como se deu a ocupação do núcleo urbano e das características inerentes ao estilo vigente à época desse crescimento. A falta de calçadas e jardins, o alinhamento uniforme e monótono dos casarios do que hoje conhecemos por Cidade Velha, e até mesmo a implantação do uso do azulejo em revestimentos externos das edificações como forma de aumentar sua durabilidade e resistência, tendência que, segundo alguns historiadores, teria sido aplicada primeiramente no Brasil.
Após um breve intervalo, tivemos mais meia hora de reflexões sobre a cidade e sua subjetividade com o professor e filósofo Ernani Chaves. Ernani começou com a visão dos filósofos sobre a cidade, desde A República de Platão, até chegar à figura do "flaneur", o caminhante, o personagem que passeia pela cidade sem compromisso, "o flaneur vê aquilo que não se vê". E essa figura já quase inexistente do flaneur foi proposta por Ernani para a construção do trabalho fotográfico dentro da maratona; uma proposta de olhar a cidade com olhos de quem passeia, de quem ainda desconhece. Ele propõe ainda um contraponto dos tempos da cidade; do olhar para o passado e o presente, registrar o tempo atual para não perdê-lo na história.
Por fim, o fotógrafo Mariano Klautau apresentou séries fotográficas relacionadas a cidades, não necessariamente à Belém. Como pedestre voluntário (ele diz se recusar a dirigir), Mariano encarna o flaneur e fotografa aquilo que não se vê. Séries como Sincronicidades nos revelam o que todo espaço urbano tem, sem identidade geográfica. A série de portas fechadas, denominada Entre, foi iniciada quase que despretensiosamente e acaba se revelando útil como reflexão social sobre a não-moradia e a invasão de prédios abandonados.
Assim foi dada a largada à Maratona Fotográfica de Belém. Bem, creio que o público das palestras iniciais estão devidamente preparados para essa produção de imagens!
Ponto Zero - Cultura, Entretenimento e Informação
Tereza Jardim
TJ é designer por formação, fotógrafa por opção e apaixonada por signos, verbais e não-verbais. Colunas de Artes Visuais, Cinema, Tecnologia, Quadrinhos e Cultura Oriental.
