Uma mochila nas costas e uma idéia na cabeça


Na inauguração da editoria de Viagens e Turismo do Ponto Zero, vou falar de uma viagem que eu e mais uns amigos fizemos no começo de 2010 para um país sulamericano que pouca gente conhece: a Bolívia. A fama de país mais pobre do continente muitas vezes nos impede de ver que a Bolívia é um lugar belíssimo, cheio de maravilhas naturais que nos enchem os olhos, e habitada por uma população indígena dona de uma cultura bem original. A natureza boliviana é particularmente prolífica: num mesmo país, temos um pouco de Pantanal, de Amazônia, de deserto e dos Andes. O frio inacreditável de La Paz contrasta com clima quente e úmido de Santa Cruz de la Sierra, clima com o qual nós, paraenses, estamos mais acostumados. Em Potosí, umas das cidades mais altas do mundo, construída a mais de 4000 metros acima do nível do mar, você pode entrar numa das montanhas que circundam a cidade, e sentir na carne (e nos pulmões) como é o dia a dia das pessoas que passam a vida tirando minérios dali. Em Sucre, a cidade branca, você pode simplesmente sentar no arborizado parque Simón Bolívar e ficar apreciando a arquitetura bem conservada de um dos Patrimônios Culturais da Humanidade. Pra quem gosta de algo mais natural, não pode perder o lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo, onde fica a Isla del Sol, que ainda conserva algumas ruínas do Império Inca.


Também é o único lugar do mundo onde você pode ver lhamas

A Bolívia também é rica do ponto de vista social: é o país sulamericano com a maior população indígena que, em grande medida, conserva seus traços culturais de antes da chegada do europeu. É muito comum você encontrar pessoas na rua que falam uma das línguas dos povos tradicionais, como o quechua ou o aymará. A utilização desses idiomas pela população é tão frequente que o Google também está disponível em quechua, como você pode ver aqui.

Convencido de que a Bolívia é um bom lugar pra visitar nas férias? Ainda não? Então aqui vai o argumento xeque-mate: o câmbio.

O câmbio na Bolívia é uma maravilha para os brasileiros. Com um 1 real, você pode comprar em média 3,50 pesos bolivianos. Isso significa que com 1.500 reais você pode fazer um tour de um mês pelas principais cidades bolivianas e ainda pagar de gringo rico, comendo nos melhores restaurantes, e se hospedando nos melhores hotéis. É claro que poder não significa necessariamente que você vai fazer isso: se você quiser conhecer a Bolívia de verdade, você deve fazer tudo como fazem os bolivianos de verdade. O que significa andar nos ônibus deles, comer a comida e beber a água que eles bebem, se divertir como eles se divertem etc. Acredite, é possível fazer uma viagem maravilhosa pelos andes por 1.500 reais, mais barato do que muitos roteiros turísticos dentro do próprio Brasil.


Conhecer a Bolívia de verdade também inclui comer o internacionalmente famoso Sanduíche de Chola.

Se ainda não foi o suficiente para você se convencer, acompanhe a série de textos a seguir sobre a minha passagem pela Bolívia. Se no final da série você não estiver com os ombros coçando, ansioso, implorando por uma mochila nas costas, passe na secretaria e solicite seu dinheiro de volta.
(Aqui no Ponto Zero funciona assim: é satisfação garantida ou seu dinheiro de volta).

O que é preciso para chegar lá?

Documentação - Pra viajar à Bolívia você precisa de dois documentos: carteira de identidade (ou passaporte) e o certificado internacional de vacinação, com a vacina contra febre amarela atualizada. A carteira de identidade substitui o passaporte quando você viaja para alguns países sulamericanos com os quais o Brasil tem acordos de cooperação, entre eles a Bolívia. No entanto, quem tiver e quiser levar seu passaporte também pode. A vacina contra a febre amarela é possível tomar em qualquer posto de saúde. É preciso avisar ao enfermeiro que você está saindo do país, para que ele dê um carimbo especial na carteira de vacinação. De posse desse documento, você deve se dirigir a um posto da ANVISA (em Belém, há um no aeroporto internacional de Val de Cãs), para retirar sua carteira internacional de vacinação.

O visto de turista tem validade de 90 dias. Ao cruzar a fronteira, o funcionário da Imigración lhe dará um formulário em que você deve responder perguntas como "você é um foragido da polícia de seu país de origem?"; "você está entrando na Bolívia com intenções terroristas?"; "você pretende traficar drogas durante sua permanência na Bolívia?" etc. Respondendo negativamente a essas perguntas, você não terá problemas. Algumas pessoas que fizeram a mesma viagem relataram que a Imigración fica aberta apenas quatro horas por dia, o que pode significar que o turista tenha que passar um dia não planejado no Brasil. Nós não tivemos problemas em relação a isso, e passamos sem preocupações.


Olha o Élder morrendo de preocupação, no alto do Cristo de la Concórdia em Cochabamba.

Mochila - Essa foi uma viagem da categoria "mochilagem", o que significa que ninguém levou mala, e sim mochilas que nos acompanharam como cascas de caramujo Andes acima. Preparar uma mochila perfeita, para uma viagem de uma mês, é uma tarefa que exige prática, raciocínio e experiência. Como o equipamento vai andar com você a maior parte do tempo, é fundamental que ele não esteja muito pesado, caso contrário o principal prejudicado será você mesmo. Lembre-se que durante a viagem você vai comprar, ganhar e carregar mais coisas do que você levou pra lá, e dificilmente vai se desfazer de algum objeto que você trouxe de casa. Veja o meu caso: eu sai de Belém com uma mochila que pesava cerca de 11 Kg, e voltei com a mesma mochila (e mais algumas tralhas de mão) pesando 20 Kg, mais ou menos. No final, era terrível ter que me movimentar pra lá e pra cá. Uma dica que mochileiros experientes sempre dão é a seguinte: leve metade das roupas que você acha que vai precisar e o dobro do dinheiro que você acha que vai precisar. Ou seja, lev e pouca roupa e sempre reserve uma grana extra, pra eventuais cagadas.

Estado de espírito - para fazer qualquer mochilagem, é essencial, fundamental, imprescindível, [adicione aqui qualquer outro sinônimo] ter uma atitude bastante relaxada e calma perante a vida e o universo, porque acredite: cagadas acontecem! E como acontecem! Você planeja durante meses uma coisa e de repente, pluft!, tudo dá errado e você é obrigado a mudar os rumos da sua viagem. Esteja preparado pra isso: relaxe, siga o novo caminho e aproveite o momento. Ficar puto não adianta nada e só piora as coisas. Por mais que você planeje sempre existe a possibilidade bem real do pneu do ônibus furar, de só ter passagens para o dia seguinte, de você não conseguir entrar no albergue e ter que dormir na rua. Enfim: cagadas acontecem, esteja preparado para elas. E sorria.

 

Como chegar à fronteira?


Se seus amigos bêbados te acordarem de madrugada num frio da porra, sorria.

O jeito mais fácil de chegar em qualquer lugar é indo de avião. Mas não é o mais barato. Se você é liso como nós e/ou quer uma viagem menos pasteurizada, faça a maioria dos trechos de ônibus ou barco, deixando apenas os mais longos e desgastantes pra fazer por ar. No nosso caso, compramos em janeiro uma passagem de Belém pra Campo Grande-MS, marcada pra meados de fevereiro, por cerca de 300 reais. É sempre bom lembrar que para comprar passagens de avião baratas, é preciso fazer isso com antencedência de, no mínimo, um mês. Essa é a parte mais programada da aventura. A partir de Campo Grande até a nossa volta ao Brasil - viagem que incluiria seis cidades bolivianas - tudo foi feito meio de improviso, dependendo das condições que encontramos na hora.

De Campo Grande, pegamos um ônibus pra Corumbá, cidade sul-matogrossense que faz fronteira com a boliviana Puerto Quijarro. A passagem custa cerca de 70 reais e a viagem é bem confortável e segura. Você vai perceber já no terminal rodoviário de Campo Grande que muitos bolivianos pegam o ônibus pra Corumbá. Talvez por essa razão a Viação Andorinha, empresa que faz rota, já te deixa bem na fronteira com a Bolívia, o que é ótimo, pois é um dinheiro a menos que gastamos com taxi. Na fronteira, fique atento pra um detalhe: você deve entrar no posto da Imigración boliviana, que fica logo depois do posto da Polícia Federal brasileira. É normal que a fila esteja enorme do lado brasileiro, cheia de bolivianos carimbando o visto de saída/entrada no Brasil. Do lado boliviano, a fila já é bem menor, já que a quantidade de brasileiros querendo entrar naquele país é relativamente menor.

Preencha os formulários, capriche no portunhol, dê gracias! à funcionária simpática e sinta-se bem-vindo à Bolívia!

De Puerto Quijarro, uma cidade minúscula que não oferece tantas opções de diversão assim, você pode ir a Santa Cruz de la Sierra, capital do departamento de Santa Cruz, e cidade economicamento mais importante da Bolívia. Há duas formas de chegar a Santa Cruz, saindo de Quijarro: ônibus ou trem. Falarei sobre as duas na próxima atualização da coluna Viagens e Turismo.

 

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Adriano Fernandes


É torcedor, mochileiro e jornalista nas horas vagas. Tem um blog, mas não uma bicicleta. Escreve para Esportes, Viagens e Turismo, Música, Cinema e Cidade

 

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