Todo mundo odeia Rob Liefeld




O homem, o mito, a lenda viva, o cara, o mago da desproporcionalidade: Rob Liefeld

Ele é o homem, ele é o maioral, ele é a verdadeira lenda viva dos quadrinhos, ele é Rob Liefeld, a grande unanimidade da arte sequencial... Liefeld tem a incrível capacidade de dividir a opinião dos fãs de HQ do mundo todo: Metade dos fãs de quadrinhos no mundo odeiam Rob Liefeld, a outra metade simplesmente o detesta...

Esqueça Neil Gainam, Frank Miller, Alan Moore, Jack Kirby, Stan Lee e outros nomes de peso dessa indústria, eles não são unanimidades, adorados por muitos é verdade, mas nenhum deles é desprezado por todos como Liefeld. Fato.

Com uma carreira invejável, Liefeld conseguiu o que muitos fãs de quadrinhos adorariam conseguir: Trabalhar com o que mais amam. Sim, Liefeld ama os quadrinhos, ama desenhar, ama os super-heróis e suas aventuras e seus trajes coloridos e seus poderese, para sua felicidade (a dele, claro), trabalha com tudo isso. A diferença entre Liefeld e muitos outros fãs de quadrinhos desenhistas é que ele desenha pior que a maioria dos fãs desenhistas.

E nisso reside um dos maiores mistérios da indústria das HQs: Como diabos Liefeld, sendo tão ruim, consegue pegar trabalhos tão visados nas duas maiores editoras de quadrinhos do mundo? Tá, senão são tão visados, mas com certeza é grana suficiente para pagar suas contas e sobrar para a escola dos filhos. Ninguém sabe, ninguém jamais saberá essa resposta...

Rob Liefeld despontou na industria das HQs na década de 90 ainda muito novo. Autodidata, Liefeld pegou trabalhos de peso nas editoras Marvel e Dc Comics. Entre seus títulos de maior destaque estavam Novos Mutantes que, mais adiante passou a ser a X-Force, título que rendeu ao desenhistas muitos frutos e muitos personagens criados como, por exemplo, Cable, Dominó, Deadpool, Shatterstar e outros que até hoje, se não fazem sucesso, estão em algum título de destaque. Mas quem vingou mesmo foi a dupla Cable e Deadpool.

Com um estilo ímpar (ainda bem), Liefeld intrigou milhares de fãs de quadrinhos no mundo todo, pois não tinha, na verdade não tem, nenhuma noção de anatomia, nem de perspectiva, nem de luz e sombra, expressões faciais e posicionamento corporal...

Liefeld não tem noção de nada, para falar a verdade.

Reparem ao lado o personagem Agent America que, mais tarde recebeu o nome de Figthing America, é uma cópia cara dura do Capitão América. As especulações dizem que as histórias da "criação" de Liefeld são resultado do material que o mesmo não usou na saga Heróis Renascem após ter sido gentilmente convidado a se retirar do projeto por inúmeros problemas.

Ao lado temos Glory e Avengelyne, ambas cópias da Mulher-Maravilha... E notem a "sensualidade" das moças no traço do "artista"...


Steve Rogers? Você tá de uniforme novo. Tá de zueira né?

Olha esses abdomens... órgãos internos mandam lembranças...

Ainda na década de 90 Liefeld deu o passo mais ousado de sua carreira ao lado de outros colegas desenhistas. Para quem acompanha o mercado de HQs há um bom tempo sabe do desastre que foi a década de 90, cujos representantes maiores eram justamente os desenhistas que saíram da Marvel para integrar a Image Comics: Jim Lee, Todd McFarlane, Marc Silvestri, Eric Larsen e Liefeld como pelotão de frente.

Todos esses desenhistas tiveram sua parcela de culpa bem aplicada no que se refere à década maldita para industria dos quadrinhos: Milhões de personagens coloridos, com cara de mau, com uns 82 dentes cerrados à mostra, bolsas, pochetes, facas, dardos e dezenas de penduricalhos nos braços e pernas, aventuras mais rasas que um pires... Mas esse período passou e a indústria se renovou, no entanto coube a Liefeld o legado de eternamente reprisar todos os seus traços deste período que, se possível, seria apagado com os poderes da Manopla do Infinito.

Ombreiras, armas estranhas, anatomia esquisita e desproporcional, posições duvidosas, mãos e pés que simplesmente somem da cena, enquadramentos toscos, cenas sem emoção e expressões idênticas em todos os personagens são algumas das características, ruins, diga-se, da arte de Liefeld (se é que se pode usar o termo arte no caso dele). Motivo de piada para 11 a cada 10 fãs de quadrinhos, o desenhista já "criou inúmeros" personagens muito originais como, por exemplo, o Invictus do Youngblood, Agent: America, Supreme, Glory, Shafter, Bowen e outros que, se olharmos para Cable, Capitão América, Mulher-Maravilha, Superman acharemos todos lá, copiados na cara dura pela "criatividade" do gênio.

Mas Liefeld é insistente e a indústria que tanto ama também é, pois ele não para um segundo de desenhar, para nossa tristeza.

Mas o lado bom de tudo isso é que Liefeld virou piada pronta entre os fãs. Malhar sua "obra" é quase uma religião entre nerds e leitores do mundo todo, avacalhar seus trabalhos chega a beirar o patamar de esporte olimpico...


X-Force de Rob Liefeld

Ronin de Frank Miller
Na primeira imagem temos uma cena "criada" por Liefeld... Gostaria de dizer que é um referência ao grande quadrinhista Frank Miller, mas conhecendo a peça e a fama de Liefeld, o veredicto é certeiro: Cópia Cara Dura... E a cópia não se restringe a cena principal, mas a todo o layout da página.

A discussão em torna da "obra" deste "desenhista" é assunto certeiro para qualquer fã de quadrinhos concordar: Ele é péssimo. No entanto podemos ir além desse raciocínio e nos questionar o que o torna tão essencial em um ramo que tem artistas tão bons em todo o mundo? Não sei a resposta, acho que ninguém sabe, mas talvez Liefeld tenha contatos, seja um cara legal, cobre pouco ou até mesmo, dada a ruindade de seu material, faça tudo de graça ou até mesmo pague para fazer e entregar tudo antes de qualquer prazo estipulado, até porque, pra fazer o que ele faz não precisa muito esforço.

Mas de uma coisa eu inocento Liefeld, a culpa pela desgraça dos anos 90 não é só dele, mas sim de toda uma indústria e de um conjunto de profissionais que assumiu uma postura mercadológica mercenária, rasteira e que resultou numa era estética e narrativa destruidora das boas histórias, dos bons personagens. Liefeld não é o responsável por tudo isso, pode ser o grande representante do período, isso é com certeza, mas o grande culpado não.

Não podemos esquecer que sem "profissionais" como Liefeld, a lenda viva, as piadas prontas sobre seus desenhos e suas "criações" não poderiam ser feitas indefinidamente por todo mundo que um dia escreveu, escreve ou escreverá sobre quadrinhos. Elogiar Jack Kirby é fácil, quero ver é elogiar Liefeld...

Vejam ao lado o Supreme... Um ser super-poderoso que é outra "criação" de Liefeld, dessa vez o copyright mandado ao espaço tem endereço certo e é o planeta Krypton... Kal-El manda lembranças...

Na sequência temos Capela do Youngblood ao lado do presidente Obama. Incrível a capacidade do "grande artista" em criar armas que parecem um pedaço de mámore rachado... Alguém aí viu como a mão esquerda do Obama sumiu?

Com uma carreira cheia de baixos e mais baixos ainda, Liefeld coleciona momentos marcantes como sua saída da Image Comics que ajudou a fundar, sua participação na saga Heróis "Renascem da Marvel", O Retorno do Massacre, sua volta para a Image Comics e por aí vai. Em 2009, em uma das muitas convenções de quadrinhos que há por lá, nosso intrépido desenhista, a referencia máxima da arte sequencial estava lá agraciando fãs com sua presença e autografando "obras" de sua grande autoria e talento quando foi abordado por Ryan Coons na Chicago Comic-Con, um jovem nerd como nós, desses que compram quadrinhos, jogam videogame, assistem filmes milhares de vezes até decorar as falas, tem posters, action figures e tudo mais... Coons vingou, de uma só vez, os dois grupos opositores de Liefeld: Os que o odeiam e os que o detestam...

O que Ryan fez? Simples, ele chegou para Liefeld e disse assim: "Meu nome é Ryan Coons, sou um grande fã do Capitão América e exijo que você peça desculpas por Heróis Renascem!".

Dentes são uma especialidade de Liefeld, ele gosta tanto que põe uns 12 só entre os caninos...

Melhor impossível. Não entro no mérito que permeou as discussões a respeito do ato de Coons que, admito, tem sua carga de grosseria, mas de graça também, afinal, ironia e sarcasmo é isso, um tanto de graça e outro de grosseria. O jovem nerd poderia espancar Liefeld com um bastão de basebol, mas não o fez, preferiu usar o verbo, pois todos nós que gostamos de ler sabemos, a caneta fere muito mais que a espada, e assim o fez Ryan Coons.

Mas Liefeld não reagiu, apenas com um desdém similar ao do anti-fã disse "Prazer em conhecê-lo", tão frio e rude quanto os que o odeiam tanto. Ponto pra ele, para um imitador de desenhista Liefeld é um grande diplomata. Mas Coons não se deu por vencido, andou alguns metros e comprou um exemplar do livro How to Draw Comics the Marvel Way, de autoria dos mestres Stan Lee e John Buscema e presenteou Liefeld... O que isso significa? A obra em questão é um manual para se desenhar, coisa que Liefel, como todas sabem, precisa aprender há uns bons anos.

Artistas da industria das HQs saíram em defesa do amigo de profissão, escritores e desenhistas se pronunciaram, espernearam contra Ryan Coons e sua atitude, por muitos considerada desnecessária e infantil, do outro lado uma legião de fãs de HQs rindo pelos quatro cantos do multiverso e das infinitas terras. O que eu acho disso tudo? Acho que Coons exerceu seu direito de fã, não usou de violência física, não usou palavras de baixo calão, não violou nenhuma lei, se expressou dentro dos limites normais para um fã e ainda gastou seu dinheiro com Liefeld dando-lhe a oportunidade de se "redimir" de seus erros e ainda por cima aprender a desenhar.

O "desenhista" também caminhou bem dentro de seus limites e se reservou o direito de ignorar o anti-fã sem partir para agressão ao simplesmente fingir que o papo não era com ele.

Hoje Liefeld continua sendo motivo de piada pronta para 11 em cada 10 fãs de quadrinhos, Ryan Coons é uma lenda para fãs que, assim como ele, vão em convenções atrás de seus ídolos, o que deixou meio mundo de desenhistas e escritores com um pé atrás, pois se a moda pega e os fãs começam a imitar a ação de Coons em 2009, ia ter gente perdendo as estribeiras e partindo pro lado ruim da coisa toda.

A lição? Todos nós temos limites, não excedê-los é mais que uma obrigação. Acredito que tanto Rob quanto Ryan andaram na linha e em seus limites, claro, me diverti muito mais com a atitude Ryan não por achá-la correta ou totalmente positiva, já disse, teve lá seus excessos, porém divertida pelo fato de que ninguém nunca esperava algo assim acontecendo um dia.


X-Force, o grupo queridinho de Liefeld e que o lançou ao mundo como uma "grande desenhista" na Marvel...

The Infinite é a mais nova empreitada de Liefeld... Um soldado volta do futuro para mudar o passado... Cable manda lembranças para o Sr. Bowen...

E que venha o mais novo projeto de Liefeld como The Infinite, série produzida com o escritor Robert Kirkman de Walking Dead. A trama se foca em uma aventura de ficção e ação tendo como foco as viagens no tempo e um soldado militar altamente treinado (opa, eu já vi algo assim em algum lugar, né Cable?). Nesta aventura, Bowen, o soldado durão da vez, volta ao passado para contar com sua própria ajuda 20 anos mais jovem para impedir o futuro do qual faz parte acontecer... Hein? Já vi isso em muuuuuuuuuuuuuuitos lugares diferentes. É Liefeld plagiando Liefeld ao "recriar" seu Cable (copyright mandou lembranças, perdedores).

É, é isso mesmo que você leu... A originalidade impera na "obra" liefeldiana... Está tudo lá, a antomia duvidosa, as ombreiras, cintos cheios de bolsos, armas de perspectiva duvidosa e acabamento tosco, expressões inexpressivas (sim, isso é possível) e idênticas em todos os personagens, cenas de ação que não transmitem ação... e aí você começa a dar toda razão novamente para Ryan Coons.

 

Especial Capeitão América
Talvez essa seja a mais famosa imagem já feita por Liefeld em sua "carreira". Trata-se do Capitão América da saga Heróis Renascem em uma posição que deixaria qualquer cubista corado ao ver tantas partes do corpo humano no mesmo plano, ou então deixaria qualquer pintor surrealista como Salvador Dali tímido ante a capacidade de Liefeld em deformar a figura humana...

A imagem fala por si só, não precisa muito para notar que há algo de extremamente errado com ela... Qualquer criança ao se deparar com esse horror de proporções, de posicionamento e de luz e sombra sabe que isso tudo não é normal. Mas Liefeld e sua "arte" estão acima desses julgamentos pueris.

Talvez essa seja justamente a imagem que desencadeou a indignação de Coons e o fez querer "vingança". Todo mundo um dia errou proporção ao desenhar, todo mundo errou uma perspectiva, um ponto de luz, Liefeld não poderia ser exceção, claro, entretanto o problema é que, pelo tempo de carreira que Liefeld tem e pelos trabalhos que já fez, tudo isso deveria ser coisa do passado distante, da época em que começou seus estudos como autodidata. Mais de uma década de carreira são suficientes para corrigir erros de iniciante.

Motivo de piada e revolta entre fãs de Quadrinho, Liefeld parece que se esforça muito para não evoluir absolutamente nada em seu traço, em suas noções de anatomia, de proporção e menos ainda de narrativa...

Flagelo de uma era em que bastava umas ombreiras, umas armas gigantes e impossíveis de segurar, dentes cerrados e trajes coloridos cheios de pochetes e bolsos inúteis, Liefeld é um fóssil da década de 90 atuando exatamente do mesmo jeito...

Ao desnudarem a anotmia do Capeitão América, fãs de HQ do mundo todo puderam ter um vislumbre da noção cubista de Liefeld sobre a figura humana... Dispensa análises pueris e pormenorizantes...

Os erros de seu Capeitão América foram escancarados ainda mais ao mundo quando alguém resolveu desnudá-lo literalmente, expondo como seria essa bizarra figura em seus mais íntimos detalhes físicos por trás do traje de herói e da proteção do escudo, recurso batido na "obra" liefeldiana... Sempre há uma anteparo para esconder pés, mãos ou simplesmente eles somem sem mais nem menos.

O Capeitão América está aí, uma afronta para os estudos sobre anatomia humana, proporção e estética, uma "arte" que só mesmo um "gênio" do quilate de Rob Liefeld poderia nos presentear... Obrigado "mestre", por nos ensinar tão valorosas lições sobre como não fazer aberrações ilustradas.

 


 


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Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.

 

 

 

 

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