A era Image Comics



O ano é 1992, o problema é simples: Controle sobre criatividade e obras criadas. Imagine um dia em que os grandes nomes da industria de quadrinhos resolvessem tomar conta de suas criações por conta própria. Sem Marvel e sem DC para lhes podar a criatividade ou se apossar de seus personagens. Ou que esses autores simplesmente resolvessem tomar as rédeas de seu processo criativo, criar seu próprio universo e colocar no papel suas brilhantes idéias. Bem, não se esforce em pensar nisso, pois o resultado é a Image Comics, empresa de quadrinhos que nasceu de uniões improváveis com o intuito de ser uma casa para projetos autorais de gente que não queria mais seu trabalho sendo confiscado por empresas gigantes como as grandes Marvel e DC. Com uma proposta agressiva e com grandes nomes a editora começou forte e fazendo muito barulho logo nos primeiros números e histórias. Os nomes eram os de artistas com reputações e carreiras beirando o impecável: Todd McFarlane, Rob Liefeld, Jim Lee, Marc Silvestri, Erik Larsen, Jim Valentino, Whilce Portacio, Sam Kieth entre outros que integraram o começo, mas não eram dos alicerces da nova casa.

 
Todd MacFarlane
Rob Liefeld
Eric larsen
Marc Silvestri
Jim Lee

O grande marco da Era Image foi injetar no mercado, de uma única vez, todo um universo completamente novo e desconexo, interligado por citações de nomes de personagens de um estúdio nas histórias de outros personagens de outro estúdio na intenção de trazer alguma conexão entre eles, isso tudo com séries recheadas de belíssimos desenhos, páginas duplas, triplas, quádruplas, mulheres estonteantes em trajes mínimos, e claro, textos fracos, tramas simplista e só. Até porque os fundadores da Image Comics eram (são), fundamentalmente, desenhistas e não escritores. Salvando-se pequenos casos o que o amontoado de estúdios da Image fez foi demonstrar o quão bons eram seus desenhistas saídos da Marvel e o quão “criativos” eles podiam ser.

A verdade é que o barulho fora feito e de forma bem eficaz, pois a Image colocou na terceira posição em vendas a DC, brigando quase em pé de igualdade com a Marvel, cujo universo de personagens parecia reencarnar nos personagens da Image. Ou todo mundo parecia com os X-Men ou todo mundo parecia com algum personagem dos X-men. Ou dos Vingadores. Também havia grandes personagens que eram representações do Super-Homem (é, sou do tempo que ele era chamado assim aqui no Brasil), em diversos pontos dos diversos estúdios da Image. Mr. Majestic de Jim Lee e o Supreme de Liefeld que o digam. Em alguns momentos o próprio Batman ganhou seus equivalentes em algum ponto da existência da Image.


Image United é um projeto que reune o panteão dos desenhistas da Image

O pior do chamado “efeito Image” não foi o simples fato das histórias se focarem nos desenhos em detrimento do texto, mas o fato de que isso virou padrão na industria praticamente toda, muito mais evidente na Marvel pela já mais que evidente semelhança desta com a Image, ou melhor, da Image com a Marvel. Não que ver uma HQ estupidamente caprichada no visual e na ação descerebrada seja ruim, mas ver isso de ponta a ponta a cada edição acabou cansando o mercado e os leitores... é a velha história dos efeitos especiais e explosões no cinema ou dos gráficos nos games. O que há além da superfície visual? O que há de interessante, elaborado além das imagens? Talvez aí resida a grande incompreensão do mercado em relação à Image Comics: O foco na imagem. Claro, isso não exime a editora de sua culpa e de seus excessos em abarrotar o mercado com revistas cujo único conteúdo era tão somente o visual.

O leitor de HQ que muito mais que belas imagens e páginas de layout arrojado, ele quer uma história, uma narrativa visual e se não há narrativa, não há história em quadrinhos, pois o termo história estava se perdendo a cada nova edição. O que quero dizer é que dava para se divertir com o que feito pela Image sem nenhuma culpa, sem nenhum remorso, só que aos poucos isso foi se perdendo ao logo do tempo, aquela sensação de vazio e de diversão estava se perdendo no mercado de quadrinhos que se formou na chamada Era Image, uma era de personagens violentas, amargurados, vingativos, mortais, perigosos e muitas vezes militarizados. Não que isso seja ruim mais uma vez, mas a sensação de ver sempre a mesma coisa em equipes minimamente diferentes também começou a prejudicar o mercado como um todo que, ao tentar desbancar a Image, ficou tão somente similar a ela.

Os estúdios da Image tinha muitas semelhanças entre si, tanto no panteão de personagens quanto no andamento das histórias reforçando inúmeras vezes o fato de que todos esses estúdios eram compostos por desenhistas que, em sua maioria, trabalharam na Marvel. E para piorar, em títulos da linha mutante da editora como X-Men e X-Force (Marc Silvestri, Jim Lee e Rob Liefeld).

A verdade é que o mercado se balançou, desestabilizou e acabou encontrando na crise desse período uma saída e um modo de sobreviver através de histórias que traziam muito mais que desenhos e páginas bacanas e coloridas. Quem acompanhou esse período do mercado sabe que o que se tem hoje em termos de HQs é fruto direto do que houve na década de 90 e um pedaço do começo dos anos 2000. Mas isso é outra história, na seqüência do nosso especial de quadrinhos vamos falar um pouco dos estúdios da Image a época de sua fundação.

Até breve...


Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.



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