Tecnobrega: crítica e preconceito (Texto I)



Nos últimos tempos tenho lido e ouvido muita coisa sobre o tecnobrega, sobretudo nos últimos dias quando da recusa do Governo do Pará em torná-lo patrimônio cultural do estado. Gostaria de fazer algumas considerações sobre este assunto.

Percebi que a maior parte das pessoas que falam sobre tecnobrega hoje, seja nas conversas de mesa de bar, seja em artigos na imprensa, sites, redes sociais, etc., apresenta um repertório de argumentos mais ou menos parecidos contra este gênero popular. Alguns relativizam suas opiniões e outros são mais afirmativos em suas idéias. De maneira geral as pessoas que são contra este gênero argumentam a partir de algumas idéias base. Vejamos algumas delas:

a) Idéia de que o tecnobrega não mereça sequer ser qualificado como música, seria algo inferior, algo que não é arte, estaria abaixo da arte, de qualidade estética baixa, ou mesmo sem qualidade estética alguma. Tomemos como exemplo duas falas que vão neste sentido: O jornalista Lúcio Flavio Pinto, em artigo de 2009, assim caracterizou o tecnobrega: “A rigor, esse gênero nem pode ser enquadrado na condição de música. Não tem harmonia nem melodia. O ritmo é tão pobre quanto o de um bate-estaca. Uma voz esganiçada geme como se tivesse dado uma topada”.

Mais adiante, no mesmo artigo, define o tecnobrega como uma “monstruosidade antimusical” (http://www.lucioflaviopinto.com.br/?p=622). O crítico Helder Bentes em seu blog comentou, em texto de 01/03/2011, que essa música seria como um “barulho que se pretende artístico” ou uma “zoada”. Mais tarde em artigo de 19/04/2011, referindo-se à recusa do Governador Simão Jatene em transformar o tecnobrega em patrimônio cultural do estado do Pará, disse: “Em minha opinião, o governador ainda foi generoso ao se referir ao tecnobrega como 'ritmo musical' que repercute 'artisticamente'”. E afirmou: seria esta música “desprovida de critérios artísticos” (http://www.orm.com.br/helderbentes/).

b) Idéia de que o tecnobrega representa um gosto baixo (em oposição a um gosto elevado). Nem sempre os argumentos mostram o que seria o gosto elevado, outras vezes a elevação do gosto seria sinônimo de apreciação de músicas da MPB ou até mesmo o brega antigo paraense, aquele dos anos 1980. Seja como for para o tecnobrega a idéia de rebaixamento musical é clara, como na visão de Lúcio Flavio Pinto que argumentou no texto já citado: “brega é passaporte para o rebaixamento do gosto” (http://www.lucioflaviopinto.com.br/?p=622).

c) A idéia de rebaixamento em alguns discursos aparece como resultado da falta de educação do povo. Seria como se o povo fosse pouco instruído, sem critério estético próprio, ou sem critério estético algum, desprovido da educação que deveria ser oferecida pelo Estado e pelos órgãos competentes. O povo assim aparece como vítima da indústria cultural, sem iniciação estética própria, o que ocasionaria o seu rebaixamento de gosto. Um exemplo desta visão pode ser vista no argumento do crítico Helder Bentes no primeiro texto dele, já citado: “Batidas repetidas e letras fáceis de serem alcançadas pela população desprovida de senso estético são introjetadas de tal forma, que se torna quase inevitável o seu consumo, principalmente se as pessoas não forem iniciadas em arte, se não forem educadas, para fazerem uma apreciação crítica das propriedades rítmicas da linguagem verbal, presentes na música desde meados do século XV” (http://www.orm.com.br/helderbentes/).

d) Talvez seguindo esta mesma lógica argumentativa, alguns críticos defendem que o povo não precisa do tecnobrega, precisa de outras coisas que o Estado não tem oferecido como educação, saúde, moradia, etc. Afirma-se que a população só consome o tecnobrega por ausência de outros benefícios sociais. Como exemplo desta visão Helder Bentes disse que o tecnobrega é “um fenômeno previsível e diametralmente oposto às reais necessidades da população paraense” e que “as escolas públicas estaduais estão caindo aos pedaços, entregues a péssimos gestores, o apadrinhamento político impera neste Estado relacional, a burocracia estatal mais atrapalha que ajuda o cidadão, a população atingida por este ‘fenômeno de cultura de massa’ não tem acesso à saúde, educação, moradia digna, remédios e a uma pá de outras coisas fundamentais para o aumento de sua autoestima, para o despertar de seu juízo de gosto e de sua consciência crítica” (http://www.orm.com.br/helderbentes/).

e) Outra idéia extremamente corrente é a que relaciona a música brega com a violência dos bairros da periferia de Belém do Pará. A visão é variável. Para uns no mínimo o tecnobrega contribui com a violência, para outros, pelo menos na forma que argumentam em seus textos, o brega seria quase que a causa da violência das festas populares de periferia. Lúcio Flávio Pinto disse que o tecnobrega “também dá sua contribuição à violência geral. Contando, para a consumação do crime, com o disfarce da cultura popular” (http://www.lucioflaviopinto.com.br/?p=622). Para o jornalista Anderson Araújo a violência associada ao brega faz com que parte da população periférica não aprecie o gênero: “outra grande parcela da mesma população pobre rejeita o ritmo, sobretudo, por associá-lo à desordem pública e a práticas que colocam em risco a segurança da comunidade. Práticas comprovadamente observadas como o intenso consumo de drogas nas festas promovidas pelas aparelhagens e todas as conseqüências que o tráfico traz para esses bairros” (http://www.belemdopara.com.br/detalhe.bdop?conteudo=1414).

Observe-se ainda que junto com a violência outra característica do tecnobrega seria o alto volume das festas, dos sons nas casas, nos bares, etc. o que levou Lúcio Flavio a se perguntar se seria o Pará “a terra do barulho e Belém como a sua lídima capital” (http://www.lucioflaviopinto.com.br/?p=622). Outra idéia recorrente é a e que as letras do tecnobrega são pobres e alienantes, de gosto baixo, tal como a própria música.

f) Em alguns casos questiona-se a aproximação de setores de classe média da população paraense com o tecnobrega, assim como de intelectuais, “sociólogos de aparelhagens” na fala de Anderson Araújo, que acabam “sociologizando” o debate sobre o brega. A “sociologização” em questão aparece como algo negativo já que viria acompanhada de uma patrulha de intelectuais que perseguem quem exerce o direito de se colocar contra o tecnobrega. No dizer do jornalista Anderson Araújo, vemos: “O que tem me assustado é a sociologização do debate e, principalmente, a patrulha feita por certos setores em cima de quem expressa o simples, antigo e sagrado direito de achar este ou aquele tipo de música uma porcaria”. (...) “De uma hora para outra, a festa do tecnobrega na periferia começou a ser remastigada em um palavrório e em uma atitude típica do pseudo-intelectual brasileiro: a exaltação da pobreza para respaldar sua legitimidade como cultura”
(http://www.belemdopara.com.br/detalhe.bdop?conteudo=1414).

g) Rejeição ao tecnobrega vem acompanhada da idéia de que a “boa”, ou “elevada”, vertente da musica popular no Pará é aquele formada por artistas identificados em grande parte com a MPB (Música Popular Brasileira) em seu sotaque regional. Assim o Pará já teve e tem bons artistas da música, que não são do tecnobrega, ou em alguns casos são também os músicos identificados com o brega, mas só que aquele produzido nos anos 1980 e não o atual. Assim, Lúcio Flávio Pinto argumenta que: “A vertente verdadeiramente musical dessa tradição fecundou compositores, músicos e cantores em atividade como Nilson Chaves, Vital Lima, Alcyr Guimarães, Sebastião Tapajós, Nego Nelson, Fafá de Belém, Leila Pinheiro, Jane Duboc, Andréa Pinheiro e muitos outros” (http://www.lucioflaviopinto.com.br/?p=622).


Viviane Batidão se apresentando na comemoração do aniversário de 395 anos da cidade de Belém

Em resumo podemos tomar estas opiniões acima como um modelo ideal, um painel de idéias, um “tipo ideal” abstrato, que não representa em totalidade a visão de cada um dos autores citados, mas nos possibilita ver uma visão média, do conjunto da sociedade, das principais argumentações críticas ao tecnobrega. Ressalto mais uma vez que os fragmentos utilizados aqui (que podem ser lidos na integra por qualquer pessoa pelos links que apresento, são textos públicos, portanto) são usados apenas como exemplificações, a materialização dos discursos mais comuns sobre o tecnobrega, particularmente representam os discurso daqueles que por um motivo ou outro são abertamente contrários ou pelo menos não simpatizam com esta música.

A visão média da sociedade (apenas exemplificada nos textos acima) sobre o tecnobrega seria: Para boa parte (não todos e nem concomitantemente!) dos críticos do tecnobrega esta música não pode ser totalmente definida como arte, ou como música propriamente dita, pois apresenta ausência ou pouca consistência em seus elementos estéticos, não é arte ou pelo menos é uma arte inferior, rebaixada. Seria também fruto da produção e consumo de mau gosto, um gosto baixo, em oposição ao gosto elevado daqueles que entendem verdadeiramente de arte e de bom gosto. O povo consome tal “arte” (entre aspas a partir de agora por não se tratar de uma arte propriamente dita, mas de algo inferior) por estar em condição social e educacional inferior, desprovido de educação (ou com educação precária) que lhe possibilite critérios estéticos que eleve seu gosto e lhe permita perceber a verdadeira arte (que não é o tecnobrega, obviamente). O povo por sua vez, desprovidos de critério artístico dada a sua condição social e educacional precária, seria burlado, seria enganado pela indústria cultural, que lhe empurra para o consumo desta arte baixa e sem qualidade estética.

O povo não precisaria desta “arte” e sim de educação, saúde, moradia, etc. Na verdade o povo até acabaria sendo vítima da violência urbana, que se não é produzida propriamente pela música é no mínimo embalada pelo som do tecnobrega, que seria uma espécie de trilha sonora da violência urbana. Considere-se ainda que o barulho (altíssimo volume das aparelhagens) e a letra vulgar e pobre seriam ainda outras características do tecnobrega e de suas festas. Por outro lado setores intelectualizados e de classe média (que não pertencem ao mundo do brega) por interesses econômicos, ou pela busca de uma nova utopia do povo, aproximam-se do tecnobrega e intelectualizam algo que não deveria ser intelectualizado (já que o tecnobrega não é arte, é algo baixo e não elevado, não teria por que ser intelectualizado). O povo nestas condições não conheceria ou conheceria pouco a verdadeira vertente da música paraense, vertente que é arte de verdade por ter critérios estéticos complexos e elevados.

Este seria o tipo ideal da visão negativa sobre o tecnobrega. Como todo tipo ideal esta visão não se apresenta em sua totalidade em todos os indivíduos: ou seja, um cidadão comum não necessariamente pensa exatamente desta maneira, mas pode concordar com parte desta visão e discordar de outras partes. Os próprios autores citados acima não representam um bloco uniforme em relação ao tecnobrega, suas opiniões divergem, alguns incorporam alguns elementos do tipo ideal e outros não, alguns são mais veementemente contrários ao tecnobrega e outros nem tanto. Esta visão, o tipo ideal da crítica ao tecnobrega, serve para o conjunto da sociedade e não para todo indivíduo em si.

O que é preconceito e o que não é nesta visão, onde entra o preconceito social e estético e critérios verdadeiramente artísticos (que também são sociais) sobre o tecnobrega. Tentaremos pensar isso melhor nos próximos textos sobre o assunto.

Série de textos Tecnobrega: crítica e preconceito é uma série escrita em quatro partes. Aguarde a parte II.

 

Tecnobrega: crítica e preconceito (Parte II)


Gaby Amarantos, uma das grandes representantes do tecnobrega.

Gostaria de discutir nas partes a seguir alguns dos argumentos citados acima contra o tecnobrega. Começo pelo argumento “a”: Idéia de que o tecnobrega não mereça sequer ser qualificado como música, seria algo inferior, algo que não é arte, estaria abaixo da arte, de qualidade estética baixa, ou mesmo sem qualidade estética alguma.

Não pretendo aqui citar autores e mais autores a ponto de “sociologizar” demais o assunto. Mas me parece que é consenso ou quase consenso entre pesquisadores da cultura e da arte que o conceito de gosto e de qualidade estética é histórico, ou seja, muda com o passar do tempo e de sociedade para sociedade. E isso tanto do ponto de vista da técnica, da forma da música, como dos valores que são atribuídos à música nos vários momentos.

Tomemos como exemplo o caso da música de matriz africana. Para boa parte dos críticos e artistas formados nas academias de música, seguindo o modelo de música europeu, até pelo menos a década de 1930, a música caracterizada por muitas sincope e advindas dos mais diferentes tipos de batuques de origem africana, no Brasil e no mundo, era vista como qualquer outra coisa menos como “música”. De uma maneira geral para boa parte dos críticos, aquilo que não era parecido com o modelo europeu de música era algo externo à arte: barulho, zoada, topada, ou seja lá o que fosse. Claro que isso era o pensamento hegemônico, mas, existiam também exceções de artistas do campo erudito que flertavam com o que o povo fazia, há inúmeros exemplos disso! Mas falemos aqui apenas da visão crítica à musica popular.
Tomemos alguns casos.

Hoje o jazz é tido como música de profundo refinamento, de gosto elevado, de complexidade técnica, na execução e na criação, de gosto refinado e mundializado, etc. Mas será que a visão sobre o jazz sempre foi esta? O que se pensava do jazz em Belém na década de 1930, por exemplo?
Vejamos: “Tratando-se de arte, atualmente, o critério é este: a aberração. Particularmente na música caracteriza-se simplesmente a preferência ao jazz-band sobre a orquestra. A excentricidade vem adquirindo foros de cidade. O jazz-band introduzido no Brasil (...) em ser excêntrico logo conquistou a opinião (...). Entre nós tudo quanto possa parecer disforme, em música, concomitante a tal modo de executar, os componistas arranjam uns monstrengos a que dão o nome de músicas modernas (...). Nada ou quase nada de melodia. Barulho, muito barulho; e, conseguindo-se umas fortes dissonâncias pelo meio, tanto melhor (...). Atravessamos uma fase de degenerescência em tudo (...). (Autor: A. V. no texto “O porque”, publicado na revista Guajarina, Belém, 1930).

Isso era o que um crítico dos anos 1930, escrevendo em uma revista de grande importância, que era lida pela elite intelectual da cidade das mangueiras pensava sobre o que era na época novidade, os jazz-bands e a sua maneira de tocar músicas “modernas”, algo visto como fruto da indústria cultural (apesar dele não usar o termo), algo que chegava pelos discos e ondas de rádios, pelo poucos rádios da cidade na época!

E o que se pensava do carimbó então no final do século XIX, em Belém? Como se sabe hoje o carimbó é símbolo de identidade regional paraense. Luta-se para que ele seja tombado com patrimônio cultural e histórico. Por mais que seja uma música extremamente simples do ponto de vista melódico e da letra é tido como a verdadeira música do “caboclo” da Amazônia. De antemão digo, para evitar desatenções, eu gosto e defendo o carimbó! Mas voltando à mudança dos valores de “bom” e “belo” sobre a música, vejamos o que se dizia do carimbó e de outros batuques afro-brasileiros em fins do século XIX em Belém, no Código de Postura da capital do estado: “É proibido, sob pena de 30.000 reis de multa: (...) Fazer bulhas, vozerias e dar autos gritos (...). Fazer batuques ou samba. (...) Tocar tambor, carimbó, ou qualquer outro instrumento que perturbe o sossego durante a noite, etc.” (Citado no artigo de Vicente Salles e Marena Isdebski Salles. “Carimbó: trabalho e lazer do caboclo”, na Revista Brasileira do Folclore em 1969). O carimbó era tão “identidade paraense” naquele momento, que quem fosse pego tocando o instrumento ia ter que desembolsar uma quantia nada folclórica.

Algumas décadas mais tarde o jovem intelectual recém chegado ao Pará, Jarbas Passarinho, também mostrava toda sua “condescendência” e “agrado” aos gêneros musicais populares, suburbanos e negro-indígenas das periferias de Belém. Dizia ele sobre os ritos “afro” e sobre os batuques: “a liturgia negra tem esboçado no horizonte das crendices brasileiras, painéis cheios de doloroso sentimento de idolatria”. Quanto ao instrumental do carimbó, descrevia: “um tambor cilíndrico imitando sons dolentes que penetram a alma rústica dos homens de cor” (Jarbas Passarinho, no artigo “Carimbó”, revista Guajarina. Em Belém de 1937).

Eis um painel, incompleto obviamente, mas representativo de gostos “refinados” sobre dois gêneros que hoje são considerados no geral modernos e refinados (no caso do jazz) ou representativos da identidade paraense (o carimbó).

Há muitas décadas atrás os termos que se utilizavam para caracterizá-los eram estes: “disforme”, “nada ou quase nada de melodia”, “aberração”, “excentricidade”, “monstrengos”, “barulho”, “degenerescência”, “bulhas”, “instrumento que perturbe o sossego durante a noite”, “idolatria”. Guardadas as devidas proporções de tempos históricos, quaisquer semelhanças com as palavras que se referem ao tecnobrega seriam meras coincidências?

Para não cansar o leitor quero dar apenas mais um exemplo da dança dos gostos no decorrer do tempo. Hoje muito tem se falado do verdadeiro brega paraense, aquele que seria o bom brega, que teria qualidade, diferente do novo brega que não deve ser considerado nem sequer como música. Esse brega “bom” seria para algumas pessoas o brega paraense e nacional dos anos 70 e 80 do século XX. Mas será que ele sempre foi visto assim? Vejamos o que um jornalista falava do cenário musical brasileiro em fins dos anos 80: “Falo do que se convencionou chamar de música romântica, ou ‘romantismo brega disfarçado’. (...) Para isso lançam mão de letras com um romantismo medíocre, fútil e às vezes piegas, juntam arranjos padronizados (com os terríveis teclados eletrônicos e bateria programada) e emplacam essas produções nas às vezes insuportáveis FMs”. (Osvaldo Belarmino Jr, no texto “MPB: romantismo que assola o país”, em O Liberal de 07 de julho de 1988).

Apesar de o autor não se referir diretamente à música paraense, cita o caso da fase brega de Fafá de Belém e de Jane Duboc. É possível crer que a visão sobre os bregueiros assumidos neste período, Ted Max e companhia, que faziam suas carreiras a partir de gravadoras como a Gravasom de Carlos Santos, não fosse muito diferente. O que era brega nos anos 80, hoje é cult. Sinal dos tempos. E isso nos leva à segunda questão sobre o tecnobrega, a da letra “b”: idéia de que seria uma música baixa, de baixo nível ou qualidade.


Gaby Amarantos leva ao palco a bandeira do Pará e do Brasil praticamente em todas as suas apresentações.

Ora se é “baixa” obviamente que tem que ser em relação a algo visto como “superior”, “elevado”, que esteja “acima”. E o acima neste caso tem sentido de algo “melhor”, de algo “bom”. Seria a música clássica o padrão de bom e elevado na análise do tecnobrega, seria a MPB e suas várias vertentes? Ao se considerar o tecnobrega como algo inferior à arte e a música algum padrão de arte e música tem que existir. Algo que faça o papel de padrão de comparação.

E aí fico a me perguntar o que faria do tecnobrega algo inferior a outro tipo de música. Seria apenas a sua “simplicidade” formal (em oposição a músicas mais elaboradas e complexas) e sua letra supostamente vazia, apelativa e imoral (em oposição a letras mais elaboradas poeticamente)? Ou também pesa neste critério o fato de o gosto médio da sociedade brasileira (representado na fala da maior parte dos jornalistas, do professores universitários, dos críticos de arte, etc.) ser o gosto oposto ao gosto dos subúrbios, das favelas e das baixadas do Brasil?

E ai é importante ressaltar que, pelo menos do ponto de vista musical em sentido estrito, uma música mais complexa não necessariamente é melhor que uma mais simples, por mais que a primeira seja mais difícil de ser executada, de ser criada e até de ser ouvida! O simples como inferior e o complexo como superior é muito mais um critério moral do que um critério estético, sobretudo na música, e em alguns casos até mesmo na letra - após as mudanças do modernismo literário no século XX.

O que é afinal um gosto elevado, uma arte elevada, uma boa arte? Quem diz o que é ou não é uma boa arte, de onde diz, de que lugar social, por quais meios ele diz? Quem concorda com isso, quem forma a opinião do belo e do feio na sociedade e por que isso ocorre do ponto de vista das divisões internas na sociedade?

Em resumo, a variação de gostos representa por vezes muito mais valores cultuais que propriamente uma análise detida da música em si. Até onde vai o preconceito cultural e social sobre o tecnobrega e até onde vai a análise da estrutura da música? E mesmo na estrutura da música o que determina o que é melhor e pior em se tratando de arte? Que padrões de beleza nos permitem dizer que o tecnobrega não é música, não mereça o critério de música?

Ironicamente em Belém a música vista como “baixa” é aquela das “baixadas” da cidade, dos lugares onde mora a população mais pobre de uma maneira geral.

Prefiro ficar com a acepção de um compositor e cantor paraense, que por sinal não tem nada a ver com o mundo brega, que fez uma definição clara e sem preconceitos do que seria a música tecnobrega do ponto de vista formal. Falo de Pedrinho Callado, conhecido por todos no meio musical paraense. Há tempos atrás colocou um texto em uma rede social no qual se perguntava as mesmas perguntas que me faço agora, e dizia que o “bom” ou o “mau” gosto em se tratando de música é uma resposta no mínimo complicada de se dar. Ao que percebi em seu texto ele apresenta essa música como arte, como um “tipo” de arte, dentro de tantos outros tipos de arte que existem (um tipo que obviamente ninguém é obrigado a gostar ou a desgostar – o próprio Pedrinho Callado não diz se gosta ou não do tecnobrega).

Eis o que ele diz: “Tecnomelody é uma forma de arte que se apropria de samples e loops na construção das batidas para o aprimoramento de um gênero genuinamente do Pará. Começa a partir deste século, com uma enorme referência melódica no chamado Brega Romântico (Ted Max, Alipio Martíns, Ditão e muitos outros) que se atualizou e processou para uma estética própria envolvente, com várias características como: bpm (batidas por minuto) bem acelerado, interferências na velocidade da voz, uma típica música eletrônica, com contribuição do Trance evidente nas batidas (gênero é caracterizado pelo tempo entre 130 e 160 bpm, oriundo do Tecno e do House, surgido na Alemanha na década de 90), com [sic] volumes altos perto de 100 decibéis (um capítulo à parte)” (Pedrinho Callado, no texto “MÚSICA DE QUALIDADE (MDQ)? O QUE É ISSO?”. Postado em sua página no Facebook: https://www.facebook.com/notes/pedrinho-callado/m%C3%BAsica-de-qualidade-mdq-o-que-%C3%A9-isso/194992713856739).

Isso é o tecnobrega, do ponto de vista da música (deixemos a letra para outro momento, por enquanto)! Podemos até não gostar dele, podemos até não gostar dele em altíssimo volume, mas se dissermos que ele não é um tipo de arte, que é algo inferior, que é algo pobre, que é algo baixo, aí teremos que responder a seguinte pergunta: Arte de quem e para quem?!

Continuaremos nas partes III e Final deste texto que serão publicadas logo mais.


 


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Tony Leão

É poeta e historiador. Pode ser encontrado escrevendo no blog MimComigoMesmo (AQUI) ou siga-o no Twitter (AQUI)

 

 

 

 

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