Michel Teló e o discurso sobre música ruim na web

 


Segundo a Revista Época ele vai te pegar... fujam para as colinas enquanto ainda dá tempo...

A música é uma das linguagens mais significativas para a humanidade desde o seu surgimento. Presente em rituais, integrando festividades, comemorações de nascimento, funerais, reuniões familiares, ritos de passagem e uma gama infinita de ocasiões. Usada para idolatrar a pessoa amada, para entoar lamentos, para felicitar... música é vida e cultura... Mas é também motivo de porrada. Que o diga Michel Teló e seu megahit "Aí se eu te pego".

Antes de começarmos a falar do que este texto se propõe a falar, é necessário deixar alguns pontos bem esclarecidos aqui para não gerar, por assim dizer, uma pauta paralela. A saber:

  • Eu não sou especialista em música, não vou ser e nem quero ser;
  • Não vou me deter aqui falando sobre qualidade musical, o que me interessa é o que se diz e como se diz sobre qualidade musical de certos estilos musicais, ou seja, meu foco é o discurso sobre a música, obviamente não vou me eximir de minha opinão quando achar necessário expor algo, afinal, é um texto meu e eu não tenho outra opinião além da minha, convenhamos;
  • Não tenho nada contra artista algum, músico algum... como falei acima, minha atenção é para o que se fala sobre música em determinados espaços virtuais, o que não significa que tenho de gostar do que esses mesmos artistas fazem;
  • E não, não gosto de tecnobrega, de forró, de axé, de pagode, de funk, nem do Michel Teló e nem de Chico Buarque. Explico: o ritmo não me agrada, a musicalidade não me agrada... são estilos musicais cujas melodias não me sensibilizam em nada, ou seja, não gosto do som/ sonoridade, ritmo/melodia, nem do instrumental por mais que haja boas letras (no caso do Chico Buarque há ótimas letras, mas não gosto dos arranjos de suas músicas. Pronto, falei).

Posto isto, vamos ao que o texto se propõe...

Dia desses percebi que a mídia e o público de forma geral voltaram seus olhos e ouvidos para Michel Teló e sua música "Aí se eu te pego"... O cantor ganhou a capa da revistas Época e bastou isso para dividir o mundo em fiéis e hereges de Teló. Muitos site, blogs e claro Twitter e Facebook, sempre eles, foram palco das mais variadas manifestações sobre "Aí se eu te pego" (vá lá, essa chamada da Época, senão é piada é ironia ou pura falta de noção mesmo, mas o que não se faz para vender revistas hoje em dia?)

A pauta principal era colocar em xeque a qualidade musical de Teló e de sua letra. Diga-se, "Aí se eu te pego" nem é de composição do cantor e sim de Antonio Dyggs e Sharon Acioly. Mas dane-se, Teló é a cara e a voz da música, pela lógica do discurso virtual ele é o culpado. Mas vamos aos fatos:

  • A música é rasa? é, mais até que um pires e sua letra é o básico do básico;
  • É música temporal, feita para impregnar o consumidor de música de temporada e da modinha para depois sumir do mapa;
  • "Aí se eu te pego" é o tipo de música feita para ser exatamente o que é, música básica, sem grandes pretensões exatamente porque precisa impregnar, pois em seguida vai sumir tão rápido quanto surgiu;
  • Música fuleira sempre existiu, sempre existirá, faz parte das culturas humanas ter o superficial para agradar o senso comum em qualquer estilo musical que seja, da opera, ao rock, à MPB.

Eu não falei nenhuma novidade acima, é o básico do mercado da música. Mas vou reduzir meu universo de análise para o que vi, admito, rapidamente, sobre música de qualidade duvidosa aqui em Belém, já que Teló não passou batido pelo crivo dos paraenses.

Vamos lá, foi assim que aconteceu: meio mundo atacou a letra de "Aí se eu te pego", todo mundo questionou os que gostam de "Aí se eu te pego" e Michel Teló passou a ser o pior músico de todos os tempos do último mês (esqueça o Restart...), os profundos conhecedores de coisa algum da web não perderam tempo em fazer paródias, charges, memes e o que fosse possível para tirar um sarro do hit do senso comum.

Certo, qualidade musical posta à prova, não é difícil perceber um paradigma em vigor quando se fala de música no Pará. O primeiro deles é o oba-oba em torno do tecnobrega/melody que está em curso. Falar de música paraense e falar uma vírgula contra o tecnomelody é ser considerado um herege e queimar na fogueira é o mínimo contra esses pecadores malditos (intolerância mandou recado de ambos os lados).

Só para deixar claro novamente, nada contra o estilo, seu ritmo e seus artistas de base, considero uma manifestação cultural e de grande representatividade de várias camadas sociais e faço uso dos argumentos do nosso amigo Tony Leão em seu ótimo especial sobre o tema tecnobrega que foram publicados aqui no PZ ano passo (leia o especial em duas partes AQUI e AQUI). Tudo bem, não precisam me queimar só por não gostar de tecnobrega, ok? Seguindo...

Continuando minha linha de raciocínio o que quero dizer é o seguinte: falar mal de "Aí se eu te pego" pode, falar mal da letra de "Aí se eu te pego" pode, detonar Michel Teló por cantar "Aí se eu te pego" pode... ah, também pode detonar o axé, o pagode, o funk e até mesmo o rock, mas não se pode detonar o tencobrega que é, segundo alguns "o legítimo som do Pará".

Mas vamos aos fatos:

  • Tecnobrega tem interpretes ruins, tanto quanto Teló é;
  • Tecnobrega tem músicas com letras muito piores do que "Aí se eu te pego" cujo cunho sexual ou apelativo faz até prostitutas coram de vergonha (alguém se lembra daquela música da "quem vai querer a minha piriquita"? Ou daquela outra música "Ela tá beba doida"? Francamente, ambas no mesmo nível de "aí se eu te pego", para dizer o mínimo);
  • E por fim, se é para criticar música rasa e ruim, então não vamos eximir ninguém... certo? Errado segunda uma ótica que defende o tecnobrega como sendo "o legítimo som do Pará" tornando-o assim intocável (como se aqui não tivesse MPB, rock, samba e outras manifestações musicais diferentes e de igual qualidade e raiz paraense).

Já sei que a fogueira, aquela dos hereges, já tem bastante lenha e que eu vou ser também apedrejado, vou reforçar meu questionamento: "Aí se eu te pego" é ruim? É, é ruim e é rasa, sua letra é apelativa e isso é compreensível porque isso sempre existiu no mercado da música... Do outro lado, dos muitos que criticaram "Aí se eu te pego" estão os que defendem diversos outros ritmos e músicas e artistas cuja a falta de qualidade das letras e das músicas é tão ruim quanto "Aí se eu te pego" e não se vê uma vírgula sendo dita sobre isso.


Mapa do Pará... ao contrário do que muitos pensam, ele não é uma massa homogênea, uniforme e identica em cada um de seus 143 municípios e que nenhum deles é igualzinho a Belém como os moradores da capital acreditam cegamente que sejam...

Me atenho ao exemplo do tecnobrega porque é a realidade que me cerca e é o discurso corrente em defesa deste ritmo como sendo algo dominante em todo o Pará. Engano ferrenho, pois arredar o pé de Belém para conhecer melhor o Pará é perceber que tecnobrega não é algo que está presente nos 143 municípios do Estado (divisão, alguém lembra os muitos dos motivos dela?). Por lógica não é o tal "legítimo ritmo paranese" como é alardeado aos quatro cantos do planeta.

O que quero dizer com toda essa minha chatice é que as pessoas devem ponderar sua língua ferina e seus argumentos e que "Aí se eu te pego" é só um exemplo do que acontece em relação a músicas de qualidade duvidosa. Não estou dizendo com isso que tecnobrega é só música ruim, que funk é só música apelativa, estou dizendo que nestes estilos principalmente há músicas assim e muita gente se cala para isso e ainda por cima ataca quem critica algum desses ou outro estilo musical quando o mesmo ganha ares de "legítmo".

Exemplo de frase que pincei no Facebook: "Essa música do Michel Teló só serve para dançar, porque a letra é um lixo mesmo" (Claro que não vou dar aqui o perfil da pessoa como fonte, sei que isso enfraquece minha linha de texto, mas é uma questão de preservação de um terceiro). Ora vejamos se não seria o caso de tirar o nome de Teló e colocar o nome de algum expoente do tecnobrega? Cairia como uma luva, não é?

Bem, o que estou dizendo é que esse senso crítico seletivo que aponto o lixo alheio, mas é conivente com o seu lixo embaixo do tapete é algo em voga no jornalismo cultural de Belém em muitos casos. Vejam bem, não estou defendendo Teló e sua música com profundidade de um píres e recheio de pastel de vento, estou dizendo sim que se for para falar de música rasteira, se for para criticar, que seja feito sem distinção, protecionismo, coleguismo e pior de tudo, bairrismo e regionalismos piégas.

E só para lembrar: não sou jornalista, não sou especialista em música e não questionei a validade de nenhum ritmo, não disse que Teló era melhor que o tecnobrega, eu não gosto de nenhum dos dois e por isso mesmo não vou fingir que tudo feito no tencobrega é a melhor coisa do mundo, não é e as pessoas que se propõem a falar mal de música rasa, rasteira, ruim ou feita para ser modinha tem de ser assim com qualquer música rasa, rasteira e da modinha, mesmo que isso signifique apontar o dedo sobre ritmos como o tecnobrega e o funk, por exemplo, ambos com suas qualidades e defeitos, mas que de um tempo pra cá se tornaram intocáveis pra críticas de qualquer gênero.

Gaby Amarantos e Lady Gaga, as duas faces de uma mesma moeda. Para mim a única diferença entre elas é a nacionalidade e o tamanho do manequim, porque ambas são cantoras pop de amplo apelo entre os públicos que querem atingir e ambas fazem isso muitíssimo bem, apesar de eu não gostar da música de nenhuma das duas... #ProntoFalei

Vai falar de música com letra rasteira? Então mantém o discurso para qualquer música com letra rasteira. Jogar a pedra com uma não no Teló e em "Aí se eu te pego" e esconder a outra mão quando é para criticar a prata da casa é estranho. Por isso que digo, não sou especialista em música, não sou crítico musical (nem quero ser), olhei para o que se diz e para a falta de coerência no que se diz, mas se é para apontar o dedo e falar, então eu aponto e falo mesmo. Se vamos falar mal da música fuleira e da modinha, então vamos fazer isso direito e sem bairrismo.

Por isso que sempre digo que não há nada separando Lady Gaga de Gaby Amarantos, a única diferença é que uma já ganhou o mundo e a outra está ganhando o Brasil. Mas aqui tem gente ouvindo Lady Gaga e torcendo o nariz para Gaby Amarantos ou vice-versa e esse é o tipo de coisa que acho babaquice por parte de quem ataca gratuitamente uma ou outra, já que ambas são exatamente a mesma coisa: cantoras de música pop (pop no sentido de popular segundo o Pop Art, lembram?).

E para encerrar o papo fiquem com uma canja de "Aí se eu te pego" no Youtube, ou não...






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Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.

 

 

 

 

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