O fim das grandes bandas de rock
A História já provou para todos nós que tudo, um dia, vira história. Não importa se foi revolucionário, se foi perfeito, se tinha ideias fantásticas, se mudou o mundo e a maneira como as pessoas entendem esse mundo e tudo ao seu redor. É o caminho das coisas no tempo: tudo acaba, volta do pó ao pó e ficam os registros escritos, fotográficos, audiovisuais e por aí vai. Assim é com as artes em geral, com a estética em geral, com a tecnologia, tudo passa... A música também, as bandas também.
Aviso importante: Este texto é mais um daqueles escritos por um cara que está ficando velho, velho e chato, muito chato e qualquer coisa é motivo para reclamar. Daqui pra frente é por sua conta e risco, a estrada de letrinhas é daqui até o fim pura idiossincrasia.
A célebre capa do álbum Darkside of the Moon do Pink Floyd. Eternizado!Outro ponto que é bom deixar às claras, quando uso o termo grandes bandas não me refiro as estruturas megalomaniacas de palcos e shows, ou de clipes na casa dos milhões de dólares nem turnês por dezenas de países por mês, me refiro a proposta de banda enquanto grupo de pessoas, composição de belas músicas com belos acordes e belas letras, ou músicas e pessoas que ultrapassam a barreira do tempo e conseguem superar também as barreiras de mercado e se firmam na história e no tempo arregimentando fãs de gerações que vão de avôs, pais e filhos.
O que entendo como uma grande banda perpassa por uma proposta de tocar boa música e conseguir fazer isso durante muito tempo, grandes bandas, são aquelas que, mesmo após seu fim, permanecem vivas no imaginário coletivo e cultural.
Não, não é uma profecia apocalíptica, nem uma maldição, é uma certeza que se concretiza dia a dia em um caminho lógico e cheio de obviedades relacionadas ao fluxo do tempo: as grandes bandas de rock estão acabando, ou pior ainda, já acabaram.
Calma, não significa que elas acabaram mesmo, é uma metáfora apenas, assim como aquela que diz que a arte acabou, mas o que acabou mesmo foi um tipo de arte, dando lugar a outro tipo que hoje as pessoas chamam de arte contemporânea (fujam para as colinas). Assim é com a música, assim é com as grandes bandas de rock, todas elas estão se acabando e junto com elas se acabando um estilo de se fazer música, de se fazer discos e shows.
Prova disso foi a sequencia de shows do famigerado Rock in Rio 2011 do dia 25 de setembro. No palco os ultra-caracterizados integrantes da banda de new-metal Slipknot com suas máscaras, seus macacões e suas performances teatralizadas, beirando o circense enquanto o vocalista bradava uns cinco ou seis "fuckyea" entre uma música e outra e uns dois dos, sei lá, 11 integrantes da banda corriam no meio da platéia e davam cambalhotas e pulos entre a multidão para, um bom tempo depois, subir ao palco uma das bandas mais cultuadas e respeitadas do rock mundial, o Metallica.
Show do Slipknot no Rock in Rio 2011 - Foto: Marco Terranova
Show do Slipknot no Rock in Rio 2011 - Foto: Marcelo CortesSem firulas James Hetfield (voz e guitarra) e seus companheiros Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo), um quarteto básico de metal das antigas, fizeram a cidade do rock (ao menos nesse dia fazia jus ao nome) tremer ao som potente do Metallica e seus 30 anos de estrada e respeito num show que, no bom sentido, foi até didático.
Show do Metallica no Rock in Rio 2011 (Foto: Photo Rio News)Setlist bem distribuído durante a longa carreira da banda, os grandes clássicos levando ao delírio o público formado por antigos e novos fãs, frases de efeito no idioma da banda e claro, as típicas frases ditas em português macarrônico não podiam faltar na apresentação de mais de duas horas do que vai ser contato por muitos a seus filhos e netos (guarde essa frase, vou precisar dela depois).
Sad But True, Master of puppets, Fade to Black, One, Nothing Else Matter, Enter Sandman e Seek and Destroy foram algumas das pérolas do Metallica para não deixar o show esfriar em nenhum momento, se é que isso seria minimamente possível.Sem efeito de comparação, Slipknot e Metallica fizeram shows fantásticos, mas vocês lembram do trecho que pedi para vocês guardarem? Pois é, por mais que alguém conte a seus filhos e netos sobre as firulas do Slipknot no palco, da bateria fodastica, das fantasias malucas, das máscaras de psicopata de filme americano adolescente de terror e dos "fuckyea" repetidos exaustivamente no palco, esse show, definitivamente, não vai entrar para a história do rock, por melhor e mais performático que tenha sido.
Aí você olha bem para minha cara e diz assim: "Tá, mas o show do Metallica muito provavelmente também não entrará". Perfeitamente, concordo em gênero, número e grau e aí chego onde queria chegar, no fim das grandes bandas. O show do Metallica no Rock in Rio 2011 não vai entrar para a história e nem precisa. Sabe por quê? Porque o Metallica já entrou para a história.
Show do Metallica no Rock in Rio 2011(Fotos: Photo Rio News)Com 30 anos de carreira, para a banda de James Hetfield e Cia Ltda, por mais que doa no coração dos fãs, esse, para eles, foi só mais um show de uma carreira repleta deles e de muito sucesso. Para o fã presente ali na cidade do Rock que esperou anos para ver o Metallica deve ter sido um show sem precedentes, para a banda, mais um grande show longe de casa.
Mas o que isso tem a ver com o fim das grandes bandas? Oras, simples. Metallica é uma grande banda, Slipknot não. Um já está na história da música, do rock, da cultura das últimas décadas do século XX e começo do século XXI, afinal, são 30 anos de carreira e muitas músicas inesquecíveis... e o Slipknot, onde estará daqui há, vou ser generoso, 20 anos? Provavelmente em lugar nenhum e se estiver em algum lugar, não será lá grandes coisas e o show do Rock in Rio 2011 estará num passado qualquer.
Beatles, Pink Floyd, Rolling Stones, Led Zeppelin, U2, Iron Maiden, AC/ DC, Kiss, Metallica, Black Sabbath, Joy Division, Sex Pistols, Ramones, The Cure, Queen, The Doors, Pantera, Tool, Pearl Jam, REM, Radio Head, Guns 'n Roses e muitas outras bandas que mesmo em atividade já podem ter seu fim decretado, não por estarem fora de forma, pelo contrário, com mais de duas horas de show, Metallica provou que pique não falta aos senhores do rock, mas o fim que falo é de um estilo de banda, dessas que tem na música seu foco. É na sua trajetória que essas bandas atraem seu público que, muitas das vezes, se renova nos esparsos novos álbuns lançados com periodicidade cada vez maior entre um e outro.
As bandas que escolhi foram bem óbvias, mas perceba nelas a durabilidade e longevidade como projetos de carreira. Bandas pueris sempre existirão, é uma necessidade até, sempre haverá bandas para durar uns 2 ou 3 anos, 5 no máximo e depois esquecimento e desprezo total por parte do público que, no afã de coisas ainda mais superficiais e ainda mais pueris muda para a próxima bandinha da moda.
Nada contra o Slipknot e seu som e suas fantasias, mas não vejo nesse tipo de banda um projeto musical, projeto de carreia, um objetivo de compor músicas para que, por si só e pela sua qualidade, acabem ganhando o imaginário coletivo, como uma Enter Sandman, por exemplo, ou uma Yesterday dos Beatles, ou uma Another Brick in the Wall do lendário Pink Floyd.
Como disse, filhos e netos não vão se importar muito com Sliknot e "Before I Forget", a musiquinha que os roqueiros posers do Twitter se "esgoelavam" em 140 caracteres para que a banda tocasse. Até porque fã que é fã vai ver o show e saí da frente do Twitter, convenhamos, porque narrar show em rede social é, ou perda de tempo, falta de interesse no show, ou show escroto ou, o que é mais comum atualmente, ambas as coisas.
Em alguns anos, depois que estes senhores do rock e das bandas de carreira encerrarem suas atividades, restará a todos nós a história dessas bandas como temos hoje a história dos Beatles, por exemplo, que atravessa gerações, conquista sempre novos fãs e acaba por influenciar novos grupos ano a ano.Não sei quanto tempo ainda temos para apreciar as grandes bandas que ainda estão fazendo seus grandes shows tocando seus hinos clássicos para platéias apaixonadas ao redor do mundo, só sei que não vejo mais nenhuma grande banda nascer há uns bons anos, o que convenhamos, é uma pena. Ou não, vai que as "grandes bandas" de agora sejam mesmo essas porcarias feitas para durar alguns anos e olhe lá? Como disse, estou ficando velho e cada dia mais ranzinza.
Mas é uma dinâmica do mercado da música produzir efervescências e a nova ordem musical do mundo é feita às pressas e esse mercado, o século XXI, a web e a educação, ou falta dela, criaram um novo tipo de fã: o cara que diz que é fã, tem a discografia da banda em mp3, não comprou e nem vai comprar um CD físico, não tem DVDs originais de apresentação da banda, só compra camisa para bancar o poser e muda de banda predileta como quem muda a playlist do tocador.
Vai ver que o que deveria ter um fim não são as grandes bandas, mas sim os pequenos fãs.
A idade chega para todos nós, talvez seja mesmo melhor que as grandes bandas acabem mesmo, fica a lembrança dos tempos em que as coisas eram feitas com mais afinco, quando até as brigas entre os integrantes de uma banda eram melhores. Desde agora já sinto falta do Metallica que, mesmo voltado em outros shows, já encerrou sua carreira com chave de ouro e nem precisa mais gravar álbuns.
Com 30 anos de estrada, respeito dos fãs, sucessos para gerações e gerações, quem se importa se um dia não houver mais grandes bandas como o Metallica? Ninguém se importa, sabe por quê? Porque grandes bandas são para sempre.
Ponto Zero - Cultura, Entretenimento e Informação Orlando Simões
É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.
