"E tem outra coisa..." o livro que não precisava existir

 


Capa nacional de "E tem outra coisa..."

Soube recentemente que saga do "Guia do mochileiro das galáxias" de Douglas Adams ganhou um sexto volume escrito por Eoin Colfer chamado "E tem outra coisa..." e que dá sequência aos fatos da saga original que é uma trilogia de quatro livros que se encerra no quinto. É, quem conhece Douglas Adams e leu os cinco livros sabe do que estou falando (por falar em Adams, ele é uma das pessoas que inspirou a criação do Ponto Zero, saiba mais AQUI).

A saga do Guia do Mochileiro das Galáxias é composta pelos seguintes livros: "O guia do mochileiro das galáxias", "O restaurante no fim do Universo", "A vida, o Universo e tudo mais", "Até mais e obrigado pelos peixes!" e "Praticamente Inofensiva. Todos escritos por Adams com o que há de mais refinado em humor, ironia e sarcásmo. Sem falar nas inúmeras tiradas tecnológicas satirizando a ciência, a religião, a filosofia e tudo que existe e não existe também.

A série virou cult e vende exemplares até hoje ao redor do mundo e ganha reedições sucessivas o tempo todo. Adams nos deixou em 2001, mas estaria sorrindo muito até hoje ao ver como sua obra é atemporal, divertida e encantadora. Quase obrigatória nas estantes de onze a cada dez nerds... (nerds de verdade, diga-se).

E o que há de errado com "E tem outra coisa..."? Vamos lá:
1) Não é escrito por Douglas Adams, isso por si só já é estranho e ruim. Para quem é fã do cara e leu a trilogia de quatro livros que termina com cinco sabe que é difícil imaginar Arthur Dent, Marvin, Ford Prefect e Cia Ltda sendo caracterizados por uma pessoa que não tem a personalidade de Adams. É pouco provável que outro autor criasse Marvin como ele é nos livros. Isso é algo que Eoin Colfer provavelmente não consegue fazer nem sabendo a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais...

2) A série foi brilhantemente fechada em "Praticamente Inofensiva"... Ao final do livro tudo se resolve em uma daquelas soluções malucas e nonsenses cheias de humor negro e sarcasmo que só Douglas Adams sabia criar. E ponto, acabou ali, já que Arthur encontra-se com seu destino visualizado no terceiro livro de Adams. Quem está com a memória afiada aí sabe que Arthur encontra um ser cujas encarnações sempre esbarram com o caminho dos aventureiros galácticos e sempre que isso ocorre essa criatura leva a pior e sempre culpa Arthur Dent por suas infinitas mortes. E em "Praticamente Inofensiva" temos o desfecho de todos esses encontros, o que faz com não haja necessidade alguma de continuação...


Douglas Adams tem uma legião de fãs em todo o Universo

Não precisamos deste sexto livro que me parece mais um caça-níquel. O que se diz, e nisso confesso que careço de fontes, é que Adams planejava dar sim continuidade à saga, mas seu falecimento em maio de 2001 impediu esses planos, mas sua esposa resolveu seguir os passos que o marido daria e incumbiu Colfer de escrever este sexto livro. O que parece ser mais uma ação do gerador de impossibilidades acabou se tornando um possibilidade, infelizmente.

Ver este sexto livro impresso e dando "sequência" ao trabalho de Adams é como ver alguém dando continuidade à Trilogia do Anel, contando aventuras de Frodo e Gandalf após a derrota de Sauron, ou Aragorn em busca de novas aventuras abandonando o seu posto de rei por não se acostumar à coroa sobre sua cabeça... Ou então é como se alguém começasse a escrever histórias sobre Case e Molly de Neuromancer de William Gibson após o fechamento da Trilogia do Sprawl.

Ou talvez tão inimaginável quanto alguém escrevendo uma continuação para 1984 de George Orwell, ou para Fahrenheit 451 de Ray Bradburry, ou pior ainda, imaginem que alguém resolve escrever uma continuação para obras como "O Processo", "O Castelo" e "A Metamorfose" do grande Kafka?. Não dá para escrever isso, é impossível escrever isso... Assim é com o Guia do mochileiro das Galáxias.

E não, não estou sendo fã xiita, só acho uma grande besteira canibalizar grandes obras com começo, meio e fim bem específicos e delineados, cujos fatos e motivações já foram apresentados aos leitores. Mesmo que fosse planejamento de Adams dar continuidade aos seus livros com mais volumes, tudo bem, seria Adams, o autor original, o que deu alma à obra... Assim como quem deveria dar uma continuidade ao Senhor dos Anéis seria Tolkien e mais ninguém.

Ao final do quinto livro Adams fecha as pontas que precisa fechar, encerra a obra sobre si mesma quando coloca Arthur e seus amigos diante do destino final a ele reservado desde o terceiro livro, a obra se torna hermética e coeso em seu desfecho e as perguntas que não tem respostas são exatamente isso, perguntas sem resposta.


Eoin Colfer e a capa de "And another thing...". Praticamente um herege...

Só falta agora Eoin Colfer, ao final de seus livros, sim, porque ao que tudo indica serão duas obras dando continuidade ao trabalho de Adams, inventar qual é a pergunta cuja resposta é 42, aí a coisa vai ficar muito, muito escrota mesmo, já que a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais foi a grande saca de Adams para mover todo seu universo maluco.

Todos nós sabemos a resposta (42), mas ninguém sabe qual a pergunta e se Colfer resolver bancar o leso e inventar essa pergunta, então é melhor todos nós rumarmos para o restaurante no fim do Universo porque o negócio tá ruim demais...

Resumindo: eu dispenso a obra de Colfer, prefiro manter na lembrança a originalidade de Douglas Adams e a alma que ele deu a seus personagens. Sei que o que vem depois não muda o que veio antes, mas isso não torna o que veio depois necessário.



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Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.

 

 

 

 

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