José Saramago é homenageado pelo Clube do Livro e Conversas Culturais
Se estivesse vivo, José Saramago, primeiro prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa, completaria 88 anos. Saramago faleceu no dia 18 de junho do ano de 2010, o velho escritor deixou ao mundo um legado de obras que falam do humano, do humano na dimensão que mais caracteriza o que somos: Nossas falhas, erros e desvios.
Um ano após sua morte, a obra de Saramago o mantém vivo e ainda mais atual do que nunca pela intensidade de seu texto, dos assuntos que aborda e da forma contunde que expõe o que há de mais obscuro em nós mesmos. Diante de um legado como o deixado por Saramago que a Livraria Saraiva e o Ponto Zero resolveram fazer uma programação conjunta entre o Clube do Livro Saraiva e o Projeto Conversas Culturais apresentando uma programação voltada à obra deste autor que, acima de tudo, nos mostrou nossa própria alma através de um pessimismo realista e denso, pois a realidade não nos dá férias...
Na programação exibimos o filme "Ensaio Sobre a Cegueira" dirigido por Fernando Meirelles, adaptação do livro homônimo de José Saramago, exatamente o livro que lhe rendeu o prêmio Nobel. Mas não paramos por aí, após a exibição entraram em cena o crítico de cinema Marco Antônio Moreira da ACCPA (Associação de Críticos de Cinema do Pará), de um lado e o escritor e professor de Literatura Portuguesa Rodrigo Maroja Barata do outro lado para falar da obra e do escritor.
Ao termino da exibição do filme de Meireles, Maroja discorreu sobre a obra do autor e suas principais características como clima denso, a visão pessimista da sociedade e seus estilo de escrita, com seus parágrafos extensos e muitas vírgulas para, em muitos casos, narrar histórias de estilo realista-fantástico para criticar a nossa sociedade. Maroja compara Saramago a outro grande escritor: Franz Kafka que também abusava do realismo fantástico para contar suas histórias densas e pesadas.
Ao ser questionado por que leituras iniciar um roteiro na obra de Saramago, Maroja não se apressou em dizer que a prosa curta do autor é a mais indicada para isso, haja vista que em Saramago não há obras "fáceis" ou "menos densas", mas que é na prosa curta que se encontra um atalho para vencer sua escrita de períodos longos e temas nada bonitos ou delicados, haja vista que o escritor queria mesmo fazer seu papel de ator social através da crítica contundente de suas histórias.
Já o crítico Marco Antonio olhou direto para a obra cinematográfica e o diálogo entre os dois convidados centrou atenções na adaptação e nas escolhas do diretor Meireles. Marco Antônio apontou as diferenças entre filme e livro lembrando que, assim como Barata também reforçou, que adaptações da Literatura para o Cinema dificilmente conseguem agradar aos leitores da obra original, mas que exatamente pelo fato de ser uma tradução entre mídias é que o crítico da ACPPA aponta o fato de que invariavelmente as diferenças sempre irão surgir pelo fato de serem linguagens completamente distintas.
Outro ponto de "Ensaio Sobre a Cegueira" que Maroja aponta é o fato de que no livro todos os personagens são anônimos, comuns e sem nome, por tanto uma representação de todos nós, de qualquer uma e de todos ao mesmo tempo. Fato que fez o escritor estranhar o elenco de do filme com nomes de peso como Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Gael García Bernal, Alice Braga. Já Marco Antonio aponta uma justificativa cinematográfica para os atores que deram rosto aos anônimos do livro: Um filme precisa de um bom elenco para se sustentar, inclusive para se sustentar diante dos produtores do mesmo, pois sem nomes de pesa como o elenco do filme de Meireles, muito provavelmente o mesmo não sairia do papel, literalmente.
Ao contrário de um bom livro que precisa essencialmente do talento de um bom escritor para criar uma boa história, bons filmes precisam de boas equipes, do roteiro adaptado até o lançamento nas telonas.
Os nossos convidados aproveitaram e adentraram por outras obras e outros autores para enriquecer mais o debate e traçar paralelos entre a obra de Saramago e outros grandes nomes. A platéia também não se furtou de participar e colaborar com o debate expondo pontos de vista, questionamentos e opiniões para Maroja e Moreira.
Bom, basicamente e resumidamente foi assim que aconteceu nossa singela homenagem a um dos maiores nomes da literatura em portuguesa e, sem medo algum de errar, mundial também.
Sobre o Clube do Livro
É um espaço de relacionamento entre pessoas que gostam de ler e que se encontram mensalmente a fim de trocar ideias e socializar impressões sobre suas leituras.
Iniciativa pioneira em livrarias, a proposta é reunir amantes da leitura das mais variadas faixas etárias, para encontros mensais nas lojas, onde são abordados livros sobre um determinado tema, autor ou obra. Um mediador coordena o bate-papo. Este encontro acontece simultaneamente em várias lojas da rede Saraiva, em todo o Brasil. São sorteados livros entre os participantes, cujos assuntos podem se tornar temas para os próximos eventos. O Clube do Livro Saraiva é realizado sempre no último sábado de cada mês.
Sobre o Projeto Conversas Culturais
O projeto Conversas Culturais é uma iniciativa do Ponto Zero para por em um mesmo espaço e programação o artista da cultura e o público para interagir, debater, dialogar e se divertir juntos, trazendo para a cena cultural uma dinâmica de encurtamento do espaço que existe entre quem faz cultura e quem consome essas atividades culturais.
Debates, conversas e uma intensa troca de ideias são o foco dos encontros do projeto que caminha sempre em várias linhas da cultura e com programações diversas envolvendo segmentos variados da cena cultural de Belém.
Especial Jose Saramago
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