A velha imprensa inexperiente e a culpa das formas de entretenimento...




Nosso país foi tomado de assalto por uma das notícias mais chocantes dos últimos anos. Eu sei, tivemos várias notícias chocantes nos bombardeando esses anos todos: O menino João Hélio arrastado por quilômetros após o roubo do carro dos pais, a pequena Isabela Nardoni arremessada pela janela do prédio pelo pai e pela madrasta, a jovem Eloá morta após ficar sob a mira do revólver do ex-namorado, a professora Geísa Firmo Gonçalves morta no seqüestro do ônibus 174 por Sandro Barbosa do Nascimento no Rio de Janeiro e muitas outras são algumas dessas notícias.

No dia 7 de abril mais uma tragédia se junta às mencionadas acima e as que não foram mencionadas também: Quarta-feira, dia 7 de abril, Wellington Menezes de Oliveira ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro de Realengo, entrou no estabelecimento educacional onde havia estudado durante anos portando dois revólveres calibre 38 e muita munição, entrou em salas de aula e disparou contra vários alunos, matou 12 crianças, deixou mais 13 feridos.

O Brasil, infelizmente, foi vítima da violência estranha, psicótica, macabra que até então, ou era coisa de filme americano ou era tragédia americana mesmo. A violência se globalizou... Com tantos históricos de violência em nosso país, nenhum deles foi tão inesperado como esse. As doses de violência diária de nossa sociedade, bebês deixados em latas de lixo, sequestros, estupros, mortes desnecessárias por um par de tênis, um relógio, um celular, algumas notas de real... Nada pode e nada poderá nunca nos tornar indiferentes a um massacre de crianças no interior de uma escola. É crueldade demais, é incoerência demais em um único ato. Não digo que deixar um bebê no lixo ou as centenas de crianças que morrem de fome seja mais ou menos crueldade que a tragédia de Realengo, mas nunca se imagina que seu filho sai de casa para ir à escola, arrumado, saudável, sorridente e sem mais nem menos ser morto a tiros por um lunático.

O Brasil, infelizmente, foi vítima da violência estranha, psicótica, macabra que até então, ou era coisa de filme americano ou era tragédia americana mesmo. A violência se globalizou... Com tantos históricos de violência em nosso país, nenhum deles foi tão inesperado como esse"
Wellington Menezes de Oliveira e a escola de onde desencadeou uma tragédia para várias famílias.

Sim, eu sei, crianças morrem de fome o tempo todo no mundo todo por aí e ninguém faz nada, a omissão impera nesse sentido, mas são pesos e medidas diferentes demais para serem postas em um mesmo texto. Ao menos eu não tenho capacidade para falar dessas duas tragédias ao mesmo tempo, por hora me atenho ao que ocorreu em Realengo.

Lamento muito tudo isso, ainda não sou pai, quero ser no momento oportuno, mas tenho crianças perto de mim que amo muito, são filhos de amigos e minha afilhada, não gosto sequer de supor que algo de ruim possa a acontecer com alguma dessas crianças, nem com nenhuma outra criança. Ignorar um ato de extrema violência como esse é impossível. Eu disse ato, não notícia, não oportunidade de faturar em cima da tragédia de pais e mães destroçados pela perda de seus meninos e meninas, eu disse ato, não oportunidade de criar algo a que explorar e tirar da dor alheia combustível sensacionalista para vender jornal, vender revista.


J. D. Salinger, autor do livro "O apanhador no campo centeio"

Uma coisa é você noticiar, outra é você tripudiar sobre a dor alheia tornando uma tragédia em mercadoria a ser levada para lá e para cá como se fosse uma pacote de alguma coisa qualquer que não tem a mínima ligação com os sentimentos das pessoas.

Que a chamada grande mídia adora explorar tragédias como a de Realengo todos nós já estamos cansados de saber, ver e ler, que a chamada grande mídia é irresponsável, desenfreada, fria e cruel com quem gravita em torno dessas tragédias isso também não é novidade, que a chamada grande mídia também se apressa em conseguir culpados variados para os desvios de caráter de quem pratica os crimes isso então, é quase uma regra.

É fácil achar um bode expiatório, culpar esse ou aquele ponto em ações rápidas que visam soluções igualmente rápidas para os problemas da sociedade. Simples assim, basta dar uma resposta superficial com metade de fatos ou nem isso, meias verdades mal e porcamente conectadas por fios mínimos unindo games com uma mente doentia de um culpado que, sem intenções de redenção, é uma vítima de sua própria condição doentia. Afinal, só mesmo uma mente cheia de coisas estranhas seria capaz de arquitetar tudo que arquitetou e ao final de tudo, puxar o gatilho contra a própria cabeça. Se era louco, era um desses loucos inteligentíssimos, igual a um certo alemão insano que colocou uma nação aos seus pés e contra todo o restante do mundo em prol de uma chamada "raça pura".

Desta vez não foi diferente, já culparam todas as religiões, já culparam a internet e claro, já culparam a bola da vez no desvio e declínio de todo mundo que não presta nesse mundo: Os games.

Bom, aí chegamos onde eu queria. Um dia Mark David Chapman resolveu matar ninguém menos que John Lennon, o eterno líder dos Beattles. Após pedir um autógrafo para Lennon e disparar conta o eterno líder dos Beattles, Mark ficou ali, parado esperando a policia voltar à cena do crime para lhe prender, em suas mão um exemplar do livro "O apanhador no campo centeio" do escritor J. D Salinger. Resultado? Culpa do livro, claro... John Hincley Jr. atirou em Ronald Reagan, então presidente dos EUA. Dizem que ele tinha uma cópia do livro "O apanhador no campo de centeio" também. Lee Harvey Oswald, suposto assassino de John F. Kennedy, supostamente também tinha uma cópia do livro de Salinger, mas nada nunca foi oficialmente confirmado sobre isso.

Charles Milles Manson foi o mentor de uma seita que cometeu vários assassinatos, incluindo-se na lista Sharon Tate, mulher de Roman Polanski. Entre as inspirações do psicótico Manson é citada a música "Helter Skelter" dos Beattles. Resultado? É isso mesmo, culpa da música. Óbvio, afinal, segundo a grande mídia, seres humanos não fazem crueldades, mas músicas, filmes e livros...

Simples assim, basta dar uma resposta superficial com metade de fatos ou nem isso, meias verdades mal e porcamente conectadas por fios mínimos unindo games com uma mente doentia de um culpado que, sem intenções de redenção, é uma vítima de sua própria condição doentia"
O psicopata Charles Milles Manson dizia ter se inspirado em uma música dos Beattles para cometer assassinatos com sua seita
Mark David Chapman resolveu matar ninguém menos que John Lennon. O assassino tinha uma cópia do livro "O apanhador no campo de centeio"

Muitos anos depois uma série de crimes violentos envolvendo jovens foram atribuídos aos filmes da trilogia Matrix. Jovens trajando óculos escuros, sobretudos, calças e camisas negras ao estilo Neo e Trinity portando armas e atirando contra outros jovens. Resultado? Adivinhou? Culpa, é claro, de Neo e companhia limitada segundo muitos jornalistas e especialistas, pois foram os atores que colocaram as armas nas mãos dessas crianças perturbadas para que elas matassem outras crianças não perturbadas. Culpar o cinema, além da música e da literatura é um recurso velho, mas os casos ligados aos filmes dos irmãos Wachowski foram por demais emblemáticos em todo o mundo. O caso Columbine, também muito ligado aos filmes, ficou na verdade mais marcado por sua associação aos jogos de tiro. Os games usurparam o caráter corruptor dos filmes para si no imaginário dócil e alienado dos que procuram soluções simplistas para coisas extremamente complexas.

Mas o a Literatura, a Música e o Cinema perderam muito de sua força em relação aos jovens com o passar dos anos e quem subiu na escala de corrupção de nossos jovens foram os Games. Esses veículos de violência gratuita, de morte desenfreada e corpos em pedaços pelo mundo todo e que, claro, colocam armas nas mãos de jovens para matar outros jovens distorcendo a realidade. Afinal, a culpa não é das pessoas, não é da falta de educação e nem é por distúrbios psicológicos e desvios de comportamento, muito menos de pais e mães omissos e ausentes como tem surgido aos milhares por aí, não, não é. Games matam mais que qualquer ser humano... isso, a grande mídia descobriu sozinha com suas perspicácia e sagacidade que somente anos de um modelo arcaico podem proporcionar... E sim, estou sendo irônico, é bom avisar...

Opa, mas isso foi feito com a Literatura, com bandas de rock, com filmes, com histórias em quadrinhos... Incrível como as formas de entretenimento matam tantas pessoas não é? E segundo matéria do jornal O Globo (AQUI), quem desencadeou o massacre na escola de Realengo foi ninguém menos que a dupla imbatível de corrupção comportamental dos nossos tempos: Counter Strike e GTA, dois games mundialmente conhecidos.

Eric Harris de 18 anos e Dylan Klebold de 17 anos, responsáveis pelo terror de Columbine

Segundo o que se apurou até agora e em um parágrafo que já não consta mais na matéria do O Globo a reportagem  dos jornalistas Antônio Werneck e Sérgio Ramalho no jornal, afirma que “os investigadores conseguiram rastrear um blog feito por Wellington, que usava a página na Internet para disseminar mensagens desconexas sobre religião e jogos como GTA e Counter Strike (CS), onde o jogador municia a arma com auxílio de um Speed Loader, um carregador rápido para revólveres, usado por ele no massacre de alunos na Escola Municipal Tasso da Silveira. Nos dois jogos, acumula mais pontos quem matar mulheres, crianças e idosos”.

Lição de desconhecimento total sobre os dois games e não só sobre isso, mas sobre games de uma forma geral. Expediente antigo, batido, ultrapassado esse de culpar uma mídia de entretenimento por ações violentas. Coisa velha e sem sentido em pleno século XXI. E claro, isso não passaria despercebido pelos grandes veículos informativos que trabalham a temática dos games, foi uma questão de pouco tempo até a Acigames (AQUI) com o excelente texto "Gamefobia – Como Ignorar Mazelas Sociais e a Pequenez Humana", se pronunciar sobre os tristes parágrafos da matéria d'O Globo que, como já disse, teve trechos alterados e parágrafos removidos após a manifestação da comunidade gamer no Brasil todo.

Outro veículo que se pronunciou sobre o fato foi o UOL Jogos (AQUI), que bateu pesado na matéria rasteira d'O Globo, inclusive fazendo menção a tag #VideoGameMata que permaneceu durante um bom tempo nos TTs do microblog Twitter com jogadores de diversas idades fazendo piadas com o conceito arcaico de que jogar video game pode tornar, de alguma forma, as pessoas em retardados e debilóides capazes de reproduzir ações tal qual se faz ao jogar um game qualquer (Se você voa em um jogo, pode voar fora dela, em uma analogia bem básica e rasteira, bem ao estilo do que foi dito na matéria já mencionada).

Vamos aos fatos. Hitler jogou muito vídeo game? E Charles Manson jogava o que? Porque convenhamos, só umas músicas não o fariam matar do jeito que matou. E o que fez um jovem sequestrar um ônibus e colocar sob a mira de seu revólver uma jovem professora? Afinal, games não caírem nas mãos do assaltante, haja vista que o mesmo passou anos como menino de rua, por tanto, sem acesso a games. E que jogos tantos traficantes, sequestradores e assassinos jogaram e que os corrompeu tanto a ponto de serem tão nocivos a outros seres humanos? E os políticos, porque há tantos tão corruptos e igualmente nocivos à nossa sociedade? Eles também são todos corrompidos pelos games?


GTA IV é só mais um jogo qualquer, não é o resposável por centenas de outros fatores que desencadearam as ações de Wellington, dentre eles, uma mente já desequilibrada, capaz de confundir qualquer traço de delírio com realidade.

É preciso sair dessa zona de conforto em que se estagnou a grande mídia, culpar esse ou aquele meio de entretenimento é coisa de gente velha, sensacionalista, desinformada e com algum desvio de foco no que diz respeito ao olhar sobre o ser humano.

Culpar esse ou aquele livro, culpar essa ou aquela música, culpar esse ou aquele filme, culpar esse ou aquele game por um único ato de insanidade, de crueldade é, no mínimo, preguiça de raciocinar sobre motivações, causas e feitos. É uma questão de números sólidos e reais. A indústria dos games cresceu muito e atingiu patamares maiores que a própria indústria cinematográfica, milhões de unidades de jogos são vendidas no mundo todo, são milhões de jogadores no mundo todo de idades variando dos 4 aos 40 anos, e até mais talvez. E quantos desses jogadores são assassinos e já praticaram crimes? E quantos criminosos prontos e vivos existem hoje no mundo violando todo tipo de lei e que nunca, sequer, chegam perto de um game, ou porque não, de um livro?

Repito, recorrer ao expediente de culpar mídias por crimes cometidos por dementes é, no mínimo preguiça ou muita vontade de ver chifre em cabeça de cavalo. Se games, livros, música cinema, filmes são tão nocivos assim, o número de criminosos e assassinos como Wellington deveria superar e muito o número de pessoas normais, não é mesmo? Como disse, questão de número e de raciocínio lógico. Se muita gnete joga, logo, pelo raciocínio da grande mídia, muita gente estaria matando por aí.

Pessoas que ainda usam esse tipo de recurso escapista tem de entender o seguinte ponto: Gente como Wellington Menezes de Oliveira, Mark David Chapman, Charles Milles Manson, John Hincley Jr., Lee Harvey Oswald, Adolf Hitler e muitos outros lunáticos não são a regra da sociedade, eles são as exceções. Este tipo de gente está à revelia da sanidade e ultrapassou toda e qualquer barreira de bom senso e respeito pelo outro. Não foi "Apanhador no campo de centeio", não foi GTA, não foi Matrix que os inspirou, o parafuso solto já estava ausente há muito tempo, o tic-tac já soava lá dentro de suas cabeças e foi questão de tempo até a bomba explodir na direção de inocentes. Iria explodir com ou sem filme, com ou sem música, com ou sem game.

Pergunto outra vez: Que livro, que filme, que HQ, que game, que música motivou Hitler a destruir milhões de judeus e declarar guerra a outra metade do planeta? Essa pergunta eu deixo para os grandes gênios da teoria culposa das mídias sobre os males do mundo. E quantas outras guerras foram travadas ou desencadeadas por recursos naturais, territórios, riquezas e tudo mais e sequer um livro ou filme foi envolvido nessas barbáries?


Revólver calibre 38 e um speedloader semelhantes aos usados por Wellington. Jogos não ensinam a atirar, joystick, mouse e teclado são completamente diferentes de qualquer arma real.

De minha parte digo que sou jogador desde os idos do Atari, já li inúmeros livros de gêneros diversos, adoro filmes, adoro música e teatro também. Armas eu só as vi em filmes de ação e olhe lá, nunca matei ninguém e nem dirigir eu sei, aos 30 anos, 31 em maio de 2011, não há nada nesse mundo que consiga fazer minha cabeça para portar uma arma e atirar contra uma criança, imagine então contra 10, 11, 12 crianças indefesas em uma sala de aula. E gente como eu e como vocês, senhores da grande imprensa, são a regra da sociedade e não a exceção. Não é um único meio de entretenimento que nos fará surtar do dia para noite e cometer atos hediondos. Ou somos loucos há muito tempo ou não somos, não jogos, livros e filmes que nos tornam loucos.

Fica aqui meu protesto e meu lamento por tudo isso que abateu-se sobre nossa sociedade como um todo. A tristeza por saber que crianças não vão chegar à mesma idade que eu e que isso poderia ocorrer em qualquer lugar com qualquer pessoa e família, existe hoje o eterno medo que um mundo pior que esse aguarda por meus futuros filhos e netos, que me aguarda na esquina de casa.
E por fim, não é humano banalizar a dor das famílias dessas crianças que partiram tão cedo, não é bonito jogar com isso como se fosse uma mercadoria qualquer a troco de um tostão qualquer. São pessoas e sentem dor e tristeza demais para ainda ter que aturar gente irresponsável que transforma dor em espetáculo e sofrimento em moeda corrente.

É impossível virar o rosto para essa tragédia, é impossível não se pronunciar sobre isso, mas há uma linha bem espessa entre informar, falar sobre, dizer, expor e espetacularizar, banalizar a dor alheia, o sofrimento e a lágrima de quem perdeu seu filho ou filha.

Se gente monstruosa e doentia como Wellington Menezes de Oliveira é mostro pelo que fez, quem desrespeita a dor de pais e mães que perderam seus filhos é o que?



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Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.

 

 

 

 

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