Maus Momentos... (da série Galeria dos Maus)


 

Não importa o que ou quem você seja, o que importa são os maus momentos... faça milhões de coisas boas, ajude o mundo a ser melhor, ajude as pessoas em suas dificuldades em momentos complicados, sorria, fale, brinque, abra seu coração, em suma, seja bom... e isso não importa absolutamente NADA. Não que você tenha que ser mau...

A grande característica de nossa raça é a violência, é a agressão, o combate, a depredação de nós mesmos e de tudo ao nosso redor. Quem lembra do bombeiro que arrisca sua vida contra o fogo ou contra as ondas do mar em prol de outra vida?  Mas quem esquece o assassino, o traficante? O estuprador? O pedófilo?

Nossa sociedade está estupidamente pautada na existência do predador humano e de sua capacidade de permanecer vivo e impune, cheio de direitos e de proteções e altares para adorá-lo. Nossa sociedade está pautada na idolatria e conivência com a maldade dentro e fora de nós. Atrás das grades estamos todos nós e nossos filhos e netos, liberdade é um luxo dos bandidos, assassinos e traficantes, dos que matam por um relógio, um aparelho celular, por um trocado para comprar a próxima pedrinha, próximo grama de pó para entupir suas narinas e ficar “legalzão”, “alto”, “bacana”... Só tenho a lhes agradecer senhores bandidos e assassinos e traficantes e estupradores por existirem em número tão grande e tão organizado e coeso a ponto de marginalizar o trabalhador, o pai de família, o estudante, a mãe, a filha, o vizinho e todos os seres humanos dignos de respeito e admiração que estão aí jogados ao que o azar determinar.

Faça milhões de coisas boas e você não tem direito a absolutamente nada de bom, nem afeto, nem respeito, nem carinho, nem amizade... seja o pior que você puder e até direitos humanos você tem. Mas lembre-se, não dá para esperar algo além disso, em uma sociedade que prefere construir presídios ao invés de construir escolas, o que se pode esperar?

No mundo que é mais fácil tentar solucionar o problema em seu último estágio que no seu começo é assim que as coisas vão ser. Quer viver honestamente? Bem-vindo ao lado contrário da corrente, você vai se exercitar bastante, correr muito, aprender a se desviar de balas, a andar sempre coagido, sempre refém do próximo pilantra a passar ao seu lado como se fosse o dono da rua, da calçada e com total direito de apontar uma arma para as suas fuças. É, é isso mesmo, você e eu temos fuça, quem tem rosto nessa droga são os bandidos, quem tem direito são eles e os seus pares... gente como eu e como você é animal para o abate.

Seus direitos e o nada se equivalem... agora transgrida, ultrapasse a linha que toda essa corja de vagabundos ultrapassa diariamente e você rapidamente sentirá o peso da espada da lei em cima de sua cabecinha. Para você existe todo tipo de penalidade, de cerceamento, de limite, de cobrança, mas não há um momento sequer em que você possa ser protegido, defendido, amparado pela lei. Não há.

Quer trabalhar? Azar o seu, problema seu... Têm contas? Amigo, só lamento, pois você terá mais ainda. Trabalha para se manter? Educar seus filhos e sustentar sua família? Você suou a camisa para comprar um celular legalzinho? Não se preocupe, algum safado vai tirar esse fardo pesado de seu bolso e trocá-lo por um baseado ou um saquinho de pó (mistura de um pouco de drogas e um muito de talco e soda caustica) para curtir mais uma viagem. Comprou um relógio? Perdeu playboy, isso não é um direito seu, você trabalha para sustentar os vagabundos, esses sim podem ter e fazer o que lhes for conveniente. Conforme-se, seu perdedor, seu lugar e o meu é o de animal de caça, pura diversão. Bem-vindo à selva, cordeiro, os lobos estão soltos e você é o alvo.

Lamentavelmente a selva de pedra e tudo nela pertence a quem não faz absolutamente nada de bom por ela. Lembra do bombeiro? Pois é, ganham tão pouco, tem equipamentos muitas vezes tão precários, mas estão aí, lutando por uma vida digna. Mas o ladrão tem uma arminha legal, uns tênis estilosos, possuem o direito de transitar do amanhecer de uma dia a outra, enquanto você mal pode ficar diante de sua própria casa. Quem mandou ser bom, ser honesto, ser educado, ter estudo? Agora fica aí, dentro de casa, trancado, com medo, resignado porque eu falo, você fala, todos nós falamos, mas ninguém nos ouve... e o malandro ainda te manda calar a boca senão ele te enfia uma bala no meio da fuça.

Bandido não morre, bandido não se fere, não se machuca... bandido só dá um tempo. Esses desgraçados são imortais... só pode.

Dia desses compro uma daquelas armas de logo alcance, subo num prédio bem alto e começo a atirar em umas cabeças suspeitas. Vou preso, vou ser morto na prisão, vou mandar algumas almas ao inferno, ou ser considerado louco, mal, sem juízo e condenado por meus pares porque quis defendê-los de assaltantes. Mas integrarei a galeria do maus e todo mundo vai lembrar que, em um momento de insanidade eu joguei fora uma vida promissora, de estudos, de trabalho honesto, desmereci o amor de minha mãe, a amizade de meus amigos e desonrei todos os princípios básicos do bom selvagem transgredindo uma série de leis que garantem que pessoas como eu não machuquem os pobres e indefesos marginais, bandidos, assaltantes e toda essa laia de safados.

Eu tenho direito ao meu dia de fúria, mas como tudo nessa vida esse é só mais uma daqueles desejos de cidadão pacato e indignado por não possuir absolutamente nada que me torne uma pessoa capaz de viver em paz no meio de um monte de gente ruim.

Se não há mais nada a dizer, que reine o silêncio então, mas lembre-se: Quem cala consente... e eu, eu não me calo.

E você? Já optou pelo silêncio?

 


Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.



 

 



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