A dificuldade que as coisas tem em aceitar que o tempo delas também se vai...
Representação artística de um nanorobô. A nanotecnologia é derivada de pesquisas em campos diversos da Física e visa, entre outras coisas, criar máquinas capazes de combater bactérias e vírus no nível molecular.Falar de Design é, ao mesmo tempo, falar de coisas e de pessoas. Com a grande diferença das coisas serem mais fáceis de entender do que as pessoas... e de criar também.
Obvio que os designers criam muito mais coisas que pessoas, até porque estas, em relação aquelas, demoram muito mais tempo para ficarem prontas e o projeto de uma coisa pode envolver uma só pessoa, já projetar pessoas, invariavelmente envolve outras duas pessoas. Claro, refiro-me ao fato de que é necessário um gameta feminino e um masculino para dar início ao protótipo e de, invariavelmente, um ser do sexo feminino para, digamos assim, ser a embalagem do projeto de ser humano (no bom sentido, é claro).
E por favor, nada dessa balela de homofobia pra lá e pra cá, tenham bom senso e vejam que falo de questões estritamente biológicas de reprodutibilidade de um ser humano através de outros seres humanos, nada a ver com heterossexualidade ou homossexualidade, faz favor...Bom, enrolações filosóficas a parte, o que quero falar aqui diz respeito intrinsecamente ao fator Ciclo de Vida do Produto (CVP), um fator que deve ser sempre levando em conta ao se projetar algo, seja algo físico ou virtual e como esse algo vai se comportar em um dato momento na sociedade e na cultura, grosso modo falando (se você faltou as aulas de Ciclo de Vida do Produto, corra para as reposições, eu fico aqui esperando...).
Não vou fazer uma análise minuciosa do que é e qual a importância do CVP no processo de Design, a bibliografia existe pra isso, vão lá, seus lindos, consultem-na. Quero mesmo é olhar com cuidado para os produtos, alguns deles, claro, notando como são ingratos o passar dos dias para as coisas (para as pessoas também, mas já as deixei de lado lá em cima, lembram?).
Todo produto passa por uma análise criteriosa de requisitos para ser produzido, lançado e consumido pelos mais diversos tipos de usuários, as questões de técnicas e tecnologias de produção marcam profundamente a existência de diversos produtos exatamente porque em sua época de concepção não havia outra forma de se criá-los e mais ainda, de se produzi-los. Quem conhece bem Semiótica peirciana sabe que todo e qualquer produto do fazer humano é um Índice da cultura e da industrialização da época, haja vista que o signo indicial é o signo afetado fisicamente pelo seu objeto, então, sendo assim, um martelo da era vitoriana tem as marcas culturais e produtivas que se reportam diretamente a era vitoriana e não a outra qualquer exatamente por te sido afetado fisicamente por essas mencionadas características. Produtos são signos do fazer humano, de nossa interferência no e para o mundo.
As pesquisas com DNA e nanotecnologia são exemplos de pesquisa prática a partir de pesquisa de base, dentre muitos resultados, podemos citar, por exemplo, os processos de compatação de dispositivos como processadores e memórias para computadores.Uma escadaria criada no estilo Art Noveau tem caracterísitcas Art Noveu exatamente por se daquele contexto, daquela época específica e de suas maneiras de criar e produzir um dado bem material
Mas vejam bem, um produto não é só indicial, há uma gradação sígnica bem mais complexa e elaborada nesse processo, mas que escapa ao ponto onde quero chegar... essa parte aí de Semiótica e gradação fica pra próxima...
Voltando mais uma vez ao que quero expor. Produtos são marcas de um tempo em que não havia como criar outra coisa a não ser o que foi criado. Primeiro porque em dado momento de nossa história como sociedade, como seres de cultura, foi preciso desenvolver as coisas de acordo com nosso aprendizado e com o que havia disponível para isso. Um dia escrevemos e desenhamos nas paredes das cavernas, hoje fazemos isso nos melhores papéis, nos computadores, nos celulares e compartilhamos isso com o mundo ao invés de deixarmos isolado e perdido nas rochas e sujeito a ação das intempéries. Pena que muitos seres humanos não sejam capazes de aprender a ler e escrever...
Trecho do LHC (Large Hadron Collider), o maior acelerador de partículas do mundo, tem 27 quilômentros de comprimento. Imagina só os resultados das pesquisas vindas daí... \0/Ao fazermos uso de uma dado contexto de produção delimitado pelo que as pesquisas permitem usar de forma segura, criamos produtos condizentes com uma realidade mecânica, prática e claro, voltada para uma necessidade de mercado também intimamente ligada ao tempo. Os seres humanos da década de 50, por exemplo, possuíam necessidades bem distantes das necessidades dos homens do século XXI e não poderia ser de outro modo, pois nosso processo evolutivo industrial e, por conseguinte, de produção, precisou galgar passos cronológicos: Primeiro as pesquisas na ciência de base como Matemática, Física, Química, Biologia e outras diversas para, primeiramente, entender a matéria, as suas particularidades físicas, propriedades, como manipular as forças básicas da natureza e por aí vai.
Com a pesquisa de base feita (hard research), parte-se para a questão tecnológica que é tão somente aplicar essas informações brutas em algo útil para a vida humana. É o caso daquele estudante leso que nunca sabe pra que servia o estudo dos fótons, por exemplo... oras, para fazer as portas que se abrem ao nos aproximarmos delas, para fazer os alarmes ultra-modernos dos museus mais importantes do mundo. Simples assim...
Também é aquele cara que não sabe pra que serve a genética mesmo vendo inúmeros progressos nas pesquisas em células-tronco. Bom, o que quero deixar claro é que a pesquisa Hard vai no cerne da natureza extrair o material bruto para criarmos aplicações a partir disso. Assim nasceu o rádio, a tv, o celular, os videogames e tudo o que nos cerca em termos de produtos... Tá, e aí você se pergunta o que isso tem a ver com a vida dos produtos. Simples, eles simplesmente somem das nossas vidas como se nunca houvessem existido... e dependendo da sua idade, nunca existiram mesmo.
Vamos fazer um recorte de produtos que morreram para alguns e nunca, sequer, olharam para o branco dos olhos dos que nasceram no final do século XX, por exemplo.
Levanta a mão aí quem adorava assistir filmes locados no final de semana, mas esquecia de rebobinar a fita \0/... É, rebobinar a fita do videocassete era um ritual sagrado se você não estava disposto a pagar a taxa da locadora para rebobinar a fita para você. Para mim, rebobinar a fita do cassete resultou na eterna brincadeira de mandar meu irmão rebobinar os dvds todas as vezes que acabamos de ver um filme qualquer, é quase um ritual fazer a brincadeira nas poucas ocasiões que as ocupações do mundo não nos colocam cada um para um lado de suas respectivas vidas de professor de Física (meu irmão) e na de designer (eu, óbvio). A piada de rebobinar a fita está marcada pelo tempo que, somente as pessoas de nossa idade e mais velhas que nós entendem e exatamente por isso uma piada que vai, assim como os antigos videocassete, desaparecer logo mais adiante. Meus filhos sequer vão entender o que diabos é "rebobinar" algo.A piada de rebobinar a fita está marcada pelo tempo que, somente as pessoas de nossa idade e mais velhas que nós, entendem e exatamente por isso uma piada que vai, assim como os antigos videocassete, desaparecer logo mais adiante.
Um modelo mais antigo e outro mais "moderno" de videocassete. Prova de moderno é uma palavra estranha e cruel de acordo com o tempo...Ao me reportar ao videocassete, me reporta diretamente a um tempo em que os discos laser não eram uma realidade aberta ao consumidor geral, até o dia que isso se tornou algo comum a ponto do DVD-player subir degraus na cadeia alimentar do mercado de entretenimento doméstico cinematográfico e por de escanteio o videocassete. Quando a transição começou, o videocassete mais potente do mercado era incapaz de competir com o dvd-player mais furreca a venda (alguém disse CCE? Eu não ouvi nada). Típica situação de CVP encerrada por avanços tecnológicos, algumas imposições de mercado e claro, a necessidade de vermos filmes de uma maneira melhor, mais fácil, rápida e com qualidade superior.
E na lista vamos por aí o nosso querido walkman (que fique claro, já foi dado ganho de causa, é invenção de um brasileiro, mais detalhes disso no próximo capítulo). Até hoje tenho um walkman avançadíssimo: Toca fita K-7 sequencialmente sem precisar abrir a tampa para trocá-la de lado...
Caso alguém não saiba, fitas K-7 tinham dois lados, o A e o B... Eu podia mudar de lado da fita a qualquer momento num clique de botão. Soma-se a isso um incrível sistema de serch-track que pulava as faixas exatamente para o ponto em que as música acabava e a outra se iniciava e isso tudo sem precisar ficar rodando a fita para frente e para trás como um louco até cair na posição da faixa desejada. Ele também possuía um display reduzido para ser operado caso o aparelhinho estive no bolso, usava uma bateria recarregável, mas também podia usar pilhas normais através de um pequeno adaptador. Suas dimensões eram pouca coisa maior que a fita K-7 em si, só tamanho suficiente para os botões de operação no display padrão na parte frontal, botão de trava na lateral e display de mini-led indicador da carga da bateria, tudo muito bonito e bem acabado...
Até hoje sinto falta do tempo em que usava este walkman. A relação de conexão com situações e momentos transcenderam o CVP e fizeram dele algo mais importante do que ser um mero dispositivo, ele passou a ser parte de minha história e minha identidade também...Um belo dispositivo móvel, muito bem feito, moderno, mas ultrapassado pela tempestade que foi a chegada dos mp3 player que eliminaram de circulação não só meu lindo e estiloso walkman, mas os discman também... (discman era a denominação usada para se referir aos walkmans que tocavam cds, eram caros e pouco usados no sentido do walk, já que qualquer trepidação fazia o cd "pular" no interior do aparelho, fato que acabou restringindo muito a utilização e disseminação do dispositivo).
O walkman é o típico produto afetado pelo seu tempo, por mais moderno que fosse, uma fita K-7 suportava, na sorte, 120 minutos de música se fossem as mais caras, já um mp3 player simples atualmente já suporta na casa do giga sem fazer esforço algum guardando coletâneas e discografias ao prazer do freguês, todas via download ou extraidas de cds... E lá se vai o walkman mais moderno do mundo esmagado pelo mais simples dos mp3 player da China e seus 2 gigabytes de armazenamento.
Outros dispositivos duramente afetados por avanços em armazenamento e na passagem de suportes analógicos para os digitais foram as câmeras fotográficas que, tal qual os celulares, ao invés de sumirem do mercado, acoplaram em si funções cada vez maiores e melhores permitindo registros digitais ao invés dos feitos em filmes fotográficos. Do armazenamento em disquetes passou-se para as memórias móveis para aumentar a capacidade de armazenamento, pois a capacidade de registro aumentou e muito nos últimos anos, saindo rapidamente dos padrões básicos de imagens digitais para entrar no campo das imagens com seus megapixels de resolução cada vez maiores.
Quem ficou para trás na corrida de armazenamento e transporte de informações foram as agendas eletrônicas que, mesmo as mais modernas, só faziam armazenar informações básicas, coisas que qualquer celular de cinco anos atrás fazia e muito melhor... E exatamente por por isso, por ser uma função incorporada que qualquer celular passou a fazer com diversas outras funções agregadas é que as agendas eletrônicas ocupam hoje um lugar de destque no limbo... Ao invés de se ter uma agenda eletrônicas e um celular, temos só um celular que faz isso e muito, muito mais. Sem esquecer os tablets que, para variar, podem representar uma grande ameaça ao mercado de notebooks.Quem ficou para trás na corrida de armazenamento e transporte de informações foram as agendas eletrônicas que, mesmo as mais modernas, só faziam armazenar informações básicas, coisas que qualquer celular de cinco anos atrás fazia e muito melhor...
Quando eu queria e precisava não podia ter, agora que posso ter não preciso mais... Amém.Os avanços na pesquisa em redução, em armazenamento e, primordialmente, micro e nano tecnologia permitiram que nós pudéssemos armazenar quantidades cada vez maiores de informação em dispositivos cada vez menores e mais práticos de transportar, sem falar na facilidade de operações via portas USB que antes não existia entre walkman, discman e PCs, por exemplo.
A própria demanda por interfaces que permitissem o transito de informações entre dispositivos diferentes foi algo determinante no CVP como o videocassete e o walkman e muitos outros, entretanto esse mesmo fator de tecnologia progredindo é o que permite, em muitos casos, a longevidade de aparelhos como os celulares que, a cada ano, ganham novas funções e aplicações na vida, desde mapeamento por GPS até acesso às mais variadas mídias sociais na web, como recursos de digitação de texto, tocadores de música e vídeo, games, armazenamento e por aí vai. Caso este que o CVP se prolonga numa curva ascendente ainda de declínio não determinado até o momento.
E aí depois de tudo isso você se pergunta: O que isso tem a ver com design? Simples, à medida que os avanços tecnológicos permitem mudanças de forma, de função, de significado, entram em cena os mais variados tipos de projetistas com engenheiros, arquitetos e claro, os designers criando com base em novos parâmetros de durabilidade, materiais, dimensões, aplicações e tudo mais que as condições de produção permitam ser alterado para melhor em um produto.
E quando um produto for sair do mercado, é sinal de que o trabalho dos designers já foi realizado com sucesso anteriormente, isso é fato.
Nem mudou muito ao longo desses anos, né não?Para nós, pessoas, muitas das vezes é triste se despedir de coisas que usamos por tanto tempo, não se trata de uma questão de materialismo, mas sim de que nossos produtos são parte de nossas identidades construídas no convívio social. Meu walkman, que ainda tenho e está guardadinho e ilustra esta matéria, foi meu parceiro de muitas idas e vindas da universidade na época da Graduação em Design, meus amigos sempre me viam com ele para cima e para baixo com o fone de ouvido pendurado pela gola da camisa ao ponto de me perguntarem onde se vendia todas aquelas camisas com fones embutidos. Mas precisei parar de usá-lo por diversos motivos que não tem a ver com, por exemplo, ter comprado, anos depois, um Mp3 player, mas sim pelo fato de que o novo contexto mercadológico tirou de circulação as fitas K-7 necessárias para que eu gravasse as minhas músicas, então meu walkman ultra-moderno está aqui, guardado com muito zelo e carinho, muito mais uma relíquia que me traz saudades de um tempo que não voltará mais, uma parte de minha história e não somente um aparelho velho e inútil que o tempo se encarregou de encostar em um canto qualquer de forma implacável, ele é e será sempre parte do meu tempo assim como a piada de rebobinar os filmes que sempre faço com meu irmão.
O ciclo de vida de muitos desses produtos não findou por si só, eles foram excluídos do mercado por avanços tecnológicos rápidos, por demandas de mercado cada vez mais rápidas também que precisavam recuperar todo o investimento que financiou a pesquisa de base mencionada lá em cima. E apesar disso tudo, para alguns de nós muitos desses produtos ainda vivem e viverão em nossas lembranças, porque lembrar é um software humano que não pode ser desinstalado tão facilmente.
Afinal de contas, tanto as coisas quanto as pessoas existem de forma simbólica em nossas cabeças, entretanto, as coisas parecem não saber que o tempo delas acaba e por isso mesmo viram peças de museu, viram saudade, viram marcas de quem somos e mais ainda, marcas de um tempo de cultura e de histórias.
Bom, quanto a projetar pessoas, acho que o mundo está precisando de um controle de natalidade, porque tem gente demais e recurso de menos para manter tantos produtos no mercado... E muitos com sérios problemas de instalação básica dos softwares básicos como Educação, Respeito e Noção de Si e dos Outros...* O título deste texto é uma frase que extraí do livro "Ontem não te vi em Babilônia" do escritor português Antonio Lobo Antunes do qual pretendo escrever a respeito para nossa coluna de Literatura. Fiquem de olho por lá também.
Ponto Zero - Cultura, Entretenimento e Informação Orlando Simões
É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.
