Lucia Santaella na palestra de abertura em comemoração aos 35 anos da Facom-Ufpa
Lucia Santaella - testemunho vivo
Uma rápida entrevista em um programa vespertino local deu uma noção do que estaria por vir logo mais, no começo da noite, no Teatro Universitário Cláudio Barradas: Encontro com Lúcia Santaella. Teatro lotado desde cedo, não parava de chegar gente, e o responsável pelo local se viu obrigado a fechar as portas. A física não perdoa: não cabia mais nem meio estudante de comunicação ali.
Não há pesquisador na área de comunicação melhor que Lucia Santaella para falar de convergência tecnológica e mídias.Santaella falou sobre convergências tecnológicas, de mídias, cultura de massa, e uma pitada (ou menor, citada) de semiótica. A imensa e absorta platéia ouviu um "testemunho vivo", como ela fez questão de chamar, sobre o quanto a vida em sociedade se modificou nessas últimas décadas.
Santaella previu: não são os homens que ficarão parecidos com as máquinas no futuro, são as máquinas que estão se aproximando cada vez mais de nós. As tecnologias ficam cada vez mais inteligentes, e vão se incorporando ao nosso cotidiano de tal forma que os sentimos quase como parte de nós. Poucos são capazes de não passar algumas horas de aflição por ter esquecido o celular em casa.
O mais interessante nesse aspecto do desenvolvimento tecnológico é a expansão do acesso à informação e, mais recentemente, a democratização da produção de conteúdo. Qualquer indivíduo com acesso à rede pode produzir qualquer conteúdo, o que não implica automaticamente a qualidade do conteúdo, e nem mesmo que qualquer indivíduo esteja disposto a produzir. Mas a possibilidade está lá. (E nós, do Ponto Zero, estamos aqui, trabalhando para produzir conteúdo de relevância social e cultural para você leitor!).
Outro assunto pertinente abordado por Santaella que vale a pena registrar aqui foi a questão da convergência de mídias. Para ella, a real convergência só foi possível após o advento do computador em suas versões mais recentes. A primeira "tradução" importante realizada através de um computador foi o surgimento do texto; a partir daí, várias mídias puderam ser "traduzidas" para o código binário e representadas em sua estrutura original: gráficos, fotografias, sons, vídeos, etc. Essa foi a real revolução da convergência tecnológica, segundo Santaella.
Foi abordada também a significativa mudança na nossa relação com os aparelhos tecnológicos. Não só essa relação deixou de ter um caráter passivo, como nosso próprio organismo passou a apresentar intensas reações. Diante de um rádio, uma tela de cinema ou de TV, restava-nos o papel de platéia, pura postura espectadora. Diante de um computador, seja ele portátil ou de mesa, é preciso a nossa iniciativa para que a interação ocorra. Não é à toa que nossos celulares e smartphones ocupam hoje lugar de destaque nas nossas vidas, quase extensões de nós mesmos; mimos dos quais a mínima separação é sentida com profunda agonia.
Pesquisas no campo da neurociência, citadas por Santaella, confirmam intensa atividade não apenas restrita aos neurônios, mas em todo o organismo, durante o uso dessas tecnologias. Os games são, nesse sentido, as grandes vedetes do momento, em grande parte devido ao seu caráter lúdico. Uma pena essa postura visionária diante dos games ainda não tenha se firmado, principalmente na nossa cidade. Os games vieram pra ficar, e é melhor que estejamos preparados para usá-lo de forma inteligente, como aliado; uma ferramenta de aprendizagem em todo o seu potencial.
Bem, nosso objetivo não é transcrever tudo o que foi discutido na presença de Lúcia Santaella; isso ocuparia páginas e páginas de texto, considerando que ella não fez uso de nenhum recurso de apoio: notas, slides ou nada parecido. Sorte das dezenas de estudantes, professores e profissionais que tiveram a chance de estar naquele teatro, naquela noite. Agora é esperar a próxima visita da ilustríssima professora doutora, com seu currículo extenso e uma simplicidade e clareza de ideias que não cabem nele.
Comunicação, convergência, midas, games e um autógrafo...
Meus primeiros contatos com o trabalho de Lucia Santaella se deram no curso de graduação em Design de Produtos da UEPA através de sua extensa pesquisa em Semiótica peirciana (a vertente do americano ulta-mega-gênio Charles Sanders Peirce - Veja um pouco AQUI). Do seu trabalho eu parti alguns anos depois para o material de Peirce publicado aqui no Brasil e desde então a Semiótica tem sido ferramenta indispensável para o trabalho, mas acima de tudo para a vida.
Sendo assim se tronou imprescindível prestigiá-la em sua primeira passagem por Belém para abrir os trabalho em comemoração aos 35 anos da FACOM, a Faculdade de Comunicação da UFPA.
Exemplar de "Semiótica Aplicada" devidamente autografado... \0/
Aí você olha pra mim e pergunta: Mas tu és designer, o que isso tem a ver com comunicação? Aí eu nem paro para pensar, se uma pessoa não sabe o que Design tem a ver com comunicação, então essa pessoa merece parar de respirar agora e abandonar esta vida em prol de uma existência no limbo, ou melhor, em algum dos hediondos círculos infernais criados pelo poeta Dante no célebre poema em prosa "A Divina Comédia".
Voltando ao que interessa. Como designer e portanto um comunicador, prestigiar Santaella falando era algo fora de cogitação, então nossa equipe de cobertura partiu para o teatro Cláudio Barradas com a certeza de que estaríamos diante de uma das mais influentes pesquisadoras das ciências da comunicação não só no Brasil, mas no mundo todo, haja vista que Santaella foi e é professora convidada em diversas universidades internacionais.
Ao dar inicio a sua fala, como a Tereza já mencionou acima, Santaella é testemunho vivo do caminho da comunicação no Brasil, não só vivenciou muitas das mudanças ocorridas devido aos avanços tecnológicos ligados à área, como estava na vanguarda dos estudos no Brasil, o que a tornou uma comunicóloga de grande ímpar no Brasil. A grande surpresa ao prestigiar a fala de Lucia Santaella é notar o abismo que a separa de qualquer outro pesquisador de comunicação...
Não quero menosprezar nenhum profissional da área, mas esse abismo realmente parece intransponível em diversos sentidos. O primeiro deles é o número de livros já publicados por Santaella ao logo de sua carreira, ao todo são 38 livros, sendo que o de número 39 já está em fase de conclusão. Outro fator é o conhecimento de causa que a professora possui ao se pronunciar sobre temas como tv, moda, internet, cinema e games, por exemplo. Esses dois fatores já são suficiente para colocá-la em um patamar invejável e de difícil alcance, sem falar nos mais de 140 alunos já orientados por ela em mestrado e doutorado.
Mas para o designer aqui, o melhor de tudo foi ver uma pesquisadora que saiu da graduação direto para o doutorado e que possui inúmeros pós-doutorados no currículo falar, maravilhada, sobre Games, a grande inovação no campo das comunicações e para a qual muitos outros ramos vão convergir. Não à toa fui o primeiro a fazer uma pergunta para Santaella e o tema foi exatamente este, os Games, objetos de meu interessa na pesquisa que desenvolvo atualmente. A forma de entretenimento que hoje é culpada por 9 em cada 10 imbecilidades cometidas por aí segundo a chamada "grande mídia" é para a pesquisadora uma das formas mais inovadoras de entretenimento interativo e veio para ficar com sua variedade e sofisticação ímpar.
Diante disso o abismo aumenta um pouco mais e coloca mais uma vez Santaella no topo da vanguarda na pesquisa em comunicação.
Muitos sentiram (eu acho), falta de uma explanação sobre Semiótica, apesar de não abordar diretamente o tema, os signos estavam lá, todos eles na forma mais variada possível. Mas é bom lembrar que Lucia Santaella veio à Belém para falar de convergência tecnológica nas comunicações, um tema amplo, vasto, complexo e que, acredito eu, foi explanado com maestria, com uma clareza de ideias e encadeamento fantásticos, afinal, Semiótica é Lógica.
Eu sei, estou tietando Lucia Santaella neste texto. Tenho livros da autora que me auxiliam até hoje em diversos trabalho, foi ela porta pela qual adentrei o mundo da Semiótica e conheci as primeiras formas de aplicação até me sentir seguro o suficiente para estudar o pouco que há da obra de Peirce publicado em território brasileiro, então, não há como dizer que Lucia Santaella não é um professora à frente de tudo que se tem feito nas salas de aula dos diversos cursos de comunicação espalhados por esse Brasil de Deus.
Não só viver de teorias e escolas dos antigos livros, mas vivenciar os conceitos e atualizá-los sempre, revisitá-los sobre a luz de cada novidade, abrir o olhar para as novidades no campo comunicacional e deixar de lado preconceitos como o que trata os games como meros brinquedos de crianças e adolescentes, expandir as fronteiras dos conceitos e por que não quebrar essas fronteiras? Afinal, falamos da era da convergência, do intratexto, do intertexto, do hipertexto e da era das multimídias.
E mais feliz ainda fiquei ao ver Lucia Santaella falando da expansão do conceito de ciborgue amplamente usado na literatura cyberpunk de William Gibson e companhia na década de 80 e que ganhou novos ares em nosso tempo de celulares que nos permitem ficar plugados quase que em tempo integral ao ciberespaço, câmeras fotográficas digitais e filmadoras cada vez menores, fones de ouvido e joysticks em fio, tablets e por aí vai. Ser ciborgue hoje não é ter somente uma protese intracorporal, mas sim ter apêndices extracorporais, extensões variadas que nos permitem expandir nossas capacidades e nos tornar cada vez mais pós-humanos.
Mas está bom por aqui e que me perdoem alguns professores de comunicação do Brasil todo, mas vocês, perto de Lucia Santaella, estão na idade média, na melhor das hipóteses. Quem esteve no teatro Cláudio Barradas, lotaaaaaaaaaaado, diga-se, sabe do que estou falando.
Obrigado professor, volte sempre... e nos vemos no doutorado.P.S.: E claro, ao final da palestra não me furtei o previlégio de levar até Santaella meu exemplar do livro Semiótica Aplicada para ser devidamente autografado \0/
{Lucia Santaella e a aberta da comemoração de 35 anos da Facom-Ufpa}
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