Pesquisa em Design (Design Research)

 


Steve Jobs e o Ipad. O produto era uma necessidade real do mercado ou uma necessidade "imposta" ao mercado? Você precisa de um Ipad ou você apenas quer muito ter um Ipad?

A profissão está há anos pautada nos processos criativos, comunicacionais, culturais, sociais e na elaboração de produtos, claro, produto na acepção mais ampla possível nos dada por Lucy Niemeyer (2003): “Aplicamos produto na acepção de resultado de um projeto de design, seja ele um objeto de uso, máquina, mobiliário, jóia, seja uma peça de comunicação visual, material impresso, página na internet, embalagem etc”. Ou seja, uma gama ilimitada de mensagens e signos, reais ou vituais, produzidos com objetivo de atender uma necessidade.

Esqueça as elucubrações exacerbadas, esqueça os sonhos infanto-juvenis de ser um mega-astro do Design que as pessoas param na rua para solicitar autógrafos como quem para um astro de Hollywood, seu trabalho será visto, apreciado, entendido (ou não), admirado, mas você não, simplesmente porque o trabalho do designer é estar sempre atrás das cortinas cuidando de tudo para garantir o sucesso de suas criações, estas sim estrelas a serem prestigiadas. O trabalho do designer é pesquisar e dar como resultado desta pesquisa um produto ao seu cliente. Delírios de fama e autógrafos vocês podem guardar para quando forem fazer escolinha de teatro da Rede Globo.

O designer Márcio Fábio Leite* é um exemplo de profissional ciente do papel pesquisador do designer e de sua mudança de abordagem dos temas de interesse. Em matéria para a revista ABCDesign (AQUI), Fábio fala um pouco de sua pesquisa para o mestrado feito na Inglaterra sobre subculturas, tribos jovens, tendências e a possibilidade de prevê-las e utilizar suas particularidades na concepção e posterior lançamento de produtos visando atingir esse público. Grosso modo o objetivo de Fábio era desenvolver um método de pesquisa através do entendimento dos padrões usados por essas culturas através de categorias capazes de abordar característica que fossem de interesse e que, replicadas, pudessem despertar reconhecimento e maior interesse em produtos que as possuíssem de forma a torná-los parte da alguma subcultura urbana e, por conseguinte, ser comprado.


O designer Márcio Fábio Leite

Veja bem, eu disse grosso modo, pois não tive acesso à pesquisa de Fábio e o que li foi com base em seu artigo na ABCDesign. Mas o que quero reforçar aqui é o caráter de pesquisa e de processo de entendimento do Design como metodologia e não somente ferramental tipo softwares de modelagem, ilustração vetorial ou edição de imagens, visão comum e corrente entre os clientes e até mesmo entre os profissionais que, há anos, apóiam seus processos criativos em algumas dezenas de plug-ins de Photoshop ou templates de Illustrator, Corel, CAD, Dreamweaver, Flash e 3DS Max. Programas que são tão somente ferramentas que auxiliam no processo criativo e não determinantes deste processo.

A visão de Fábio é a mesma que tenho desde minha época de graduação em Design Industrial na UEPA, o designer não é um desenhista ou um operador de programas que, ao fazer uma meia dúzia de cliques de mouse tem um projeto gráfico pronto para entregar para a gráfica ou fazer upload para um servidor web. O designer é sim um comunicador, um produtor de linguagem, de signos e de conceitos capaz de, através da pesquisa apurada, conhecer, significar e re-significar o repertório do usuário para criar ou recriar esses conceitos. Ou seja, o designer é um produtor de narrativas visuais, de signos de cultura, de imagens que falam para quem devem falar.


Livro de William Gibson cuja personagem principal é uma designer contratada para descobrir quem é o autor de um misterioso filme que circula na web.

Ao se debruçar sobre as subculturas, Fábio faz uso de técnicas e análise pertencentes a outras áreas de conhecimento que fazem interseção com o Design já nos cursos de graduação como é a pesquisa etnocêntrica, a Antropologia, Sociologia, História da Arte, Semiótica, conhecer e estudar os teóricos da comunicação e da cultura como Mauro Wolf, Jesús Martín-Barbero, Nestor Cancline, Stuart Hall (só para ficar no básico do básico), e outros de acordo com a especialidade do profissional e que se adéquam melhor a cada projeto. Lembrem-se, cada trabalho é sempre diferente e traz especificidades que merecem um tratamento igualmente único.

Ao olhar para as chamadas tribos, percebi no trabalho de Fábio a necessidade de compreensão do outro, ou melhor, dos outros, através do entendimento da cultura desse grupo ou grupos, do que fala a eles e com eles, a boa e velha questão de encontrar no que consumismo uma identidade inteiramente nossa e ao mesmo tempo compartilhada com quem integra nossa subcultura. Ao olhar para um nicho de mercado de características marcantes o projetista busca os signos dessa cultura, os signos que integram um repertório de papel sócio-cltural-identitário permitindo assim que os integrantes desse nicho tenham maior ou menor grau de identificação com o que compram, usam, consomem, assistem, comem e bebem.

A pesquisa em Design indica caminhos a serem seguidos através da utilização de aportes teóricos de caráter social, histórico e cultural, fortalecendo o fato de que é na cultura e nas manifestações culturais que reside o combustível necessário para o desenvolvimento de projetos e produtos voltados para públicos maiores ou menores.

Um dos fatores de grande importância disso tudo é a possibilidade diferencial entre as modalidades de cultura de massa e as subculturas de especificidades e estilos dispares da primeira, passando do gosto musical ao estilo de se vestir. Resumindo, o eterno embate entre os insiders e os outsiders.

Recorro ao recurso das subculturas para reforçar a idéia do Design Research pelo fato de que hoje há tantas tribos e tão distintas que somente um processo de pesquisa apurado, estruturado em métodos e técnicas pode tratar de forma coerente esse manancial de informações sócio-culturais de potenciais consumidores. Entender o mercado como um fluxo de idéias em transito e mudança constante é uma característica de pesquisador, de um profissional capaz de receber, interpretar e re-significar as informações que lhe são dadas, vindo daí a necessidade sempre crescente que o designer possui, ou deveria possuir, de sempre aprimorar seus métodos e técnicas para elaboração de projetos e de coleta e leitura de informações.


A própria moda usa dos subterfúgios da releitura e reapropriação do que vigorou em outros períodos. Padrões são percebidos e devolvidos ao consumidor.

A estrutura do Design já foi diversas vezes estruturada sobre certos pilares ditos como fundamentais ao desenvolvimento de projetos, não concordo com essas visões reducionistas como as que dizem que a tendência um dia é o Branding, no seguinte é o Design Digital, no outro o Design Sustentável, no outro o Design de Mídias, no outro é o Design Sensível ou qualquer outra modalidade. Nada disso caracteriza um pilar essencial, o que se caracteriza como essencial são as bases teóricas necessárias para o bom projeto, pois não importa a nomenclatura abaixo do guarda-chuva, o que importa é como seu processo de pesquisa e proposta de soluções se estruturou e que resultados você tem na forma de produto (projeto).

A possibilidade de transformarem a Pesquisa em Design (Design Research) em uma modinha me parece atraente, mas para mim é pelas possibilidades de dar ainda mais respaldo teórico ao Design como área de conhecimento e profissão, mas infelizmente, para outros, virará modinha apenas por ser mais um nome bonitinho em inglês para falar naquelas rodas de amigos para vomitar pseudo-erudição. Esqueça o nome bonitinho, atenha-se ao processo de pesquisa que deveria ser inerente a todo profissional de nossa área. Uma prática inerente a todos nós desde as eras remotas da graduação até os últimos dias como solucionador de problemas. Torne pratico a prática e não mais um discurso “cool” de designer da onda, execute, faça e acima de tudo isso, pense o Design.

Para finalizar me aproprio e remodelo uma frase de Fábio que é bem emblemática nessa situação de pensar e fazer design: “Fazer e pensar design exige muito mais horas pensando e tentando entender as pessoas dentro de seus universos, culturas e repertórios para criar novas soluções do que usando mil plug-ins e ferramentas de edição de imagem em uma tela de computador”.

Lembre-se sempre disso: os métodos são para pensar e planejar o fazer, as técnicas são para executar o fazer. Não pense em ser apenas um operador de software ou computador, você, designer, é um comunicador e como tal deve pensar, refletir e propor pensamentos e reflexões também.

*Márcio Fábio Leite é mestre em Design Gráfico pela University of Art Londo/ London College Communication, graduado pela FATEA, pós-graduado em Linguagem Audiovisual pela PUC-PR.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Márcio Fábio Leite acesse: http://flavours.me/pixelatedgeneration

 

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Orlando Simões

É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.

 


 

 

 

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