Design é área de conhecimento, designer é o profissional, ok?
A data é 5 de novembro e o dia é o dia do Design, a profissão, mas já virou o dia do designer, o profissional, mas não vai fazer lá muita diferença atualmente, nem mesmo esse texto vai. Mas como estou ficando velho e reclamar é uma qualidade (hein?) que há muitos anos exercito, não seria diferente no dia do Design/ Designer. A brincadeira aqui é a de sempre, reclamar, reclamar e por que não reclamar mais um pouco?
A ideia é justamente um texto fora do dia em que se comemora uma das profissões mais cheia de problemas dos últimos 60 anos. A primeira faculdade de Design, a ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) foi fundada lá no distante ano de 1962 por gente como Alexandre Wollner e Aloísio Magalhães, cuja data de aniversário fora escolhida para comemorar o dia do Design/ Designer, instituída em 1998 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. É, caso você não saiba usar o Google, 5 de novembro não é uma data escolhida no "chute", é uma homenagem a um dos grandes expoentes da profissão.
E que profissão magnífica e igualmente ingrata, não por si mesma, mas pela maldita atmosfera que se impõe sobre o Design como área de conhecimento. Situado na interseção da Arte e da Engenharia, a profissão é pautada por um sem número de momentos de extrema e insuperável sensação de eterna vergonha alheia toda vez que nos deparamos com o pior predador do designer (é, o profissional, na dúvida volte ao primeiro parágrafo): o cliente.
No meu texto sobre os designers e sobre Design quem brilha é o cliente, essa praga, essa chaga, esse parasita dotado da incrível capacidade de tornar a nossa vida um verdadeiro pesadelo. A pior parte dessa profissão é ter que aturar esses clientes que não sabem o que realmente querem e quando tem o que realmente precisam ficam dando sugestões idiotas, sem sentido, sem embasamento e na base do mais puro "achismo".E lá se vão os estudos de cores, escolha de tipografia, análises de mercado, proposições estéticas, inferências semióticas e todas aquelas folhas de papel com dezenas de esboços e estudos e rascunhos... Se o cliente soubesse realmente o que ele quer, não haveria uma profissão incumbida em estudar como e o que fazer em prol do mercado... É como querer que um açougueiro faça uma cirurgia plástica no rosto de uma madame.
Ah, não esqueçam da "pechincha", esse subterfúgio, esse ardil perpetrado pelo cliente para conseguir um produto de qualidade a preço de banana, quando não a preço de divulgação, nome do profissional na peça, nos créditos do site, ou seja, a preço de NADA... Francamente, isso não paga minhas contas e desconto no meu trabalho não existe, porque o valor do desconto pagaria uns bons livros de Semiótica que tenho aqui. E se você, colega de profissão, anda fazendo isso em troca do seu trabalho, quero que saiba que é você e não o cliente o responsável por essa merda toda que está aí fora.
Cliente tem culpa? Tem, mas o designer que se comporta como uma puta rifando seu trabalho e seu conhecimento por nada é o grande responsável por um comportamento de contrato pernicioso, vagabundo, cheio de prazos impossíveis "para ontem" e cheio de choradeira e "ameaças" do tipo "meu sobrinho faz melhor", "você está perdendo uma grande oportunidade de divulgar seu trabalho, meu jovem"... Venda-se, mas saiba que ao fazer isso outro designer em algum lugar está sendo penalizado pela sua "promoção" que inclui o layout do site, o cartaz, o cartão de visita e a "logomarca" pelo módico valor de R$ 700,00.
Ilustração retirada do blog de Luis Di Vasca, cujas situações representadas são as mesmas pelas quais muitos designers passam.A propósito: eu não crio "logomarca", crio identidade visual, símbolo misto ou logotipo... (logomarca não existe, dúvidas?, veja AQUI)
Eu não faço "marquinha", quem faz marquinha é biquíni pequeno usado pela Mulher Melancia em dia de sol na lage, eu crio um signo que identifica uma empresa e seus conceitos...
E não, eu não faço arte, quem faz arte é moleque travesso...
E não, não existe "design de sobrancelha", "design de cabelo", "design de bolo"... Design, com D maísculo é como Medicina, Direito, Arquitetura, Engenharias... Design é uma área de conhecimento, pesquisa, compreensão e produção de signos na forma de produtos que atendem uma dada necessidade de uso/consumo. O ferramental dessa área envolve conhecimentos diversos, da comunicação visual, passando por análise de mercado, metodologia de projeto, Semiótica e muito mais coisas. Coisas que a choradeira de clientes mal acostumados por profissionais medíocres não podem pagar com "divulgação".
E por fim, se é designer porque se forma profissionais em Design (gráfico ou de produtos), porque se passa 4 anos numa graduação, mais dois em uma especialização, mais dois em um mestrado, quatro em um doutorado e não porque alguém sabe usar meia dúzia de programas que são só ferramentas e uma pequena fração do processo de criação.Ser designer não é ser operador de software e reprodutor de utilização de ferramentas e cliques de mouse. Porque ter um serrote, um martelo e pregos não faz de ninguém um marceneiro, assim como ter o Corel ou a Adobe CS5 instalada num computador não faz de ninguém um designer.
E se você, designer, está aí dizendo para si mesmo que utilizar papel, fazer esboços, utilizar Semiótica, estudo de cores, Tipografia, Metodologia de Projeto e outras ferramentas é coisa de designer velho e ultrapassado, comece a rever seus conceitos, pois desse modo não há nada que separe você de um "micreiro" qualquer e, pior ainda, não há nada que separe você de um cliente idiota.
Feliz dia do que quer que seja. Não faz muita diferença mesmo, a menos que alguém aí ache que ser designer é ser super-star e esteja querendo dar autógrafos ao "desfilar" por aí com seu cabelinho estiloso, seus óculos maior que a cara para dar ar de geek, seu tênis colorido para parecer com um personagem de anime ou mangá, seu coletinho xadrez por cima de uma camisa pseudo-largadona, um fone de ouvido daqueles grandões para dar um ar de que você é "retro", essas coisas de aparência para impressionar em contraponto a um portifólio insignificante... Se sua intenção, designer, for essa, você está na área errada, seu lugar é na escolhinha de atores para a próxima temporada de Malhação na Rede Globo...
Ponto Zero - Cultura, Entretenimento e Informação Orlando Simões
É Designer de produtos e gráfico, desenhista e amante de Semiótica. Colunas de Design, Games, Quadrinhos, Literatura, Artes Cênicas, Cidade, Tecnologia e Cinema.
