Palestra “Em busca da catarse perdida” de Pedro Sette-Câmara



Pedro Sette-Câmara resumindo a peça Senhorita Júlia

Na semana em que sua peça estava em pauta no Teatro Claudio Barradas, pelo Teatro do Oficio, o carioca Pedro Sette-Câmara esteve em Belém para acompanhar “Amadores”, aproveitou e realizou sua palestra “Em busca da catarse perdida” no espaço Benedito Nunes na Saraiva Megastore. Para quem não o conhece, Pedro é formado em Português-Grego pela UFRJ e trabalha como tradutor literário. Entre suas principais traduções estão: Shakespeare: Teatro da inveja e Clausewitz acabado, de René Girard, e Coração devotado à morte, de Roger Scruton. Escreve para a revista Dicta&Contradicta e também já assinou artigos para o suplemento Megazine do jornal O Globo e para a revista Continente Multicultural.

Em sua palestra Pedro contou a história da Senhorita Júlia, de Strindberg, que é contada assim:
“Durante as celebrações do solstício de verão (na peça, muito bem transformado em Réveillon), uma nobre fica sozinha em sua propriedade com seus criados. O clima é de fim de festa, o dia está nascendo, todos estão meio bêbados e exaustos, a começar por Senhorita Julia. Ela começa a flertar abertamente com um dos criados, Jean, na frente da cozinheira, Cristina, sua noiva. O diálogo é primoroso e poderia ter acontecido, com poucas mudanças, em qualquer cobertura de Ipanema: a patroa, bêbada, feliz e querendo fraternizar com "seus inferiores", força uma intimidade que não existe, mas ao mesmo tempo, continua dando ordens sem nem perceber, assim como não percebe que os dois criados, longe de ficar à vontade, estão ainda mais constrangidos e humilhados por toda aquela situação. Quando a exausta cozinheira vai dormir, o diálogo entre Julia e Jean torna-se francamente sexual, em um jogo de poder e controle: Julia está segurando um chicote e, em um dado momento, chega a ordenar que Jean lhe beije os pés. Finalmente, transam.

"Nesse momento, tudo muda. Júlia, de dominadora, passa a dominada, ao perceber que entregou sua honra (era virgem?) a um mero criado. Jean assume agora a posição de controle e começa a ditar ordens. Ela quer fugir, ganhar o mundo, não pode ficar ali, desonrada. E Jean responde que não tem porque casar com uma nobre decaída se pode conseguir coisa melhor. Ao mesmo tempo, Jean continua demonstrando ter introjetado a submissão de sua posição, pois tem um medo patológico do patrão, o Conde, simbolizado na peça por suas botas de cano longo, sempre em cena, e que Jean engraxa febrilmente. Quando o Conde volta subitamente, ambos desabam: Julia, desesperada de vergonha, e Jean, tomado por submissão e medo. “A peça termina com Júlia indo cometer suicídio atrás do estábulo (não sabemos se foi mesmo adiante) e Jean engraxando as botas do Conde mais uma vez.”


Pedro resumindo a peça Casa de Bonecas
Eis que podemos observar, como Pedro citou em sua palestra, que a peça acompanha os versos gloriosos de Aristóteles, onde a tragédia edifica a catarse do terror e da piedade. Porém, ele defende com a sua mais forte égide, que a capacidade de atiçar esta reação no público, era restrita à época de sua encenação. E dez anos antes de senhorita Júlia, outra peça explica essa mudança do público.

A peça se chama “Casa de Bonecas” de Ibsen:
“Nora é uma mulher feliz e entusiasta que baseou a sua felicidade no amor dos outros. Contudo, este amor torna-se o detonador da sua própria tragédia porque no seu nome, comete o crime que vai determinar o seu destino: falsifica a assinatura de seu pai moribond para obter um empréstimo porque tem necessidade de dinheiro para tratar do seu marido doente. O seu credor, o Sr. Krogstad, aproveita da vantagem que tem sobre ela: possui um documento que é prova do seu crime. Obriga-o a pedir ao seu marido - recentemente nomeado diretor de banco - que intercede ao seu favor porque acaba de ser retornado. Nora tenta negociar com Helmer porque sabe o que o espera se não presta este serviço: o escândalo e a vergonha arruinariam o seu casamento. Contudo, Helmer tem reservas quando ao Sr. Krogstad e mantem-no a distância. Prefere contratar Mde Lindequi terminará por convencer pelo Sr. Krogstad perdoar Nora e salvará a situação ao último minuto. Nora, quanto a ela, esperava um milagre e cria que o seu amor seria mais forte que a opinião da sociedade e dando-se conta que não é nada, o seu casamento desaba-se como um castelo de mapas. Ibsen é um autor dramaticamente perfeito, sabe criar contrapesos e revela através das relações dos seus personagens, os mecanismos complexos do espírito, o que intriga-nos. A sociedade é o fator que leva-nos a conduzir-se contra natureza e faz-nos viver num mundo de aparências no qual a vontade tem apenas importância. Nora toma consciência que deve definir-se como mulher em relação à própria e não em relação às outras. Nora tem êxito a quebrar este jogo de pantins e vai-se procurar o seu lugar neste mundo.”

A palestra andou sobre a catarse na tragédia grega antiga, como nos relacionamos com ela hoje, e como seria possível recuperar um efeito semelhante num texto dramático. A tragédia nos mostra a imitação à vida, ao que vivemos. Estamos o tempo todo, em focos a uma reviravolta interpretativa de nossas ações que pode nos ser a favor ou contra em termos de bem estar. Se você não for o controlador dessa marionete, ao menos temos que estar armados para essa condição vulnerável que já faz uma desmedida diferença. É por esse sentido que a tragédia é formadora do cidadão. Tudo está sujeito à mudança. Aprender a andar através da tragédia seria, portanto, aprender a estar pronto para descobrir mais uma vez o caminho que leva até onde já se está.

Aristóteles diz que a catarse, é uma espécie de prazer próprio da tragédia, resultado da purgação do terror e da piedade suscitados por aquele espetáculo teatral. A avaliação positiva de uma tragédia depende exatamente de sua capacidade de levar à catarse. É que esta última está diretamente ligada à formação do cidadão. E não precisamos necessariamente pensar essa formação, como é muito comum, em termos morais. Parece-nos que não é esse o ponto. A tragédia tem uma finalidade educadora sim, segundo Aristóteles, mas isso tem muito mais a ver simplesmente com aprender a viver, "vivendo". Não se trata de aprender a não agir errado fazendo isto ou aquilo especificamente, mas de aprender o que a cada vez significa agir e isso de modo universal.

A forma dramática e não puramente narrativa de realização do mito na tragédia, além da necessária presença de verossimilhança, proporciona uma experiência de contemplação da vida ao mesmo tempo que de atravessamento radical por causa da identificação que ali deve ocorrer inevitavelmente. Para que isso se dê, o mito deve ser escolhido a dedo, o herói deve ser trabalhado para ser alguém digno de apreço. Aquilo que se passa ali adiante, no centro do teatro, poderia se passar com qualquer um da platéia. Por outro lado, o distanciamento é evidente, afinal a tragédia é uma imitação, de tal modo que ao final da apresentação que levou.

Cada espectador ao padecimento é possível a sensação de alívio; daí o prazer da catarse. Assim, o que principalmente está em jogo não é qualquer tipo de julgamento de valor sobre um homem ou sobre essa ou aquela ação, nem mesmo sobre essa ou aquela história. O que mais interessa é que naquele tempo de encenação, a vida por inteiro, naquilo que ela tem de mais essencial, se manifeste através da lapidação do mito.

Como Aristóteles mesmo diz: O mais importante é a trama dos fatos, pois a tragédia não é imitação de homens, mas de ações e de vida, de felicidade [e infelicidade; mas felicidade] ou infelicidade reside na ação, e a própria finalidade da vida é uma ação, não uma qualidade. Os homens possuem tal ou tal qualidade, conforme o caráter, mas são bem ou mal aventurados pelas ações que praticam. Daí que na tragédia não agem as personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efetuar certas ações.


 


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Carlos Matos

É estudante de Letras e apaixonado por jornalismo esportivo. Escritor e poeta. Leitor viciado. Cinéfilo. Blogueiro apaixonado. (Blog: Amanhã ou Depois - AQUI)

 

 

 

 

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