Espetáculo teatral Em nome do rio: A ditadura das águas



A terceira margem
Eis o homem, que repentinamente manda construir uma canoa. Deixa a família de lado para tornar-se o rio... Rio abaixo, rio acima. Eis que o homem, o pai, transforma-se em paisagem, onde à margem, o filho acompanha sua trajetória e tenta entender o que o pai faz. O mistério incorpora a rotina. A família tem que se adaptar a nova realidade. Onde se cria novas margens para o curso cotidiano. O tempo é marcado por nascimentos e mortes, e tudo que se fala ao redor, torna-se um preenchimento ao pensamento da família. O sentimento de culpa martela na cabeça dos sobreviventes, mas o silêncio se torna tão real diante da terceira margem.


A massa humana que imita a turbulência das águas

Eis o homem, eis o rio. Há aqueles na família que preferem fingir não perceber o desatino do pai, na verdade todos preferem fingir. A lucidez é rendida pela culpa. O pai abandona os versos da margem para ser meio de rio, e o filho larga a poética da travessia para ser a margem. Sem destino, não há mais origem. A vida se desfaz em tão fracas margens. O pai, o filho e o rio.

Eis aqui A terceira margem do Rio, conto que digo que é uma mina de ouro de Guimarães Rosa. Obra que o autor aborda a loucura e o abandono, de forma poética e com uma linguagem que caracterizam o grande autor. De uma forma metaforicamente ele trata a origem, o destino e a travessia, onde há a necessidade de viver as águas, ora violentas, ora calmas, apenas para conseguir conquistar o objetivo de alcançar o lugar almejado. E o conto tem o seu final, quando em um ato altamente desesperado o filho se oferece a ficar na canoa no lugar do pai. O filho pede perdão e o pai desaparece para sempre no rio.

São tantos rios passíveis de travessia. Há muitas margens, pois a linguagem mostra a possibilidade de navegação dos grandes rios. Reconstruir, recriar cada margem de origem e fazer do destino um novo porto inicial.

Eis as palavras de Guimarães Rosa, que rabiscam grandes rios, onde as ações, em suas várias fases de sua vida, mostram a grandeza do desmedido navegador.

Guimarães é a pluralidade das margens. É o curso dos rios. Aventurar-se na travessia, é dar margem as nossas possibilidades, rabiscando lutas, escrevendo realizações exatamente no centro do manuscrito.

 

O Tempo da travessia
O rio é parte da vida de todos os paraenses. Gerações mais atrás no tempo tem no ribeirinho a figura central das origens familiares, o navegante paraense que vive no rio e do rio. Não só o navegante que mora às margens do rio, mas o viajante também que se engraçou com a caboca e constituiu família lá e cá. Falar do rio é falar do lugar de origem de grande parte dos paraenses, povo intimamente ligado às águas, tanto a que corre abrindo caminho pela floresta quanto a água da chuva que vem abrindo caminho pelo céu.


Amor abençoado pelo regime das águas...

"Em nome do Rio" é isso, nossa intrínseca e complexa relação com a teia de água que percorre a floresta, traz o alimento, traz o forasteiro, leva entes queridos da margem do rio para outros lugares desconhecidos, tira da floresta de árvore e leva para a floresta de concreto, vidro e aço. A massa de água humana no começo do espetáculo embalada pelo batuque da percussão é vertiginosa, uma onda de corpos em movimento uníssono que arrasta um e arrasta todos os atores, uma cena, no mínimo, hipnotizante de se prestigiar e já dita a que veio o espetáculo.

Com uma iluminação evanescente, uma penumbra quase constante e sons pontuando as cenas, "Em nome do Rio" é um espetáculo fantasmagórico no palco do teatro Cláudio Barradas, mas uma fantasmagoria peculiar aos mistérios das águas, o espetáculo fala do rio pela mimese do movimento do mesmo representado pelo movimento dos corpos, o que vai pelo caminho do rio e não volta mais, desaparece sem deixar vestígios, deixa para trás esposa, filhos, amores e rancores também.

O rio que tem tantas representações e tantos mistérios é também o rio que lava a roupa sob a ladainha das velhas moradoras de suas margens que lavam a roupa do corpo e lavam, no dizer popular, a roupa suja da vida também. É o mesmo rio que o ribeirinho ora conhece, ora estranha.

Nas muitas faces da loucura humana se perde o louco cuja condição é negligenciada por todos e se perde também o louco que quer outra vida além das margens de rio cercadas por florestas e encontra na arte e na poesia um refúgio para outros mundos inalcançáveis. É neste rio que se encontra um amor cujos corpos não esperam o matrimônio para consumar o desejo da carne.

Mesmo envolto em mistérios das águas que são os caminhos para o coração da floresta, "Em nome do Rio" é uma peça que fala do caminho escolhido por cada um de nós e as consequencias dessas escolhas para quem as faz e para os que os cercam. Para o bem e para o mal, tal qual o próprio rio, que nunca mais é o mesmo rio após alguns segundos em seu percurso. Afinal, todo rio, para cumprir sua missão, precisa encontrar o mar.

Parte-se sempre de encontro ao mar, mesmo que isso signifique que o mundo do rio fique para trás e no passado. Afinal, sempre fazemos dois caminhos, ou nos deixamos levar pelo sentido da maré ou então vamos contra ela... Não se quer mais viver sob a ditadura das águas.




{Espetáculo Teatral "Em nome do Rio}

 



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