Imagens, cultura e violência




Já correu mais de um mundo e meio a imagem em que um toureiro é violentamente ferido por um touro em uma, pasmem, tourada em Madri. A velocidade da Internet não perdeu um segundo sequer para expor a dita imagem e chocar o mundo com a crueldade ali registrada. Mas o ditado é claro, a regra é a mesma para todos: um dia da caça outro do caçador (Veja a dita ao fim da matéria).

Registrar imagens de segundos e eternizá-las tem sido uma tarefa árdua para fotógrafos do mundo todo, mas acredito que esta imagem em questão não e uma foto e sim um frame de registro de vídeo... um único quadro de uma gravação de vídeo normal extraído da filmagem da tourada. Daí a precisão do momento registrado que, na verdade é 1/24 segundos de uma seqüência, salvo engano. Mas o olhar aqui não é esse e sim as questões envolvidas no contexto do registro: a tourada.

Muito já se discutiu o assunto, a justificativa cultural prevalece a todo custo em pleno século XXI e provavelmente permanecerá por longas décadas ainda... ou até não restarem mais touros. Aspectos culturais são determinantes de identidades de grupos, povos, de pessoas, de tribos, de sociedades e tirar qualquer aspecto cultural ou traço cultural de um lugar, de uma pessoa é tirar sua identidade, é expatriamento, é mutilação do que é constituído como tendo em seu interior uma característica cultural muito antiga e compartilhada entre um indivíduo e seus pares e iguais, se tirarmos isso, tiramos o indivíduo do seu mundo. Dito isto, a tourada estará lá sim por muito tempo, quer queiram quer não os outros povos. Mas isso não significa que seja aceitável para os outros, seja entendível para os outros, principalmente se pensarmos que há traços culturais muito mais antigos, muito mais fortes e mais significativos que simplesmente desaparecem praticamente sem nenhum vestígio de existência... então se pergunta: por que diabos justamente a tourada é um espetáculo que durou tanto até hoje se outros tantos aspectos culturais já sumiram ou mudaram significativamente ao longo do tempo?

Possibilidades: Desafio e Violência... o espetáculo da violência e do desafio, mais especificamente. Um homem contra uma fera, destreza, agilidade e percepção contra a força bruta, ferocidade e brutalidade da fera. Fera? Mas que diabos essas pessoas tem na cabeça? É um touro, pelo amor de Deus, ele não pensa, seu instinto é o de sobreviver, mesmo que para isso ele tenha que matar... é um animal e não entrou na arena por livre vontade, foi colocado lá dentro sem nem desconfiar o motivo. E o toureiro? O herói do show, o que o colocou lá dentro? O desafio? A coragem? A tradição? Sinceramente, não sei, não pertenço a este mundo, desconheço qualquer traço encorajador que motive uma pessoa em sã consciência a se confrontar com um touro de quase meia tonelada e capaz de matar com relativa facilidade, diga-se.

Não vou entrar no mérito de julgar a cultura alheia, não tenho esse direito, mas tenho sim o direito de olhar para tudo isso e estranhar cada aspecto disso tudo resumido em uma única imagem, a imagem do ataque do touro contra o homem. Não precisa falar muito, não se deve falar muito, principalmente do prazer desconhecido da cultura alheia. Mas vejo nisso um certo sadismo e gosto desnecessário pela violência que, se não é contra nossos semelhantes é contra uma animal qualquer. Na Espanha os touros, no Japão as baleias, no Brasil os galos e cachorros e por aí vai. Diversão pautada na dor, na destruição do corpo de algum ser vivo em prol da propagação de identidades culturais, insensatez capaz de continuar perpetuando o prazer de ver na destruição “beleza” e "tradição". Eu sei, não deveria julgar, mas não posso negar que, acima da cultura e da tradição de todos os povos, aqui reside um ser humano capaz de não aceitar a violência em prol da diversão, é minha cultura, é minha identidade falando dentro de mim, dizendo que ferir um ser vivo a troco de risadas e empolgação é algo difícil de olhar, de suportar e entender como sendo divertido..

Fica para vocês o registro do dia da caça. E lembre-se, estamos falando da raça capaz de matar seus iguais por um sapato, por um relógio, por um aparelho celular, por R$ 10,00, por uma briga de bar sem sentido, por nada... Eis aí o elemento primordial da equação: O elemento humano.

Divirta-se com isso... para os de estômago mais fraco e sensibilidade mais forte, a imagem está encoberta. Basta passar o mouse sobre ela e desnuadar esse lindo espetáculo de multilação, desta vez contra a carne humana, não contra a do touro... o que é muito mais comum e não choca muita gente por aí.


Muito provavelmente este touro ainda corre risco de ser sacrificado por ser muito feroz...


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