M.E.D.O – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem

Se você é um leitor ávido por obras que o instiguem, que o impulsionem para reflexões e análises do mundo real a partir de uma perspectiva fictícia, então anote aí na sua agenda de obras para comprar e devorar rapidamente o livro M.E.D.O. – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem do autor Felipe Catusso.

O fã das grandes distopias Sci-Fi do século XX vai encontrar na obra do Prof. Catusso os reverberantes ecos de 1984 de George Orwell, Fahrenheit 451 de Ray Bradburry, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e O Conto da Aia de Margath Atwood.

Na melhor tradição desses clássicos distópicos, a obra do Prof. Catusso reflete todo seu aporte, conhecimento e vivências dos aspectos reflexivos da disciplina que ministra: a Geografia…

M.E.D.ONão aquela Geografia antiga e estanque que se preocupava apenas com mapas, fronteiras, relevos e aspectos ambientais como sendo elementos inanimados e desprovidos de significados na vida humana de outros modos que não a mera paisagem ou conceito objetivo sem margem de interpretações múltiplas.

Para além disso, Catusso vai em direção à Geopolítica, Economia, Sociologia, Antropologia e a para o encontro das reflexões filosóficas oriundas destes aspectos quando toma para si a atribuição de autor de ficção fantástica, de criador de um mundo que em muito se assemelha ao nosso, mas conta com esfinges, centauros, duendes e magos jogando um complexo jogo de interesses e poderes.

Tais seres estão percorrendo as intrincadas e labirínticas estruturas físicas e metafísicas das pirâmides do M.E.D.O numa mordaz e ferrenha crítica aos regimes totalitários, às ditaduras e regimes de exceção que tanto pautaram a história do Século XX e ainda persistem no século XXI.

Misto de metáfora, alegoria e alusão, M.E.D.O – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem trás em seu texto além dos conceitos de um mundo misto de fantasia e futuro distópico, uma leitura que reflete a real e prática função da ficção: expor através de um mundo e personagens fictícios as inquietações de nosso mundo real.

Objetivo atingido a contento, M.E.D.O joga sobre nós além das dores dos regimes de opressão e governos cujo único objetivo é o próprio benefício, as questões de consumo desenfreado, alienação midiática, exploração predatória do meio ambiente, prisão no trabalho, na economia de consumo e a delirante ideia de que vivemos para servir e servimos para viver num governo cuja tônica primeira é a autoalimentação através da dependência extrema de seus seguidores em estruturas que os iludem com o distante sonho de que quanto mais trabalho você tiver e realizar, mais você terá em vida e menos horas de contribuição a pagar para o governo. Lembra algo? Sem dúvidas não é?

O mundo erguido sobre o M.E.D.O

Claro, nem só da crítica pela crítica vive uma obra de ficção fantástica. O livro do Prof. Catusso é coesa em sua construção de mundo fantástico, mitologias, ciência, aspectos históricos e claro, na estranha e perturbadora estrutura hierárquica do M.E.D.O.

Nesse incrível mundo distópico fantástico, temos cinco continentes, todos dominados pelo governo do M.E.D.O e suas pirâmides do poder: Soviata, Nova Atlântida, Galácia, Ebânia e Simial.

A narrativa de Catusso nos leva até a província de Zarian, algo como a capital do continente de Soviata. A sede de poder do M.E.D.O está concentrada em sua pirâmide no centro dos cinturões ao redor da província de Zarian, uma estrutura poderosíssima, erguida há milhares de anos em um mundo esquecido e que, segundo os registros do próprio ministério, tomado pelo caos e desordem, contidos apenas pela ação dos que criaram o ministério nessas eras imemoriais para salvar o mundo da destruição total gerada pelo caos.

Como toda boa distopia, em MEDO a manipulação do passado histórico, das fontes de conhecimento e de seu uso são expediente comum na estrutura necessária para se manter quem está no poder indefinidamente.

Uma enorme pirâmide é o centro de poder do M.E.D.O, indo do topo da pirâmide até cavernas no subsolo, o ministério possui sua hierarquia rígida e imutável para que tudo se mantenha no mesmo estado de coisas: trabalhadores (humanos), defensores (centauros), organizadores (duendes), zeladores (magos) e doutrinadores (esfinges).

M.E.D.ONo topo da pirâmide estão as belas, lascivas e mortais Esfinges, com seu corpo felino, as enormes asas negras, ferrão venenoso na ponta de suas caudas, um angelical e lindo rosto feminino e suas mortíferas presas leoninas; são essas incríveis criaturas que doutrinam, desde a tenra idade, todo ser nascido sob o domínio do M.E.D.O; são suas vozes suaves, sensuais e hipnotizantes que entoam os mantras que dominam a mente de todos os humanos, duendes e centauros num condicionamento impossível de vencer. As esfinges de Zarian são comandadas pela impiedosa e calculista Múnara.

Elas Sussurram em seus ouvidos e projetam em sua visão através dos Espelhos da Verdade o condicionamento que irá reger a vida desses trabalhadores de forma inquebrável para tais criaturas se sintam sempre impelidas a quitar suas horas de trabalho devidas ao ministério. Poderosas e impiedosas, as Esfinges controlam, julgam e executam qualquer um que se oponha a elas e ao M.E.D.O. Extremamente desconfiadas, arrogantes e competitivas, as Esfinges não medem esforços para obter seus objetivos, mesmo que suas irmãs precisem ser sacrificadas no processo.

Abaixo das Esfinges há os poderosos Magos e suas longas túnicas e chapelões; misto de ministros mediadores do M.E.D.O, os magos detém a palavra doutrinadora e o controle das províncias, a história das origens do M.E.D.O e da ordem também são de seu conhecimento, detém o poder de controlar as ervas, os elementos da natureza e fazem parte do grande conselho que toma as decisões no M.E.D.O; Zalzeon é seu líder supremo. Alto, pálido, esguio e extremamente poderoso, o mago supremo lembra em demasia um elfo…

Abaixo dos magos estão os pequenos Duendes que controlam a burocracia e a papelada nas pirâmides sede do M.E.D.O, tudo catalogado, processado, numerado e organizado em protocolos e ordens que seguem um ritmo e complexidade em nível kafkino exemplar. Dos andares mais altos até as masmorras mais obscuras e fétidas do M.E.D.O há um duende controlando a burocracia ininterruptamente.

Nas ruas da província, funcionando como instrumento máximo de repressão a qualquer revolta ou ação exacerbada estão os musculosos e robustos Centauros, com inteligência extremamente baixa, linguagem truncada e força descomunal que só encontra rival em sua crueldade e indiferença para matar qualquer ser humano, mago ou duende.

Os Humanos por sua vez configuram a base da estrutura do M.E.D.O, realizando toda ordem de trabalho nas fazendas agrícolas ou fábricas do ministério; mas ainda assim, abaixo destes há os subterráqueos, os que vivem nos túneis e cavernas sob a imensa pirâmide sede do ministério, neste grupo estão humanos e duendes categorizados como inferiores pelos rígidos padrões do M.E.D.O, coletam lixo, mineram o subsolo, vivem das migalhas deixadas pela província e pela pirâmide cujos alicerces conhecem muito bem. Reside nesses relegados e párias e mendigos e lixeiros a chance de revolução e derrocada para o M.E.D.O, pequena, mas existe.

M.E.D.O | Toda revolução tem seu líder

Doran fora capturado pelas forças do M.E.D.O em uma ação que visava atacar as estruturas do ministério de forma direta, no entanto, toda a ação do jovem e de seus amigos mortos em combate ocultam algo mais que não foi percebido pelo M.E.D.O.

Torturado, interrogado, atacado física e mentalmente, Doran precisa apenas resistir até que a hora certa chegue. Sua resiliência e o conhecimento da importância de suas ações podem mudar os rumos de todos acima da superfície.

Acima, muito acima das masmorras do M.E.D.O, um enclave se reúne para deliberar sobre os acontecimentos que culminaram com a prisão de Doran. Sob a palavra de Zalzeon, o mago que comanda a província de Zarian, seus pares de outras províncias deliberam sobre que ações o M.E.D.O deve impor para conter outros possíveis levantes contra o ministério. Mas coube, inadvertidamente, ao mago conselheiro Alzabar proferir as palavras e ideias que selaram o destino da rebelião que nascia nos túneis abaixo da superfície.

Diante da necessidade de conter o crescente número de subterráqueos na província foram postos em movimento os protocolos de segurança do M.E.D.O: com a supervisão das esfinges, os centauros desceram às ruas e toda e qualquer ação suspeita ou meramente considerada hostil contra o ministério era punida sumariamente com a morte.

Para frear a interpretação equivocada de suas palavras, Alazabar desce até as masmorras da pirâmide em busca de compreender as ações encadeadas pelo subterráqueo Doran. Começa assim a aventura para escapar das masmorras com vida… mago e rebelde unidos por um interesse comum: evitar um massacre de proporções inimagináveis até mesmo para os padrões impostos pelo M.E.D.O.

M.E.D.O | As terras-que-não-se-deve-habitar

Auxiliado por seus amigos duendes Timpo e Balko, Doran e Alzabar fogem por uma intrincada e antiga rede de túneis  que remontam aos primódios da construção da pirâmide sede do M.E.D.O em Zarian.

Durante a frenética corrida para superar as contramedidas do ministério o inusitado grupo acaba encontrado outros companheiros para sua jornada, mas destes apenas a jovem Vicka acompanha o grupo para além das fronteiras de Zarian, adentrando as densas florestas das terras-que-não-se-deve-habitar.

Enquanto as províncias sob o controle do M.E.D.O vivem sob uma rígida hierarquia e controle estrutural das vidas sociais, nas terras-que-não-se-deve-habitar a vida segue simples, comum e natural, com os seres humanos, duendes e centauros coabitando de forma pacífica e harmoniosa, vivendo de suas plantações e colheitas, bem como do que a própria imensidão da floresta lhes oferece.

Misto de governo livre, sociedade pacifista-naturalista, as terras-que-não-se-deve-habitar são grandes extensões de terreno que separam as grandes províncias dominadas pelo M.E.D.O, nas redondezas de Zarian essa extensão recebeu o nome de Floresta de Gargalix, cuja a líder natural é Tia Magul, uma poderosa, humilde e sábia bruxa capaz de controlar os mistérios ocultos da floresta e seus poderes acima da compreensão da maioria dos outros seres que vivem terras-que-não-se-deve-habitar.

M.E.D.OO destino tratou de levar os quatro fugitivos de Zarian para o encontro da velha bruxa e inadivertidamente trouxeram consigo o perigo das esfínges para o interior da floresta. O Choque de culturas, perspectivas, ações e formas de enxergar uns aos outros é forte entre os que vieram de Zarian e os que vivem nos domínios das terras-que-não-se-deve-habitar.

Uns extraem da natureza apenas aquilo necessário para viver e coexistem pacificamente entre si, uns são escravos no submundo da produção escrava e oculta no subsolo, uns estão na esfera da produção especializada para consumir, outros nas esferas de poder, duvidando de seu real papel o tempo todo.

A chegada das esfinges dá início a uma caçada perigosa entre as árvores, inclusive com embate entre elas mesmas para decidir rumos de ação e sobrevivência da mais forte entre elas quando a floresta começa a responder aos ataques das feras aladas.

Enquanto a caçada se dá no interior das terras-que-não-se-deve-habitar, Zalzeon recebe a visita de Fascígora, a esfinge que lidera a província de Liberat, cujos métodos de dominação e poder estão há muito tempo adiante de Zarian.

Em Liberat as obrigações do trabalho e horas devidas são mantidas, no entanto os trabalhadores não tem mais horas devidas ao ministério desde seu nascimento, não, em Liberat o trabalho duro é pago com metal precioso na forma de fichas… você trabalha, é pago por essas horas trabalhadas, compra o que deseja e se precisar de mais fichas de metal precioso, é só trabalhar mais…

Cheia de segundas intenções, a vinda de Fascígora trás a promessa de uma nova era para Zarian enquanto a esfinge traça um acordo obscuro com o mago Zalzeon sem o conhecimento de Múnara, cuja ausência se deu em decorrência dos acontecimentos da fuga de Doran das masmorras do subsolo.

M.E.D.O | Criativa, crítica e narrativamente imersiva

M.E.D.O. – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem é uma daquelas obras que, a princípio, me fez torcer o nariz. Não escondo em meus textos minhas expectativas prévias das obras que leio, se são altas ou baixas, acho justo por isso na mesa de apostas. E aqui eu estava reticente com a obra, não tenho muita tradição na leitura do gênero de fantasia, mas quis vencer a barreira porque a sinopse da obra realmente chamou antenção e me fez querer sair da zona de conforto. E saí…

M.E.D.O
Felipe Catusso

As primeiras páginas foram tranquilas e a escrita limpa de Catusso não criou nenhuma barreira de excessos ou faltas; um texto até didático em sua quase totalidade – acredito ser um fato decorrente de ser professor – nos guia página a página por um emaranhado de ideias e conceitos para apresentar um mundo que mistura fantasia, ficção e distopias que poucas vezes vi.

Já vi sim tudo isso de forma separada ou em doses conjuntas dois a dois (fantasia-ficção, ficção-distopia, fantasia-distopia), mas a trinca saiu-se melhor que a soma das partes.

Ao começar a desfilar suas ideias entrelaçadas com um texto crítico, inteligente, ácido, contundente de um lado mas também sabendo ser sutil e singelo quando necessário.

Mais uma surpresa do livro é se deparar com a criatividade de Catusso para erguer os alicerces de seu mundo, um mundo que nos trás muitas, muitas surpresas e conceitos, tudo aliado com uma narrativa diferenciada, com personagens diferentes e no mínimo inusitados.

Das maliciosas esfinges, passando pelos divertidos duendes, os sisudos magos e os humanos reféns do medo, todo o elenco de Catusso merece atenção e carinho na leitura, cada um com seu devido espaço compartilhado com o mais importante de todos os personagens da obra: o mundo onde habitam, com certeza a grande criação do autor ao ingressar pelos meandros do gênero fantástico sem cair no clichê do tripé “reino mágico – artefato mágico – jornada do herói”.

Não, aqui há muito mais, no entanto, claro, não vou me empolgar e sair desfilando as surpresas que o mundo do M.E.D.O reserva a seus leitores.

Vale reafirmar ao final desta resenha que Catusso realmente saiu do lugar comum com sua proposta, realmente criou algo incomum, inteligente, divertido e que aliado a todos os aspectos do entretenimento, nos entrega reflexão, ponderamento e análise de nosso mundo pelo prisma da Literatura.

Que as próximas investidas não tardem a chegar às livrarias, estou realmente no aguardo, como “herdeiro” da tradição crítica das obras emblemáticas que citei logo no começo deste texto, Catusso ganhou um admirador de sua obra.

M.E.D.O. – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem

Em um mundo onde os povos se submeteram completamente a um ente onipresente que dita as regras de uma vida próspera e harmoniosa,um subterráqueo ousa desobedecer aos desígnios do Poder e, com apoio inesperado de um mago contrário às crueldades do sistema, lidera um grupo de rebeldes até a superfície.

Das terras-que-não-se-deve habitar, ao lado da bruxa de Gargalix surge uma improvável aliança com os povos que condenados às profundezas invisíveis e os selvagens ousarão, juntos, desafiar o implacável Poder – que será protegido com garras ferozes pelas astutas esfinges e pela força bestial dos centauros que defendem o M.E.D.O.

M.E.D.O. | O autor

Felipe Catusso nasceu na cidade de Campinas em 1989 e mora em Jaguariúna há 17. Teve seu primeiro livro publicado em 2007, uma coletânea de poesias intitulada “O Pássaro Azul”, que foi seguida por publicações em 2008 (Filho do Céu), 2009 (Devaneio), 2011 (Entudecer) e, em 2012, a organização do livro “Tozzi 40 anos – ontem, hoje e sempre”.

Geógrafo formado pela Unicamp, professor de Geografia, Ciências Sociais e Atualidades, teve sua primeira ficção fantástica publicada pela editora Vermelho Marinho, (M.E.D.O – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem) com o selo de literatura especulativa da Llyr Editorial, uma crítica ao totalitarismo, ao consumismo, ao conformismo e à banalização da Vida.

M.E.D.O. | Ficha Técnica

  • Preço de capa: R$ 35,00
  • Selo: Llyr Editorial
  • ISBN: 978-85-8265-065-3
  • Páginas: 270
  • Formato: 14X 21cm
  • Lançamento: 2015

M.E.D.O. | Links

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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