A Cena É | Colateral: Vincent na boate Fever

Max, um simpático e introvertido motorista de táxi trabalha e guarda seu suado dinheiro para investir em uma limousine e mudar de mercado e claro, de vida. Mudar de vida é a parte mais fácil de sua trajetória, sobretudo quando o misterioso Vincent cruza seu caminho. E basta uma noite para a vida de Max mudar…

Sisudo, centrado, elegante e misterioso, Vincent (Tom Cruise) parece envolto em uma couraça de aço que exala uma neblina cinzenta, tão cinzenta quanto seu terno, seus cabelos e sorriso. Ao contrário de Max (Jamie Foxx), simplório, tímido, comum, banal.

ColateralMax e Vincent são duas forças opostas da natureza, opostas e em rota de colisão quando as intenções do misterioso Vincent na cidade de Los Angeles se revelam ao taxista.

Matador profissional, Vincent está na cidade para cumprir uma tarefa simples: ir até cinco locais e eliminar cinco pessoas envolvidas em uma investigação federal e um processo envolvendo nomes grandes de um esquema criminoso igualmente grande. Testemunhas, promotores, criminosos delatores compõe a lista do matador.

Para se deslocar de um ponto a outro coube ao destino cruzar os caminhos de Max e Vincent numa sequência de coincidências fortuitas desastrosas para as vítimas do matador e para o desesperado Max que tem nesta noite a noite mais longa de sua vida. No encalço dos dois companheiros de trajeto está o detetive Fanning (Mark Ruffalo), cuja função seria interrogar a primeira vítima da noite de Vincent em Los Angeles.

Por outro golpe infeliz do destino, Fanning começa a crer que o taxista filmado em câmeras de segurança em outros pontos da cidade ao longo da noite não é o misterioso assassino que atende pelo nome Vincent… Uma série de situações que apenas revelam como pode é ruim ser a pessoa errada na hora errada.

Construído sobre e sob a relação dos dois personagens, Colateral, escrito por Stuart Beattie e dirigido pelo aclamadíssimo diretor Michael Mann, nos leva por um confronto de ideias, atitudes e personalidades refletidas entre as duas figuras que protagonizam o longa. Nem chego a dizer que um é protagonista e o outro é antagonista, ambos são os dois simultaneamente o tempo todo. A dinâmica da narrativa de Colateral nos faz trocar de lado constantemente em relação aos dois personagens.

É constante a sensação de torcermos ora pelo frio Vincent, ora pelo reservado Max, sempre filmados por uma câmera intimista e trocando farpas e ideologias ao longo do filme e de sua narrativa, temos a sensação de acompanhar um new-noir ou um techno-western, cuja estética e condução flertam tanto com seus personagens tendo armas em punho para os duelos quanto com suas palavras e ideias. Há aqui uma substâncias bem consistente e que vai além do “atire-primeiro-pergunte-depois”.

ColateralLançado em 2004, Colateral é um daqueles filmes que trouxe algo de novo ao estilo de filmes de matadores de aluguel em tempos de uma sociedade já digital e informatizada, onde celulares e computadores já faziam parte diuturnamente de nossa rotina. precursor de filmes e personagens como John Wick, Colateral nos torna de algum modo ligados a esses personagens cujo lado certo é justamente estar do lado errado, cujo charme e atração é serem elegantes, frios e letais, mas nunca heróis…

Construído sobre uma narrativa reflexiva e inteligente, Colateral é uma daquelas obras que vale cada segundo; parece ser o típico “filme de matador“, mas no fundo é um daqueles filmes que se atém muito mais na dualidade entre seus personagens foco, na transformação que um realiza no outro ao longo de suas jornadas. A lição de que o que vale é o caminho e não a chegada é perfeita aqui.

Colateral | A Cena

A quarta e penúltima parada de Vincent é no clube noturno coreana chamado Fever onde está uma das testemunhas a ser eliminada. Como nos outros casos, pouco ou quase nada se sabe a respeito destes personagens, o que torna a trajetória do matador ainda mais instigante, tratando essas pessoas fictícias como números, dados, informação a ser coletada, tratada e eliminada após ter sua função cumprida.

Mais uma vez a direção de Michael Mann é fundamental para dar a tônica da cena. Com Max ainda refém do medo do que Vincent pode fazer, a entrada no Fever é permeada por um mar de gente dançando loucamente ao som de uma versão em coreano da eletrizante música Ready Steady Go do artista Paul Oakenfold que dá toda a atmosfera para a ambientação frenética.

Mais uma vez podemos notar aqui os fatores que tornam de Colateral um filme precursor de outros filmes: música eletrônica, iluminação dinâmica estilo Rave, um ambiente lotado de inocentes que separa o matador de sua vítima, ação com tiroteio e combates corpo a corpo e mortes, muitas mortes cheias de estilo. É difícil não notar isso em vários outros filmes que vieram depois.

Policiais, seguranças, uma segunda equipe de matadores para garantir que Vincent não saia vivo dali caso falhe e claro, Max no meio de tudo sob a mira de um Vincent interpretado com maestria por Tom Cruise desferindo golpes e tiros com precisão cirúrgica em cada um em seu caminho.

Difícil também não se empolgar com tal dinâmica de cena e a tensão que envolve os personagens ali dentro daquele espaço.

Colateral | Ready Steady Go – Korean Style

Colateral | Ready Steady Go – Original

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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