O Livro É | Corações nas Sombras: Presságios de Guerra, de Allan Francis

Em Corações nas Sombras: Presságios de Guerra, o autor brasileiro Allan Francis convida seu leitor para uma extensa viagem pelo mundo fantástico de Ífianor, um mundo repleto de reinos diversos, governantes poderosíssimos, magos e criaturas fantásticas de toda ordem.

Pelo caminho dos que adentram os reinos criados por Francis, pode-se encontrar elfos, anões, centauros, humanos, orcs, dragões, feiticeiros e muitos outros seres e raças numa miríade digna do que há de mais tradicional em livros do gênero Fantasia.

Em Presságios de Guerra, primeiro livro de um total de 5, com suas quase 800 páginas, é uma grande, grande mesmo, introdução ao mundo criado por Allan Francis para contar uma jornada épica para salvar Ifíanor de uma guerra de dimensões catastróficas que se aproxima.

Repleta de detalhes e com uma rica mitologia cronológica, a história de Francis é um deleite para os amantes de detalhes contados por muitos pontos de vista e com um grande número de personagens se alternando na ação e nos atos da obra em locais do reino fantástico criado pelo autor. Então, prepare-se para um leitura densa e extremamente imersiva.

Os presságios começaram: Agonia e o Véu

A guerra que ameaça o mundo de Ifíanor remete ao passado histórico que persiste na memória dos muitos reinos desse mundo.

Há muito tempo atrás a raça dos centauros tentarou romper os limites da realidade física de Ifíanor e adentrar o estranho mundo de Agonia, um mundo quase como o avesso de Ifíanor ou uma realidade paralela corrompida, um mundo inferior repleto de energias obscuras, criaturas sombrias e uma malignidade latente em tudo que existe nesse estranho mundo cujo poder desperta a cobiça da raça dos centauros.

Para chegar até Agonia é precisar passar pelo Véu, algo como uma barreira ou substância que separa mundos diferentes, no caso Ifíanor e Agonia.  

As ações dos centauros para romper o Véu em Soronto não passaram despercebidas pelos muitos reinos e seres poderosos de Ifíanor, dentre eles o elfo Círdan e muitos dos magos mais poderoso do reino como Tanor, sua irmã Tania, Morlila (esposa de Círdan) e Selene.

O que se segui foi uma das batalhas mais devastadores de Ifíanor, quase extinguindo a raça dos Centauros e levando ao sacrifício da esposa de Círdan, Morlila, grávida na ocasião do incidente do portal, bem como a perda de um de seus braços, a morte de Tania, irmã de Tanor, bem como a perda de muitos outros magos e guerreiros.

Círdan ergueu um poderoso selo que isolou Agonia de Ifíanor, um poderoso encantamento  antigo passado por gerações e gerações da família real, um encantamento tão antigo que as lendas dizem ter sido usado para aprisionar os antigos deuses da mitologia de Ifíanor.

Esse acontecimento mudou tudo em Ifíanor: elfos, orcs, anões, dragões e outras raças precisaram estabelecer novas regras e um tratado para proteger tudo e todos.

Os talismãs foram espalhados pelos reinos de Ifíanor, confiados a guardiões poderosos ou cuja identidade é um mistério completo, uma salvaguarda para evitar que os poderosos artefatos caiam em mãos erradas. Mas há olhos rondando na escuridão…

Agonia era o nome dado pelos primeiros magos a romperem o véu e chegar naquele local. Situava-se numa camada inferior ao mundo comum, era um mundo paralelo, uma das camadas da realidade que foi distorcida com a prisão da deusa da destruição Velda, nos primórdios da criação.

Corações nas Sombras e o tripé da narrativa: cenário, trama e personagens

A quase totalidade da obra de Francis gira em torno de conceituar seu mundo, apresentar seus personagens e suas motivações  e construir gradativamente sua aventura numa narrativa que sabe alternar momentos de explicação, conceituação e ação ao longo de seu desenvolvimento.

Francis tem excelente domínio do que escreve e ao optar por blocar sua história nos muitos pontos de vista de sua gama de personagens acaba dando ao leitor uma panorama geral de seu mundo e de suas particularidades.

Ao “distribuir” uma trama complexa e detalhada entre seus personagens principais e seus coadjuvantes, o autor nos permite viajar pelos vários reinos de Ifíanor e suas particularidades e isso já nos primeiros capítulos, quando muitos dos protagonistas são apresentados aparentemente de forma isolada, mas já deixando antever que todos irão se encontrar em algum momento para que a trama, um imenso quebra-cabeças, seja montado peça a peça em conjunto com os muitos personagens e cenários da obra.

Ifíanor: os continente de Pallas e Primas

Ífianor, mundo fantástico onde se passa a história do livro, é dividido em dois imensos continentes, Pallas e Primas, onde cada um conta com grandes e influentes reinos com diverso níveis de poder político e militar, como, por exemplo, Damatia, Lessália, Minos, o Principado de Dankar, Physara, Narda, Vescra, Gringor e Dûng-Dhar, apenas para citar os mais ativos neste primeiro livro.

O Reino dos Dragões há muito rompeu relações com o mundo dos homens e o seu ínfimo contato se dá apenas através de seu representante no Alto Conselho.

É nesse vasto e rico cenário que o leitor irá viajar e participar de uma rica trama fantástica envolvendo criaturas, reinos, artefatos místicos e uma conspiração que esconde os priores segredos de muitos dos personagens da obra.

Alfris, Selene e o cerco ao Castelo Dankar

A linha mestra da narrativa de Corações nas Sombras se inicia com a apresentação da dupla Alfris e Selene; ele um poderoso guerreiro integrante chefe da guarda de proteção do castelo Dankar, residência de Selene, uma das magas mais poderosas dos reinos de Ifíanor, não por acaso guardiã de um dos talismãs de poder.

Ao lado de Alfris está seu irmão Aag, que ouve durante toda a noite uma voz sussurrar em seu ouvido que a morte o espreita. Não tarde para que os presságios murmurados na mente de Aag se concretizem durante um rápido e pesado cerco empreendido por Tanor ao castelo de Dankar em busca do talismã de posse de Selene.

Assim começa a caçada pelos demais talismãs, com um alto custo em vidas e com Selene vítima da um feitiço de possessão de ódio que colocou em seu corpo um demônio que em alguns meses dominará seu corpo e aprisionará sua mente na escuridão e sofrimento.

Alásia, Ilron, mestre Abel, seus amigos e o Tempo da Luz

Alásia está quase concluindo seu período de aprendizado no respeitado Templo da Luz ao lado de seu amigo elfo, Ílron, sobrinho do poderoso Círdan, responsável por selar Agonia na batalha que quase extinguiu o povo dos Centauros; ao lado da dupla estão vários amigos e companheiros de treinamento no Templo da Luz.

Preocupada com seu vindouro casamento arranjado para superar rusgas entre seu reino e o reino do príncipe Éder de Vescra cuja capital é a imponente cidade de Vanir, Alásia buscava em seus treinamentos uma fuga temporária para as responsabilidades que lhe foram impostas ainda muito cedo; mal percebendo que muito mais ainda lhe seria cobrado antes do fim deste dia.

Sob a supervisão de mestre Abel que pretende exigir de seus alunos o máximo de suas habilidades físicas, mentais e mágicas, Alásia e seus amigos foram divididos em trios para serem testados de uma forma que vai mudá-los drasticamente, sobretudo Alásia.

O resultado do severo teste servirá para escolher os melhores alunos para saírem em uma caravana especial protegendo e transportando um segredo conhecido por poucos: um dos talismãs de poder sob a guarda do Templo da Luz.

A estratégia terá como objetivo desviar a atenção daqueles que buscam os demais talismãs após o ataque ao palácio de Dankar e que vitimou Selene com um demônio adormecido em seu corpo.

Leon, Sarah, Cogar e a cidade portuária de Abak

Abak é a segunda maior cidade de Damatia e a maior cidade portuária do reino de Ífianor. Por ela as rotas de comércio passam em grande intensidade: pessoas e mercadorias constantemente precisam aportar na cidade e seguir para o interior do continente. Abak é um enorme centro de poder e influência, não à toa possui um dos melhores e mais eficazes sistemas de proteção, para que nada aporte na cidade inadvertidamente…

Leon, capitão da guarda de Abak era o segundo em comando na importante cidade. Seu cargo ficava apenas abaixo do prefeito da cidade. Leon goza de imenso prestígio na cidade portuária, sob seu comando a estrutura de alfândega da cidade funciona sem falhas ao lado de um sistema de segurança praticamente inexpugnável.

Devido a sua posição estratégica e influência, Abak é constantemente visada e, como toda cidade de intenso comércio e fluxo de pessoas e suas mercadorias, é alvo de jogos de poder, organizações diversas, políticos de intenções duvidosas e seus asseclas.

Entre os grandes inimigos de Leon em seu posto está justamente o prefeito Sorog, cujos acordos para o futuro da cidade tem em Leon um grande obstáculo, um que precisa ser removido rapidamente, pois o tempo para quitar estes acordos está acabando e muito se cobrará de Sorog caso falhe.

Mas o jogo de poder em Abak não é regido apenas pelos cargos oficias e Leon tem no submundo seus próprios aliados e contatos, cujos olhos, mãos e ouvidos estão atentos a tudo e Marisa é uma dessas aliadas com poder e influência no submundo de Abak.

Mas também há os soldados de confiança de Leon, sobretudo Sarah, jovem corajosa e calculista que tem em Leon não só seu mestre, mas um tutor a quem deve muito respeito e uma fidelidade ferina…

Em meio a rotina de comércio da cidade, um incidente nos arquipélagos de Sisam mobiliza a saída de Leon da cidade a pedido do prefeito. A contra gosta Leon parte junto com um pequeno grupo e ao seu lado seus homens de confiança: um ataque de Orcs dizimou várias vilas pelo arquipélago… O grande problema? Orcs não eram vistos em grupos organizados há muitos e muitos anos em Ífianor…

Em Sisam um novo elemento se adiciono ao lado de Leon nas estranhas equações que se montam no cenário sombrio que em breve se expandirá para o restante de Abak: o obscuro elfo de olhos e cabelos estranhamento cinzentos chamado Cogar é encontrado desacordado e levado de volta por Leon em uma fuga desesperada das ilhas de Sisam após um assustador confronto com uma bruxa cujo rosto está oculto por uma poderosa magia…

Goldax, o orc imortal e a Maga de Rosto Oculto

O único dos orcs imortais, Goldax é temido e respeitado não só entre os os de seu povo. Forte, altivo e orgulhoso, o orc imortal pretendia realizar algo único entre os selvagens de sua raça: unir seu povo sob um único estandarte de guerra e marchar contra os demais povos de Ífianor.

No entanto o temperamento intempestivo do orc imortal só rivalizava com seu imenso poder, tão grande que Goldax é um dos poucos seres capazes de transitar entre o mundo material e Agonia. Mesmo com tanto poder, Goldax precisava de algo mais para reunir sua raça de forma organizada e esse algo veio na forma de um estranho mestre, oculto de tudo e todos e a quem Goldax trata com extrema devoção, respeito e temor.

Reunindo seus soldados nas ilhas do arquipélagos de Sisam, Goldax tem aliados poderosos para realizar um golpe decisivo contra os povos de Ífianor partindo do domínio da cidade portuária de Abak, mas até mesmo o poderoso orc teme as intenções de seus aliados obscuros, sobretudo da bruxa cujo rosto é oculto por uma poderosa e estranha magia…

Tallis, Itzanami, os Viajantes e o Dragão Sorridente

Os três irmãos Tallis, Itzanami e Nicte Ha pertencem à sociedade dos viajantes, misto de cultura, culto religioso e sociedade em si mesma, os viajantes não são bem quistos por outros povos de Ífianor devido aos rituais que praticam envolvendo sacrifícios de jovens como Nicte Ha à Deusa; se tal sacrifício for realmente puro e grandioso, acreditavam os viajantes, o sacrificado não necessitaria retornar em uma próxima vida ao mundo dos vivos.

Só aqueles perfeitos de corpo e puros de espírito entre os viajantes poderiam praticar a última viagem, o que não é o caso de Itzanami, a caçula dos três irmãos. Portadora de uma pequena deficiência em uma das pernas, a jovem garota cresceu às margens de seu próprio povo, não podendo participar dos cultos por ser imperfeita fisicamente, Nami – como a chamam seus irmãos – acabou também se tornado uma cética entre seu povo, duvidando de suas crenças, questionando seus costumes e práticas.

Tallis, ao contrário da irmã, é forte, belo e vigoroso. Dotado de grandes habilidades físicas e mágicas, acabou se tornando um dos melhores caçadores, a elite que protege os viajantes dos ataques de outras raças e povos de Ífianor. O guerreiro nutre grande amor pelas duas irmãs, mas ao contrário de Nami, entende e aceita de bom grado o sacrifício que em breve sua irmã Nicte Ha irá fazer.

Mas no caminho dos três irmãos se ergue um mal ancestral de poder absurdo e tudo muda. Um imenso dragão de escamas negras como a noite ataca os viajantes e nem mesmo os poderes e habilidades de Tallis são capazes de afugentar a criatura, menos ainda feri-la.

Tal fera jamais havia sido vista antes em Ífianor, no entanto jamais seria esquecida novamente, sobretudo porque seu rosto bestial e negro ostenta um terrível sorriso. Nasce assim um grande desejo de vingança entre Tallis, Itzanami e o poderoso Dragão Sorridente, cuja origem guarda mistérios que remontam ao passado longínquo do mundo dos homens e dos dragões que hoje habitam o continente de Draconia.

Sr. Gael, ciência e tecnologia em um mundo mágico

O Sr. Gael é um nome que inspira confiança e respeito em vários continentes e reinos. Inteligente e estudioso, Gael conquistou o respeito de reis por onde passou através da aplicação de seus conhecimentos para desenvolver soluções práticas a partir da ciência e maquinários.

Apesar da magia ser algo muito utilizado no mundo de Ífianor, apenas uma pequena parcela dos seres desse mundo é capaz de manipulá-la a contento, isso por vezes deixa muitas situações a cargo dos magos, deixando assim várias frentes de atuação refém das organizações e sindicatos regidos por eles.

Insatisfeito com tantas recorrências de situações problemáticas e exigências dos sindicatos de magos, Gael sempre buscou soluções que permitissem que os seres incapazes de utilizar magia não ficassem reféns dos magos e afins. Aquedutos, máquinas a vapor, lançadeiras, sistemas de iluminação, embarcações de guerra e outras tantas invenções do cientista o tornaram popular em todos os continentes. E em alguns casos, impopular também.

Mas sua grande obra é mesmo a locomotiva a vapor. Um grande carro transportando outros enfileirados carregados de diversos tipos de materiais, suprimentos e pessoas através de vários reinos. Sua invenção é tão grande e importante que é capaz de atravessar, sobre trilhos de metal e madeira, quatro reinos: Dûng-Dhar (reino dos anões), Lessália (lar dos elfos), Sarim e Vescra (reino dos humanos).

A princípio o acordo para a estrada de ferro da locomotiva está endossado por todos os reinos, mas não tardou para que os reclusos e soberbos elfos de Lessália começassem a se sentir ofendidos por uma invenção tão estranha e capaz de feitos tão grandes sem uso de magia.

O poderoso Rei Tírdan de Lessália, pai de Círdan, quebra o acordo e comete um ato de guerra ao atacar a locomotiva e causar uma grande tragédia, não só para si, mas para o Sr. Gael e sua família também.

Mas o ato imprudente do rei dos elfos não passa despercebido por nenhum dos outros reinos e a questão não demorará a chegar ao Alto Conselho, cuja próxima reunião já está marcada.

Tanor e a busca pelos talismãs de poder

Apesar de ser o personagem que menos aparece na narrativa, sua presença é constantemente sentida em planos ocultos e estratégias na busca pelos talismãs de poder. Sua busca beira o insano, mas ainda assim o poderoso mago desperta interesse e dúvidas em torno de suas atitudes.

Arregimentando um exército poderoso de seres diversos das muitas raças de Ífianor, Tanor nutre um profundo ódio por Círdan e pelo Alto Conselho. Seu ataque à maga Selene, utilizando-se de magias proibidas, é uma demostração de quão longe Tanor irá para concretizar sua busca. Em estado de alerta, o Alto Conselho fez com que os guardiões dos talismãs restantes fossem colocados em alerta e movimento.

Os talismãs que são de conhecimento aberto, como o de Círdan e o do Templo da Luz, foram ocultos novamente, e os guardados por estruturas além dos reinos conhecidos aparentemente estão seguros por serem tais guardiões extremamente peculiares e poderosos, sendo alguns completamente desconhecidos ou cuja fortificação é intransponível, como a Cidade Prisão no reino anão de Dûng-Dhar.

Mas aparentemente Tanor tem peças em movimento capazes de o guiar no tabuleiro até esses jogadores de poder desconhecido e ainda assim obter sucesso perante eles…

Elegibur e Draconia, o continente dos dragões

Elegibur, rei dos dragões, filho do poderoso Amala que esteve nas grandes guerras da criação do mundo, recebeu visitantes humanos no continente de Draconia depois de centenas de anos.

Seus visitantes vieram em paz e em busca de poder, conhecimento e autorização para caçar e matar o Dragão Sorridente, mas uma história antiga vem à tona pelos lábios do próprio Elegibur sobre a temível besta negra cujo nome é proibido de ser pronunciado em Draconia.

Elegibur e seus seguidores se preparam para uma batalha de proporções terríveis, tanto para os dragões como para todos os outros seres em Ífianor, pois cada dragão que morre significa que o véu que separa Agonia de Ífianor se enfraquece… algo espreita o reino dos dragões e Elegibur se prepara para guerrear ao lado de seus novos aliados vindos do mundo dos homens.

O Alto Conselho

Reunido em Damas, capital do reino de Damatia, o Alto Conselho está em conclave para deliberar decisões que impactam todos os reinos de Ífianor. As reuniões de conclave são tão importantes que até um representante dos dragões está presente, humano, mais ainda assim representante das imensas criaturas.

As decisões tomadas neste mais recente conclave esbarram nas situações problemáticas apresentadas pelos vários núcleos da narrativa do livro. É aqui que você, leitor, irá conhecer brevemente outras espécies e reinos de Ífianor, bem como a complexa funcionalidade do conclave, dando novos e imprevistos rumos para os personagens.

Linguagem objetiva, muitos personagens e uma ótima narrativa

Allan Francis é um autor de foco. Sua história é bem organizada e sua escrita é limpa e segue a diretriz da boa história: cria seu contexto, apresenta seus personagens e cenários. Depois vai guiando sua trama de forma cadenciada e com muitos focos narrativos sendo mostrados a partir de seus muitos personagens, alguns mais, outros menos influentes dentro de sua trama.

Didático, o autor não se propõe a reinventar a fantasia como gênero literário, mas faz com maestria uma boa história erguida sobre um mundo fantasioso próprio, cheio de influências de autores que o antecederam na high e dark fantasy: Tolkien, Martin e outros tantos tem seu quilate de influência na obra de Francis e o leitor fã de Fantasia vai perceber isso facilmente.

Mas não se preocupe, o autor tem sua cota tranquila de originalidade dentro dos mundos fantásticos. Seus personagens são bem construídos dentro de sua trama e todos tem matizes variadas ao longo da obra, nenhum é totalmente bom ou totalmente mal e isso vai sendo administrado com técnica no texto de Francis.

Nada é entregue gratuitamente no desenvolvimento dos personagens, contextos, tramas e subtramas da obra.

Rico em mitologia, o mundo criado por Francis também tem sua cosmogenia e mitos descritos aqui e ali para o leitor. Divindades, grandes guerras, amuletos de poder, selos mágicos, portais entre mundos, seres imortais, bruxas, magos, centauros, anões, elfos e outros tantos seres conhecidos de longa data do leitor veterano de fantasia desfilam histórias sobre como o mundo de Ífianor foi criado.

Corações nas Sombras: Presságios de Guerra é uma obra de fôlego e conteúdo riquíssimo, Francis não economiza em suas quase 800 páginas para adensar seu material de forma geral.

A trama lenta e rica em detalhes e conceitos também presenteia o leitor com ótimas batalhas e cenas de ação, com momentos de tensão e apreensão em certos confrontos que até bate na gente aquele medo de que “aquele personagem que você gostou” possa morrer em uma batalha.

Coeso em sua escrita, o autor dispensa firulas pós-modernas e idas e vindas no tempo, ao contrário disso, temos no livro um tempo cronológico reto e que flui sempre para frente. Mesmo o leitor mais disperso e desatento não se perderia nessa trajetória.

Mas mesmo assim é bom frisar que Corações nas Sombras: Presságios de Guerra é um livro de High Fantasy pesado (nos dois sentidos), prato cheio para os fãs de longa data do gênero, porém talvez um começo difícil para o leitor iniciante no gênero.

Com muitos personagens, cidades, reinos, continentes e uma trama complexa que “mostra-e-esconde” bem o que realmente está acontecendo, soma-se a isso um ritmo paciente e cadenciado, é possível que os leitores menos preparados se sintam intimidados tanto pelo porte do livro estilo “tijolão” quando pela densidade da história. Mas os novatos que não tem medo das boas e grandes obras vão encontrar aqui uma excelente introdução aos mundos fantásticos e seres mágicos.

Outro ponto positivo no trabalho de Francis diz respeito ao modo como o autor optou por tratar a escrita dos nomes de sua obra. Nada de excessos e forçações de barra para parece algo estrangeiro cheio de hifens, tremas, acentos aqui e acolá. A escrita reflete diretamente a pronúncia dos nomes, o que deixa a leitura bem fluída e natural nesse quesito.

Ao invés de querer imitar autores com renomada habilidade e expertise nessa abordagem linguística como o mestre Tolkien e ofender a inteligência do leitor, Francis opta pela limpeza e sensatez na construção dos nomes em sua quase totalidade; outro ponto positivo para a obra, sem dúvidas.

A organização dos capítulos sempre é feita dando espaço narrativo para dois ou mais personagens do núcleo principal se desenvolverem e desenvolverem suas respectivas narrativas dentro do plano maior, desse modo fica prático e fácil o leitor encadear os acontecimentos até o ponto em que todos os núcleos se encontram e o plano maior da narrativa se delineia para o leitor, ao menos em parte.

Essa estrutura de capítulos também é prática para que o leitor possa recorrer a capítulos anteriores para relembrar fatos, nomes e situações dentro da trama. Depois de alguns bons capítulos (e são muitos), já conhecemos os principais personagens e grande parte de suas personalidades e motivações na trama e recorrer a qualquer capítulo anterior se torna algo desnecessário depois de certo ponto.

Empolgante, cheio de mistérios em torno do que realmente ocorre na trama, tenso nas cenas de ação, rico em ideias e conceitos explorados ou a serem explorados nos próximos livros da saga, Corações nas Sombras: Presságios de Guerra é uma obra que enriquece as opções de Literatura Fantástica escrita por autores brasileiros e que merecem toda a atenção dos fãs do gênero e, claro, a dos que pretendem conhecer o mesmo, ainda que a obra e seu tamanho robusto possam assustar esses iniciantes num primeiro momento.

Corações nas Sombras: Presságios de Guerra é um livro que merece atenção dos leitores fãs e não fãs de fantasia, pois é uma obra feita com esmero e criatividade. Para os fãs talvez seja mais confortável e as grandes influências do autor saltam aos olhos lado a lado com suas próprias ideias e criações. Arrisque-se e, assim como eu, surpreenda-se com essa ótima ficção fantástica.

Corações nas Sombras | Sinopse

Quando eu olhei através do passado eu finalmente compreendi o que você entenderá aos poucos.

Ver a queda e extinção dos centauros por sua sede de poder foi apenas o estopim de algo maior, pois o mal que despertaram no mundo inferior (Agonia) embora selado por Círdan o elfo, desencadeou uma série de acontecimentos que narro para ti.

Aquilo bastou para que Goldax o imortal que liderou os orcs por duzentos anos encontrasse um mestre que lhe prometeu libertar os orcs de seu exílio.

Depois de sua derrocada, o dragão negro ressurgiu havido por poder e adoração, a ponto do rei dos dragões lhe temer.

A Casa de Prata com intenções desconhecidas começou a roubar um a um os talismãs de Ifíanor.

O mundo aos poucos começou a odiar os magos seus antigos benfeitores e uma mente brilhante surgiu com a finalidade de equilibrar as coisas, mas ele não sabia que seus atos acarretariam uma guerra sem fim.

Então meu amor, meu confidente e meu amante, se lhe conto sobre o passado é para que você entenda o meu papel no presente e o porquê de termos nos separados. Escolhi nomear este relato de Corações nas Sombras e acredito que você entenderá o motivo.

Ficha Técnica

Corações nas Sombras | Links

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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