O Livro É | O Terceiro Testamento, de Christopher Galt

Em suas 416 páginas, O Terceiro Testamento, do escritor britânico Craig Russell – que assina com o pseudônimo Christopher Galt – é uma daquelas obras que nos instiga, que nos perturba, que nos desafia a todo instante através de um mistério que se adensa na narrativa à medida que ela avança

Página a página somos presenteados com uma inundação de conceitos e ideias em vários campos científicos da atualidade: neurociência, física quântica, teoria da informação, inteligências artificiais e claro, muitos, muitos questionamentos filosóficos.

Se for para fazer um paralelo entre O Terceiro Testamento e a obra de alguns escritores de peso, não exitaria nem um segundo em citar dois nomes: o americano Philip K. Dick e o argentino Jorge Luis Borges.

Dois dos autores que mais questionaram os conceitos de “realidade” e “percepção”. Ambos olharam para o mundo, para o que ele nos dizia e questionaram essas respostas em suas obras.

Dick conectando suas obras aos aspectos tecnológicos e futuristas em livros de Sci-fi de teor distópico e, claro, destacando suas experiências com substâncias diversas; já Borges flertava muito mais com aspectos metafísicos do realismo fantástico ou realismo mágico, onde o mundo é permeado por mistérios sobrenaturais como um livro cujo conteúdo muda a cada vez que é aberto, uma biblioteca sem fim, um ponto no universo que contém todos os outros pontos bastando olhar para onde se quer ver, um lugar no tempo-espaço que existe simultaneamente em dois momentos e em dois lugares…

Adicione a esses dois nomes um terceiro: Franz Kafka, o mestre do absurdo, do mundo burocrático, dos sonhos intensamente perturbadores, das situações inalcançáveis… Pronto, essa equação dá um panorama do que é O Terceiro Testamento e sua narrativa multifacetada.

O Terceiro Testamento | Premissa: Um evangelho sobre tudo…

O preâmbulo acima foi escrito para expor ao leitor o que o espera nesta obra ímpar que ecoa alguns dos sentimentos que tive ao ler os autores que citei. Uma intensa sensação de perturbação diante do que está por trás das cortinas de nossa própria visão.

Craig Russell conseguiu em seu texto replicar com maestria a soma de Dick, Borges e Kafka: tecnologia, magia e absurdo se mesclando para desconstruir a noção que temos do real e da mente humana através de sua narrativa, seus muitos personagens e pelas alucinações que tomam conta desse mundo fictício.

John Macbeth volta à Boston, sua cidade natal, a trabalho. Psiquiatra e neurocientista, Macbeth é um dos responsáveis pelo Projeto Um da Universidade de Copenhague, Dinamarca, um complexo projeto que tem por objetivo desenvolver uma mente inteiramente artificial para que distúrbios possam ser simulados e compreendidos na esfera virtual e, claro, tratados no mundo real tal qual se dê sua compreensão através dos algoritmos do Projeto Um. No computador de Macbeth há um arquivo vazio, persistente, que não pode ser clicado, aberto ou apagado… está apenas ali, como se fosse um arquivo fantasma…

Estranhamento todas as pessoas com quem cruza caminho em Boston parecem conhecer o doutor Macbeth, apesar de em hipótese alguma ele sequer se lembrar dessas pessoas. Ironicamente o cientista sofre de um distúrbio mental: síndrome da despersonalização. Macbeth acorda e precisa saber exatamente onde está, porque está e quem é. Leva apenas alguns segundos, mas todo cuidado é pouco para não cair no esquecimento completo de si mesmo.

Mas esse começa a ser um problema pequeno quando o mundo todo começa a se “despersonalizar” de tal modo que a todos surge a impressão que o Apocalipse já começou no planeta inteiro.

Ondas de suicídio, alucinações individuais e coletivas começam a ocorrer com maior frequência, o passado começa a se mesclar com o presente e a estranha frase “Estamos nos tornando” surge rabiscada em paredes e muros ao redor do globo à medida que os fenômenos se intensificam.

Até mesmo Elisabeth Yates – a presidente dos EUA – sofre das alucinações, vendo pelas salas e corredores da Casa Branca vários de seus antecessores surgindo e desaparecendo… Aos cuidados do também psiquiatra John Hoberman, a presidente Yates se revela muito mais complexa do que aparenta ser, bem como Ethan Bundy, o soturno agente do FBI com olhos estranhamento coloridos. E, ao redor do mundo, com olhares distantes contemplando o nada, as pessoas vão sendo chamadas de “sonhadores”, observando e aguardando algo iminente.

Em Boston nunca fica claro qual o trabalho Macbeth deve realizar, apenas sabemos que está ali para intermediar os contatos do Projeto Um com o Instituto Schilder de Pesquisa Neurocientífica, mas entre suas obrigações o pesquisador encontra tempo para visitar o irmão, Casey Macbeth – estudante proeminente do MIT – e seu amigo também psiquiatra Pete Corbin, ambos de certo modo sugados para o furacão de fenômenos estranhos que caminha a passos largos para o caos absoluto.

O primeiro distúrbio que suga o trio diz respeito a tentativa de suicídio do jovem Gabriel Rees, cuja objetividade dá lugar a um discurso errático, complexo e subjetivo sobre a realidade que nos cerca, religiosidade, anjos e a ciência moderna…

Em algum lugar da Dinamarca, Greg Poulsen e a esposa Margarethe Poulsen são vítimas de um acidente terrível; a cura da mulher, vítima de um “apagão” da mente, passa a ser uma obsessão para o marido, chefe de John Macbeth no Projeto Um

John Astor se tornou um mito, uma lenda. Um homem de pensamentos abstratos, estranhamento citado por diferentes pensadores ao redor do mundo em épocas completamente diferentes, o mais provável é que deveria estar morto, ou isso ou sua identidade é assumida por diferentes pessoas ao longo de todos esses anos. Sua obra Fantasmas Que Nós mesmos Criamos que é praticamente um tesouro inacessível e soterrado por inúmeras camadas de dados obscuros nos recantos ainda mais obscuros da internet… um livro acessível apenas para alguns poucos privilegiados, ainda assim cultuadíssimo…

Quer você tenha se devotado à busca da Verdade em nome de Deus ou da Ciência, o perigo sempre foi a possibilidade de encontrá-la.
Sinto Muito Mesmo. Você a encontrou. Encontrou a verdade que esperava para ser descoberta.
– Extraído de Fantasmas Que Nós mesmos Criamos, de John Astor

O Terceiro Testamento | Desenvolvimento, Personagens e Narrativa

Apesar da complexidade do tema, do roteiro intrincado e excesso de conceitos e detalhes, a escrita de Russell é muito boa; leve e fluída, seu texto nos prende com facilidade, facilidade essa inclusive que o autor tem para criar personagens diversos com a intenção de demonstrar algumas das situações absurdas que cercam os fenômenos da trama.

São vários personagens secundários em diversos lugares do mundo que passam por situações de alucinações em diversos graus, a maioria envolvendo sobreposições do passado em cima do presente numa série de choques culturais existentes em nossa história como raça dividida em civilizações diversas.

Insetos pré-históricos, a chegada dos Vikings em outros continentes e se confrontando com os povos indígenas que lá encontraram, uma garota de uma provícia na China se deparando com a chegada de tropas romanas que se perderam em expedições mencionadas nos livros de história, a própria presidente americana alucinando com ocupantes de seu cargo ao longo de séculos, a morte de Joana d’Arc na fogueira revista aos olhos de uma jovem garota, um agente do FBI com olhos multicoloridos que acredita possuir a marca de Caim, um patrulheiro que testemunhando 27 jovens se jogarem da Golden Gate ao mesmo tempo, uma senhora morando sozinha em sua casa recebe a visita dos filhos e após sua partida, retorna ao quarto para conversar com seu marido, falecido há muitos anos, um jovem que se vê testemunhando os horrores do nazismo…

São inúmeras situações abordadas com detalhes, cuidado e ótimas construções narrativas enriquecendo a trama de O Terceiro Testamento. Algumas mais longas, outras mais curtas, algumas recorrentes, outras aparecendo uma única vez ou retornando para cruzar o caminho de Macbeth e suas próprias ilusões sensoriais. Sobretudo seus déjà-vus. E olha, Russell consegue passar constantemente a sensação incômoda de um déjà-vu… o recurso é usado no texto de forma tão simples, mas tão efetiva que a obra merece uns pontos extras por isso. Não foram poucas as situações em que eu mesmo senti que estava em um déjà-vu diante do texto de Russell.

Até poderia detalhar mais cada situação dessas, ou as mais pertinentes ou impactantes aqui para convencer você, leitor, de que estamos diante de uma grande e competente obra, mas acho que o importante aqui é pontuar a qualidade dessas situações, pois o trajeto e a experiência direta com cada uma dessas inúmeras situações e como cada uma delas vai lhe influenciar é algo que cabe inteiramente a cada leitor.

O Terceiro Testamento

Em alguns casos há situações tão isoladas e autocontidas que poderiam ser encaradas como “contos” dentro do universo de O Terceiro Testamento, e pelo fato de serem de porte variado, mas sobretudo de porte pequeno, detalhar demais algumas dessas situações pode ser um sério risco de estragar sua leitura e as surpresas que ela guarda. E acredite, O Terceiro Testamento tem muitas surpresas.

Os leitores mais afeito a se apegar com personagens podem estranhar a grande alternância de núcleos e o vasto número de conceitos que Russell despeja em sua obra, mas eu particularmente acredito que isso é parte do que o autor pretende que sejam as nossas experiências com o estranhamento que seus próprios personagens tem em meio ao que está ocorrendo. Diga-se de passagem, até os últimos parágrafos do livro vamos elaborando e reelaborando nossas hipóteses sobre a trama o tempo todo, cada detalhe nos dá pistas de um lado e questionamentos do outro.

Tal qual Philip K. Dick, Russell não é uma escritor focado nas particularidades clássicas de uma narrativa, muita coisa fica de lado, outras são excessivamente elaborados, algumas ficam em constante suspensão, personagens são detalhes e depois deixam espaço para que outros possam seguir na história com maior peso.

O foco de Russel, assim como o de Dick e Borges está situado muito mais no desenvolvimento dos conceitos que cria no texto e dos desfechos que eles tem na trama, no absurdo das situações que impõe aos seus núcleos e nas sensações de estranhamento que esses conceitos nos causam.

Mas calma, Russell não é um mal narrador, apenas prioriza suas excelentes ideias e a conexão entre elas. Como disse acima, algumas mais desenvolvidas que outras. Mas faz parte do encanto e estranhamento do livro.

Ao longo da obra é perceptível que Russell montou um quebra-cabeças complexo, competente e criativo. Ao dialogar com o estilo de autores de renome na história da ficção, o autor conseguiu prestar as devidas homenagens e ainda assim seguir seu próprio caminho.

O esmero com que O Terceiro Testamento desfila conceitos reais e fictícios só mostra o quão Russell se empenhou em conhecer muitos dos temas que aborda. É perceptível que a compreensão do que está ali é algo que atinge tanto o leitor veterano de Sci-fi quanto aqueles que querem se aventurar pela primeira vez em algo do gênero.

Em minha sincera e franca opinião, O Terceiro Testamento é uma obra bem complicada de se resenhar, acho que a mais difícil que li nos últimos meses. Qualquer excesso de detalhes dado neste texto, acredite amigo leitor, poderia estragar muito sua experiência de apreciação. Há muito no texto que precisa ser degustado diretamente.

Não tenho como e nem devo lhe tirar esse prazer. O texto é um convite para percorrer suas próprias complexidades (e qual não é?), mas a sensação e a compreensão da trama narrativa de O Terceiro Testamento negocia diretamente com a sensação de estranhamento alucinógeno dos personagens e é parte do acordo tácito entre leitor, autor e obra que mergulhemos de cabeça no mar de loucura deste livro, como se nós mesmos fizéssemos parte do mundo de alucinações.

Tanto é que conforme vamos avançando na leitura, percebemos cada vez mais e mais como Macbeth vai mergulhando em sua própria mente e na tentativa de compreender tudo aquilo ao seu redor num mergulho profundo nas sombras da percepção humana do que é o real. E nós somos tragados para navegar esse mar com o personagem.

A edição da Editora Jangada ficou ótima de modo geral, no miolo temos papel pólen soft de boa gramatura e na tonalidade ideial para não cansar a visão, já que o ritmo da obra nos convida a ficar horas a fio sobre as páginas do livro, já a capa eu acho que poderia ter tido numa gramatura um pouco maior, acabou ficando um tanto fina para o corpo do livro (416 páginas em pólen soft dá um bom volume), a ilustração da capa dispensa comentários, ficou perfeita ao que se propõe o texto.

Mais uma vez a editora acertou em apostar suas fichas em obras novas e de autores ainda não tão conhecidos do grande público aqui no Brasil. Que o sucesso de O Terceiro Testamento abra as portas para novas investidas de Russell em nossas prateleiras.

Para os que gostam de narrativas complexas, roteiros intrincados, conceitos absurdos atrelados a conceitos reais de ciências diversas, eis aqui uma pedida indispensável para ler e reler várias vezes afim de remontar o quebra-cabeças criado com maestria por Russell.

 

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O Terceiro Testamento | Sinopse

Em toda parte, as pessoas começam a ter visões. Um adolescente francês assiste Joana D’Arc ser queimada na fogueira, e até tenta tirar uma foto com o celular, e a presidente dos Estados Unidos tem visões de seus antecessores dentro da Casa Branca.

Ninguém sabe se essas misteriosas aparições são uma espécie de alucinação coletiva, uma doença virótica causada por bioterrorismo ou se são sinais do Apocalipse.

Ocorrem suicídios em massa em várias partes do mundo, e o psiquiatra e neurocientista John Macbeth, à frente de um projeto para criar uma inteligência artificial autônoma, busca freneticamente uma resposta antes que seja tarde demais.

Ele descobre que a verdade por trás de tudo pode mudar os rumos da humanidade para sempre. E até custar a sua vida.

Uma história eletrizante que o fará questionar sua perspectiva da realidade. E até mesmo a sua sanidade.

O Terceiro Testamento | O Autor

Craig Russell
Craig Russell

Christopher Galt é o pseudônimo de Craig Russell, autor britânico best-seller, premiado e aclamado pela crítica. Seus thrillers já foram publicados em vinte e três idiomas no mundo todo. Ele é autor das séries Lennox e Jan Fabel, adaptadas pela TV alemã, que atraíram um público de mais de seis milhões de espectadores.

Em 2007, Russell foi nomeado para o prêmio CWA Duncan Lawrie Golden Dagger, o maior prêmio literário da Alemanha do gênero policial. Em 2008, ganhou o CWA Dagger in the Library, pelos seus livros da série Jan Fabel. Em 2013, foi nomeado para o CWA Ellis Peters Historical Dagger.

Site do Autor: http://www.craigrussell.com/craigrussell.htm

O Terceiro Testamento | Ficha Técnica

  • Título: O TERCEIRO TESTAMENTO
  • Autor: Christopher Galt
  • Assunto: Ficção – Ação e Suspense
  • ISBN: 9788555390760
  • Idioma: Português
  • Tipo de Capa: Brochura
  • Edição: 1ª Edição 2017
  • Número de Páginas: 416
  • Editora: Jangada
  • Páginas: 416

O Terceiro Testamento | Links

  • Site da Editora AQUI
  • Fanpage da Editora AQUI
  • Link do livro no Skoob AQUI

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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  • Alexander Weber

    Me deu vontade de ler. Excelente resenha

    • cara vale demais a leitura, sobretudo para quem curte tramas complexas e cheias de conceitos bacanas…

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