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OSCAR 2017 | MANCHESTER À BEIRA-MAR

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Manchester by the Sea. 2016. Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Gretchen Mol, C.J. Wilson)

[dropcap size=small]T[/dropcap]oda morte é péssima. Quando alguém morre, todos ao redor são abalados pelo acontecimento trágico. E todos os assuntos não-resolvidos vem à tona, principalmente pra quem mais tem que lidar com os ajustes do pós-mortem. Mas como se procede quando a única pessoa restante para cuidar de tudo isso é extremamente problemática?

Em suma, essa é a temática de Manchester à Beira-Mar, o mais recente projeto de Kenneth Lonergan.

Kenneth Lonergan pode parecer um nome estranho e desconhecido, à primeira vista. Provavelmente porque a maior parte dos trabalhos dele são no meio teatral. Mas, nos cinemas, ele já teve participações em algumas produções das quais provavelmente o público desconhecia: a comédia Máfia no Divã, sua sequência A Máfia Volta ao Divã, e o drama Gangues de Nova York têm a assinatura de Lonergan no roteiro.

Ele também já dirigiu alguns outros filmes em sua carreira, mas, sem dúvida, nenhum foi tão aclamado como Manchester à Beira-Mar tem sido, por todos os críticos e espectadores.

Neste filme, um homem chamado Joe Chandler encontra o destino fatal da morte, deixando um filho adolescente, Patrick, à mercê do destino. A única pessoa restante na família, além do adolescente, é o irmão do falecido, Lee Chandler, um zelador extremamente problemático, reservado e sem qualquer vida social. Agora, além de cuidar do que Joe deixou para trás, Lee também deve aprender a lidar com seus problemas do passado, que vêm emergindo com a morte do irmão, além de ter que servir de tutor para Patrick nessa nova fase da vida.

O nome do filme é oriundo da cidade onde se passa a maior parte do filme: Manchester (não na Inglaterra, e sim, em Massachusetts, EUA). E a cidade possui o cenário que mais encaixa ao filme: uma cidade pequena, portuária, tranquila, serena, mas sem qualquer vida. Parece ruim, mas o enredo do filme se desenvolve exatamente desta forma.

O roteiro de Manchester à Beira-Mar é original, e assim como a direção, ele também é autoria de Lonergan. Pela premissa, já dá pra sentir que a história original é interessante, justamente por desenvolver todos os problemas que envolveram na construção do personagem protagonista, valendo-se de intensos flashbacks para ilustrar todos os traumas. Pela arte criada, Lonergan compartilhou o Critics’ Choice Awards com Damien Chazelle, o roteirista do aclamado La La Land: Cantando Estações, na categoria de melhor roteiro original.

Com um elenco fortíssimo, que inclui Kyle Chandler, Michelle Williams, e Lucas Hedges, o filme se sustenta nas várias relações que rodeiam Lee, especialmente na relação com o irmão, interpretado por Kyle, com a ex-mulher, papel de Williams, e na tutoria que ele presta para Patrick, o menino interpretado por Hedges. Até o próprio Kenneth Lonergan faz uma participação especial no meio do elenco, ao maior estilo Hitchcock e Tarantino.

Kyle Chandler, apesar de interpretar o “ponto de partida” do filme, possui uma atuação discreta nos flashbacks, em comparação ao resto do elenco. Ainda assim, ele consegue mostrar um pouco em cena o motivo das suas atuações nas séries Friday Night Lights e Bloodline serem tão cultuadas.

Michelle Williams pode ser considerada uma veterana em atuações com enorme carga emocional. Ela já foi indicada uma vez ao Oscar de melhor atriz coadjuvante (em O Segredo de Brokeback Mountain) e duas vezes ao Oscar de melhor atriz (por Namorados para Sempre e Sete Dias com Marilyn). E em Manchester à Beira-Mar, a atriz, mais uma vez, faz jus à quantidade de indicações em premiações no currículo, e entrega uma performance emocionante em cena.

Lucas Hedges é a pessoa mais promissora desse filme. Ao interpretar o jovem que, dia a dia, tenta superar cada vez mais a morte do pai, enquanto lida com o tio problemático, é simplesmente fantástica. Após sua atuação em Manchester à Beira-Mar, Hedges é, sem dúvida alguma, um dos atores com maior potencial da atualidade.

Mas, de fato, a melhor atuação do filme foi a de Casey Affleck como o protagonista da produção. Nos primeiros 10 minutos de filme, ao entregar um personagem extremamente complexo com caras planas, Affleck nos passa a sua maturidade e a evolução como um dos melhores atores em ação. Seja quando ele estabelece a relação problemática com o sobrinho, quando lembra do irmão falecido, ou quando lembra da ex-esposa e seu relacionamento conturbado, Affleck dá um verdadeiro show em cena, o que garantiu a ele os prêmios de melhor ator no Critics’ Choice Awards e de melhor ator dramático no Globo de Ouro.

Manchester à Beira-Mar, sem dúvida alguma, é um dos fenômenos do ano. Não só por ter Kenneth Lonergan como diretor e roteirista (como a maioria dos “runners” do Oscar esse ano estão fazendo), nem pelas atuações fortíssimas que o filme nos traz (especialmente as atuações surpreendentes de Casey Affleck e Lucas Hedges contracenando em praticamente o filme todo), e nem pelos momentos emocionantes que são proporcionados aos espectadores. A produção é fenomenal, por trazer vida à um meio onde faltam criatividade e determinação nos filmes.

E, ironicamente, o que traz vida é um filme onde a morte é o motor principal. Seja bem-vindo a esse mundo de Manchester.

Manchester à Beira-Mar foi indicado a 6 Oscars em 2017:

  • Melhor Filme;
  • Melhor Diretor, para Kenneth Lonergan;
  • Melhor Ator, para Casey Affleck;
  • Melhor Ator Coadjuvante, para Lucas Hedges;
  • Melhor Atriz Coadjuvante, para Michelle Williams;
  • Melhor Roteiro Original, para Kenneth Lonergan.

A cerimônia de entrega dos Oscars em 2017 ocorrerá na noite de domingo, 26 de fevereiro.

Trailer | Manchester à Beira-Mar

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Um ajudante de super-herói perdido em Tatooine, com várias pedras de metanfetamina.

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