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ENTREVISTA | CINEASTA TORQUATO JOEL

000O Ponto Zero teve a oportunidade de bater um papo com Torquato Joel, cineasta, que vive e trabalha na Paraíba. Um curta-metragista, como se auto-intitula, considera a obra de curta duração como um meio a ser explorado em si mesmo e não como mero passo ou estágio de aprendizagem rumo ao longa-metragem.

Formado em Comunicação, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal da Paraíba, estagiou em cinema direto no Atelier de Réalisation Cinématographique Varennes, em Paris.

Dentre suas obras temos o vídeo documentário ‘A margem da luz’, ‘Passadouro’, ‘Transubstancial’. Alguns dos seus trabalhos mais recentes incluem os curtas: “Gravidade”, “Aqui” e “Estes”.

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PZ: Qual foi o seu primeiro contato com o universo cinematográfico?

Torquato Joel: Foi ainda na infância. Existia um cinema em frente à minha casa. Passei a imitar a projeção fazendo com os amigos um projetor com lampada e caixa de sapato, com “películas” feitas de tirinhas coladas de revistas em quadrinhos.

PZ: Como você descobriu que queria fazer cinema?

Torquato Joel: Quando eu fazia Engenharia, vi na UFPB um filme feito por alunos do curso de Comunicação. Eu detestava cálculo, mas, por convergência da vida, eu estava ali, como uma ideia fora do lugar. Decidi imediatamente fazer vestibular para Comunicação, assim me colocaria próximo do cinema,

PZ: O que pensa a respeito do curta-metragem, fora do eixo Rio-São Paulo?

Torquato Joel: Acho que a produção do cinema de síntese é forte em todos os eixos do Brasil. Se a gente pegar, por exemplo, a produção de curtas nos últimos anos no interior da Paraíba, vemos que ela é vigorosa. Foram mais de 100 prêmios conquistados por curtas de pequenas cidades em festivais nacionais, e até internacionais, entre 2014/15.

PZ: Trabalhar em curta-metragem é dispor de uma maior liberdade artística?

Torquato Joel: Em certo sentido sim. Temos menos amarras financeiras, às vezes os filmes são feitos de forma colaborativa, sem dinheiro algum. Mas conhecemos gente que faz longa que não tem sequer preocupação com amarras, sejam elas de que ordem forem. Li dia desses entrevista de Andrea Tonacci dizendo que não está nem aí para o mercado. De qualquer maneira, o curta é sim um livre espaço para experimentar.

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PZ: Qual a sua percepção quanto ao cinema paraibano na atualidade?

Torquato Joel: Há uma força muito grande na produção das pequenas cidades. Algo incomum se observarmos a produção em outros estados. Acho que “caiu a ficha” dos realizadores do interior de que o centro é o lugar onde estamos, seja Nazarezinho, Solânea, João Pessoa ou São Paulo. Mas precisamos avançar em termos de profissionalização, há uma carência de profissionais em áreas específicas da realização cinematográfica. É preciso também uma mobilização da classe para uma pressão junto ao Estado em face da política pífia que é praticada com relação à uma política para a área. Existe um relatório da ONU que diz que o cinema necessita de um intervenção do poder público para que ele aconteça efetivamente em países em desenvolvimento.

 PZ: Como vê o cinema brasileiro contemporâneo?

Torquato Joel: Em termos de produção, o cinema contemporâneo brasileira vai de vento em popa. A produção perdeu o centralismo do eixo Rio/São Paulo. O problema é a falta de espaço para exibição dos filmes produzidos. Soma-se a isto, o fato de que é uma produção, em geral, eminentemente autoral que esbarra na dificuldade de recepção do público. Uma equação de difícil solução.

PZ: O que é mais gratificante nas experiências com Oficinas de Cinema?

Torquato Joel: É dar a oportunidade para alguém que não imaginava ser possível ter um contato mais estreito com a linguagem de cinema. É também uma questão de militância. Militar em defesa e na divulgação do cinema que fazemos.

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PZ: Acredita que há perspectiva para uma revolução ética e estética no cinema brasileiro?

Torquato Joel: Sempre há a possibilidade. Existe um transito entre sensorial e narrativa clássica com muito ainda a ser explorado. O cinema brasileiro sempre padeceu do problema do pouco exercício da linguagem. Nos últimos anos, políticas implementadas pela ANCINE e pela SAV do MinC tem promovido uma experiência mais regular dos realizadores com o fazer cinematográfico. Então, muita coisa ainda vai rolar em termos de cinema brasileiro.

PZ: Em Moído, seu último curta, você aborda uma reflexão entre o conflito de classes. O questionamento move o seu cinema?

Torquato Joel: O questionamento é o que nos move. A inserção do ser humano na natureza e suas relações em sociedade são sempre questões impactantes e inquietantes.

PZ:  Quais os seus projetos futuros?

Torquato Joel: Estou desenvolvendo o roteiro do meu primeiro longa, em parceria com Rodolpho de Barros. Trata-se de uma ficção sobre Pedro Poty, um mártir potiguara do século XVII. Poty, aliado dos holandeses, foi capturado pelos portugueses e colocado em uma cava durante seis meses a pão e água. Sempre afirmei que sou um curtametragista inveterado, mas “só os idiotas não mudam”. Além desse roteiro, estou com um longa documentário sobre três rapazes, sem laços de consanguinidade, que constituíram uma família, sendo um deles uma espécie de pai/mãe dos demais. É balela acreditar que família é exclusivamente fruto de laços sanguíneos. Família pode ser também fruto de ligações afetivas. Aliás, o afeto é o que importa, independente do grau de parentesco.

A equipe do Ponto Zero gostaria de agradecer ao cineasta Torquato Joel pela entrevista!

TRANSUBSTANCIAL  | TORQUATO JOEL

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Pio é um entusiasta da cultura pop e ciências ocultas

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