O Livro é | O Circo Mecânico Tresaulti, de Genevieve Valentine

Desde muito pequeno fui fascinado pelo conceito do Circo e sua itinerância, mas acima de tudo o que sempre achei mais fascinante dentro do mundo cênico de um Circo são seus muitos tipos e personagens fantásticos e fantasiosos.

Foi assim que o livro O Circo Mecânico Tresaulti me fisgou, expondo justamente essas duas coisas: um Circo e seus integrantes fantásticos.

Não por acaso, os mesmos motivos que me fizeram ler e resenhar apaixonadamente os livros O circo do Dr. Lau (AQUI) e Algo sinistro vem por aí” (AQUI)

O mundo criado pela autora Genevieve Valentine é distópico, destruído por uma guerra da qual todos parecem ser vítimas e soldados, uma guerra que destruiu cidades e países inteiros, nos tornou nômades, praticamente bárbaros novamente em uma paisagem mista de Steampunk, Dark-Fantasy e Western, uma paisagem por onde o Circo Mecânico do título do livro vai passando e deixando alguns de seus integrantes em algumas das cidades por onde passa e, ao mesmo tempo, recolhendo outros que estejam em busca de trabalho seguro, comida e pousada; mesmo que temporariamente.

O Circo Mecânico Tresaulti – Ótima ideia, execução nem tanto

circo-mecanico-tresaulti-limited-edition-darkside-books-aplicacaoA premissa é ótima, difícil não ser tragado para a leitura já nas primeiras páginas do livro, mas parece que logo adiante a força de toda essa magia vai se esvaindo de acordo com o avanço da narrativa: personagens interessantes desfilam ao lado de outros mais rasos que um pires, ótimas ideias deixadas de lado para aprofundar outras sem graça e enfadonhas, situações que ganham excesso de atenção enquanto outras simplesmente ficam ali num cantinho qualquer sem o devido ou merecido espaço, aspectos excessivamente detalhados enquanto outros são citados esporadicamente e sem nenhuma explicação ou aprofundamento.

Genevieve Valentine é muito criativa no contexto e nas ideias de seu mundo, mas ainda não é uma grande narradora.

É sempre frustrante ter de dizer isso de um livro com um contexto tão bacana: O Circo Mecânico Tresaulti foi uma decepção. Não é um livro ruim, mas é um livro que não cresce, que não se desenvolve bem, que não mostra realmente a que vieram seus personagens e mesmo em um ótimo contexto, a história aqui contada acaba parecendo um quebra-cabeças faltando várias de suas peças.

Vagando de cidade em cidade, explorando aqui e ali a história de seus mais emblemáticos integrantes, a história do Circo Mecânico é, em sua quase totalidade, narrada pelo garoto chamado Little George, o braço direito de Boss, a manda-chuva durona que comanda o espetáculo e mantém toda a coesão da trupe circense. O que há de tão fantástico num circo que perambula entre os destroços da guerra de vila em vila, de cidade em cidade? Ora, simples, seus integrantes cujas partes do corpo são constituídas com tubos, engrenagens, molas, pistões, chapas e placas de metal.

Pernas, braços, pulmões, asas e até mesmo um corpo quase completo com exceção da cabeça, feitos de metal e engrenagens ao melhor estilo Steampunk. Os seres fantásticos do circo de Boss são fruto de uma estranho e misterioso procedimento “cirúrgico” que remove as partes orgânicas necessárias e as substitui pelas partes mecânicas artificiais. Cada intervenção de Boss em quem aceita ser uma das criaturas fantásticas da obra é exclusiva, o que dá a cada um deles suas particularidades, beleza, habilidades e características.

Infelizmente a maioria desses personagens se perde em uma meia dúzia de cenas aqui e ali, a maioria é apenas citada, detalhada em suas alterações físicas e depois fica em algum canto qualquer como se a autora não soubesse bem o que fazer com eles.

Ok, dá para relevar isso se pensarmos que nem todo personagem de livro precisa ser “o protagonista” e ter grande destaque, mas nem mesmo os protagonistas da obra tem lá muito aprofundamento: Boss e Little George carecem de empatia, de detalhes de personalidade, de fascínio… e isso em um livro que dialoga com a fantasia é praticamente uma sentença de morte.

circo-mecânico-darksideAs próprias motivações de alguns dos personagens da obra acabam soando forçadas e a repetição delas acaba se tornando algo antipático e implicante; todo capítulo que se inicia reforça várias vezes ao leitor coisas e situações já exploradas ou explanadas, como se a autora quisesse ter certeza de que seu leitor tivesse entendido tudo detalhe por detalhe.

Uma dessas situações é uma das engrenagens que move a obra: alguns dos mais influentes e misteriosos integrantes do circo estão em uma longa e complexa disputa interna pelo fabuloso par de asas que um dia pertenceu ao finado Alec, o homem voador que padeceu numa trágica queda por motivos aparentemente desconhecidos e que foi durante alguns anos a grande estrela do picadeiro do circo mecânico.

A choradeira e as intrigas para ver quem será presenteado por Boss com as asas é um fator recorrente na narrativa da obra, a todo instante o texto volta a esse ponto e nos diz “olha, esse lance aqui é importante, hein”, “essas asas são demais, hein”, “ei, olha que ideia bacana tem aqui e que move essa situação”… não convence, nem como motivação, nem como drama e nem como aspecto estético, Genevieve Valentine não é uma boa narradora, nem uma boa criadora de embates tanto de ordem física quanto metafórica.

O Circo Mecânico Tresaulti – O Homem do Governo

O circo em si acaba sendo uma das partes menos interessante da obra, não por falta de empenho da autora, mas sim porque a ladainha narrativa se arrasta praticamente num círculo espiralado onde se vai e volta o tempo todo aos mesmos pontos: o circo precisa continuar em movimento, a briga interna pelas asas, a memória latente do acidente com Alec, Boss isso, Boss aquilo, a fuga constante do Homem do Governo que, no fim das contas, acaba se mostrando a melhor parte da obra.

Ele escuta, planeja, trabalha aos poucos para fazer um mundo à sua imagem.

As pessoas deixam-no construí-lo. É tirania, elas sabem, mas é a mesma coisa que elas fariam, se pudessem.

As situações em que o Homem do Governo é citado ou entra em cena são sempre cheias de ótimas metáforas, com alusões aos ditadores, a manobras políticas, ao processo de tomada gradual do poder travestido de benfeitoria. Sua cobiça pelo poder de Boss e por seus homens-máquina é outra engrenagem motora da obra que guia a narrativa para um embate inevitável entre os dois líderes.

Genevieve Valentine é uma ótima criadora de ideias, não tem como negar isso e a questão do “homem do governo” surge em sua obra, cresce exponencialmente e prova isso com facilidade. Em seu mundo devastado por uma guerra de longa data, esse Homem do Governo é uma metáfora interessante e até certo ponto muito bem desenvolvida.

É um personagem cuja motivação consiste em aprender a “magia” de Boss e criar um exército de homens-máquina indestrutível e capaz de reerguer o antigo mundo que existia antes das bombas caírem e destruírem tudo. Ao menos ele tem uma motivação real e condizente com o que representa dentro da obra. É do Homem do Governo que surge o papel de antagonista da obra, guiando a narrativa para uma situação de embate que, aparentemente, a autora pretendia que fosse seu grande clímax… não foi.

A engrenagem rodou, rodou e rodou…

O excesso de focos narrativos diferentes, pulando de um a outro personagem constantemente, deixou a obra sem identidade narrativa e sem um foco preciso, a escrita truncada da autora só piorou tudo, o excesso de impressões sobre a mesma coisa fez tudo ter a aparência de não se mover nunca no sentido do avanço e progresso da obra. Parágrafos curtíssimos, excesso de redundância na “chamada” dos personagens e uma pretensa estrutura poética fizeram a leitura ser ainda mais arrastada e quebrada.

GV2A autora parece que precisa ainda de um tempo praticando a construção de suas frases no processo que alia de maneira exata forma, conteúdo e uma boa história em curso, três aspectos bastante comuns nas grandes obras de Literatura Mundial. Valentine é anunciada como uma grande promessa na escrita, mas ficou aqui a nítida impressão que essa promessa será cumprida só mais para frente em algum outro livro…

Ou ela precisa melhorar ou a tradução prejudicou muito o texto original. Sinceramente acredito que seja uma porção de cada coisa, pois o texto original, que não li, pode ter toda uma questão de encadeamento, musicalidade e poesia funcional para seu idioma de origem e que a tradução para o nosso idioma pode ter prejudicado e muito.

Ainda que a questão seja a perda natural que ocorre numa tradução, a história erguida em torno do circo, seus personagens e a jornada por eles realizada é fraca, a obra fica a meio caminho de qualquer uma de suas proposições, peca nas suas explicações e por vezes peca pela total e completa ausência delas, omitindo, por exemplo, alguns aspectos que enriqueceriam o mundo fantástico da obra. Sem algumas dessas explicações, fica parecendo que ou a autora simplesmente ignorou alguns fatos ou simplesmente não soube como dar-lhes consistência.

Por fim, a repetição ad infinitum dos mesmo pontos, das mesmas situações, das mesmas falas praticamente e das motivações de alguns personagens centrais tornou o número de páginas da obra um excesso completamente dispensável. Não foram poucas as ocasiões em que me surpreendi tendo a sensação de já ter lido vários parágrafos em capítulos anteriores.

Se fosse mais enxuto, mais direto e prático, talvez o livre conseguisse seu efeito tanto no estilo quanto na forma que citei anteriormente, sem essa praticidade narrativa, o enfado dominou boa parte da narrativa, antipatizou personagens, enfraqueceu sua capacidade de criar empatia e, por fim, tirou muito da magia que tanto se pregou durante a obra toda.

Ficou a sensação de que faltou algo, que faltou alma e corpo. Uma pena, a ideia é ótima, mas o encanto todo prometido pela passagem do Circo Mecânico se perdeu nas ruínas da narrativa da autora, na fragilidade de seus personagens e no excessivo número deles, bem como em uma construção frágil das relações destes entre si e destes com o mundo fantástico que os cerca.

Por fim, enriqueceu sobremaneira a obra as ilustrações de Wesley Rodrigues nas intercalações de capítulo, realmente um belo show particular adicionado ao livro nacional, tanto na versão normal quanto na cobiçadíssima Limited Editon.

Vou esperar o circo voltar uma outra ocasião, dessa vez o espetáculo não foi do meu agrado, mas ficam os aplausos de respeito pelas ótimas ideias que desfilaram pelo picadeiro.

[divider]O Circo Mecânico Tresaulti[/divider]

Respeitável público, sejam bem vindos ao incrível Circo Mecânico Tresaulti, o lugar para quem acredita no mundo mágico que nos rodeia. Permita-me conduzi-lo por uma viagem única através da luz e das sombras onde descobriremos juntos uma nova forma de ver tudo e a todos. Onde não existe limite entre o picadeiro e a plateia, onde tudo é real e o único limite é a nossa vontade de sonhar.”Às vezes, o mundo pode parecer um lugar desolador e escuro, formado por vastas amplidões cheias de conflito, onde o que todos procuram é se agarrar a algo que os faça sobreviver ao dia seguinte.

Pois em O Circo Mecânico Tresaulti esse deserto cheio de perigos é atravessado pela magia de uma potente força criadora, capaz de devolver a integridade emocional e física a quem se juntar à trupe.Em pleno cenário pós-apocalíptico, O Circo Mecânico Tresaulti ergue sua lona e dá início ao grande espetáculo. Ambientado sobre a perigosa superfície de um mundo devastado, cheio de bombas e radiação remanescentes de uma guerra pela qual todos já saíram derrotados, este belo romance nos apresenta uma caravana circense em eterna viagem através de muitas cidades sem país, região ou rota definida. Lugares que podem não mais existir quando o circo retornar.

Aqueles que se juntam ao circo procuram segurança, trabalho sem risco de vida ou apenas uma nova forma de recomeçar. E seguir adiante, apesar de tudo.Boss, a força motora do circo, agrega novos personagens, atraídos pela sua habilidade muito especial para recuperar corpos mutilados pela guerra, criando assim magníficos seres mecânicos pós-humanos – repletos de complexas engrenagens, placas de ferro, pétalas de cobre, pulmões relojoaria, rodas e pistões -, cada um trazendo para o circo algo nunca visto e sentido antes.

[divider]FICHA TÉCNICA[/divider]
  • Título | O Circo Mecânico Tresaulti
  • Autor | Genevieve Valentine
  • Tradutor | Dalton Caldas
  • Editora | DarkSide®
  • Edição | 1a
  • Idioma | Português
  • ISBN | 9788566636802
  • Especificações | 320 páginas, Limited Edition (capa dura)
  • Dimensões | 14 x 21 cm
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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