O Livro É: Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein

Tropas Estelares integra aquele panteão de obras obrigatórias para o fã de Sci-fi Hard, sobretudo aquela Sci-fi de raiz dos meados do século XX. O mais celebrado livro de Robert A. Heilein passa muito longe de ser um livro de guerra e se constrói quase que página a página como uma ode ao soldado e à doutrina militarista. Também é uma obra que passa longe da ação frenética…

Ao contrário do que se costuma dizer, erroneamente, Tropas Estelares passa longe de ser um livro de ação, a despeito desta, há nas quase 400 páginas do livro pontualmente umas cinco cenas de combate propriamente dito: uma no primeiro capítulo do livro, umas três espalhadas pelos outros tantos capítulos e a melhor de todas, a última batalha contra os insetos, ponto que retornarei mais adiante.

Tropas Estelares

Tropas Estelares: Juan “Johnny” Rico

Juan “Johnny” Rico queria exercer sua cidadania de forma plena, o que significava poder votar; para tanto o jovem, ao completar a maior-idade, só precisava cumprir os anos de alistamento obrigatório nas forças armadas (obrigatórios no sentido de que após confirmar o alistamento e se apresentar em serviço, um recruta precisaria cumprir no mínimo dois anos obrigatórios nas forças armadas).

Até aí tudo aparentemente fácil, não fosse o treinamento para os recrutas algo extremamente difícil, sobretudo porque a humanidade está em um “estado de alerta” constante em confrontos espalhados pelo universo contra os insetos…

Contra todos os apelos de seus pais, em especial do pai que planejava para o único filho um futuro na direção da tradicional empresa da família, Rico se alistou para o serviço básico militar de dois anos, o que, ao final do período se lhe garantiria a cidadania plena dentro de uma sociedade desigual, mas acima de tudo, uma sociedade que o autor, Robert A. Heilein, caracterizou como extremamente militarizada e focada numa economia voltada para atender as necessidades desses militares e suas guerras.

Educação, produção, pesquisa tecnológica, médica ou prestação de serviços burocráticos, tudo no mundo de Tropas Estelares existe como uma engrenagem na máquina de guerra de um Estado Militarista e soberano. Tudo e todos de algum modo servem aos propósitos das forças armadas.

E Rico mergulhou de cabeça nas estranhas do exército para ser um soldado de infantaria, aqueles que vão “cair dentro” do campo de batalha cara a cara com os inimigos e despejar sobre eles um poderosíssimo arsenal capaz de varrer uma cidade inteira do mapa… as chances de sobreviver? Quase nenhuma…

Tropas Estelares

Tropas Estelares | A trajetória do soldado de infantaria

Sem nenhum atributo físico e com uma inteligência na média comum, Rico não pôde integrar nenhuma qualificação especial disponível no alistamente obrigatório: cientista, engenheiro militar, piloto de espaçonaves, membro do K-9 ao lado de um Neocão… teve de ser soldado de infantaria e estar sempre quicando, a gíria militar usada para transmitir algo como “estar sempre pronto”.

A parte as discussões com o pai sobre ir ou não para o exército, os momentos em que Rico esteve na escola e as poucas cenas de batalha ou guerra, o livro de Heilein é sobre  serviço militar, sobre o treinamento militar, a disciplina militar, os soldados militares, a filosofia militar, a honra militar e claro, aqui ali um pouco de combate militar.

Tropas Estelares

Narrado do ponto de vista de Rico, do momento de sua decisão até cada detalhe de seu árduo treinamento, Tropas Estelares difere muito, por exemplo, de Guerra Sem Fim de Joe Haldeman (veja AQUI), livro em que as questões militaristas também estão presentes, só que em tom de críticas diversas tanto ao militarismo da sociedade americana quanto ao expediente da guerra como algo “inerente” a nossa existência.

Enquanto Heilein caminha lado a lado com a hierarquia militar, Haldeman se afasta dela com o gosto ferrugento de sangue na boca (Haldeman foi combatente na guerra do Vietnã).

Enquanto Haldeman empresta falas ferinas e reflexões contra o estado de guerra, Heilein parece idolatrar a disciplina a que submete seu protagonista, descrevendo situações extremas tanto físicas quanto mentalmente, explicando detalhes do funcionamento das cadeias de comando, das patentes, da relação entre o exército e a marinha, o funcionamento de uma corte marcial, os estudos para academia de cadetes e outras tantas coisas.

Vamos lá, seus macacos! Querem viver para sempre?
Sargento de Pelotão desconhecido, 1918

Ali pelas tantas parece cair um certo tédio sobre a obra… Mesmo a escrita esmerada de Heilein e uma grande dose de ótimas ideias, seu livro às vezes soa sem emoção, sem vida e desprovido de algum tipo de sentimento.

Mas calma, não é uma obra ruim, tem sim seus pontos enfadonhos como algumas passagens de um professor discorrendo sobre como a sociedade é melhor tendo sua estrutura servindo à máquina de guerra militarista.

Ocasião esta que me lembrou o arrastado “A Ilha” de Aldous Huxley, onde o autor pregou, página a página, como erguer uma utopia real através de uma obra fictícia… mais chato impossível.

A seu favor Tropas Estelares tem o imenso mérito de ideias originais que inspiraram uma infinidade de outros produtos ao longo das décadas que se sucederam ao lançamento do livro, soma-se a isso um excelente texto e claro, o ótimo tema (guerra).

Tropas Estelares | Quicando, soldado…

Apesar de serem uma quase raridade na obra, as poucas e espaçadas situações de combate em que as tropas estelares realmente estão em cena fazem a coisa toda ganhar outros ares… Parece que é um segundo autor que está ali. Formações táticas de combate, troca de informações pelos comunicadores, armas em ação, trajes de combate moderníssimos a serviço da destruição em massa, resgate de companheiros feridos, a tensão do inimigo por todos os lados… Heilein nessas horas parece ter inspirado uma centena de jogos eletrônicos de tiro em primeira pessoa.

Praticamente todas as cenas de guerra e combate me ecoaram na memória jogos como Halo, Ghost Recon, Crysis ou filmes como Aliens 2 – O Resgate, principalmente pela quase onipresença dos espetaculares trajes de combate.

Sem esquecer todo o material que serviu de inspiração para outras obras como o próprio Guerra Sem Fim que também tem trajes de combate ou livro O Jogo do Exterminador de Orson Scott-Card cuja guerra é travada contra a raça chamada Formics (Abelhudos em algumas traduções), uma raça alienígena também similar a insetos e com “comportamento de colmeia).

Os trajes de combate acabam sendo extremamente emblemático para o livro, chegando a ganhar um capítulo só para descrever seu funcionamento, armas, maneira de operar suas funções de salto, comunicação e afins. Basicamente a culpa de sentir o impacto entre uma parte fictícia-militar tão bem elaborada em contraponto com uma parte descritiva-militar tão grande é justamente dos trajes de combate.

Enquanto “prega” sua doutrina militarista, Heilein parece automático e sem vida, quando a ação (ou pouco que tem dela) surge, Heilein fervilha tensão e emoção no seu texto, é como estar num dos games que citei anteriormente.

Outra situação que é bem evidente na obra e me parece até uma discrepância em sua classificação: a despeito de ser uma obra de sci-fi, Tropas Estelares tem pouco, quase nada, de Fiction… Calma, explico: Heilein não tem a menor preocupação em cientificizar nada em seu texto além dos trajes de combate que detalha com tanto cuidado e atenção, fora isso nada na obra tem o menor impacto de ciência, nem real e nem fictícia.

Tropas Estelares
Concept Art da armadura de combate na animação Starship Troopers: Invasion

As naves vão de um planeta a outro e tudo bem, a humanidade vaga pelo espaço e tudo certo, encontramos espécies alienígenas, lutamos contra elas e é isso, é assim e pronto.

Sem detalhes, sem explicação, assim, seco e direto. As duas raças alienígenas (Insetos e os Magrelos) presentes na obra então praticamente são tratadas com pouco caso e desprovidas de complexidade normalmente encontrada em obras do mesmo período de Tropas Estelares.

Nem aspectos biológicos, culturais e tecnológicos são pontuados para as duas espécias, salvo aqui e ali alguns poucos detalhes são ditos por Rico nas cenas de combate (sim, aquelas poucas que já citei antes).

A própria guerra contra os Insetos é bem genérica e salvo umas situações pontuais, quase nada se sabe ou se detalhe dessa espécie; por exemplo. Rico afirma que são uma raça capaz de construi naves estelares e nenhuma delas aparece, nem é dito como foram avistadas, confrontadas, destruída ou qualquer outra coisa assim.

O personagem também afirma que os zangões de combate disparam freneticamente contra os humanos no campo de batalha, mas não diz que disparos são esses: são disparos orgânicos (?), de armas de fogo (?)… nada, apenas disparam.

Em uma obra que pontua a presença dos Insetos como grande obstáculo ao avanço humano pelo universo, Heilein deixa coisas de mais no ar e atiça a curiosidade do leitor dando informações escassas, algo que o fã de sci-fi hard adoraria saber e ter em mais detalhes, bom, pelo menos eu gostaria de conhecer mais… Ao menos alguns aspectos da hierarquia da sociedade dos Insetos nos são dados.

Os Insetos funcionam como uma colmeia de inteligência coletiva basicamente dividida em quatro grandes grupos a saber:

  1. zangões operários – são os peões da colméia, cavam os túneis, carregam alimento e limpam a bagunça que sobra após os combates, não manifestam reação algum de combate mesmo diante de atques pesados da infantaria humana, em algumas ocasiões acabam apenas fazendo número e desviando a atenção no campo de batalha, mas nunca contra-atacam.
  2. zangões combatentes – são a infantaria dos Insetos, descritos como sendo praticamente pequenos tanques de guerra, os zangões de combate são extremamente resistentes, possuem muitos membros articulados e são dotados de algum tipo de lançador de projéteis para combate de média distância, situação que dura pouco tempo, pois seu avança no campo de batalha é constante em direção aos inimigos humanos.
  3. inseto-cérebro – quase nada é dito desse tipo de inseto, Rico inclusive afirma que nenhum deles havia sido capturado com vida até então, sabe-se apenas que são os responsáveis pelo comportamento e operações dos outros tipos de insetos (operários e combatentes) e pela ação de inteligência coletiva das “colméias”, praticamente todas as operações humanos são em função de capturar ou neutralizar os cérebros no campo de batalha, uma vez neutralizados a operação das bases insetóides perde toda a coordenação.
  4. rainhas – se os cérebros são escassos em detalhes, as rainhas são menos ainda, infelizmente; enquanto em O Jogo do Exterminador Card não poupa páginas para dar destaque para a Rainha dos Formics ao longo da saga de Ender, Heilein deixa sua Rainha como um ponto de interrogação quase perdido nas páginas.

Tropas Estelares não entrou para o seleto hall de obras cultuas por acaso ou empolgação. Apesar dos pontos que julguei negativos na obra, Heilein nos entregou um livro fantástico, por vezes lento e desprovido daquela sensação de adrenalina quando pegamos um “livro de guerra futurista”, mas isso é porque na verdade a rede de informações por trás de Tropas Estelares comete sempre o mesmo equívoco de tratar a obra como sendo um livro de ação e combates desenfreados.

A própria sinopse da Editora Aleph comete essa gafe (Tropas Estelares traz um enredo repleto de ação, tecnologia, superação de desafios, guerras espaciais e complexas relações políticas e humanas). Repleto de ação? Um exagero, sem dúvida…

Longe de ser uma obra ruim, o que importa ao leitor é compreender, mesmo que depois de vencida toda a narrativa, é saber que Tropas Estelares é um livro de relato, o relato dos momentos iniciais da carreira militar de Rico, passando por todo seu treinamento para infantaria, seus estudos na escola de cadetes, uma série de viagens nas naves de combate militares, sua relação com amigos e companheiros de pelotão enquanto aprende e compreende sua função e a das forças armadas como um todo, talvez um tipo de “sociedade de colmeia” tal qual a dos Insetos, só que formada por humanos e suas dualidades.

Se fiquei frustrado com o que encontrei? De certa forma sim, mas ao longo da leitura e mais próximo de seu fim, quando já tinha o panorama geral do que realmente era Tropas Estelares, a mais cultuada obra de Heilien, foi que entendi o equívoco e a quase injustiça que se cometeu ao tratar a obra como sendo um livro de ação; longe desse gênero, o que Helein nos entrega é uma obra no estilo de relato pessoal apontando percepções, sensações, anseios e angústias de seu protagonista… a guerra? a guerra é só um detalhe para guiar o relato de Juan Rico em seu caminho de soldado.

Tropas Estelares

No meio de tudo isso, aqui e ali, você vai se deparar com algumas das melhores e mais tensas batalhas da Sci-fi já escritas, sobretudo a última batalha em que Heilein enche os últimos capítulos de seu livro com o que há de melhor e mais tenso em termos de preparação para o combate e este, quando chega, em Rico e em nós leitores que o acompanhamos, nos fazem entender os motivos de Tropas Estelares ser uma obra tão importante e influente para o cenário pop-nerd em geral.

Sobre a escrita de Heilein acho que nada mais é preciso dizer, salvo os momentos em que o autor parece querer “doutrinar” seu leitor, o apuro estético e o cuidado na construção de sua história são outro ponto que nos lembra mais uma vez a importância de Tropas Estelares no gênero Sci-fi.

Tropas Estelares vale a leitura, mas definitivamente não é uma obra que eu colocaria em TOP 10 no quesito “leituras fodas”, daqueles que te arrancam suspiros, que de deixam intrigado e com aquele ar questionador, não é aquela obra que te faz amar ou odiar profundamente um personagem ou situação… É fundamental? Sim, sem dúvidas é, mas é aquele fundamento de conceitos, boas ideias e inspiração histórica… Como história? Bom, como história Tropas Estelares não me trouxe uma que mudou os rumos de minha reflexão. O Saldo geral? Muito bom pelo conjunto da obra facilmente.

É isso… agora quicando para uma livraria perto de você.

Tropas Estelares | Robert Heinlein

Robert Heinlein nasceu no Missouri, nos Estados Unidos, em 1907. Graduou-se na Academia Naval norte-americana em 1929, mas acabou forçado a retirar-se do serviço militar em 1934, devido a uma enfermidade. A partir de 1939, passou a dedicar-se à escrita e, em especial, a suas histórias de ficção científica.

É ganhador de quatro prêmios Hugo, por Double Star (1956), Tropas estelares (1959), Estranho numa terra estranha (1961) e The Moon is a harsh mistress (1966). Heinlein é considerado não apenas um dos mais importantes autores da história da ficção científica, mas também fonte de grande inspiração a diversas gerações de escritores. Sua obra, singular, impressionante e, por vezes, polêmica, continua a maravilhar leitores ao redor do mundo.

Tropas Estelares | O Livro

Alistar-se no Exército foi a primeira – e talvez a última – escolha livre que Juan Rico pôde tomar ao sair da adolescência. Apesar do árduo e rigoroso treinamento pelo qual é obrigado a passar, o perseverante recruta está determinado a tornar-se um capitão de tropas.

No acampamento militar, ele aprenderá a ser um soldado. Mas apenas ao final de seu treinamento, quando, enfim, a guerra chegar (e ela sempre chega), Rico saberá por que se tornou um. Vencedor do prêmio Hugo e um dos maiores clássicos da ficção científica mundial, Tropas estelares traz um enredo repleto de ação, tecnologia, superação de desafios, guerras espaciais e complexas relações políticas e humanas.

A obra foi adaptada para o cinema pelo diretor Paul Verhoeven.

  • Autor: Robert Heinlein
  • Capa comum
  • Páginas: 352
  • Editora: Aleph
  • Edição: 1ª (17 de agosto de 2015)
  • Idioma: Português
  • Preço: R$ 39,90
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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