Especial Dia do Quadrinho Nacional: entrevista com o quadrinhista Reginaldo Nakamura

Reginaldo Nakamura é um daqueles artistas que está na batalha por um lugar ao Sol no complicadíssimo mercado de quadrinhos nacional. Não á toa, na data em que se comemora a produção brasileira nesse segmento (30 de janeiro), estamos em pleno vapor com nosso especial para o Dia do Quadrinho Nacional nossa conversa com Nakamura vem aumentar o coro ao lado de Felipe Cagno (AQUI), em nossas entrevistas com os artistas brazucas.

[dropcap size=small]N[/dropcap]akamura é um artista nessa batalha de criar, publicar, distribuir, ouvir o leitor e aperfeiçoar seu produto. É um caminho árduo, sobretudo quando se trata de sua personagem Maxine (veja prévia AQUI): mulher, heroína, bonita e foco constante da mídia que virou seus holofotes para iluminar a personagem. Em um mundo e em um mercado cada vez mais focado nas questões de gênero, diversidade, sexualidade em diversas publicações, Nakamura tem a responsabilidade de endossar esses discursos de forma criativa, inteligente e sem parecer, como muitos, apenas mais um fazendo panfletagem de oportunismos.

Com a palavra, o artista…

CONHEÇA O ARTISTA

Ponto zero: Salve Reginaldo! Que tal iniciarmos com você nos contando como se deu o início do seu interesse pelos quadrinhos e quando resolveu investir neste ramo profissionalmente?

Reginaldo Nakamura: Bom, pode-se dizer que o meu início na produção de quadrinhos se deu logo após o contato que tive com algumas revistas nacionais que publicavam o material de artistas daqui, lá pelo final dos 80 e início dos 90.

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Quando a seção de cartas da revista Mestres do Terror começou a divulgar o endereço de alguns fanzines eu e alguns amigos, entramos em contato com alguns deles e decidimos montar um fanzine nosso o “Quadrinhos Insólitos”.

Criatividade, pungência e linguagem experimental, procuravam compensar a falta de apuro técnico, tanto no roteiro, como nos desenhos, em diversos fanzines  era a versão nos quadrinhos da ideia punk de fazer música, mesmo conhecendo apenas 3 acordes. O suplemento “Mau” da Revista Animal, lá do início dos anos 90, foi um dos melhores materiais a captar esse espírito da época.

Mais ou menos de 93 para frente, senti que essa onda foi esfriando e aos poucos fui perdendo o contato com outros fanzineiros e o meu interesse por produzir quadrinhos foi sendo deixado de lado e passei a priorizar outras coisas na minha vida, daí para frente atravessei um período até 2008, onde apesar de ler muita coisa, raramente eu pegava no lápis para desenhar.

O retorno definitivo aos desenhos se deu apenas quando, em 2008, eu descobri os fotologs. Lá encontrei velhos conhecidos de fanzine como o Laudo, mas muitos outros caras novos para mim que estavam divulgando seus personagens e começando a se auto-publicar. Isso acabou me incentivando a montar o meu próprio fotolog para expor os meus desenhos e foi lá que a Maxine acabou surgindo.

De lá para cá a ideia de produzir histórias com a personagem foi amadurecendo e as coisas aos poucos estão sendo encaminhadas. Percebi que para que o resultado fosse de maior qualidade precisaria contar com desenhistas em um estágio mais aprimorado que o meu e os meus roteiros  precisavam também melhorar.

Hoje, apesar da minha escrita não ser aquela maravilha (ainda há muita coisa a melhorar), creio que aprendi uma e outra coisinha com os manuais de roteiro que li e já há alguma coisa impressa em baixa tiragem pela Editora Universo, do Gil Mendes, bem como o título Maxine faz parte da plataforma Social Comics.

Ponto zero: Como se dá sua relação com os artistas que participam de seus projetos, e se for possível fale da questão de remuneração dos mesmos, como resolves isso?

Reginaldo Nakamura: Sobre a relação com os artistas, em geral, costuma ser mais próxima com aqueles que contribuem mais constantemente com a Maxine, mas de modo geral, todos eles são artistas que de antemão eu já admirava o trabalho. Como os contatos são feitos via web e o pessoal que fez ilustrações da Maxine está todo espalhado por aí, por milhares de quilômetros, conheço poucos pessoalmente, mas isso de modo algum cria alguma espécie de empecilho.

Acho que o maior aprendizado que tive nesse processo de confecção das histórias foi o de confiar no artista e dar a maior margem de tempo e liberdade possível para ele criar as cenas, para que ele possa curtir o que está fazendo e as coisas não fiquem com o peso da obrigação.

Existem dois momentos que podem ser muito prazerosos (ou não) no ofício de desenhar ou escrever roteiros, o próprio momento em que você está colocando as coisas no papel e o da exposição do resultado obtido. Há muita coisa que eu tenho rabiscada aqui em casa que eu fiz só pelo prazer de desenhar e escrever, mas não tenho intenção alguma de divulgar.

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Sobre a questão levantada da remuneração, entendo que é uma condição necessária para que o mercado de quadrinhos possa existir e seria muito bacana que mais autores que escrevem procurassem os seus desenhistas para produzir suas histórias.

Pedir na camaradagem uma ou outra ilustração até é viável, mas mais que isso, não importa o grau de amizade, já vai se tornando algo abusivo, salvo é claro se o personagem seja uma criação conjunta da dupla…

Pelo que pude perceber, quando os ilustradores gostam e acreditam no projeto apresentado, sempre dão um jeito de viabilizar as coisas.  Não importa, inclusive, se para isso, o que esteja dentro das possibilidades seja a produção de uma única página por mês.

O que muita gente desembolsou em ingressos e gastos em um evento como a CCXP, já seria um bom valor para começar a ser investindo nas primeiras páginas de uma história curta de umas 6 páginas. E, felizmente, conheço alguns bons exemplos de roteiristas que estão investindo nisso.

É interessante também destacar que o inverso também seria bacana que acontecesse. Há muitos desenhistas talentosos que poderiam contatar o pessoal que escreve para alcançar um ganho de qualidade nas histórias que estão produzindo.

Quanto mais diversidade e qualidade, forem alcançadas, maiores as chances de um mercado de quadrinhos começar a se consolidar no país.

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SOCIAL COMICS & QUADRINHOS DIGITAIS

Ponto zero: Vi que Maxine agora está pelo Social Comics, quais suas considerações sobre a plataforma?

Reginaldo Nakamura: Eu não tenho do que reclamar, gosto do serviço tanto como leitor, e como artista.

Ponto zero: Acreditas que plataformas como Social Comics e COSMIC são o caminho para o fortalecimento do mercado e para questão de monetização do autor?

Reginaldo Nakamura: Sim e não… No momento, o número de assinantes ainda não é o suficiente para isso, ainda que a remuneração que eles oferecem me parece justa.

Só para você ter uma ideia, umas 100 pessoas leram as 27 páginas da Maxine, nos meses de novembro e dezembro e eles me pagaram R$100,00 reais.

Ponto zero: Ao te associar como autor na plataforma tens passe livre para leitura ou acesso só a tua obra?

Reginaldo Nakamura: Não, como autor você só tem as ferramentas para editar a sua publicação e estatísticas sobre o público que tem lido os seus trabalhos, bem como o número de páginas visualizadas. A remuneração gira em função desta quantidade de visualizações.

Uma coisa bem ruim a esse respeito que tenho notado é que muitos artistas que colocam os seus trabalhos no Social Comics, aparentemente só querem divulgar os seus trabalhos lá. Não são assinantes da plataforma e ao não serem leitores, não tem a mínima ideia de outros trabalhos que também estão sendo expostos lá.

É como você ter um filme no Netflix e nem mesmo assinar o Netflix.

Acho que não é apenas a questão de observar o mercado, sob o aspecto do que vende ou não vende, é a do mercado, mas sob a perspectiva do que está sendo oferecido. Saber o que o pessoal anda fazendo, quais coisas bacanas estão surgindo, quais novos artistas merecem uma atenção especial. Coisas assim…

Ponto zero: Eles são bem transparentes com a questão de números e movimentação da plataforma?

Reginaldo Nakamura: Sim, existe essa transparência. Se você é leitor ela é ainda maior, pois ao posicionar o cursor sobre o título você tem a nota média atribuída por outros leitores e a quantidade de pessoas que a leram até o final.

É que o pessoal é só artista e não também leitor do Social Comics, daí se confunde página visualizada com leitor, por exemplo, se uma pessoa visualiza a história da Maxine por completo, ela visualiza 27 páginas.

O que tenho visto por aí é confundir esse dado com 27 leitores. Talvez a planilha do Social Comics não seja tão clara neste sentido, mas no geral, é bem detalhada.

Ponto zero: No relacionamento autor plataforma eles são abertos a feedbacks?

Reginaldo Nakamura: Aparentemente, sim. Ainda que eu não tenha entrado muito em contato, aparentemente eles estão abertos a feedbacks.

Ponto zero: Ao que parece o lance é ter volume de produção para começar a ter um retorno mais expressivo?

Reginaldo Nakamura: De novo sim e não. Há alguns títulos que o pessoal não se interessa. O autor já lançou o número 5 ou 6 e cada edição não consegue mais que uns 5 leitores e para por aí.

Ponto zero: Seria uma questão de formação de público e qualidade do material mesmo, investir em divulgação fora da plataforma e batalhar espaço em eventos e mídia especializada, e hábito de leitura neste formato?

Reginaldo Nakamura: Sim, vai por aí, mas a minha experiência como leitor me ensinou outra coisa, nem todos materiais que funcionam bem na forma impressa apresentam a mesma experiência de leitura no meio digital.

No meio digital, a leitura precisa ser mais fluída, menos carregada. É preciso fazer um quadrinho diferente.

Independentemente do hábito de leitura on-line, há coisas que funcionam melhor no papel e outras que se adaptam bem ao digital.

Agora uma coisa que me chamou atenção no Social Comics e esse é um dado que somente quem  também é leitor tem acesso, percebi que o perfil do leitor de lá é bem próprio, existem autores consagrados fora da plataforma que não conseguem o mesmo desempenho lá.

Alguns trabalhos muito bons que admiro muito são pouco lidos por lá. Percebi um interesse relativamente baixo, por exemplo, pelo Moebius.

Ponto zero: O formato do Social Comics e COSMIC, depois de décadas parece o mais viável para uma formação de mercado, pois burla a questão da distribuição, o que seria gasto numa publicação impressa pode ser usado para pagar profissionais e ter um produto mais competitivo?

Reginaldo Nakamura: Bom, acho que tudo depende  também do que você espera de retorno do mundo dos quadrinhos. Se for o prazer de lançar a sua obra em um evento de quadrinhos (e existem alguns bem bacanas atualmente) você precisa de edições impressas.

No meu caso, hoje me vejo como um cara mais dos bastidores. Ainda que o contato direto com os leitores seja importante, não é algo que estou priorizando. E isso as publicações digitais podem atender.

Mas respondendo a sua pergunta, essa é uma possibilidade aberta. Como eu havia dito antes, ainda é um processo inicial e o número relativamente pequeno de leitores cadastrados, ainda não permite, conseguir custear totalmente a sua produção. Ouso dizer ainda, que para o futuro, as publicações de ilustrações e quadrinhos digitais, podem ser o caminho para o autor ser lido, inclusive, para além do mercado nacional, desde que haja o esforço de traduzir o material para outras línguas.

EVENTOS NO BRASIL

Ponto zero: Por falar em eventos qual tua visão e experiência como autor sobre CCXP, FIQ e outros que estão se consolidado no mercado, eles podem realmente ser uma boa opção, mesmo que alguns sejam tão caros de se frequentar?

Reginaldo Nakamura: Para falar a verdade, eu nunca fui a um evento de quadrinhos como esses, mas já fui algumas vezes na Bienal do Livro e na Feira da Música (evento especializado para quem se interessa por instrumentos musicais).

São eventos bacanas, que oferecem uma experiência interessante para os frequentadores e participantes. Contudo, a respeito dos eventos de quadrinhos, o que dá para perceber é que existem alguns mais formatados para dar aos fãs momentos de diversão e descontração, não se distanciando muitos destes, e outros que tem a pretensão de serem mega festivais.

Bem como, outros com preocupações sociais mais específicas como o fiq que com a presença da Ana Luiza Koehler integrando a curadoria também incorporou o debate das questões femininas no mercado produtor e consumidor de quadrinhos.

Tanto as coisas mais simples, como as grandiosas são importantes. Mas como você disse, o preço elevado dos mega eventos são mais para quem já é fã, do que para formar novos fãs.

FORMATOS & PREÇOS DE HQS

Ponto zero: Algumas comic shops americanas tradicionais estão fechando as portas, mesmo com uma variedade de formatos e preços de produtos, vejo aqui no Brasil o pessoal empolgado com encadernados capa dura e edições de luxo o que tu achas disto?

Reginaldo Nakamura: Bom, não tenho como falar sobre as comic-shops americanas, não possuo muitas informações sobre isso, mas quanto aos encadernados, posso relatar a minha experiência de muitas vezes preferi-los, no lugar das edições mensais da Panini.

Uma obra, como por exemplo “Universo DC”, que possui umas seis histórias por edição, não possui mais que duas que eu realmente gostaria de guardar, as outras quatro são descartáveis.

Não por serem ruins, mas por questão de espaço físico, só posso guardar as histórias mais memoráveis, as outras sou obrigado a descartar e esse mix de seis histórias complica a minha vida

Sobre os encadernados, penso que o público dos títulos reunidos neles, já há muito tempo deixou de ser o dos garotos por volta dos 12 ou 14 anos. Como eram títulos como X-Men, na década de 80.

Outra coisa não pode ser deixada de lado, a garotada de hoje não tem só a opção dos quadrinhos como forma de entretenimento. O celular permite muito mais coisas.

Consigo perceber que o próprio hábito da leitura, de forma mais geral, está sendo substituído por outras possibilidades como os games e os diversos aplicativos de celular.

PASSANDO O BASTÃO

Ponto zero: E para fechar a tradicional pergunta, qual a dica que deixas para a galera que quer desbravar o meio como produtor de quadrinhos no Brasil?

Reginaldo Nakamura: Bom, infelizmente, eu não tenho nenhuma solução mágica para poder passar. O que posso dizer é apenas que as pessoas continuem produzindo, sem pensar, nas condições de mercado ou de retorno financeiro.

Se hoje, para a maioria não é possível sobreviver só de quadrinhos, isso não deve ser um impedimento para não querer aprender e colocar no papel as próprias ideias.

Grandes mestres dos quadrinhos brasileiros das gerações passadas também não viviam só de quadrinhos. A grande contribuição deles era essa insistência, em fazer os quadrinhos brasileiros continuarem existindo.

As pessoas não devem deixar de investir nos quadrinhos que gostariam de fazer, só porque não serão aclamados mega astros dos quadrinhos. Se alguém gosta mesmo de quadrinhos, porque não investir nessa atividade apenas para realização pessoal, se o sucesso vier depois, será uma consequência.

Ponto zero: Reginaldo, agradecemos muitíssimo seu tempo, cuidado e atenção para nossa entrevista. Sua contribuição com absoluta certeza enriqueceu nosso especial para o Dia do Quadrinho Nacional. Valeu.

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É Bacharel em Psicologia, porém optou por sua grande paixão trabalhando como ilustrador e quadrinhista. É sócio do Pencil Blue Studio e Ponto Zero, podendo assim viver e falar do que gosta: quadrinhos, cinema, séries de TV e literatura.

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