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Especial Dia do Quadrinho Nacional: entrevista com o quadrinhista Felipe Cagno

Anote o nome de Felipe Cagno aí no seu caderninho de autores/quadrinhistas a ficar de olho quando anuncia algo novo; isso se você já não o fez. Cagno vem de uma sequência devastadora de ótimos projetos apoiados com extrema facilidade na plataforma de financiamento coletivo Catarse.

Lost Kids: Buscando Samarkand, 321: Fast Comics, 321: Fast Comics – Vol. 2, Os Poucos & Amaldiçoados são os quatro projetos do autor que tiverem campanhas avassaladores na plataforma do Catarse, com excelentes estratégias de divulgação, belíssimo visual e sempre contando com artistas de projeção e destaque no cenário nacional e internacional, cada uma desses projetos garantiu projeção ao nome de Cagno no cenário nacional como um dos nomes mais promissores para o nosso cenário.

Não à toa o roteirista é o escolhido esse ano para nossa já tradicional entrevista para o dia do Quadrinho Nacional (30 de Janeiro). Mas calma, tem mais vindo aí para comemorarmos esse dia, Além de Felipe Cagno, temos outros artistas batendo papo conosco.

Boa leitura.

Felipe Cagno na ocasião do recebimento do Troféu Angelo Agostini de "Melhor Roteirista de Quadrinhos de 2014"
Felipe Cagno na ocasião do recebimento do Troféu Angelo Agostini de “Melhor Roteirista de Quadrinhos de 2014”

1 – Primeiramente muito obrigado pelo tempo para nosso papo, agora que tal uma apresentação de Felipe Cagno para nossos leitores?

Tenho 31 anos, fiz faculdade e tirei Mestrado de Cinema, trabalhei em algumas produtoras de cinema lá nos EUA aprendendo desenvolvimento de roteiro e faz quase 10 anos que me dedico quase que exclusivamente a isso. Foi através do Cinema que me vi começando a trabalhar com quadrinhos, minha outra paixão.
Ainda quero adaptar um dos meus títulos para TV ou Cinema, é um dos meus sonhos.

2 – É uma pergunta até boba, mas acho que todo fã de HQs gosta de saber o que despertou o interesse por esse segmento nos profissionais do ramo… qual foi aquele material que você pegou, leu, releu e disse “quero trabalhar com isso um dia”.

A minha história com as HQs é um pouco diferente… minha paixão sempre foi cinema, é minha formação e para onde quero voltar em breve. Mas fazer cinema é caro, contar qualquer história no cinema é caro, e por isso me foi sugerido adaptar um roteiro de cinema para outra mídia.
Como sempre fui apaixonado por HQs, na hora pensei nesse formato para a minha história e foi assim que nasceu o Lost Kids.
Mais do que um material que peguei na mão, foi conhecer os quadrinistas profissionais que sempre admirei e ver como são acessíveis e simpáticos, me recebendo no meio deles de braços abertos. Daí em diante foi uma questão de enxergar minhas histórias de outra forma, a de arte sequencial.

Envio de recompensas da campanha 321: Fast Comics Vol.1
Envio de recompensas da campanha 321: Fast Comics Vol.1

3 – Aproveitando essa vibe, quais a grandes influências em seu trabalho? Não só HQs, mas também Literatura, cinema, séries, games… essas coisas todas.

Definitivamente nas HQs é o Brian K, Vaughan, esse cara é um monstro, talentoso demais. Assim como o Scott Snyder, são os dois roteiristas que mais procuro espelhar o meu trabalho. No cinema são três nomes: Spielberg, Whedon e por incrível que pareça Kevin Smith.
Não sou muito fã dos filmes atuais do Kevin Smith, mas seus primeiros filmes estão entre meus favoritos e admiro muito a autenticidade do cara. Ele não esconde suas paixões, trabalha sempre naquilo que ele curte, seja HQs, séries, podcasts, enfim, é atuar naquilo que ama e ser autentico.
Joss Whedon é um cara que veio de um background de roteiro e conseguiu ser autoral independente da mídia, seja quadrinhos, TV ou cinema, ele sabe contar uma boa história. Como projeção e meta de carreira, é nele que me espelho.
E do Spielberg eu sou fãzaço mesmo, ele é um mestre e a principal razão de eu querer fazer cinema. E, para mim, ele não perde a mão. Até nos seus “piores” filmes, você vê um mestre artesão trabalhando.

4 – Desse vasto número de possibilidades narrativas, tem alguma coisa voando aí no seu radar para além das HQs?

Tem sim… mas não preciso dizer mais nada, né? 😉

5 – Nosso mercado de quadrinhos está num momento interessante, tem bastante gente produzindo, divulgando, criando, relançando coisas, o financiamento coletivo deu uma boa ajuda nisso tudo. Você é uma “máquina” de projetos de sucesso no Catarse, as duas campanhas Fast 321 foram estrondosas, você tem alguma “fórmula secreta” para seus projetos? Alguma dica para quem está interessado em embarcar nesse segmento de produção financiada coletivamente?

Não existe fórmula secreta, existe muito estudo, preparo e trabalho duro. Eu vejo o que outros fizeram, como fizeram sucesso e descaradamente aprendo com eles, seja copiando, seja me apropriando de algum detalhe que eu mesmo posso colocar em prática.

Com esse “boom” dos quadrinhos no financiamento coletivo, eu vejo muitos autores totalmente despreparados lançando seus projetos online e infelizmente não alcançam suas metas. Antes de mais, financiamento coletivo não é pra se fazer dinheiro, é para se estabelecer um relacionamento pessoal com fãs e no processo conseguir financiar seu projeto.

Muita gente entra querendo fazer grana, querendo uma fatia do bolo, mas não querendo bater a massa rs rs

6 – Falando em projetos, como você constrói os seus? Qual ponto de partida da sua jornada criativa, o meio do caminho e como atinge seus pontos de conclusão?

O ponto de partida tem que ser sempre uma boa ideia, de preferencia algo que eu nunca vi por aí e que gostaria de ver. À partir daí o desenvolvimento de roteiro é sempre o mesmo, primeiro um outline, depois argumento, fichas de personagens e por último o roteiro.

Eu nunca saio escrevendo um roteiro do nada, tem muitas etapas antes. Quando sento para contar a história, ela já praticamente toda planejada, dessa forma consigo matar de 4 a 6 páginas por dia.

 

7 – Algum filtro ou peneira para deixar para trás aquela ideia que de algum modo não funcionou no meio do caminho?

Se eu conto minha ideia para alguém e a pessoa retruca “é tipo x ou y então?”, esse é meu filtro. O próprio Lost Kids trouxe muitas comparações com “Caverna do Dragão” e foi de certa forma broxante. Mesmo que a minha HQ não tenha absolutamente nada a ver com o desenho, fiquei desgostoso com esse tipo de recepção.

Agora eu sempre tento buscar soluções obscuras e desconhecidas, inéditas, novas e ideias que pelo menos eu nunca vi em nenhum outro lugar antes.

8 – E a relação com os desenhistas? Você acompanha alguma etapa? Pede ou faz sugestões? Como é esse fluxo de trabalho?

É um casamento, acompanho todo dia que o artista está trabalhando, é um trabalho conjunto na verdade. Eu mando o roteiro para o artista sempre aberto a críticas, sugestões e ideias. Quando fechamos o roteiro, começa a etapa de layouts.

O artista interpreta meu texto de forma visual e bem rabiscadona, é aqui que eu como roteirista ainda posso sugerir alterações na narrativa. Daqui para frente o artista é mais autônomo, mas somos um time, parceiros, e sempre temos esse bate-e-volta de informações, inclusive com o colorista e letrista, os últimos a participarem da produção de uma HQ.

9 – Nosso mercado teve um crescimento bem legal na área de eventos para cultura pop-nerd. Você como artista, qual sua visão desses eventos em prol dos artistas e do mercado em geral?

Eu acho sensacional, quanto mais, melhor. É assim que conseguimos pagar nossas contas no fim do mês porque geralmente são nesses eventos que o grande público realmente consome HQs nacionais.

10 – Para encerrarmos, qual seu recado aí para os nossos leitores, para os fãs de HQs de modo geral e claro, para aqueles que querem entrar no mercado com seus materiais?

Na vida não existem atalhos e temos que conquistar pequenos objetivos atrás de pequenos objetivos para se construir uma carreira, em especial nos quadrinhos.

No Brasil ainda é complicado ganhar a vida produzindo só HQs, mas isso está mudando e temos que continuar produzindo cada vez mais e cada vez melhor. Se você lê Marvel e DC, talvez títulos da Image, dê uma chance para nossa produção nacional, tem MUITA coisa sensacional.

A última barreira a ser vencida para um mercado firme e forte por aqui é a distribuição e acesso ao público, a produção já está primorosa.

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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