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Supergirl | O que ainda não mudou sobre meninas na TV

O ano de 2015 trouxe notáveis transformações da representação feminina nas indústrias do entretenimento ocidental. Tivemos significativas mudanças de uniformes nos games e quadrinhos; mulheres com figurinos mais condizentes com suas atividades, personagens mais complexas e mais agentes de suas próprias histórias. 

Tivemos Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) protagonizando magistralmente o que viria a ser um dos melhores filmes de ação dos últimos tempos. Tivemos Agente Carter (Hayley Atwell) ganhando narrativa própria na TV, aproveitando o fato de ser vista como inofensiva para circular entre homens para realizar suas missões. Tivemos Jane Foster levantando o Mjolnir e assumindo o manto de Thor, alavancando as vendas da revista da Marvel. Temos agora a Jessica Jones (Krysten Ritter), personagem da Marvel em série para a Netflix que já chegou arrebentando, da fotografia à apresentação das personagens. E teremos em breve, para encerrar este ano incrível, o mais novo episódio de Star Wars (O Despertar da Força) sendo protagonizado por uma mulher E por um homem negro. O choro é livre, conservadores preconceituosos 😉

Supergirl surge, então, como uma consequência natural desse movimento todo. A série sobre as aventuras de Kara (Melissa Benoist) chega para apresentar uma heroína no intuito de cativar não só meninas adolescentes, mas uma audiência que abrange a família inteira. Esse objetivo fica bem evidente na leveza com que o roteiro é desenvolvido, sem as relações mais violentas e doentias de Gotham, por exemplo (veja o que achamos da série aqui). Embora seja relevante a exibição de uma série com protagonista feminina, é preciso manter o espírito critico para muitos aspectos ainda problemáticos dessa apresentação, já que estamos aqui falando de representatividade.

Melissa Benoist como Kara Jor-El com um grupo de escoteiras, já mostrando como é importante inspirar meninas!

Vamos começar falando de referências, já que a série não está economizando em costurar muita coisa relacionada aos kriptonianos mais conhecidos do planeta Terra. De cara, somos apresentados à já conhecida história do bebê Kal-El, que aparece com direito ao cachinho na testa imortalizado por Christopher Reeve no Super-Homem de 1978. Ainda no primeiro episódio, os pais adotivos terráqueos da Kara são interpretados pela Supergirl do filme de 1984, Helen Slater, e pelo Superman da série dos anos 90, Dean Cain. Helen Slater ainda foi dubladora da Talia Al Ghul em Batman: A Série Animada e interpretou Lara El, mãe do Superboy em Smalville.

Outras homenagens ao Superman vão surgindo ao longo da história, como a Kara salvando um avião em queda, ou tirando um “gatinho” da árvore. Existem também referências bem mais sutis, talvez até possam ser chamadas de “reciclagem de material”, na verdade, como a transformação do Hellgrammite, personagem humano mutante que surgiu em Os Bravos e Destemidos, na raça alienígena de um indivíduo que estava preso na Zona Fantasma.

Supergirl e Superman. Digo, os Denvers, pais adotivos de Kara na Terra...
Supergirl e Superman. Digo, os Denvers, pais adotivos de Kara na Terra…

Se, por um lado, a série acerta em buscar referências no próprio universo DC, bastante farto de material a ser usado, por outro ela deixa a desejar na apresentação das personagens femininas. O próprio trailer do episódio piloto dava uma péssima impressão de que a série seria mais uma baboseira fútil e cor-de-rosa, como costumam achar que deva ser um produto a ser consumido por meninas. Ainda que este trailer tenha exagerado e a série nem seja tão baboseira, muitos erros aparecem tanto na construção das personagens quanto no próprio roteiro das cenas.

Vamos ao jogo dos erros, começando pela chefe da firma. A mulher para quem Kara trabalha, Cat Grant (Calista Flockhart) é apresentada descaradamente como a estereotipada “cold bitch”, a mulher de negócios super poderosa que não quis constituir família e só pensa em ganhar mais dinheiro e em pisar em qualquer um que atrapalhe seu objetivo. Na verdade, nem precisa atrapalhar a vida dela, basta existir ao lado dela, e ela vai arranjar um jeito de te pisar. Que novidade, né? Nunca antes na história do entretenimento audiovisual se viu uma mulher poderosa ser milimetricamente encaixada no perfil cold bitch.

Calista Flockhart é Cat Grant, a mulher poderosa de coração frio que não se importa com ninguém… zzzzZZZZzzzzZZZ

Parece impraticável uma mulher poderosa ser representada de outra forma, menos caricaturizada, mais humana. Pra não dizer que a personagem não traz nada de útil, ela tem dois ensinamentos valiosos pra Kara: a sacada de que uma mulher precisa fazer o dobro do esforço de um homem para ter a metade dos créditos; e a dica do aprendizado gradual. Qualquer pessoa pode fazer bom uso da dica de não querer abraçar o mundo com as pernas, não é verdade?

A estereotipização do universo feminino segue pesada ainda no primeiro episódio, com o clima de paquera que surge imediatamente com os dois primeiros personagens masculinos não-parentes da Kara, Win Schott (Jeremy Jordan) e James Olsen (Mehcad Brooks). E se você pensou no Jimmy Olsen, amiguinho do Clark Kent, está redondamente correto. O momento paquera consegue ficar ainda pior, quando, num episódio clássico da vida de várias mulheres, Schott presume a homossexualidade de Kara baseado na total ineficiência de suas investidas a ela. 

Da cena inútil, uma tentativa inútil de uniforme, obviamente inadequado para salvar o mundo. Ou National City.
Da cena inútil, uma tentativa inútil de uniforme, obviamente inadequado para salvar o mundo. Ou National City.

Schott, aliás, também é parte de uma sequência totalmente desnecessária, ao menos na forma em que foi produzida. A confecção do figurino é um momento importante na apresentação de um herói, especialmente quando já é conhecido de outras mídias. Poderiam ter mostrado pesquisas com relação a materiais e modelagens que favorecessem seus super poderes, e que não atrapalhassem a sua desenvoltura. Mas é uma série para adolescentes, então tacaram um desfile de moda com musiquinha animada e clima de amigas-experimentando-figurino-pra-balada.

O ápice da falta de criatividade para produzir conteúdo decente para as meninas foi o momento em que Kara reencontra sua irmã após salvar seu avião da queda e, para tentar explicar o quanto voar é legal, ela compara a sensação com “aquele momento logo antes do primeiro beijo”. Olha, eu sei que meu primeiro beijo faz tempo, e eu sei que dá um nervosinho. Também sei que nunca voei fora de um avião. Mas duvido muito que o nervosinho antes de um beijo chegue a um milésimo da emoção que deve ser a liberdade do vento no rosto. Ou seja, além de menosprezar um poder maravilhoso, ainda coloca a paquera como algo incrivelmente interessante, comparável a VOAR. Que conselho incrível paras as adolescentes.

Além de todos esses problemas e mais outros que nem vou listar com relação à representatividade feminina, existem pontos fracos também em outros aspectos, como chamado do herói para Kara ser bem banal e evidente, e o uso nada surpreendente de uma dinâmica familiar onde o tolhimento de liberdades e a inibição da expressão individual aparecem travestidos de proteção e cuidados.

Então, mesmo que seja bem oportuna a veiculação da série, ainda falta muito para realmente contarmos com um leque maior de personagens femininas menos estereotipadas, mais complexas, mais reais. Nosso próximo voto de confiança recai sobre a Jessica Jones, que já tem episódios disponíveis na Netflix e, já no primeiro episódio, arrebenta qualquer expectativa de heroína tradicional.

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Formada e especializada em design (produtos e gráfico), resolveu fotografar cultura e arte nos intervalos da carreira acadêmica. Optou por não ser rica e trabalhar sem férias no que a faz feliz, unindo ganha-pão e diversão.

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