Eden – It’s an endless world

Alguns gêneros de histórias, principalmente quando adentramos no mundo dos mangás e animes, são muito marcantes. Gerações tomam como base tais obras que, por terem uma complexidade e, acima de tudo, por saberem falar com públicos de várias gerações de tal modo que essas obras nunca se tornam algo datado, e um gênero que consegue com grande primor alcançar tal qualidade é o subgênero da sci-fi chamado Cyberpunk.

[dropcap size=small]Q[/dropcap]uando pensamos em tal gênero, nos vem logo a cabeça obras como “Metrópolis” e “Akira” (de Osamu Tesuka), “Ghost in the Shell – O fantasma do futuro” (mangá de Masumune Shirow e animação de Mamoru Oshii), “Serial Experiments Lain”(Ryutaro Nakamura), “Ergo Proxy”(Shukou Murase) e tantos outros que beberam de muito boas bases para desenvolver seus universos, como por exemplo, Isaac Asimov, Artur C. Clarke, William Gibson, Philip K. Dick, entre mestres da literatura de ficção científica.

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O Cyberpunk (Veja nosso especial AQUI) sempre permitiu aos seus autores uma grande liberdade criativa, desde os mais utópicos aos os mais realistas, pois sempre é aberto a novas experiências e inserções criativas que permitem um desenvolvimento pleno em tais obras, de temas políticos, filosófico-existenciais, corporativismo, exploração de recursos, entre outros vários fatores.

E nesse tipo de gênero se encaixa o mangá “Eden – It’s an endless world” de Hiroki Endo, o qual sempre falou que gostava de trabalhar com o gênero cyberpunk, por causa da liberdade que tal tipo de obra permite, e que seu universo pode produzir tantas sensações aos leitores: podemos nos questionar, nos emocionar, nos irritar ou sentir medo ao ler uma obra do tipo, e que por isso a torna tão fascinante.

E que melhor maneira de ser apresentado a uma história, que já no seu inicio, fala muito sobre como um mundo que passou por uma epidemia e conseguiu seguir adiante. O autor não quer fugir de temas polêmicos, mas sim discuti-los e desconstruir alguns dogmas falando sobre religiosidade, evolução, ética, homossexualidade, existencialismo, de tudo que torna a obra ficcional, algo tão realista.

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Não só por isso, mas também por causa da sensação de verossimilhança que Eden nos causa, utilizando-se de muitos fatos reais e vários estudos e pesquisas sobre esses temas, não somente sobre um universo cyberpunk, mas estudo de geopolítica e culturas, pois é uma obra que dentro do seu mundo, se passa internacionalmente, mas em compensação, Eden consegue ser também uma grande história de ação, a cada momento em que existe diálogos densos, há na mesma densidade uma cena de ação que compete com essa densidade do roteiro, pois o mundo retratado na obra é caótico, é um mundo que seguiu adiante, mas não de uma forma boa: terrorismo, tráfico de drogas, conflitos étnicos, prostituição, entre tantos outros problemas de ordem social, juntamente com os elementos sci-fi tecnológico, principalmente no que se refere a bioengenharia. Há também uma abordagem muito interessante quanto aos elementos do gnosticismo.

A HISTÓRIA – (Contém spoilers)

Somos apresentados a um futuro próximo (ano de 2086) que a humanidade está enfrentando uma epidemia mundial causado pelo vírus “clausura”, que na obra já dizimou 15% da população mundial e deixou muitos sem suas capacidades físicas plenas, pois sua ação vai afetando o sistema imunológico, literalmente fechando as suas células a todo contato externo, e consequentemente, todos os órgãos vão se endurecendo, como se virassem porcelana, e os órgãos internos, incapazes de fazer o metabolismo, sofrendo necrose e acabam morrendo.

Então somos apresentados aos personagens Ennoia Ballard e Hannah Mayall, dois adolescentes que são imunes ao vírus e que acreditam ser os últimos humanos saudáveis do planeta, crença essa que é alimentada pelo cientista Morris, amigo do pai de Ennoia e vive em fase terminal do vírus.

A história utiliza-se dos flashbacks para contar esse inicio, mas logo após, então é somos apresentados a Elijah Ballard, filho de Ennoia e Hannah, que já aparece vivendo sozinho no mundo, somente com a companhia do robô “Querubim”, que da figura do anjinho pelado, só tem o nome, pois é praticamente uma máquina de guerra. Elijah é um sobrevivente e muito de sua história é explicada através de vários flashbacks, e descobrimos que o pai de Ennoia é o mais poderoso traficante da América do Sul. A vida de Elijah sofre uma grande reviravolta, quando este é feito de refém de um grupo chamado Nomad.

eden 5O grupo é composto pelo Coronel Khan, Sophia, Kenji e Wyticliffe. O grupo acaba por se tornar o plot principal da trama de Eden, porém como já disse antes, não é uma história que joga todas as informações de uma única vez só.

Todos os personagens possuem passados complexos e personalidades únicas. Durante o decorrer da história muitos vem e muitos vão, já que a morte é algo que se torna comum nesta realidade pós-apocalíptica. Com certeza um dos grandes destaques da obra. Com tramas únicas para cada um dos personagens, uma rede que acaba se ligando conforme alguns pontos vão se desenvolvendo no enredo, e não conseguimos não nos apegar a alguns personagens que vão surgindo e saindo de cena em Eden.

Passado alguns meses desta nova forma de doença aterrorizando as pessoas, as principais cidades do mundo são infestadas por cristais que se originaram da pele dos infectados e formam grandes torres e estruturas. Então, estranhos fenômenos começam a ocorrer ao redor do mundo. Os mortos começam a visitar seus entes queridos nos sonhos, convidando-os a se juntarem para o coloide, como se fosse uma pregação. Assim, tomamos conhecimento de duas entidades formadas por uma IA desconhecida e complexa, chamadas “Maya e “Lethia Aletheia. Ambas são opostas e cada uma representa uma escolha que a humanidade tem.

Os conceitos de gnostismo e de proselitismo são pontos que chamam bastante atenção em Eden, em todos os sentidos é o que podemos chamar de sci-fi substancial, pois as similaridades e analogias que podemos fazer com o nosso mundo são muito evidentes. Enfim, “Eden” é o tipo de obra que nos joga questionamentos, que nos faz refletir sobre as relações humanas e ainda é uma obra que tem muita ação, coisa que poucas obras conseguem conciliar de forma tão perfeita e sem perder a qualidade em alguma das duas abordagens. Eden não pode passar por aqui sem ser percebida.

Mercado Brasileiro

Atualmente a JBC está publicando Eden – It’s an endless world em edição especial “big” (que junta dois tankos em um). Cada volume terá o mesmo preço de Death Note Black Editio: R$ 39,90, em papel offset. As nove edições têm, em média, 450 páginas, possuindo páginas coloridas. A grande surpresa fica pela periodicidade, pois os volumes de Eden são bimestrais, um teste da editora que não costuma trabalhar dessa forma. É bom frisar que o mangá é destinado às livrarias. 

Eden foi um dos primeiros mangás publicados pela Panini no Brasil na época do meio-tanko, infelizmente a publicação foi cancelada na época, mas como dizem, “há males que vem para o bem” é o que aconteceu com Éden na Panini, permitiu um retorno triunfal.

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Comparativo do Vol.1 de Eden com outros mangás
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Eterno estudante e ávido leitor, gosta de sci-fi e rock and roll, procurando um sentido na vida fez filosofia e pra entender a humanidade (se é possível) fez Direito. Pode ser encontrado nos melhores botecos de Sampa.

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