Mad Max: Estrada da Fúria | Depois que a poeira baixou

Espetáculo… esta é a palavra que Mad Max: Estrada da Fúria me evoca de imediato. Em seguida vem bizarro, grotesco, sublime e belo… tudo junto. Em uma frase seria algo como “Estrada da Fúria trás o real sentido para o termo filme-espetáculo, uma mistura bizarra de grotesco, sublime e beleza”. Pronto, já posso ser crítico de cinema…

Quando anunciaram que a cultuada trilogia Mad Max ganharia mais um filme e se tornaria uma quadrilogia, meu primeiro impulso, olha só, foi a repulsa. Depois de uma boa rodada de revivals, remakes, reboots, restarts e prelúdios fracassados e vergonhosos diante das obras que os inspiraram, todas essas coisas que querem, bem ou mal, trazer novamente obras do passado com uma nova roupagem à tona para novas audiências acabam meio que se tornando algo extremamente pejorativo… ficava sempre aquela sensação de que era melhor ter ido ver o filme do Pelé e que os novos diretores e produtores deixassem os clássicos lá onde eles nasceram e se tornaram isso, CLÁSSICOS.

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Nem mesmo o poderoso nome de George Miller, idealizador da trilogia original, inspirava lá muitas esperanças, já que atualmente o pitaco dos executivos fala mais alto que qualquer poder de expressão estética dos idealizadores cinematográficos. Não que eu duvidasse da capacidade do cineasta em ensinar o bom e velho cinemão de ação do final dos anos 1970 para começo dos anos 1980 para essa “molecada” de amadores mal acostumados com excessos de computação e operadores de câmera com Parkinson em estado avançado… não, era só o medo de ver mais uma vez os caras meterem os pés pelas mãos com algo que já fincou seu marco na história do cinema…

Quer ver um clássico? Vá lá e assista-o e pense-o em seu contexto original, com a narrativa daquele momento, com os recursos daquele momento, faça essa obra deslizar no fluxo do tempo e veja como ela dialoga e negocia com o avanço do tempo, da cultura e da sociedade… Se tudo isso continuar conversando bem, então realmente temos uma obra que não só marca seu tempo, mas trás em sua premissa um diálogo que eu não teria a ousadia de chamar de atemporal, mas resistente, persistente, incômodo, latejante… uma memória viva. Mad Max é assim, é uma memória viva e persistente no tempo, continua, a seu jeito e estética, atemporal.

Mad Max – A trajetória

Quando Mad Max de 1979 colocou o policial Max Rockatansky em uma corrida frenética contra punks de rodovias organizados em gangues delinquentes cujo único objetivo era a mera diversão predatória e inconsequente, ali no discurso da obra já tínhamos um futuro distópico, sujo, sucateado, pirateado, violento… somos bárbaros pilhando novamente, mas ao invés de navegarmos os mares, cortamos a toda velocidade rodovias anônimas, genéricas e tão comuns que poderiam ser qualquer lugar do mundo, apesar de serem na Austrália, a terra natal de Miller…

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Mas Mad Max não falava de um lugar, nem de uma pessoa; falava de todos nós em todos os lugares do mundo através da metáfora da distopia de estradas e poeira em um futuro incerto, incerto, porém tão próximo que poderia estar a apenas alguns “quilômetros” diante de nós…

Mad Max era também um verdadeiro bang-bang moderno, um Western de cowboys do asfalta que precisavam levar a lei de algum modo ao pouco de civilidade que nos restou nos quilômetros de estradas entre um “vilarejo” e outro. Nada de heróis, só homens tentando sobreviver ao pior dos predadores que andou por sobre a terra: outros homens…

E, esse tem sido desde então o grande desafio de Max: sobreviver aos homens que cruzam a estrada de sua própria vida. Uma estrada de sangue, poeira, cheiro de fumaça de escapamento e de fumaça de pneus cantando contra o asfalto fodidamente quente de um mundo que, antes mesmo do holocausto, já era escroto e se tornou pior ainda após a hecatombe nuclear que varreu ainda mais a raça humana para o estado de depredação que só aumentou ainda mais do segundo para o terceiro filme e que atingiu seu ápice neste Estrada da Fúria.

Se tem um fluxo que Mad Max segue, esse fluxo é o da involução… diante do caos das grandes guerras atômicas, do pó, do calor escaldante, da guerra por recursos naturais e combustível, da sobrevivência a todo custo até chegarmos ao ponto de que só os mais fortes sobreviverão… Nenhuma forma de ordem, de organização e de poder centralizado sobrevive imune ao poder predador das tribos das rodovias. Os que ainda seguem os antigos preceitos da lei e da convenção cultural pré-holocausto são todos vítimas e presas, os que renegam o passado são todos predadores criando uma nova cadeia alimentar, uma nova ordem a ser seguida, ordem esse que faz qualquer apego com o modo de vida da civilização anterior ser uma sentença de morte.

O poder individual não tem força senão for um poder compartilhado e tribal, mesmo com um senhor da guerra guiando uma manada de punks sobre veículos pontiagudos, só na força desse coletivo é que os novos senhores da guerra tem algum poder. É assim com Lord Humungus em MM2, é assim com  Aunt Entity (Tina Turner) em MM3 e assim novamente com Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, ator inglês que também interpretou o motoqueiro Toecutter em MM1 de 1979). Mesmo sendo um leve e pequeno centro de poder no caos, o líderes de matilhas, esses indivíduos estão sujeitos ao movimento de cardume e, mesmo sendo líderes, é uma liderança tribal frágil sujeita a jogos de poder de poder para mover os lados da balança.

Basta notar isso no que residia de esperanças quando Bartertown tentou ser um refúgio de civilidade, um local de lazer, comércio e dormitório. Ainda eram os jogos tribais que a norteavam a frágil política do local… uma arena, dois homens entram e um homem sai… a arena dos gladiadores romanos está armada mais uma vez. Pão e circo e a alienação do povo por seus governantes. O jogo político ganhou contornos mortais nesse novo mundo de cowboys e vikings do deserto… Patriarcado, matriarcado, feudalismo, tanto faz, todos estão atrelados a sua capacidade de sobreviver e manipular o outro… quando tudo isso falha, a força resolve tudo.

E qual é o lugar de Max nisso tudo?

Nenhum! Max não é um nobre e abnegado herói, não é o último reduto de honra e coragem, nem o último espelho que reflete os velhos tempo. Max é só alguém que parece estar sempre no lugar errado e na hora errada, o cara que tenta sair desse pesadelo com vida e rumar em direção a qualquer lugar minimamente seguro, apesar disso já não mais existir.

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Diferente do herói de ação típico dos anos 1980 como Rambo, Bradock e tantos outros, Max não é uma máquina de guerra, não é o exército de um homem só, mesmo sendo duro de matar, está longe de ser um John Mcclane. Até porque, dos heróis de ação oitentista, Max é o que tem o pior cenário possível para um ex-policial patrulheiro sobreviver. Desprovido de redutos de segurança, de áreas onde se ocultar e com recursos cada vez mais minguantes, Max só tem em comum com os brutamontes oitentistas seu taciturno silêncio e o magnetismo animal para problemas.

Como personagem, Max é aparentemente raso, desprovido de camadas de significado ou de qualquer motivação mais elaborada… veja bem, APARENTEMENTE… e convenhamos, ele não precisa de nenhuma outra motivação além de sobreviver, caminhar em direção a qualquer lugar longe de problemas e continuar sobrevivendo.new-mad-max-fury

Mas essa aparente falta de profundidade é o que justamente torna o personagem mais complexo. Que motivos ele tem para realmente desviar seus planos iniciais, dar marcha a ré e levar, de carona consigo, os problemas alheios? Simples, Max não é só um sobrevivente dos escombros da hecatombe nuclear, ele é e sempre será um policial, um “xerife” cujo dever de servir e proteger fala sempre dentro de sua aparente carapaça de indiferença e egoísmo. Em um mundo onde a palavra não tem valor algum, é na ação física que Max se constrói, é no ato em si que ele se aprofunda…

No imaginário da cultura pop-nerd, Max é o cara amargurado, perdido, sem um ideal e muito longe de ser um exemplo de herói. Pelo contrário, está longe disso, até porque distopias subvertem esse conceito de “herói salvador”. Acima de tudo a própria mitologia da saga Mad Max deixa evidente que estamos diante de um mundo desmoronado que tenta se erguer sobre suas próprias ruínas, abandonando tradições, bandeiras, costumes e culturas. Somos uma massa perdida de seres deformados, mutilados, monstros grotescos amontoados em torno de uns poucos pilares de ordem ditatorial como vistos nos filmes anteriores ao já aclamadíssimo Estrada da Fúria que só vem somar ainda mais ao riquíssimo cenário da trilogia.

Um filme de reintrodução de contexto

Insisto em um ponto sobre Mad Max: estamos falando de um filme sobre um contexto, não sobre esse ou aquele personagem. A meu ver, a principal função deste Estrada da Fúria é justamente ser uma porta de entrada para o velho-novo mundo da mitologia de Mad Max… Está tudo lá, mas ao mesmo tempo há um mundo diferente do que havia sido deixado em nosso imaginário ao final do terceiro filme. Há um novo cenário político, um novo centro de poder como foco narrativo e todo um contexto feudal erguido sobre o tripé formado pelas três cidades da zona de influência de Immortan Joe: A Cidadela (The Cidatel, A Fazenda da Bala (Bullet Farm no original) e Vila da Gasolina (Gas Town no original).

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Cada uma dessas três locações tem sua função específica dentro do novo contexto da saga Mad Max. Pela primeira vez um conjunto de cidades se mantém estável num jogo de dependência mútua. Apesar da organização feudal de Immortan, ele já conta com um fornecimento estável de combustível que vem da Vila da Gasolina e com suprimento de armas e munição que vem da Fazenda da Bala para municiar seus Garotos de Guerra (War Boys), seu exército de soldados que idolatram o V8 e estão dispostos a dar sua vida em prol de seu pai imortal.

Com uma vida curta devido aos efeitos da radiação sobre seus genes, os War Boys vivem para defender a estrutura vigente acreditando num pós-vida ao lado de seu pai no Valhalla que virá após sua morte… sim, no Valhalla. A fé cega a serviço do poder, controle e dominação. Não à toa os War Boys são doutrinados desde sua primeira infância para seguirem cegamente o caminho de sua meia-vida de servidão combatendo as tribos nômades espelhadas entre as três cidades interdependentes do império de Immortan Joe.

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Dentro dessa estrutura, Immortan também mantém cativas a mais belas mulheres que tiveram a infelicidade de cruzar seu caminho. A função das jovens mães é a manutenção da sua prole. Coberto por deformidades na pele, o regente da Cidadela usa seu harém para “plantar” seu exército futuro e estabilizar sua fonte de poder, justamente a fonte motivadora das ações da Imperatriz Furiosa. No extremo mais baixo da cadeia estão os deformados, deficientes, aleijados e indefesos que dependem da água periodicamente liberada da encosta segura de uma montanha onde Immortan proclama aos refugos de sua Cidadela para que não se viciem no líquido represado por ele.

A Estrada da Fúria é o filme mais político da quadrilogia Mad Max, o que mais potenciliza uma continuação direta a explorar um contexto, pois os filmes anteriores se focavam bem mais diretamente dentro de locais específicos. No primeira eram as rodovias australianas entre algumas poucas cidades isoladas entre si; no segundo filme muito menos do que isso era mostrado quando viajantes nômades tentavam ir para o norte e defendiam com as próprias vidas uma refinaria de combustível que supriria suas necessidades quando foram sitiados pelos punks de Lord Humungus; já no terceiro filme só mesmo Bartertown era mostrada no grande deserto, mais adiante quando surgem as crianças perdidas temos o vislumbre de outra localidade com potencial de vida vegetal e ao final os escombros de uma Sidney envolta em poeira e escuridão esperando que um dia Max pudesse ver suas luzes acessas indicando o caminho de volta para casa.

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Se voltarmos no tempo com uma lupa sobre cada um dos filmes de Miller, vamos encontrar uma obra que fala justamente de contextos. A ideia nunca era mostrar somente um personagem em ação, mas este personagem em ação dentro do referido contexto; a situação em si é o fator primordial da narrativa. Os personagens, o roteiro, as falas e ações são todas construídas para contextualizar um mundo e circular um discurso sobre fatos que realmente conhecemos bem.

Não sei se Miller já pretendia fazer uma crítica social para sua época quando lançou o primeiro Mad Max em 1979, mas ali já tinha o embrião de algo muito forte discursivamente, já havia uma direção de caos e de uma sociedade em frangalhos. A luta constante por recursos foi seu grande mote no segundo filme, a guerra por combustível, alimento, formas de sobreviver era mais que evidente até mesmo nas poucas falas de Max: estou aqui só pela gasolina… se movimentar era sobreviver.

No terceiro filme apesar do jogo político e manipulador, era a mesma situação-problema e recuperar seu veículo mesmo tendo um local para ficar era o único objetivo de Max. Pouco importava se havia uma cidade onde residir, uma boa oferta a ocupar um lugar ao lado da gestora daquilo tudo, num mundo sem sociedade, Max só queria ficar longe de tudo e todos.

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Depois que a poeira baixou

Com um saldo extremamente positivo em termos de crítica e público, Mad Max: A Estrada da Fúria traça uma nova linha que divide o gênero dos filmes de ação. George Miller trouxe para a telona um vigor, uma densidade narrativa e um contexto pesado, nada de aliviar, nada de enfeitar a crueza que os três primeiros filmes trouxeram ao espectador. Não há uma terra prometida cumprindo antigas histórias, não há um mundo novo se reerguendo das cinzas para que o final seja simpático com quem se sentou por duas horas diante da tela de cinema.

O diretor também entregou um roteiro redondo concretizado em uma direção limpa, objetiva e direta. Sabia o que queria mostrar, foi direto ao ponto da narrativa. Queria mostrar explosões e as mostrou, queria fazer um espetáculo e o fez como há muito tempo o cinema de ação estava precisando. Esqueça as câmeras-terremoto, aqui você vê e entende o que está acontecendo, nunca o termo “frenético” serviu tanto como elogio como nessa Estrada apresentada por Miller.

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Com um elenco afinado, com núcleos diversos dividindo a tela, fica até difícil dizer quem roubou a cena de quem. Mas se me dissessem para escolher um personagem interessantíssimo, de destaque, que cresce na narrativa, que surge da multidão e pega pra si o papel de intensificar uma vida curta, bom, esse cara é Nux (um Nicholas Hoult inspiradíssimo). Que me desculpem os fãs de Furiosa, do próprio Max, mas é o Garoto de Guerra que, sem importância alguma ganha atenção, falha, erra, vacila, se ergue, vai aos portões de Valhalla três vezes e retorna para cumprir um papel diferente, sem testemunhas, sem a promessa de um banquete ao lado de seu pai imortal.

Se A Estrada da Fúria não redefiniu um filme de ação, sinceramente pouco me importa, mas que deixou no ar algo além de poeira isso é um fato. Já em franca expansão multimídia, o longo ressuscitou um mitologia para entrar nos videogames, nas HQs e onde mais for necessário levar esse testemunho de caos, destruição e desolação que, mesmo em cada um de seus absurdos, é um nítido reflexo do mundo.

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Perfeito como cinema de entretenimento (é belo, é muitíssimo bem executado, tem texto e subtexto, quer mais o que?), extremamente imersivo como narrativa, Mad Max: A estrada da fúria vai ecoar o ronco dos motores para essa nova geração, ao menos assim eu espero, acrescentando ao hall de mitologias pop-nerd o mundo desolado de Max para o imaginário dos próximos anos do século XXI. Ao reerguer, além do cinemão de ação, o tema das distopias futuristas, Miller também reergue a beleza que existe no grotesco, no bizarro, no sucateado.

Enquanto o mundo se volta para uma ficção distópica de jovens de belos rostinhos lutando contra regimes facistas, os personagens de Mad Max vão no sentido contrário, trazendo no árido, no sujo, no deformado e pervertido uma beleza singular e ainda assim extremamente natural em sua crueza.

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Que venham os novos caminhos, as novas HQs, os novos games, porque o mundo avança para um futuro cada vez mais interrogativo em termos de forma e conteúdo, mas George MillerMax Rockatansky vivem num mundo escroto, sujo, quente, radioativo, deformado, despótico e distópico onde combustível e água são motivo de guerra… e se algo te soa atual, conhecido e real, não se espante, muito de se fazer ficção é isso mesmo: distorcer a realidade, mas manter dela os indícios de que basta meio passo errado em algum lugar para que a fronteira entre o fictio e o facto seja anulada…

Exatos 30 anos separaram Além da Cúpula do Trovão de A Estrada da Fúria, foi um longo tempo, o suficiente para fazer muitos esquecerem o patrulheiro Max, esquecerem como era dura a vida em estradas desérticas e poeirentas… tempo suficiente para uma ou duas gerações nascerem, florescerem e sequer terem conhecido esse personagem e seu mundo… então George Miller voltou e todos fomos convocados a testemunhar um espetáculo… e nada menos do que isso nos foi entregue. Fomos convocados e viemos apenas pela gasolina…

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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