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Entrevista | Bate-papo com os quadrinhistas Tony Brandão e Junior Cortizo

Durante o evento Comi Con Experience – CCXP realizado no fim de 2014, os artistas Tony Brandão e Junior Cortizo lançaram em conjunto a HQ “A Tribo, Perseu & Aline: Carrapato”, projeto que une as criações individuais de cada autor neste especial.

[dropcap size=small]F[/dropcap]eita a quatro mãos, Carrapato une a dupla Perseu & Aline (Brandão) com o super-grupo A Tribo (Cortizo) numa aventura cheia de ação ao melhor estilo do gênero dos super-heróis, tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro, expondo todo seu contraste por paisagens como a praia de Copacabana e as favelas da cidade. Depois de darmos uma geral no material (veja AQUI), agora batemos um papo esperto com os dois criadores em uma entrevista exclusiva para o PZ…

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Ponto Zero – Primeiro aquela pergunta basicona para os artistas: quais as grandes influências para vocês? Vale falar um pouco de tudo, roteiristas, desenhistas, aquele livro bacana ou aquele filme que mudou a perspectiva de vocês sobre criar quadrinhos…

  • TONY –  A lista é grande, mas vou citar aqui os artistas que realmente me influenciaram (e ainda influenciam) no meu modo de desenhar quadrinhos.  Frank Cho e Adam Hughes são uns dos caras, Horacio Altuna é outro, curto demais a maneira natural com a qual  desenha figuras femininas (tento transmitir isso quando desenho Aline); sua composição de cena e ângulos são  verdadeiras aulas. Falando em aulas de composição de cena, ângulo e narrativa, Juanjo Guarnido e Enrico Marine, são mestres pra mim. Curto também, a narrativa maluca do Olivier Coipel. Pra falar de artistas nacionais, posso citar a minha “trindade”: Joe Bennett, Ed benes e Mike Deodato. Enfim, são esses os caras que estudo e que realmente me influenciam quando pego meu grafite e uma folha de papel em branco.
  • CORTIZO – Comecei com Conan de John Buscema, muito tempo atrás. Depois peguei uma bela fase do John Byrne nos X-men e Miller e Mazzuchelli que me fizeram adorar cada vez mais os quadrinhos e perceber como eles também se influenciavam por filmes e outras fontes inspiradoras pessoais. Como desenhista gostei muito do Mark Silvestri, Alan Davis, Mike Mignola e Michael Golden, só pra citar alguns mais experientes. Depois vieram caras mais modernos por assim dizer, como o Mikel Janin, Doug Mahnke ou Brian Hitch, que me atraía mais, pois a pegada era menos colorida, menos cara de super-herói, onde o uniforme parecia fazer sentido pois era muito mais perto de um soldado, algo que sempre tentei imprimir na Tribo. Fora isso sempre gostei de animação japonesa, na sua ação mais frenética e recentemente jogos de videogame me inspiram bastante tanto nas concepções quanto no modo dos personagens usarem seus “super poderes“.

 

PZ – Ainda no aspecto criativo, o que uniu os projetos individuais de vocês para se tornarem esse grande encontro que é “Carrapato”?

  • TONY – Sempre fui fã da Tribo. Me amarrava no visual dos personagens, A tribo situada em SP, meus personagens em RJ (uma ponte aérea de distância), quanto mais eu conhecia, mas eu tinha certeza que ,com a historia certa, daria muito certo um encontro dessa turma com meus personagens, Perseu & Aline. A ideia foi amadurecendo ao longo dos anos, até que, meados de 2013, conseguimos pensar em uma historia que realmente valia a pena fazer e que serviria para cronologia de ambos. Quando soubemos que iria acontecer a Comic Con Experience, esse foi o nosso foco: lançar no evento. Graças a Deus e a custo de algumas noites mal dormidas deu tudo certo.
  • CORTIZO – A dificuldade de se fazer sozinho um projeto desses no Brasil sempre é o maior vilão de qualquer personagem brasileiro. Como eu e o Tony já nos conhecíamos desde o finado fotolog Terra (que os deuses digitais o tenham! ) já esboçávamos uma vontade de unir personagens ou fazer uma arte colaborativa, mas acho que as nossas descrenças no próprio potencial era bastante reduzida, então nada saía. No ano retrasado o Tony me convenceu de que seria uma boa e o fato de ambos os “universos” dos nossos personagens se tratar do Brasil contemporâneo ajudou na hora de botar a cabeça pra funcionar e criar algo que servisse para todos e que inclusive teria relevância na cronologia das futuras HQs.

PZ – Qual foi a grande dificuldade na produção da HQ?

  • TONY – Talvez  a grande dificuldade tenha sido conciliar nossos empregos e compromissos com a produção de uma revista de 98 paginas, feita inteiramente por apenas DOIS caras sem noção. Quando digo inteiramente, quero dizer inteiramente mesmo. Todo o processo da revista; roteiro, desenho, cores, balões, diagramação e cafezinho, fora a correria pra imprimir tudo a tempo, feita por Cortizo e eu. Escaparam sim, alguns erros, mas quando pegamos pela primeira vez a revista pronta nas mãos, vimos que o trabalho tinha valido a pena e que tínhamos acertado. A revista ficou exatamente como queríamos e a gráfica caprichou no acabamento.
  • CORTIZO – A produção é sim difícil, pois fizemos tudo sozinhos. Digo, dividimos a cada cinco páginas à princípio e cada um foi fazendo sua parte depois de concordarmos com o roteiro prévio. Isso quer dizer que também fazíamos os traços e cores de cada página, colocamos os textos nos balões, diagramamos as revistas e fomos atrás da gráfica que produzisse isso a tempo e com um preço razoável. Mas isso é bom pois faz com que você pelo menos conclua um trabalho tirando ele definitivamente da gaveta e entenda todos os meandros dessa via crucis. A distribuição é outro monstro que atrapalha por um lado, mas se grandes editoras sofrem com isso talvez seja mesmo melhor vender pela internet ou em eventos. O chato disso é que muita gente não entende que precisamos colocar um valor que geralmente é maior que uma revista de editora, que sai todo mês e tal, pois tudo vem do nosso bolso e nisso nem contamos o pagamento do artista, que no caso somos nós, e só queremos o suficiente pra pagar o que investimos.

 

PZ – Como tem sido a jornada de vocês para divulgar o material?

  • TONY – Seria bom se mais sites especializados, fizessem como Ponto Zero está fazendo agora, abrindo as portas e dando um pouco mais de atenção e espaço às produções nacionais. Não estou com aquele velho “vitimismo de quadrinista nacional”, acho que se tiver qualidade vão sim se interessar em mostrar (como já estão fazendo alguns sites com a nossa Carrapato,) mas realmente, ainda falta algum espaço nos sites especializados. É um longo caminho, mas as coisas já estão melhorando nesse quesito.
  • CORTIZO – A gente recorre a sites e pessoal especializado pra ver se conseguimos uma ou outra notinha que cause algum interesse mínimo. Vimos que apesar da boa vontade, algumas informações foram passadas erroneamente ou foram tão superficiais que deram a impressão de que o material não foi sequer lido. A gente sabe dos erros que temos, mas também tem alguma qualidade ali. Gastamos um bom tempo pra não só fazer as nossas revistas, mas para participar e engrossar o movimento de HQs nacionais com um produto que tenho a impressão de correr à margem, visto que quadrinho nacional parece ter de ser “cabeçudo” pra que se tenha algum valor. É antes de tudo uma HQ pra se divertir.

 

PZ – Como é o contato com o fã atual que tem contato com redes sociais e muitas das vezes pode falar diretamente com vocês sobre o material?

  • TONY – Essa tem sido a melhor parte. Ter esse retorno, saber o que a galera curtiu, suas opiniões, suas sugestões e críticas, quase que em tempo real tem sido muito gratificante. Isso com certeza nos ajuda a melhorar. Ouvir que um leitor já conhecia e até já era fã de um determinado personagem nosso também é muito bacana.
  • CORTIZO – Essa é uma vantagem de se falar direto com quem compra. A gente conversa um pouco, pede opiniões sobre o que achou, faz uns desenhos exclusivos junto pra dar uma valorizada nas revistas e eu me sinto na verdade muito feliz quando o cara vem falar com a gente dizendo que já conhecia o personagem e curtiu os “easter eggs” e homenagens a filmes e outras coisas que colocamos nas páginas.

PZ – O que tem de mais diferente hoje para se fazer quadrinhos e que facilita a chegada desse material ao fã? As redes sociais tem ajudado realmente?

  • TONY – Devemos sempre acompanharmos a evolução das coisas. O que tiver pra facilitar e melhorar nosso trabalho devemos aproveitar da melhor forma possível. Antes era bem mais complicado divulgar um trabalho assim, hoje a maior parte do nossos leitores estão vindo através de nossas  divulgações em redes sociais. Estamos pensando em criar um site, talvez algumas HQs pra download, mas isso são planos pra mais tarde.
  • CORTIZO – Tirando os sites especializados, a gente praticamente só usa as redes para divulgar e alcançar o público, seja com uma página das revistas ou divulgação de algum evento, por exemplo. Quanto a fazer os quadrinhos eu acredito que não muda muito não. Se faz como se faria com as ferramentas sejam elas “reais” ou digitais disponíveis. O lance é que você vê tanta coisa legal por aí e tem de se perguntar se quer fazer parte disso. A gente optou por fazer edições impressas por questão de sonho realizado mesmo, mas acho que oferecer o produto digital é muito bom também! Dá pra ler no banheiro do mesmo jeito!

 

PZ – Vocês estiveram na Comic Con Experience no fim de 2014, falem um pouco dessa experiência dos grandes eventos e como eles influenciam na obra e futuros planejamentos de vocês.

  • TONY – É aquele famoso “pedacinho de sonho realizado”. É realmente motivador você estar ali, ter o contato direto com o leitor, bater um papo bacana com ele (alguns até pedem pra tirar fotos hehe) e além de estar cercado de gente bacana e talentosa. Nesses eventos a gente pode ver de perto que o leitor brasileiro está sim aberto a coisas novas, basta ter qualidade. Com certeza todo esse ambiente nos motiva a voltar esse ano com coisas novas.
  • CORTIZO – O evento em si motiva muito, o fato de você poder vender o seu trabalho diretamente para as pessoas e poder conversar com elas é incrível. O fato de se cercar por uma galera sensacional que divide o espaço do evento com você ajuda muito a querer continuar e encontrá-los no evento seguinte e se possível com coisas novas.

 

PZ – Agora queremos um pouco da opinião de vocês sobre o financiamento coletivo de obras pelo Catarse. Há algo nos planos de vocês para esse modelo de negócios em que o fã patrocina a obra?

  • TONY- Acho uma excelente ideia. Cartase tem ajudado muito material bom a ser produzido. Só não tentamos o financiamento da Carrapato por lá por não ter tempo de preparar as recompensas e tudo mais… mas quem sabe esse ano a gente tente uma segunda edição primeiro por lá. Alguém aí colaboraria?
  • CORTIZO – A ideia é muito boa. O que lançamos foi como foi porque a gente não teve tempo pra se organizar e preparar recompensas a tempo. Me parece muito legal o fato de poder produzir e descobrir que tem muito mais gente que acredita no que você está fazendo além de você.

PZ – Para encerramos, o que, na visão de vocês como criadores, ainda precisa ser feito de modo geral para haver um mercado de HQs nacionais forte e constante?

  • TONY – Bom, acho que a produção de quadrinhos no Brasil nunca esteve tão cheia de qualidade. Acho que isso é importantíssimo para ajudar a desenvolver e aumentar o mercado de quadrinhos no país e, com isso, acabar de vez com o preconceito em relação aos quadrinhos. Mas precisamos ser vistos! Alguns quadrinistas dizem que não precisam das editoras, as editoras dizem que não precisam da gente… Tudo se resolveria se tivesse um meio termo nessa “disputa”. Precisamos sim de apoio (não só de editoras, mas de gente com influência no meio, sites especializados etc…) e as editoras deviam sim abrir um pouco de espaço pra gente.  Não existe um fórmula mágica, vamos ter que descobrir como fazer dar certo. Lembrem que a indústria de quadrinhos americana foi construída em cima de tentativa e erro. Ninguém sabia que estava no caminho certo até começar a ganhar dinheiro. Mas uma coisa é certa, como pude presenciar na CCXP, leitores e interessados em coisas novas nós temos.
  • CORTIZO – Editoras que acreditassem nos projetos de desconhecidos seria bom, mas é mais fácil encontrar alguém que solte raios pelas mãos do que isso, hehehe. Mas brincadeiras a parte, acho que quem faz mesmo a diferença é o leitor. É ele quem compra e acredita nos autores nacionais. O mercado funciona com o retorno financeiro, isso possibilita a produção de edições físicas que muita gente diz preferir, e com o retorno do autor ele vai poder bancar a próxima e aí vender mais barato e talvez alcance mais público. Material tem para todos os gostos. Ah, e divulgação é essencial. A gente sabe que se lê muito mais material de fora, mas os nacionais poderiam ser vistos com um pouco mais de carinho pela galera que adora quadrinhos e tem influência suficiente pra ajudá-los a crescer.

 

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“Separem suas bermudas e cangas,pegue um cantinho na areia e observe um belo dia de sol se transformar num pesadelo carregado de balas,explosões,gore,biquinis e agua de coco na ordem que preferir.”

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  • Título: A Tribo, Perseu & Aline: Carrapato
  • Autores: Tony Brandão e Junior Cortizo
  • Páginas: 96 páginas
  • Colorida
  • Valor: R$: 35,00 + frete

Você pode aquirir A Tribo, Perseu & Aline: Carrapato através dos seguintes canais de comunicação:

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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