O livro é: Os próprios deuses de Isaac Asimov

Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão.

Friedrich Schiller

Quando dizem que certos autores são mestres ou que suas obras são verdadeiros legados literários, por vezes é preciso que chequemos isso de forma direta e, ao final do processo, constatemos que a afirmação sobre a qualidade de tais autores e obras é a mais pura verdade.

Assim foi com o livro Os próprios deuses (Editora Aleph, edição de 2010) do mestre Isaac Asimov… resenhar obras assim é sempre complicado, parece que já se disse tudo, mas no fim das contas é sempre impossível dizer tudo sobre uma obra tão simples e ao mesmo tempo tão instigante, ainda mais quando você tem um mesmo fato sendo abordado por diversos personagens, inclusive personagens de um universo paralelo ao nosso em uma das mais criativas viradas narrativas propostas por Asimov.

Os próprios deuses Para um olhar bem atento ao que se propõem o livro, o próprio título do mesmo é essencial. Os próprios deuses trata tão simplesmente da vaidade das pessoas, de sua estupidez e ignorância, da necessidade de sobressair ao outro, de provar algum tipo de verdade e, acima de tudo, trata de interesses estritamente pessoais.

Da descoberto de um novo elemento químico, passando pela manipulação do passado histórico científico em torna da grande descoberta e de seus desdobramentos, indo até um universo paralelo ao nosso no qual seus habitantes testemunham o lento e gradual fim de tudo em sua realidade e de volta ao nosso universo sobre e sob a superfície da Lua, Asimov guia seu leitor por um passeio pelos meandros da vaidade científica cujos interesses e manipulações poderiam ser as do mais torpe dos canalhas apenas para nos dizer que essas pessoas não são deuses de modo algum…

A citação de Schiller, além de dar nome ao livre também é utilizada para nomear seus três capítulos: 1) Contra a Estupidez, 2) Os próprios deuses e 3) Lutam em vão?. Cada um dá foco a um núcleo narrativo distinto, com seus personagens e situações problemáticas que giram em torna da maior invenção humana: a Bomba de Elétrons, cuja criação é atribuída ao radioquímico Fredrick Hallam.

Contra a Estupidez

Em um futuro relativamente distante e carente de novas e mais poderosas fontes de energia, Fredrick Hallam descobre em 3 de outubro de 2070 um elemento químico completamente inexistente no mundo até então… inexistente e acima de tudo, impossível de existir conforme tudo que as muitas ciências conheciam até então. A partir disso Hallam começa intensos estudos para descobrir como o elemento químico previamente inexistente foi parar ali no lugar uma simples amostra de Tungstênio.

A descoberta se desdobra até a constatação de que o novo elemento químico é Plutônio 186… uma impossibilidade física e química em nossas leis naturais, mas algo perfeitamente possível no Paraverso, um universo paralelo ao nosso que “leva” embora Tungstênio 186 e “deixa” no lugar o Plutônio impossível, elemento capaz de gerar bastante energia conforme sua taxa de estabilidade começa a cair e haver emissão de radiação. Hallam recebe umPrêmio Nobel ainda engatinhando em sua carreira científica, com a tinta de seu doutorado ainda fresca, como diz o próprio livro.

Os estudos da Para-física se originam daí, seguem para a criação da chamada Bomba de Elétrons, um poderoso invento que bombardeia em mão dupla, elétrons para nosso universo de um lado e pósitrons para o outro lado, o chamado Paraverso. Tem-se então uma fonte inesgotável de energia limpa, gratuíta e completamente benéfica… Nem tanto para o cientista e pesquisador Peter Lamon cujas pesquisas históricas a cerca da construção da Bomba de Elétrons e dos méritos de Hallam em tal processo esbarram na manipulação do passado histórico, no descrédito dos desafetos de Hallam e na completa e total falta de talento do mesmo para ser o “pai da bomba de elétrons”.

Os próprios deuses  isaac asimov
Isaac Asimov

Este primeiro capítulo todo gira em torna da quase obsessiva busca de Lamont por provas que indiquem que não fomos nós, especificamente Hallam, os responsáveis pela construnção da bomba e sim os chamados para-homens, os seres que vivem no Paraverso, já que partiu deles a iniciativa de “pegar” Tungstênio e “deixar” Plutônio no lugar.

Outro ponto caro na jornada de Lamont é o fato de que a bomba só existe em mão dupla, precisando assim, ser inciada no Paraverso e montado em nosso universo posteriormente, o que dá a eles o ponta-pé inicial da grande “descoberta” atribuída a Hallam, cujos métodos e procedimentos para silenciar seus detratores se iniciam com descrédito científico, silêncio acadêmico e encerramento de quaisquer vículos dessas pessoas com pesquisas de qualquer ordem… a começar por Benjamin Allan Denison, a primeira vítima de Hallam e testemunha ocular da “descoberta” do Plutônio 186, na ocasião um jovem cientista cujo histórico era muito superior ao de Hallam, mas que anos depois simplesmente caiu no total obscurantismo acadêmico e científico.

Além de provar a farsa erguida sobre a pessoa de Hallam e seus méritos, Lamont constata que as leis físicas de nosso universo estão, gradualmente, se minsturando com as leis do Paraverso, de modo que em um futuro gradualmente mais próximo a medida que a mistura ocorre, nosso Sol esfriará mais rápido devido as trocas constantes da Bomba de Elétrons entre os dois universos… processo que pode levar todo nosso braço galático ao colapso total e, mais adiante, todo nosso universo…

Contra tais fatos e contra os ataques do próprio Hallam para com sua pessoa, Lamont constrói seu percurso para provar ao mundo a farsa da Bomba de Elétrons e seus malefícios ao nosso universo… do senado, passando pela ajuda do amigo e linguista Myron Bornowski para decifrar as mensagens enviadas do Paraverso para nós, até tentativas de realizar experimentos numa estação na Lua, Lamont só obtém insucessos até o momento que o os para-homens enviam um mensagem a nós para que o nosso lado da Bomba de Elétrons seja encerrado…

Os próprios deuses

No capítulo central Asimov dá sua grande virada narrativa e nos guia por uma de suas mais interessantes e instigantes tramas fazendo jus ao título de “um dos grandes mestres da sci-fi” ao levar todo seu foco narrativo para dentro do Paraverso. É quando nos deparamos com uma sociedade dividida em dois grandes grupos: os Durões e os Suaves

Os próprios deuses
Capa de uma das muitas edições americanas de The gods themselves.

Os Durões são seres cuja vida longa é, por alguns Suaves, considerada praticamente eterna. São os pensadores, filósofos e cientístas dentro do Paraverso. É deles a responsabilidade pela tecnologia e desenvolvimento intelectual, são responsáveis pela educação dos Suaves ao logo de suas vidas. Já os Suaves se subdividem em três classes: a) Esquerdistas, também chamados de Racionais, pois desenvolvem estudos nas áreas científicas, b) Direitistas, também chamados de Paternais, pois são responsáveis pela “gestação” dos Suaves após a concepção e posterior cuidado enquanto ainda são considerados crianças; c) Emocionais, cuja função social é a de viver de forma mais livre, carregando menos responsabilidades práticas e tendo sob suas vidas a função de intermediar a relação entre os outros dois tipos de modo a equilibrar a relação entre eles formando uma Tríade, o que seria algo equivalente ao casamento entre humanos, só que envolvendo um ser de cada classe de Suaves.

É na Tríade que as três classes mantém um procedimento chamado de derretimento (um análogo a nossas relações sexuais), que envolve os três membros de modo que os esquerdistas, por intermédio do Emocioal e sua capacidade de “dissolver” seus próprios corpos, o que permite assim que se realizar uma “penetração” na substância do direitista por parte do esquerdista da Tríade.

É através desse processo de derretimento que a tríade originam outros suaves até formar outra tríade contento um de cada subclasse (esquerdista, direitista e emocional). Quando isso ocorre os suaves da Tríade devem deixar suas crias e “seguir em frente”, demoniação que eles usam para se referir de forma branda a morte da Tríade.

É nesse contexto que encontramos a tríade Odeen (esquerdisata-racionalista), Tritt (direitista-paternal) e Dua (emocional). A mais incomum das Tríades dentro da sociedade que Asimov cria dentro do Paraverso… Odeen avança prodigiosamente em seus estudos muito mais do que outros esquerdistas de sua idade e acaba por compartilhar seus interesses e conhecimentos com Dua, uma emocional diferente de todos, já que apresente interesses por conhecimentos científicos, algo considerado pervertido e ruim para um de sua classe, e por fim, Tritt, o mais banal de todo, mas cujo interesse em gerar uma nova Tríade ultrapassa o pacifismo de sua classe.

O trio de seres e seu mundo é encarado narrativamente com extrema naturalidade, de modo que seu cotidiano é narrado de forma direta, suas motivações e características exploradas de forma tão simples e exatamente por isso fascinante.

Na transição do capítulo anterior para este houve um certo estranhamento de minha parte, no entanto o desenvolvimento do drama particular da Tríade Odeen-Dua-Tritt vai aos poucos dando lugar aos acontecimentos que culminam até o ponto em que suas preocupações e sitauções cotidianas encontram com o desenvolvimento da Bomba de Pósitrons e o aparente envolvimento de um Durão completamente novo chamado Estwald no processo.

Durante todo o capítulo dentro do Paraverso, Asimov nos brinda com ótimas passagens em uma narrativa que em momento algum aborda aspectos alienígens e ainda assim nos lança em um mundo completamente diferente do nosso com seres igualmente ímpares e ao mesmo tempo fascinantes em suas complexidades e interesses… ao final deste capítulo me surpreendi me preocupando muito mais com o que houve no Paraverso do que com o que ira ser feito por Peter Lamont para desmascarar Hallam e sua farsa de 30 anos.

Lutam em vão?

Um cientista está conhecendo as instalações da Lua, guiado pela belíssima e Selena, o pesquisador afirma que pretende ficar no satélite natural da Terra para o resto da vida e ser um cidadão lunar em definitivo. No contexto da obra a Lua é o lar de uma grande colônia de humanos que, nascidos no ambiente de gravidade menor, jamais poderão voltar para a Terra e acabam criando por lá uma nova sociedade, com costumes próprios e até mesmo um intenso desprezo e preconceito pelos terrosos, termo pejorativo usado para se referir aos terráqueos.

O pesquisador em questão precisa utilizar os avançados equipamentos dos laboratórios lunares para iniciar uma intrincada pesquisa que ruma na mesma direção do que quer provar Lamont na Terra… entretanto o cientista precisa ultrapassar as barreiras do preconceito por parte dos lunares, acima de tudo, dos preconceitos de Barron Neville, um dos mais influentes cientistas lunares, cujo interesses envolvem manipular o visitante terrestre através da estonteante Selena, muito mais que uma simples guia turística de “terrosos”.

O terceiro e último capítulo de “Os próprios deuses” revela um intrincado jogo de interesses e manipulações para beneficiar a Lua como lugar independente da Terra, cuja principal fonte de energia, a Bomba de Elétrons, não pode ser replicada fora de sua superfície. É nessa corrida científica, também envolvendo egos, rivalidades políticas e jogos de interesses estritamente pessoais em detrimento da melhora geral que Asimov mais uma vez mostra que, além de falar bem de ciência em obras ficcionais também conhece os meandros da personalidade humana e até onde somos capazes de ir em prol de nossos umbigos e, de quebra, até mesmo beneficiar alguém nesse processo; mesmo que de forma indireta.

A sutil brincadeira com a frase de Shiller é justamente a essência dos três capítulos do livro, com a diferença de que ainda são os homens lutando incessantemente contra a estupidez… mesmo que seja no Paraverso.

Escrito originalmente em 1972, a edição atual pela Editor Aleph veio com nova tradução e aquele acabamento cuidadoso que as obras mais célebres da sci-fi vem tendo ao serem publicados ou republicados pela Aleph. Lançado em 2010, esta nova versão do livro se encontra disponível nas lojas especializadas no ramo e claro, no site da própria editora.

Cheio de pequenas surpresas em cada capítulo, a dificuldade maior em resenhar uma obra como essa é não estragar esses pedaços de surpresas que Asimov nos dá de forma tão fascinante quando é chegada a hora. Só resta dizer que merece o título de mestre para o autor e de clássico para a obra… não que houvesse dúvidas, mas para essas coisas é sempre bom constatar tão logo a oportunidade apareça. Recomendado é pouco ainda…

Os próprios deuses | Ficha técnica

Publicado anteriormente no Brasil com o título O Despertar dos Deuses, este vencedor dos prêmios Hugo e Nebula narra a descoberta de uma revolucionária fonte de energia que promete uma nova era para a humanidade. Não só por facilitar a vida de toda a população, permitindo que os cientistas concentrem-se em melhorias para o homem, mas por revelar a existência de um universo paralelo ao nosso.

A benéfica troca de energia com os habitantes dessa outra realidade abre caminho para uma série de estudos de uma nova ciência, batizada de para-física.

Quando um jovem e promissor cientista decide realizar uma pesquisa e registrar a verdadeira história por trás do desenvolvimento da Bomba de Elétrons Entre Universos, alguns fatos fazem com que surjam dúvidas sobre a veracidade da versão oficial.

Este livro surpreendente revela toda a inventividade de Isaac Asimov, que, narrando a mesma história de formas diferentes e pontos de vista alternados, nos leva por realidades, mundos e sociedades que são, ao mesmo tempo, fantásticos e verossímeis.

  • Autor: Isaac Asimov
  • 368 páginas
  • Preço sugerido:
  • Editora Aleph
  • Tradução: Silvia Mourão
  • Ano da edição: 2010
  • Brochura
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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