A saga dos Forerunners | Halo: Cryptum – Livro 1

Logo de cara não simpatizei muito com a ideia de um livro baseado em um universo de game, geralmente essas coisas não dão certo. Mas arrisquei a aposta no livro Halo: Cryptum – A saga dos Forerunners por um conjunto de fatores que não me deixaram saída a não ser vencer o meu preconceito, a saber: a) Greg Bear, prolífico autor da seara de Sci-fi desde a década de 1960 e do qual conheço praticamente coisa alguma, b) sou fã do gênero Sci-fi e Halo, o game, é um ótimo exemplar dentro da mídia dos games, juntar tudo de certa forma foi mais que convidativo, c) uma promoção aqui, outra ali e o primeiro livro da saga ficou mais que acessível nas contas e compras de fim de ano. Resultado? Uma das melhores aquisições para a estante nos últimos suspiros de 2014.

Halo: Cryptum
Capa do volume 1 da Saga dos Forerunners, Halo: Cryptum

Baseado nos prolongamentos do mega-sucesso do mundo dos videogames, Halo (saiba mais sobre o game AQUI), a trilogia da saga dos Forerunners traz luz e mais desdobramentos para o universo ficcional do game que ganha em breve sua quinta sequência, além, claro, de spin-offs diversos como HQs, animações, webséries etc.

Os desavisados devem ser alertados: acima de qualquer coisa, Halo: Cryptum é um ótimo livro de Sci-fi; apesar de se direcionar a princípio aos fãs da franquia de jogos, o livro é rico em aspectos descritivos de seus vários contextos (sociais, políticos, históricos, raciais etc), tem uma trama complexa, cheia de manobras políticas, jogos de interesses, viagens pelo espaço e se você nunca sequer viu um game Halo na vida, fique de boa, Greg Bear escreveu seu material pensando também em você que só quer ler um bom livro de Sci-fi com seres e culturas estranhas, grandes civilizações espaciais e tramas políticas e militares.

Mas caso você, assim como eu, seja um gamer que vem acompanhando a série Halo desde seus primeiros passos, a leitura será potencializada para outro nível, já que você vai acabar encontrando velhos conhecidos, senão personagens já vistos nos games como o Didata e sua esposa, a Bibliotecária, vai se deparar com raças e situações emblemáticas dentro da mitologia do game e, sem dúvida alguma, suas memórias afetivas serão ativadas instantaneamente.

Não à toa em uma cena lá pelas tantas quando, um Halo em ação é descrito ao leitor pela perspectiva de Bornstellar, é bem pouco provável que um fã da franquia não sinto um calafrio lhe percorrendo o corpo diante da demonstração de poder do gigantesco artefato.

 Halo: Cryptum | O que encontramos em Halo Cryptum

Halo: Cryptum é narrado em primeira pessoa, quase como um diário de exploração histórica do que deveriam ser as aventuras de Bornstellar Nascido nas Estrelas de Duração Eterna, intimamente chamado de Bornstellar (ou até mesmo Born) em busca de relíquias da extinta raça dos Precursores dispersas pelo cosmo. Born é um jovem Forerunner (na concepção do que é “ser jovem” de acordo com a cultura dos Forerruners que vivem milhares de anos), mas que pouco se sujeita aos padrões de sua raça e cultura.

Pertencente a casta dos Construtores, a mais alta e poderosa na sociedade Forerunner, tanto política como militarmente, Born adia e evita todas as possibilidades de suas mutações para ascender um posto maior do que o de Manipular, a casta mais baixa de sua espécie e correspondente a juventude, imprudência e indecisão da qual os jovens são dissuadidos a deixar na ocasião devida.

Exilado de seu mundo e distante de seus parentes, Born vive com uma família tutora de mineração Edom, como forma de castigo por suas constantes desobediências e questionamentos.

Halo: Cryptum
A Bibliotecária e seu esposo, O Didata

Mas a punição se torna a grande saída para o jovem Forerunner partir em suas aventuras em busca de artefatos perdidos dos antigos Precursores, a raça mais antiga do universo. Inadivertidamente Born acaba vindo até Erde-Tyrene , terceiro planeta do sistema solar ao qual se encontra exilado e onde habita a raça dos humanos, um antigo povo que, há mil anos atrás foi derrotado pelos Forerunners numa das guerras mais ferozes que eles já enfrentaram.

É neste estranho e primitivo mundo que Born, guiado pelos humanos Chakas e Elevação, vai até a cratera Djamonkin e acaba por libertar o guerreiro-servidor da classe dos Prometeus conhecido como O Didata (The Didact), um dos grandes e antigos generais dos Forerunners que, inclusive, combateu as outrora poderosíssimas esquadras humanas milênios atrás com suas Esfinges de Guerra.

Exilado por alguma razão desconhecida, ao despertar o Didata nota que Erde-Tyrene não era originalmente o mundo onde sua Cryptum deveria estar, assim também como Born percebe que nada ali é uma antiga relíquia dos Precursores, então Born percebe, já tarde demais, que os humanos Chakas e Elevação carregam marcas de manipulação genética feitas pela Forerunner da classe dos Manipuladores de Vida conhecida como A Bibliotecária (The Librarian, no original), a esposa do Didata que, aparentemente, vem manipulando acontecimentos e situações desde o exílio de seu esposo.

Intrigado pelos acontecimentos do último milênio, o Didata embarca em sua nave e leva consigo Born e os dois humanos em busca de respostas para algo que o Prometeu desconfia apenas levemente. Partindo de nosso sistema solar primitivo, Born acaba por conhecer mais do que imaginava sobre seu próprio povo e as histórias das antigas guerras dos Forerunners contra outras raças ao longo de milênios de avanço de seu povo pelo espaço infinito.

As surpresas ao longo do caminho do quarteto são muitas e a história construída por Bear não tem presa em se construir, o que, em muitos pontos, pode desanimar alguns fãs da série mais acostumados com a ação frenética dos games.

No entanto, a riqueza de detalhes da trama de Cryptum segue uma curva crescente de detalhes, situações de tensão e na hora oportuna a boa e velha ação se faz presente. Mas é bom frisar que Halo: Cryptum é um livro sobre os aspectos políticos, sociais, culturais e raciais de seus personagens, é sobre as mudanças operadas em Born que, já neste primeiro livro sentimos fluir naturalmente no caminho de se tornar alguém melhor, a começar por seu crescente respeito pelos dois humanos por quem o protagonista nutria desprezo e uma certa repulsa e por quem passa a construir amizade e admiração.

Halo: Cryptum
Bornstellar na versão da animação Halo Legends que explora também muitos desdobramentos da franquia.

O próprio Born vai se tornando um personagem realmente interessante ao longo da narrativa e através de seus relatos vamos imergindo cada vez mais fundo no rico universo de Halo que, por si só já era rico como game, e pelas perspectivas de Bear se torna ainda mais palpável e interessante.

Conceitos como as Ancilas (inteligências artificiais que controlam armaduras e veículos), as Esfinges de Guerra, a cultura de casta dos Forerunners, o subespaço, o contexto histórico da origem da raça humana, os nomes de personagens, as raças apresentadas e outros tantos conceitos do livro são mais que suficiente para prender a atenção do leitor paciente e curioso, já que estamos falando do primeiro de três livros, ou seja, ainda tem muito chão estelar pela frente.

Além dos muitos conceitos apresentados por Bear em sua narrativa, alguns destes presentes nos games outros criados exclusivamente para os livros, mas sempre explanados com cuidado e de forma a contribuir com o bom andamento de sua narrativa.

Bear também trabalha muito bem seus personagens e torna o casal Didata-Bibliotecária um dos pontos fortes de seu texto, mantendo a Bibliotecária como um tipo de força oculta de sua história, sempre adiante dos passos de seu marido recém desperto e cheio de dúvidas.

A dicotomia Born-Didata também nos brinda com ótimas situações de conflito, uma vez que Born deveria ser de uma classe acima da casta dos Prometeus, no entanto acaba sempre se sentindo muito abaixo do poderoso Prometeu por quem tece elogios e nutre grande admiração.

A própria sociedade dos Forerunners é explorada a contento na obra, sempre tendo em vista a condução dos acontecimentos ocultos dos olhos dos protagonistas e, por conseguinte, dos nossos olhos, já que Halo: Cryptum é narrado por Born.

Em muitos pontos a grande mitologia da franquia Halo acaba por nos lembra bastante outro grande sucesso dos games no estilo Sci-fi: a trilogia Mass Effect, também repleta de raças, hierarquias, conflitos intergalácticos, uma ameaça descomunal e iminente. Apesar de ter sido lançado posteriormente, Mass Effect acabou por se tornar, ao menos para mim, o típico caso de influência reversa.

Halo: Cryptum Greg Bear
Greg Bear

Com um texto ágil, detalhado e com personagens interessantes, Halo: Cryptum tem tudo para agradar, acredito eu, tanto os fãs do game quanto os fãs da boa e velha Sci-fi Hard, com extrapolações, conflitos de ordem existencial e cultural, cujo objetivo é sempre o de refletir pontos de vista variados.

Bear, ganhador dos prêmios Hugo e Nebula, segue bem a cartilha de grandes mestres como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Frank Herbt, Ursula K. Leguin e tantos outros mestres que cimentaram a passarela para que a Sci-fi ganhasse cada vez mais espaço.

Ao mesmo tempo que segue a cartilha dos clássicos, Bear bebe nas novas fontes de inspiração para criar novidades a partir do que foi feito no roteiro/enredo dos games da franquia Halo, dando ao leitor, tanto o sabor do novo quanto a memória dos sabores já degustados.

Só para frisar mais uma vez, Cryptum abre magistralmente a Trilogia dos Forerunners e deixa uma porta escancarada nos convidando para ir até Primordium, o segundo livro, onde os mistérios, tramas e manobras políticas dentro da sociedade Forerunner irão se expandir ainda mais.

Com personagens interessantes e que vão aos poucos se revelando e evoluindo na narrativa, aliados a um riquíssimo pano de fundo histórico, cultural e conceitual, fica a curiosidade de saber em que ponto e como Bear fechará sua obra de forma consonante com o que foi visto até agora nos games.

Não vejo a hora de poder começar Primordium e seguir, tão logo seja possível, para Silentium e finalizar essa brilhante expansão do universo Halo.

Halo: Cryptum foi originalmente lançado nos EUA em janeiro de 2011, aqui no Brasil a primeira edição nacional pela Editora Planeta foi lançada em 2012.

Halo: Cryptum | Dados da edição

Há 100.000 anos, a galáxia era povoada por uma grande variedade de seres. Mas uma espécie, mais adiantada que todos as outras em tecnologia e conhecimentos, conseguiu dominá-la. Eles governaram em paz, mas tiveram que enfrentar a oposição com eficácia rápida e brutal.

Eles foram os precursores — os guardiões do Manto, a forma de vida mais avançada no Universo. E então eles desapareceram.

  • I.S.B.N: 9788576658672
  • Idioma: Português
  • Tradução: Julio de Andrade Filho, Cecília Dourado e S. Carvalho
  • Ano: 2012
  • 1ª Edição
  • Volume 1 da coleção A Saga dos Forerunners
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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