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ENTREVISTA | O EDITOR FABIO CHIBILSKI BATEU UM PAPO COM O PONTO ZERO

Aproveitando as comemorações pelo Dia do Quadrinho Nacional batemos um papo com o editor e desenhista Fabio Chibilski sobre os rumos do mercado, produção autoral, webcomics, distribuição e outros assuntos pertinentes a quem deseja adentrar o fantástico mundo das HQs profissionalmente.

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Fabio Chibilski é o chefão da Editora Cultura & Quadrinhos e do Ink Blood Studio (que presta serviços para o concorrido mercado norte americano), responsável pelo retorno da lendária revista Spektro, que ficou famosa nas décadas de 70 e 80, sendo que este sucesso com o gênero horror e terror já vinha perdurando desde a década de 50 no Brasil, com varias revistas e editoras investindo no mesmo.

Este movimento de quadrinhos ficaria marcado como uma das épocas mais prolificas do quadrinho nacional, em seu auge a revista Spektro chegou a vender aproximadamente 40.000 exemplares.

A Spektro, publicada pela Editora Vecchi, sobre a batuta de Ota Assunção, editor na época, revelou grandes nomes do quadrinho nacional e popularizou a obra de mestres das HQs, como Flavio Colin, Elmano, os irmãos Portela, Julio Shimamoto, Ataíde e Kussumoto, Antonio Manoel, Vilachã e Nico Rosso

 

[divider]Vamos ao bate-papo[/divider]

PZ: Dia 30 de janeiro é comemorado o Dia do Quadrinho Nacional, em sua opinião o que se tem para comemorar realmente, se houve um amadurecimento do almejado mercado, ou vivemos apenas bolhas de movimentos isolados e desarticulados?

FC: Ainda não ha o que comemorar. Não existe mercado. Apenas bolhas de autores ou grupos.  Um dos grandes problemas é o autor de HQ. Nacional ver concorrência em outros autores nacionais. Estão todos ferrados e mesmo assim um quer puxar o tapete do outro.

PZ: Gostaríamos de saber por que investir em terror, e especificamente na Spektro, e não em um título completamente novo com uma linguagem mais contemporânea?

FC: Durante muito tempo ficou um vácuo no meio das publicações, o terror sumiu quase completamente, apenas ficando entre os fanzineiros. Eu sempre gostei de terror e vi nisso um novo mercado bolha a ser construído. Meu publico tem em media 30 anos. Spektro porque era minha paixão de adolescência.  Como o titulo estava muito tempo sem ser republicado, tive interesse. E em varias conversas com o Ota, consegui trazer a revista de volta. Tenho em mente, para este ano publicar títulos de terror e ação mais teen.

PZ: Como esta sendo a receptividade do publico com a revista e quais outros projetos estão em andamento pela Cultura & Quadrinhos?

FC: A recepção está muito boa, já criamos um publico fiel. O terror está voltando aos poucos. As series de terror da TV a cabo tem contribuído para o interesse no gênero entre pessoas mais jovens. Temos no cronograma da editora, uma reformulação da revista Stigma, que passara a ter um numero de paginas superior a 100.  Estamos trabalhando também num mix de faroeste “Calibre 45”, também na nova revista do Chet faroeste, agora em tamanho grande e republicando HQ’s antigas junto com matérias e HQ’s curtas inéditas do personagem. Estamos retomando a linha infantil também. Temos a revistinha do “Carmo o Impricante” que esta indo muito bem, a tiragem foi de 5000 exemplares e as vendas estão sendo muito boas.

 

PZ: E como esta o setor para quem quer viver exclusivamente de seu trabalho, é possível, ou no caso o mercado internacional ainda é o melhor caminho para se consolidar uma carreira, obter reconhecimento e uma boa remuneração?

FC: É possível para o autor de quadrinhos viver com muito trabalho. Para o desenhista, arte finalista, colorista, é muito difícil. O meio está inchado com o número de profissionais, ainda é mais fácil fora. Aqui tem que ter consciência que a concorrência é grande e os valores pagos muito baixos.  Ser quadrinista no Brasil ainda é uma grande aventura. Mas alguém tem que fazê-lo, é uma selva selvagem que tem que ser desbravada.

PZ: A internet e os webcomics facilitaram a popularização da produção autoral e amadora também, podemos dizer que substituíram de uma forma mais ágil os antigos fanzines, contudo entre o acúmulo de likes e a formação de um mercado real e com a fidelização de novos leitores, existe um grande abismo que parece que precisa ser transposto e principalmente decifrado. A Cultura & Quadrinhos tem planos para esta área e como editor como encaras este cenário virtual?

FC: A era digital sem duvidas ajudou muito na divulgação e propagação dos quadrinhos, mas também tornou-se, o seu vilão. Eu não vejo ninguém atualmente no Brasil ganhando dinheiro com Webcomics. Salvo aqueles que se utilizam de patrocinadores em suas páginas, mas que não são muitos e são concorridos.  O maior problema de se publicar HQ online e vende-la através de programas básicos como PDF OU CBR, é ter um fluxo continuo que não seja quebrado pelos sites de scan. Minha revista Anubis que era vendida física e digital acabou caindo em muitos sites de scan americanos. Muitos vão dizer… mas isso ajuda a divulgar e depois vender a física?… Meus caros, só os poucos colecionadores compram a física depois de lida, os leitores de ocasião ou que só lêem como passatempo não vão comprar depois de ler de graça. Nós vemos pessoas se glorificando por ter mil acessos no seu site e ter a revistinha lida, porém não consegue vender nem 100 exemplares da física. A realidade é que ainda não há mecanismos bons para se ganhar dinheiro com Wecomics, mas serve muito bem como divulgação e é dessa forma que nós usamos. Outra coisa terrível, é que vários editores de facebook estão acostumando mal à molecada. Toda vez que eu coloco uma propaganda de revista nova, vem um moleque pedir o link para ler… Esse pessoal que coloca revistas de graça para serem lidas fazem um trabalho muito bom de desconstrução de um mercado já não existente. O povo está acostumando a ter tudo de graça. Isso não é hobby, é minha profissão e tem que gerar receita.

PZ: Catarse o novo “Eldorado” do produtor nacional, assim como os editais de governo foram há algum tempo, Como analisas esta plataforma, e suas similares, o que o crowdfunding esta trazendo de benefícios reais, e um fato importantíssimo será que esta formando uma nova geração de leitores, já que não temos dados reais do publico atingido, vendas, tiragem, etc…?

FC: Não está formando publico, visto que as revistas vão para os patrocinadores que contribuem com valores. Boa parte do arrecadamento vai para as equipes. As revistas são vendidas a preços altos, e somando o envio por correio, acaba ficando inviável para quem quer comprar. As compras pelo governo não ajudou em nada o mercado, a não ser o bolso de editores e poucos artistas, visto que quem faturou legal foram editoras. Enfim, são dois sistemas que ajudam grupos e não vem a contribuir para o desenvolvimento de um mercado. Um mercado real é a grande massa, o povo comprando uma mercadoria de preço bom e que retorne mês a mês. Temos exemplos de grupos que atingiram suas metas e não chegaram a enviar as revistas aos investidores, coisa entre pouco mais de 300 revistas. Como um povo desses estará contribuindo para formação de novos leitores ou um futuro mercado…

PZ: Ainda falando do Catarse, vemos projetos belíssimos sendo executados com padrão de qualidade que não deixa nada a desejar a matérias de fora em termos de acabamento gráfico e editorial, contudo estes projetos acabam encarecendo o produto final, já vi alguns que mesmo em seu formato digital vem sendo comercializados com valores que ultrapassam o preço de revistas  em banca, será que se esta investindo muito em qualidade gráfica e se esquecendo de se criar produtos acessíveis ao grande publico?

FC: Sem duvida. O problema é fazer tiragens baixas de 200 a 500 exemplares e usar gramaturas altas, verniz nas páginas etc… Lembrando que em certa época a Abril resolveu elitizar os quadrinhos com a série Premium e quebrou a cara.  Capa couche 150 gramas, miolo com couche 80 gramas já está de bom tamanho e não é caro.  Eu trabalho com gráficas… Eu conheço os valores…

PZ: Um dos grandes dilemas do autor nacional é a questão da distribuição, que para quem não sabe leva uma boa fatia de quem almeja botar seu material em banca, poderias dar uma breve explicação destes bastidores ou existem “forças ocultas” que te impedem de tocar neste assunto?

FC: Produzir uma revista não é difícil, o terrível é vendê-la. A distribuição monopolizada no Brasil, cobra 50% do preço de capa. Isso se torna inviável para o independente. Livrarias e comics shops cobram em media 40% do preço de capa, o problema persiste porque o independente ainda vai arcar com o envio da mercadoria e praticamente quase voltamos aos 50%.  A diferença das comics shops é que ainda da pra negociar uma porcentagem melhor. Tenho parceiros me cobrando 30% do preço de capa, é tudo questão de negociar.  Um amigo editor me disse, “fuja das bancas, não vale a pena, pra mil revistas distribuída apenas 100 serão vendidas”. Esse editor é muito importante no Brasil… Outra coisa que impede a entrada de um independente na distribuição nacional, são as tiragens. 10 mil exemplares ainda é tiragem baixa. Para o independente resta distribuir em comics shops, fazer distribuição setorizada na sua cidade e cidades vizinhas com distribuidora local ou ainda ir em banca em banca e acertar a venda direta com o jornaleiro, bem no estilo formiguinha,  assim fugindo do esquemão.  Para você (nós) independente será difícil chegar em banca sem acabar endividado, dificilmente uma revista pega antes da  quinta edição, mas você não tem esse tempo de testar material, você é pequeno, já tem que dar certo de primeira, e nem sempre dá. Então invista em distribuição local, vendas por email, vendas por mercado livre, pague seguro, faça vários lançamentos em livrarias e comics shops diferentes, porque em cada lançamento você deságua uma quantia boa. Enfim, você independente tem que ralar pra caramba pra fazer o sonho acontecer.

PZ: Bancas de revista ainda seriam uma opção, já que as grandes editoras ainda investem neste nicho, mesmo que a tendência seja as comic shops, livrarias e vendas diretas na internet?  

FC: Banca só para as grandes, pequeno não sobrevive. As grandes tiragens possibilitam bons preços de capa. Mesmo a venda baixa, vai acabar pagando a produção. E a editora grande tem capital de giro para agüentar o tempo de uma revista pegar.  Um independente não tem condições de competir com o preço de capa de uma grande, vai ser devorado.

PZ: E como esta a questão de patrocínio nesta área, algo mudou já que aparentemente os quadrinhos se popularizaram nos últimos anos, principalmente depois do advento dos filmes de Super-Heróis tornarem um assunto no mínimo mais próximo da realidade de brasileiros que nunca leram uma revista em quadrinhos?

FC: O patrocínio vai depender do tipo de publicação, publico alvo, preço de capa, distribuição e a abordagem do investidor. Minhas revistas de terror não possuem patrocinador. Terror é um gênero difícil de se achar investidores que queiram ligar sua marca a tanto “gore”, porém a linha infantil vai bem, e é tranqüilo de conseguir investidores. A revistinha do Carmo esta com investidores, minha revistinha “Turminha legal” foi feita só com dinheiro de investidores e distribuída gratuitamente (5000 exemplares). A forma como as revistas serão distribuídas terá um grande impacto para atrair um patrocinador, afinal você esta prestando um serviço, não é doação. O investidor quer ver sua marca bem vinculada a um bom produto, e que este, realmente apareça. A maioria das abordagens são erradas, o moleque entra numa empresa como se estive-se indo ao colégio se reunir com os amigos, é claro que vai sair de mãos vazias. É preciso um planejamento bem feito do produto, ter um boneco feito em gráfica ou no mínimo em copiadora de boa qualidade, um gráfico de como será divulgado, distribuído, eventos que participará, feiras, enfim a promoção da revista e por fim custos reais de gráfica e produção artística. O investidor não é burro, é um empresário e com certeza estará por dentro ou pesquisará os custos. O patrocínio é muito viável aos quadrinhos basta saber como fazer. Eu uso vendedores. (sou muito feio para abordar clientes), Risos…

PZ: Comic Con ou FIQ, qual o evento que realmente pode contribuir com a formação do mercado, um é pago o outro gratuito, este ano teremos os dois formatos, ano passado vimos uma das comic cons canibalizando sua concorrente. Será que isto vai acontecer com as bienais, ou teremos a formação de um calendário de eventos distintos?

FC: FIQ já criou raízes. De uma forma ou outra sempre será favorecido o estrangeiro, os independentes ainda estão sendo pouco valorizados nos eventos. E estamos falando de um mercado nacional, o estrangeiro já esta no nosso quintal há décadas. Então precisamos de uma melhor divulgação e valorização do independente. Aqui no Paraná vamos para a terceira edição da “GIBICON”, e novamente vemos os estrangeiros com regalias e o autor nacional em parte aberta do evento (quase lado de fora) pagando R$600,00 em mesa de plástico, para expor sua revista e vendê-la. Velho, o cara rala para produzir a revistinha, pega um ônibus em outra cidade ou estado para ir ao evento, vai precisar se alimentar e lugar para dormir. Hotel nem pensar tem que ser casa de amigos, lanche rápido e barato, porque tem que vender revistinha pra caralho para pagar ônibus, vinda e retorno, hospedagem (hotel), alimentação e ainda a dita cuja mesa de 600 contos. No final o cara pagou pra ir expor as revistas, esse é um quadro que tinha que mudar. Quadrinista independente pagando em evento para expor suas revistas é terrível, os eventos tinham que viabilizar patrocinadores só para este fim e não cobrar de quem já rala muito.

PZ: É inegável o apelo de uma Comic Con, contudo é um evento caro e que condensa 40 anos de estrada sem espaço para aprendizado para o mercado já que é um modelo importado e formatado para a realidade americana. Além do grande espetáculo também traz consigo os problemas de suas irmãs americanas, onde o pessoal do setor de quadrinhos mostra-se insatisfeito, pois a cada ano perde relevância em relação a outras atrações como cinema, televisão e games dentro de um espaço que começou justamente com os quadrinhos. E o que falar em termos de Brasil onde nem ao menos temos um mercado de quadrinhos real?

FC: Simples, será uma gigantesca vitrine de artigos americanos, asiáticos e europeus (europeus até seria muito bom), mas infelizmente muito pouco nacional. 

PZ: Fabio sua mensagem aos aspirantes que querem se profissionalizar e assumir a árdua tarefa de ser um produtor de quadrinhos nacionais?

FC: Produtor nacional… Você já nasceu com a maldição… Não… Não pense que isso é uma dádiva… Dádiva é dada a pessoa comum que come seu churrasco e assiste futebol no final de semana, para descansar do trabalho da empresa… Esse nasceu com a dádiva… Você não… E não adianta fugir, tentar ir por outro caminho… Cedo ou tarde você voltará a sonhar… Você nasceu um sonhador e isso lhe mantém vivo… Se você viver a vida real, você morre…Então trabalhe para transformar estes sonhos na realidade, no dia a dia…Com muito suor e noites em claro…Bem vindo ao inferno…Aqui é quentinho e nunca monótono…

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É Bacharel em Psicologia, porém optou por sua grande paixão trabalhando como ilustrador e quadrinhista. É sócio do Pencil Blue Studio e Ponto Zero, podendo assim viver e falar do que gosta: quadrinhos, cinema, séries de TV e literatura.

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